Olhos de sol – Poema de Evani Rocha

Uma presença intensa transforma a solidão em um jardim cheio de vida e estações marcantes

Evani Rocha
Evani Rocha
Uma foto de close-up, de baixo ângulo, de uma mulher sorridente com cabelos castanhos longos e ondulados. Ela está voltada para o céu azul, segurando as bordas de um chapéu de palha com as duas mãos. Uma flor de girassol amarela vibrante está em primeiro plano, que ela segura na mão esquerda. O sol brilha intensamente no canto superior direito.
https://chatgpt.com/c/6ad220a4-b54c-83e9-ac11-db951f8c536b

Ele chegou como todos chegam,

Imprevisível: os olhos feitos raios de sol

E braços, como asas de águia!

Sobre as mãos sedosas uma rosa,

Cheia de promessas e desafios…

Ele chegou para ficar: plantou os dias e as noites.

Derramou as estações!

Trouxe inverno rigoroso…

Mas no verão, veio feito fogo.

Espalhou seu calor sobre os prados

E verteu toda a água que guardara em suas nuvens…

Cresceu a relva e frutificou!

O mel escorria em minha face, desbravando caminhos…

Meu corpo se acostumou ao seu – tão protetor…

Você imergiu como sementes na terra fofa:

Germinou em meu jardim e floresceu.

Nos meandros de minhas veias, corria o seu sangue escarlate.

Manso, quando passeava nos cômodos e na varanda,

Sempre uma poltrona para o horizonte…

Seus olhos de sol dançavam sobre as margaridas e hortênsias azuis.

Era o tempo!

Às vezes silencioso como uma noite fria,

Ou farfalhante, como as borboletas no verão!

Chegou quando tudo terminava.

Quando as palavras eram vazias e vãs.

Veio sem bagagem, fez morada.

Fincou raízes na aridez da solidão!

Evani Rocha

Voltar

Facebook




Uma estrela a menos

Najwa Sadi Juma:
Quando o desejo alcança a estrela, mas encontra o vazio

Najwa Sadi Juma
Najwa Sadi Juma
https://gemini.google.com/app/75b6ba02c8702e8c?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Uma estrela deslumbra você,
distante,
brilhando.
Você estende a mão para alcançá-la…
e, de repente,
ela repousa na sua palma.

Você lê as linhas de sua mão.
Sua luz começa a se apagar,
até transformar-se em fumaça,
escorrendo por entre seus dedos.

O céu tem uma estrela a menos.
Sua mão segura mais vazio.

Najwa Sadi Juma

Voltar

Facebook




Uma fuga austera

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi: quando a sombra se liberta do peso do ‘Eu’

Mustafa Al-Sumaidi
Mustafa Al-Sumaidi
https://gemini.google.com/app/337e03d1c73683f8?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Minha sombra me deixa na calçada
e caminha sozinha
pela rua em frente a mim.

Ela escapa de dentro de mim,
dos recônditos ocultos da alma,
onde o não dito encontra uma voz
sobre minha língua.

Ela não precisa de sapatos,
nem de guarda-chuva,
nem de cigarros…
Nunca verifica os bolsos
como eu faço.

Atravessa no sinal vermelho,
indiferente aos carros que passam
ou às vitrines das lojas.

Cumprimenta as lojas
pelas quais já não ouso passar,
e sorri para os transeuntes
que conheço pelo nome.

Quando vê um rosto desconhecido
vestindo exatamente as roupas que eu visto,
desaparece atrás
de uma placa abandonada.

Retoma sua caminhada
ao perceber que
não fui eu quem a viu,
como se para sempre
estivesse fugindo do meu corpo,
cujos passos se tornaram pesados,
e somente ela conseguisse libertar-se
de um nome chamado “Eu”.

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi

Voltar

Facebook




Inimaginável

Evani Rocha: entre sombras, silêncios e a inquietante fronteira entre o que se perdeu e o que ainda pode existir

Evani Rocha
Evani Rocha

Entre os conflitos e a ilusão, 

Você é a estrela ao amanhecer…

A triste ausência nas mãos

E a incerteza posta sobre a mesa

Entre os lençóis amassados, 

O cheiro de jasmim que se esvai com o vento,

As borboletas que não vieram

E a escassez da vida e do tempo…

Entre a saudade e as lágrimas, 

A gota fria sobre o cenho

A palavra presa entre os lábios,

 E o toque na pele encrespada…

Você é a chuva torrencial lavando o telhado, 

E a poeira que se assenta no caminho…

O riso e a dor da partida

O nó desfeito do nosso laço.

 Entre as pedras e os espinhos, 

Você é a flor que não desabrochou, 

As marcas de sol sobre face…

O respingo de luz que restou!

Você é o silêncio inquietante das calçadas 

E o vazio que não quis partir…

Você é meu tudo

 E um pouco mais do inimaginável…

As sombras de um passado esquecido 

E um futuro ansioso,

 Que não deixa minh‘alma dormir!

Evani Rocha

Voltar

Facebook




Aprender a estar sós sem nos sentirmos sós

No artigo de Osíris Lópes Valdéz, o silêncio deixa de ser solidão e se torna o reencontro conosco mesmos

Osiris Lópes Valdéz
https://gemini.google.com/app/8cdb0e14ca6f95e2?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Querido e gentil leitor:

Às vezes confundimos estar sozinhos com nos sentirmos sozinhos. Talvez porque tenhamos aprendido a medir nossa companhia pela quantidade de pessoas que temos ao nosso redor, pelas mensagens que chegam ao telefone, pelas conversas que mantemos ou pela presença de alguém do outro lado da cama. E, no entanto, existe uma solidão que dói e outra que pode nos ensinar a viver de uma maneira completamente diferente.

Estar sozinhos nem sempre significa que nos falte alguém. Às vezes significa que, por um momento, deixamos de buscar fora aquilo que precisamos aprender a encontrar dentro de nós mesmos.

Reconheço que nem sempre é fácil. Quando desaparece o ruído dos outros, também surgem nossos próprios pensamentos. E nem sempre queremos ouvi-los. Há silêncios que nos incomodam porque nos obrigam a fazer perguntas que conseguimos evitar enquanto estávamos ocupados ou acompanhados.

Mas talvez seja aí que começa uma das formas mais profundas de nos conhecermos.

Quando aprendemos a estar sozinhos, começamos a descobrir do que realmente gostamos quando ninguém está dando opiniões. O que queremos quando não precisamos atender às expectativas de outra pessoa. Quais coisas fazemos por desejo e quais fazemos simplesmente por medo de decepcionar, de ficar para trás ou de nos sentirmos diferentes.

A solidão também pode nos ensinar a desfrutar da nossa própria companhia. Sair para caminhar sem precisar de uma conversa. Sentar em um café e observar o mundo. Ler um livro durante horas. Ouvir música. Viajar. Cozinhar para nós mesmos. Pensar. Escrever. Até mesmo passar uma tarde sem fazer absolutamente nada e descobrir que o silêncio também pode ser uma forma de descanso.

Há uma liberdade especial em não precisar que alguém esteja permanentemente ao nosso lado para sentir que nossa vida tem sentido.

Isso não significa que deixemos de precisar dos outros. Eu não acredito em uma vida completamente isolada. Acredito na companhia escolhida.

Com o tempo, também compreendi que existe uma enorme diferença entre escolher a solidão e nos sentirmos abandonados por ela. Uma pode se transformar em refúgio; a outra pode se transformar em uma ferida. Por isso, não se trata de romantizar a ausência nem de dizer que não precisamos de ninguém. Trata-se de aprender a reconhecer quando buscamos companhia porque queremos compartilhar nossa vida e quando a buscamos apenas porque temos medo de ficar a sós conosco mesmos.

E então surge uma pergunta que talvez todos devêssemos nos fazer alguma vez: sabemos realmente quem somos quando não há ninguém nos observando?

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais necessárias.

Porque, quando deixamos de ter medo da nossa própria companhia, algo muda. Já não aceitamos qualquer presença simplesmente para evitar o vazio. Já não confundimos estar acompanhados com ser amados. Já não sentimos que devemos permanecer em lugares que nos fazem mal apenas porque temos medo de partir.

Estar sozinhos conosco mesmos é uma oportunidade de nos ouvirmos sem interrupções e de descobrir que dentro de nós existe uma pessoa que talvez tivéssemos passado tempo demais sem ir visitar.

E talvez, querido leitor, aprender a estar sozinhos não seja aprender a viver sem os outros. Seja aprender a viver conosco mesmos o suficiente para que a presença dos outros seja uma escolha, e não uma necessidade.

Porque, quando conseguimos desfrutar da nossa própria companhia, deixamos de ter medo do silêncio.

E então compreendemos algo belo: estar sozinhos nem sempre significa estar sem companhia. Às vezes é, simplesmente, ter aprendido a fazer companhia a nós mesmos.

Osiris Lópes Valdéz

Voltar

Facebook




Três telefones em pensão para senhoras

Em um corredor silencioso, três telefones são o único elo com o mundo e com a esperança do reencontro

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem colorida mostra seis mulheres idosas num pátio de pedra. No centro, uma mulher de cabelo cacheado e casaco azul caminha. À esquerda, três mulheres sentadas, uma com andador. À direita, uma mulher numa cadeira de rodas e duas numa banca. O fundo tem paredes de tijolo e telefones pretos vintage.
https://gemini.google.com/share/ce684b871fe3?skid=7137bd75-4825-436d-aafc-b508f6398adf

Três telefones presos à mesma parede do corredor daquela pensão para senhoras. Enquanto aqueles três objetos permaneciam grudados, sempre no mesmo lugar, as hóspedes, ansiosas, olhavam para o vazio na esperança de que a próxima chamada fosse para elas. Nesse silêncio, até o zumbido de uma mosca poderia ser confundido com o toque do telefone.         

          Alice, uma das hóspedes mais antigas, imaginava estar em um hospício. Já Ruth, que há dois dias havia sido levada para lá, não tinha a menor dúvida. Mas outras opiniões saíam da boca daquelas mulheres, a maioria já passada dos 70, cinco ou seis beirando os 90, sem contar Clara, que insistia em permanecer sobre a terra, apesar dos 104 completados em janeiro. 

          Não eram maltratadas fisicamente, pois o tempo já se encarregara desse papel. Todavia, dor maior era aquela que todas sentiam: o abandono. É verdade que algumas recebiam visitas de parentes, que, aos poucos ou de modo mais ligeiro, iam escasseando até que restassem apenas datas especiais, quando muito. 

          — Isto é uma prisão!

          — Dona Laura, aqui estão os seus remédios. A senhora precisa tomá-los.

          A velha, olhos arregalados, torceu os lábios e, contrariada, obedeceu. Bebeu meio copo d’água e, em seguida, abriu bem a boca para mostrar que havia engolido tudo. A funcionária, assim que deu as costas para levar medicamentos para outras hóspedes, esboçou um sorriso com as palavras de Laura para a hóspede ao lado, Solange.

          — Essa aí é uma peste!

          Solange, que há tempos não falava e mal se movia, se esforçou ao máximo para concordar. Maldito AVC, que a limitou ao quase imperceptível movimento do indicador da mão esquerda. Por conta de toda essa limitação, era comum colocá-la em frente à televisão, onde era obrigada a assistir à mesma programação todos os dias. Ela sonhava em ter o controle do aparelho em suas mãos para poder trocar de canal. Melhor, desligaria aquela caixa falante e cheia de imagens distorcidas. Pobre mulher, sonhava com os dias em que possuía controle sobre suas próprias ações. 

          Hora para isso, hora para aquilo, hora que não era hora. Ora, vê se pode? Onde já se viu ter hora para tudo e para nada? Isso lá é vida? Até planta tem hora de abrir e fechar as flores. Ali, naquele lugar, não havia botões. Todas as pétalas já teriam caído há tempos. Há tempos! Quiçá não foram arrancadas por mãos truculentas. 

          Hora do pátio. A osteoporose comia solta naquele ambiente. Melhor tomar um solzinho. Era hora de relembrar tempos de praia, idas ao clube ou banhos de cachoeira. Por ali, no entanto, quando muito, um borrifador. 

          Aquelas velhas, algumas sentadas, outras em pé, praticamente todas com a face virada para cima tentando sentir os raios solares invadirem a alma. Momento em que se simulavam vivas. Eis que o telefone tocou. Todas se olharam, sorrisos estampados em lábios murchos. 

          Elizabeth, no auge dos 73, simulou uma corrida até o corredor. Não demorou, voltou para o pátio, onde ouviu várias vozes perguntando para quem era a ligação. A mulher, olhos tristonhos, voz quase muda, finalmente respondeu.

          — Era engano.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Eu amo falar dos seus lábios

O poeta Humberto Napoleón Varela Robalino costura versos sensoriais sobre o amor, a doçura dos lábios e os silêncios da solidão

Humberto Napoleón Varela Robalino
Humberto Napoleón Varela Robalino
https://chatgpt.com/c/6a945d7f-f684-83e9-9e79-1e2da535f873

Eu amo falar dos seus lábios
nos caracóis
que levam o mar para todo lado
na solidão
que deixa o silêncio escapar por um instante
no silêncio escapou
que toca ternamente a solidão.

Eu amo falar dos seus lábios
nas mangas
que estremecem sua nudez açucarada
na solidão
o bicar silencioso dos pássaros
que transborda a suprema solidão.

Eu amo falar dos seus lábios
em alegria.
que transpira verões no inverno
na solidão
das estrelas quando olham
no silêncio
da pele mais próxima das cinzas.

LÁBIOS COMO UMA PORTA PARA A BRISA ENTRAR.
LÁBIOS DOCES
LÁBIOS DE POLPA

Humberto Napoleón Varela Robalino

Voltar

Facebook