Decidida, sem retorno possível, a fuga da quinta, a mãe do miúdo guardou o plano em silêncio, como faz a guardiã dos avisos ignorados quando decide abrigar-se no espaço diário do pé.
Mas, na quinta, o silêncio também é vigiado.
Os filhos da quinta, zeladores da ordem e da aparência, já haviam disposto cães fardados junto da casa. Não vigiavam apenas corpos, vigiavam intenções. Queriam saber se a mãe conhecia o segredo enterrado: a morte do pai do miúdo.
E havia algo mais.
O nome do miúdo começara a circular entre eles. Não como futuro, mas como destino já decidido, uma oferenda para a próxima comunhão dos ímpios. Na quinta, até a inocência tinha função.
O miúdo, porém, crescia alheio ao desenho do seu próprio fim. Nada lhe faltava, excepto a imagem do pai, cuja ausência o consumia em silêncio.
Um dia, perguntou pelo pai.
A mãe não respondeu. Desviou o olhar e saiu. Ainda não era o momento da verdade, porque ali, a verdade podia matar antes da fuga.
Sem compreender, o miúdo voltou ao seu livro de Cândido, como se a quinta ainda pudesse ser explicada pelo otimismo de Pangloss.
Foi então que a mãe entendeu: já não havia tempo a perder.
Começou, cuidadosamente, a observar a quinta, como quem aprende o mapa de uma prisão: os turnos dos guardas, os passos dos informantes, o comportamento dos cães, a eletricidade dos arames.
A quinta, que antes era abrigo, tornara-se ameaça.
Durante dias, nada aconteceu. Mas, por dentro, tudo já tinha começado a ruir.
Até que veio a festa.
Era uma celebração dos filhos da quinta, do luxo construído sobre trabalho invisível. Montou-se uma tenda gigante. Um grande alpendre foi erguido no centro e, ao fundo, um altar com um cálice rachado. Um ritual sem fé, mas cheio de poder.
Vieram ímpios de outras quintas. E, com eles, as suas prostitutas. Não vieram os lavradores, nem os garimpeiros, nem aqueles que sustentavam tudo.
O miúdo foi designado para o incenso.
A mãe, para o portão.
E, nesse instante, ela soube: não era apenas um ritual, era uma preparação. O miúdo já não era apenas uma criança. Era escolha.
Tocou no portão.
O portão respondeu com um choque elétrico. Não era apenas uma barreira, era prisão.
A cerimónia começou sob a direção de um monge cego e mudo. E ninguém pareceu estranhar. Na quinta, já ninguém esperava ver ou ouvir a verdade.
O miúdo saiu da tenda com o incensário.
E então, tudo se desfez.
Um convidado embriagado deixou cair o cálice. Aquele que pousava no fundo do altar. E pior, rachado. O som seco abriu o caos.
Gritos. Empurrões. Acusações.
Os cães fardados foram soltos. Os informantes da bófia dispersaram-se. Por instantes, a ordem na tenda falhou.
A mãe não correu de imediato.
Esperou pelo momento exato da brecha.
Depois chamou o filho com um gesto urgente.
Ele veio sem hesitar, trazendo consigo O Cândido e A Rebelião das Massas nas mãos.
Segurou-o com força.
E fugiram.
Não pelo portão, mas por uma falha, um espaço esquecido pela vigilância.
O alarme soou, mas já era tarde.
Dentro da tenda, a confusão ainda engolia tudo.
E, pela terceira vez, a quinta falhou.
Do lado de fora, não havia liberdade.
Havia poeira, fome e um mundo sustentado por aquilo que a quinta escondia.
A mãe chorou, não por medo, mas por confirmação.
A quinta não era um lugar.
Era um sistema.
E estava em todo lado.
Os primeiros dias foram duros. O miúdo pediu para voltar.
Ela recusou:
– Melhor livre a procura de lixo na rua ao luxo na gaiola de ouro.
E não voltou.
Quando lhe perguntavam o nome, respondia:
– Chamem-me prostituta ressuscitada.
Porque, naquele mundo, sobreviver já era resistência.
E ela já não pretendia apenas sobreviver.
Pretendia voltar, não para viver na quinta,
mas para a fazer cair.
Passou a ocupar um lugar tão insignificante quanto contraditório na ordem social: visível, mas não reconhecida; usada e depois descartada; tolerada no discurso, mas rejeitada na práctica.
Passou a denunciar aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e pune quem neles cai.
Ninguém ousou questionar como ela chegou ali. A pergunta que sempre surge é outra: por que não sai da prostituição?
Como se sair fosse apenas uma questão de vontade, e não de oportunidade. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a injustiça não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram.
No fundo, ela não pede absolvição aos ímpios. Reclama a humanidade que há de fazer cair a quinta.
Surendra Nagaraju – Elanaagaimaqgem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69c41597-cb78-83e9-8454-88a6cccda504
Taciturn men are disdained by all – they’re always mum; that is their fall. Shrouded in silence, seized by diffidence, they languish in despondence.
Verbosity is a virtue in the eyes of this banal world, but poor taciturn men are mute and cold; So, to many, they’re off-putting a hundredfold.
Many a tight-lipped man may be going through the torture of a thousand knife-thrusts every minute, or tasting the havoc of raging storms within, each moment.
Poor taciturn men are misinterpreted souls, for they are closed books, subterranean dens, unerupted volcanoes in oceans. They need to be assessed with utmost caution; compassion is what cures their desperation.
Ramos António AmineImagem criada por IA do Grok – 08 de fevereiro de 2026, às 10:19 PM – https://grok.com/imagine/post/1d467e89-a828-4fc3-992e-b7cc41062106
Comungam no altar da hipocrisia os que atiram pedras à luz do dia e à noite compram o mesmo corpo que fingem não desejar.
Comungam os que escrevem leis com a tinta do cálice alheio e as cumprem de olhos baixos e consciência muda.
Comungam os que nunca tocaram a ferida mas repartem o pão feito do sangue que não lhes pertence.
Comungam os que se ajoelham não para pedir perdão mas para rir com os lábios ainda húmidos de vinho.
Comungam os que chamam a prostituta de terreno baldio e nunca perguntam quem a devastou primeiro.
Comungam os que veem o mal passar e desviam o olhar como quem observa a chuva sem sentir frio.
Comungam os que oferecem um cálice amargo e exigem silêncio enquanto ela bebe.
Comungam os que cavam fossos e depois condenam quem cai neles.
Comungam os que nunca perguntaram como ela chegou ali mas perguntam todos os dias por que ainda não saiu.
Comungam os que acreditam que sair é vontade e não oportunidade.
Comungam os que creem que a fome escolhe e que a miséria não empurra.
Comungam os que chamam prostituição de causa e nunca de consequência de um mundo que aprendeu a vender tudo, até o que não tem preço.
Comungam os que aplaudem a exclusão e depois fogem dos seus efeitos.
Comungam os que exigem pureza de quem nunca teve escolha.
Comungam os que pagam para olhar e chamam isso de normalidade.
Comungam os que dizem que a prostituta está morta sem perceber que o cadáver é outro: a sensibilidade coletiva, a ética moldada à conveniência.
Comungam os que pensam que ela pede salvação quando o que pede é humanidade.
Comungam os que a sacrificam todos os dias para que a sociedade continue limpa por fora.
Comungam os que normalizam a dor para vender facilidade.
Comungam os que acreditam que o altar da hipocrisia é eterno.
Mas não sabem que ele não cai pela força, nem pelo fogo, nem pelo grito
basta retirar-lhe o silêncio cúmplice que o alimenta.
Incendiar o instante, a premissa para uma existência insubmissa: que resgate o rumor das pedras!
Colher o silêncio cultivado pelo pó, nestas rotas sinuosas de criatividade; varrer ruínas com ventos de liberdade e desatar a infância contida em cada nó.