Verônica Moreira: ‘Ao Deus-dará: Ecos de uma era perdida’
Verônica MoreiraImagem gerada por IA do Bing – 29 de novembro de 2024 às 11:23 AM
Soltaram as feras. Eis que chega a nova era, onde os omissos se calam, engolem gole a gole a inverdade, sem voz, mas com olhos que desviam.
Feras famintas, de golpes e sede, não pelo bem de todos, mas pelo banquete que os espera em suas mesas fartas, no prazer egoísta, no churrasco que arde na sua própria brasa.
E eu, na dor de ter de aceitar o pecado, prisioneiro deste fado, silencio-me perante a força, a injustiça, o sistema.
Não sem voz, mas sem talvez… Falo ou me calo? Seria o meu grito apenas combustível para o ódio?
Cansaço… É isso, o peso que recai sobre os ombros, a palavra certa. Decepção, calamidade, o sistema que se alimenta da corrupção.
Para os grandes, nada importa a fome dos pequenos. É o que vejo – e o que eu daria para não ter visto.
Lamento profundamente por aqueles que se dedicam, os que dão de si com verdade, sem saber que são peões usados, peças descartáveis.
Ah, vida! Oh, céus! Haverá ainda esperança? Vivem perdidos, abandonados ao acaso…
Ao Deus-dará? Sim… porque é Deus quem dá. E ainda bem que temos a Deus para nos dar.
Idealizado em 2015, na gravidez de Gabriela Alcofra, intérprete-criadora e dramaturga do espetáculo, Sede nasce de um incômodo real vivido a partir do conflito de uma maternidade e postura de gênero idealizadas por padrões sociais midiáticos versus a experiência prática
Idealizado em 2015, na gravidez de Gabriela Alcofra, intérprete-criadora e dramaturga do espetáculo, Sede nasce de um incômodo real vivido a partir do conflito de uma maternidade e postura de gênero idealizadas por padrões sociais midiáticos versus a experiência prática.
Com direção de Leonardo Birche e direção musical de Daniel Conti, o espetáculo de dança-teatro aborda, portanto, o puerpério como eixo dramatúrgico para pesquisar relações entre corpo, palavra e gesto, a partir de questões sociais mobilizadoras, tais como a perspectiva de gênero, o casamento e a maternidade real. A temporada acontece de 22 a 25 de abril, com sessões às 20h e às 23h pelo Youtube.
“Em um caminho intermediário entre a realidade e ficção, Sede mergulha na solidão, no confinamento, na sobrecarga de tarefas e nas questões culturais de ser mulher, fazendo disso seu material poético e estético”, conta Gabriela.
Com o advento da pandemia de COVID-19, que isolou o mundo em seus ambientes privados como forma de conter o avanço da doença, o espetáculo se amplifica nos ecos do ser humano confinado e sobrecarregado, seus encontros e reencontros consigo, as dores e as delícias de se descobrir vivo.
O projeto
Assolada pela sobrecarga de funções, pelo questionamento de sua identidade, pelas incertezas de seu futuro profissional como intérprete e pela solidão advinda das suas multitarefas enquanto mãe e artista, seu puerpério tornou-se fruto de muitas questões individuais e políticas.
Essas questões mobilizaram Gabriela Alcofra a começar a investigar poeticamente na linguagem da dança-teatro esse novo universo inaugurado pela maternidade, tendo a parceria do diretor teatral Leonardo Birche, na condução e direção da pesquisa, assim como do músico Daniel Conti, na concepção da ambientação sonora do espetáculo.
Sua inquietação a levou também para o aprofundamento de suas questões através do doutorado em Artes da Cena na UNICAMP, debruçada sobre a questão central “como ser mãe e ser artista na dança contemporânea em São Paulo?”, orientada pela profª Drª Julia Ziviani Vitiello e defendido em 2019. Na ocasião da cerimônia de defesa, a pesquisa prática em andamento, até então intitulada de Bunker, foi apresentada para a banca avaliadora.
O processo de pesquisa foi sendo retroalimentado através da teoria e prática, utilizando referências bibliográficas propostas pelo Programa de Pós-Graduação, assim como realizando diários de campo de auto-observação e análise de seu próprio corpo e de seu filho em desenvolvimento e realizando entrevistas com mulheres puérperas artistas em São Paulo.
Paralelamente a isso, junto com o diretor Leonardo Birche, Gabriela Alcofra foi investigando o caminho inter-linguagem da dança-teatro, mesclando referências específicas da área do teatro, como a metodologia proposta por Stanislaviski, com seu histórico de referências na dança, como, por exemplo, a investigação expressiva através do estudo do movimento, como proposto por Klauss Vianna.
Nesse processo, Gabriela Alcofra escreveu uma dramaturgia como forma de organizar a composição coreográfica a partir dos sentidos e paisagens estéticas levantadas. Nessa dramaturgia, corpo, palavra, sensação e som são trabalhados mutuamente, de forma democrática, não-hierárquica. Foram levantadas cinco cenas divididas a partir das situações vividas por essa mulher: a relação com seu próprio corpo, a relação com seu filho, o casamento, a relação com a imagem social, a descoberta das emoções.
O título anterior do trabalho, “Bunker” se deu a partir da sensação de confinamento gerada pela maternidade e suas angústias advindas das amarras psicossociais impostas às mulheres nesse novo papel. Curiosamente, o isolamento social causado pela pandemia de COVID-19 em 2020 no mundo trouxe à tona esta circunstância vivida por muitas mulheres no puerpério, fazendo uma associação metafórica com a maternidade e os efeitos do isolamento social. Sendo assim, os temas anteriormente abordados na pesquisa tornam-se ainda mais pertinentes e com mais possibilidades de leituras semânticas, trabalhando assuntos como: a incerteza do futuro, a imobilidade social, a sobreposição de tarefas e papéis sociais circunscritos em um mesmo espaço físico, o universo familiar e profissional convivendo em um mesmo espaço-tempo.
Em 2020, os artistas criadores decidem mudar o nome de “Bunker” para “Água-me” (título provisório para o ensaio aberto realizado em janeiro de 2020) e então escolhem o título SEDE, por acreditarem que o nome Bunker tem um peso histórico marcante e possivelmente crítico se pensado atualmente. O título SEDE faz menção ao texto falado por Gabriela Alcofra em uma das cenas, onde constantemente pede por um copo d´água para matar a sede. A sede é uma constante no puerpério, pois a amamentação provoca fisiologicamente essa necessidade. A sede pode ser vista também como a falta de auxílio, de conforto, de suporte, de cuidados essenciais. Além disso, referencia a água (também presente na dramaturgia do texto) que vai além da água potável, expandindo a sensação para os líquidos do corpo: lubrificações, sangue, útero, menstruação, leite.
Sede pretende aprofundar e finalizar a pesquisa iniciada em Bunker, repensando caminhos estéticos adaptados para o formato audiovisual online, debruçando-se sobre os eixos já levantados, tais como: solidão, reconhecimento do corpo da mulher em transformação, a imagem de um corpo mulher-mãe para a sociedade, relação com o espaço confinado da casa, loucura gerada pela exaustão, exercício de um amor em construção.
Nessa pesquisa, o audiovisual é considerado como mais uma camada da dramaturgia, pensando os planos de câmera como aliados da composição coreográfica, tendo na vídeodança a inspiração para uma linguagem híbrida borrando as fronteiras entre a dança, o cinema e o teatro. Para isso, a cineasta e também mãe, Marilia Scharlach, contribuiu com sua visão na direção de fotografia e câmera.
Durante a gravação, microfones direcionais e de ambiência captaram os sons do movimento da intérprete, gerando estímulos que, processados eletronicamente e somados ao canto da intérprete-criadora, ruídos e ambiências pré-gravados, desenham as paisagens sonoras vivas que compõem a trilha sonora original, a cargo de Daniel Conti.
Dessa maneira, Sede se envereda pelos caminhos poéticos da metáfora para propor uma cena para além da literalidade, fundada em paisagens sonoras e visuais, atuando em um lugar fronteiriço entre o gesto, a palavra e a imagem, que ampliam as camadas de sentido do espectador.
Ficha técnica
Interpretação e dramaturgia: Gabriela Alcofra
Direção: Leonardo Birche
Trilha sonora e captação direta: Daniel Conti
Direção de fotografia e câmera: Marilia Scharlach
Edição e montagem: Gabriela Alcofra e Daniel Conti