Inimaginável

Evani Rocha: entre sombras, silêncios e a inquietante fronteira entre o que se perdeu e o que ainda pode existir

Evani Rocha
Evani Rocha

Entre os conflitos e a ilusão, 

Você é a estrela ao amanhecer…

A triste ausência nas mãos

E a incerteza posta sobre a mesa

Entre os lençóis amassados, 

O cheiro de jasmim que se esvai com o vento,

As borboletas que não vieram

E a escassez da vida e do tempo…

Entre a saudade e as lágrimas, 

A gota fria sobre o cenho

A palavra presa entre os lábios,

 E o toque na pele encrespada…

Você é a chuva torrencial lavando o telhado, 

E a poeira que se assenta no caminho…

O riso e a dor da partida

O nó desfeito do nosso laço.

 Entre as pedras e os espinhos, 

Você é a flor que não desabrochou, 

As marcas de sol sobre face…

O respingo de luz que restou!

Você é o silêncio inquietante das calçadas 

E o vazio que não quis partir…

Você é meu tudo

 E um pouco mais do inimaginável…

As sombras de um passado esquecido 

E um futuro ansioso,

 Que não deixa minh‘alma dormir!

Evani Rocha

Voltar

Facebook




Aprender a estar sós sem nos sentirmos sós

No artigo de Osíris Lópes Valdéz, o silêncio deixa de ser solidão e se torna o reencontro conosco mesmos

Osiris Lópes Valdéz
https://gemini.google.com/app/8cdb0e14ca6f95e2?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Querido e gentil leitor:

Às vezes confundimos estar sozinhos com nos sentirmos sozinhos. Talvez porque tenhamos aprendido a medir nossa companhia pela quantidade de pessoas que temos ao nosso redor, pelas mensagens que chegam ao telefone, pelas conversas que mantemos ou pela presença de alguém do outro lado da cama. E, no entanto, existe uma solidão que dói e outra que pode nos ensinar a viver de uma maneira completamente diferente.

Estar sozinhos nem sempre significa que nos falte alguém. Às vezes significa que, por um momento, deixamos de buscar fora aquilo que precisamos aprender a encontrar dentro de nós mesmos.

Reconheço que nem sempre é fácil. Quando desaparece o ruído dos outros, também surgem nossos próprios pensamentos. E nem sempre queremos ouvi-los. Há silêncios que nos incomodam porque nos obrigam a fazer perguntas que conseguimos evitar enquanto estávamos ocupados ou acompanhados.

Mas talvez seja aí que começa uma das formas mais profundas de nos conhecermos.

Quando aprendemos a estar sozinhos, começamos a descobrir do que realmente gostamos quando ninguém está dando opiniões. O que queremos quando não precisamos atender às expectativas de outra pessoa. Quais coisas fazemos por desejo e quais fazemos simplesmente por medo de decepcionar, de ficar para trás ou de nos sentirmos diferentes.

A solidão também pode nos ensinar a desfrutar da nossa própria companhia. Sair para caminhar sem precisar de uma conversa. Sentar em um café e observar o mundo. Ler um livro durante horas. Ouvir música. Viajar. Cozinhar para nós mesmos. Pensar. Escrever. Até mesmo passar uma tarde sem fazer absolutamente nada e descobrir que o silêncio também pode ser uma forma de descanso.

Há uma liberdade especial em não precisar que alguém esteja permanentemente ao nosso lado para sentir que nossa vida tem sentido.

Isso não significa que deixemos de precisar dos outros. Eu não acredito em uma vida completamente isolada. Acredito na companhia escolhida.

Com o tempo, também compreendi que existe uma enorme diferença entre escolher a solidão e nos sentirmos abandonados por ela. Uma pode se transformar em refúgio; a outra pode se transformar em uma ferida. Por isso, não se trata de romantizar a ausência nem de dizer que não precisamos de ninguém. Trata-se de aprender a reconhecer quando buscamos companhia porque queremos compartilhar nossa vida e quando a buscamos apenas porque temos medo de ficar a sós conosco mesmos.

E então surge uma pergunta que talvez todos devêssemos nos fazer alguma vez: sabemos realmente quem somos quando não há ninguém nos observando?

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais necessárias.

Porque, quando deixamos de ter medo da nossa própria companhia, algo muda. Já não aceitamos qualquer presença simplesmente para evitar o vazio. Já não confundimos estar acompanhados com ser amados. Já não sentimos que devemos permanecer em lugares que nos fazem mal apenas porque temos medo de partir.

Estar sozinhos conosco mesmos é uma oportunidade de nos ouvirmos sem interrupções e de descobrir que dentro de nós existe uma pessoa que talvez tivéssemos passado tempo demais sem ir visitar.

E talvez, querido leitor, aprender a estar sozinhos não seja aprender a viver sem os outros. Seja aprender a viver conosco mesmos o suficiente para que a presença dos outros seja uma escolha, e não uma necessidade.

Porque, quando conseguimos desfrutar da nossa própria companhia, deixamos de ter medo do silêncio.

E então compreendemos algo belo: estar sozinhos nem sempre significa estar sem companhia. Às vezes é, simplesmente, ter aprendido a fazer companhia a nós mesmos.

Osiris Lópes Valdéz

Voltar

Facebook




Três telefones em pensão para senhoras

Em um corredor silencioso, três telefones são o único elo com o mundo e com a esperança do reencontro

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem colorida mostra seis mulheres idosas num pátio de pedra. No centro, uma mulher de cabelo cacheado e casaco azul caminha. À esquerda, três mulheres sentadas, uma com andador. À direita, uma mulher numa cadeira de rodas e duas numa banca. O fundo tem paredes de tijolo e telefones pretos vintage.
https://gemini.google.com/share/ce684b871fe3?skid=7137bd75-4825-436d-aafc-b508f6398adf

Três telefones presos à mesma parede do corredor daquela pensão para senhoras. Enquanto aqueles três objetos permaneciam grudados, sempre no mesmo lugar, as hóspedes, ansiosas, olhavam para o vazio na esperança de que a próxima chamada fosse para elas. Nesse silêncio, até o zumbido de uma mosca poderia ser confundido com o toque do telefone.         

          Alice, uma das hóspedes mais antigas, imaginava estar em um hospício. Já Ruth, que há dois dias havia sido levada para lá, não tinha a menor dúvida. Mas outras opiniões saíam da boca daquelas mulheres, a maioria já passada dos 70, cinco ou seis beirando os 90, sem contar Clara, que insistia em permanecer sobre a terra, apesar dos 104 completados em janeiro. 

          Não eram maltratadas fisicamente, pois o tempo já se encarregara desse papel. Todavia, dor maior era aquela que todas sentiam: o abandono. É verdade que algumas recebiam visitas de parentes, que, aos poucos ou de modo mais ligeiro, iam escasseando até que restassem apenas datas especiais, quando muito. 

          — Isto é uma prisão!

          — Dona Laura, aqui estão os seus remédios. A senhora precisa tomá-los.

          A velha, olhos arregalados, torceu os lábios e, contrariada, obedeceu. Bebeu meio copo d’água e, em seguida, abriu bem a boca para mostrar que havia engolido tudo. A funcionária, assim que deu as costas para levar medicamentos para outras hóspedes, esboçou um sorriso com as palavras de Laura para a hóspede ao lado, Solange.

          — Essa aí é uma peste!

          Solange, que há tempos não falava e mal se movia, se esforçou ao máximo para concordar. Maldito AVC, que a limitou ao quase imperceptível movimento do indicador da mão esquerda. Por conta de toda essa limitação, era comum colocá-la em frente à televisão, onde era obrigada a assistir à mesma programação todos os dias. Ela sonhava em ter o controle do aparelho em suas mãos para poder trocar de canal. Melhor, desligaria aquela caixa falante e cheia de imagens distorcidas. Pobre mulher, sonhava com os dias em que possuía controle sobre suas próprias ações. 

          Hora para isso, hora para aquilo, hora que não era hora. Ora, vê se pode? Onde já se viu ter hora para tudo e para nada? Isso lá é vida? Até planta tem hora de abrir e fechar as flores. Ali, naquele lugar, não havia botões. Todas as pétalas já teriam caído há tempos. Há tempos! Quiçá não foram arrancadas por mãos truculentas. 

          Hora do pátio. A osteoporose comia solta naquele ambiente. Melhor tomar um solzinho. Era hora de relembrar tempos de praia, idas ao clube ou banhos de cachoeira. Por ali, no entanto, quando muito, um borrifador. 

          Aquelas velhas, algumas sentadas, outras em pé, praticamente todas com a face virada para cima tentando sentir os raios solares invadirem a alma. Momento em que se simulavam vivas. Eis que o telefone tocou. Todas se olharam, sorrisos estampados em lábios murchos. 

          Elizabeth, no auge dos 73, simulou uma corrida até o corredor. Não demorou, voltou para o pátio, onde ouviu várias vozes perguntando para quem era a ligação. A mulher, olhos tristonhos, voz quase muda, finalmente respondeu.

          — Era engano.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Eu amo falar dos seus lábios

O poeta Humberto Napoleón Varela Robalino costura versos sensoriais sobre o amor, a doçura dos lábios e os silêncios da solidão

Humberto Napoleón Varela Robalino
Humberto Napoleón Varela Robalino
https://chatgpt.com/c/6a945d7f-f684-83e9-9e79-1e2da535f873

Eu amo falar dos seus lábios
nos caracóis
que levam o mar para todo lado
na solidão
que deixa o silêncio escapar por um instante
no silêncio escapou
que toca ternamente a solidão.

Eu amo falar dos seus lábios
nas mangas
que estremecem sua nudez açucarada
na solidão
o bicar silencioso dos pássaros
que transborda a suprema solidão.

Eu amo falar dos seus lábios
em alegria.
que transpira verões no inverno
na solidão
das estrelas quando olham
no silêncio
da pele mais próxima das cinzas.

LÁBIOS COMO UMA PORTA PARA A BRISA ENTRAR.
LÁBIOS DOCES
LÁBIOS DE POLPA

Humberto Napoleón Varela Robalino

Voltar

Facebook




O ébrio

Evani Rocha: Poema ‘O ébrio’

Evani Rocha
Evani Rocha
Fotografia digitalizada mostrando um homem com roupas gastas e sujas sentado no chão de uma rua íngreme de paralelepípedos, em uma vila antiga. Ele está encolhido com a cabeça curvada sobre os braços e joelhos dobrados. Ao seu lado, no chão, há uma garrafa de vidro de bebida alcoólica deitada. Ao fundo, casas históricas de estilo europeu ladeiam a rua e o céu exibe um pôr do sol vibrante em tons intensos de vermelho, laranja e amarelo.
https://chatgpt.com/c/6a6b36ad-5824-83e9-9fdd-c86ad540c6b6

Amanheceu ali na esquina úmida e lodosa.

Tinha na boca um gosto de zinabre.

A pele encrespada e fria

Pelo sereno da madrugada.

Todos já se foram…

Apenas a penumbra permanecia…

Há pouco ele se arrasta pelos becos da cidade morta.

Ainda tenta beber o último gole,

Mas suas mãos trêmulas não suportam o peso do cálice.

No horizonte, o sol quase desponta 

Em meio a um barrado cor de sangue…

É o anúncio de um novo dia!

Permaneceu ali:

Cabisbaixo e embriagado,

Não só pelo álcool, 

Mas pela angústia que lhe açolava o peito.

Nada a lamentar, nem forças para gritar…

O mundo emudeceu!

Sem jeito de ignorar a resignação…

Então, debruçou-se sobre os joelhos,

Vencido pela solidão,

E deixou o tempo dele se encarregar!

Evani Rocha

Voltar

Facebook




Humano

Mario Antonio Rosa: Poema ‘Humano’

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
https://gemini.google.com/app/73456a82871148a4?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

La piel toca, los labios huyen
en un día ecuatorial de cicatrices solitarias
y una hoguera continua se deslumbra en los ojos
en la gran cosecha de calor y árboles quietos

pienso lento

siento dolor, a veces lejanía, campo largo,
extraño la tierra de la lluvia, las cimas grises
que imitan la escala del espejo, voy sanando dormido
con ese amor que aprieta, ese amor de perfiles
que supura la gran noche de su aliento

alta mar y ganas de llorar

no, cerraste los ojos en mi espalda
huiste, luego volver resucitado, echar el corazón,
remar odios, somnolencia, vértigo y luego felicidad
así las cosas en este desierto que cava el cielo
tantas, tantas cosas con su escama de miedo
pero me volveré a desnudar bajo tu sueño, tu imperio corto,
ese abecedario donde las gentes se cobijan

intento estar recién nacido

de pronto he escrito esto en forma de abanico,
pronto es mediodía, todo desaparece, incluso tus huellas,
livianas como arena joven, en corriente ciega,
invadiendo contra nadie, de estrellas bajas, soledad,

una extraña quietud,
de esas que abraza cuando todo se ha perdido.

Mario Antonio Rosa

Voltar

Facebook




Prenúncio

Evani Rocha: Poema ‘Prenúncio’

Evani Rocha
Evani Rocha
Paisagem outonal, com folhas ao vento
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a5e54f2-a010-83e9-bfc6-53d75f5cd919

O vento passou trazendo o adeus.

Havia apenas um perfume no ar

E um burburinho nos arvoredos…

Era o prenúncio do fim!

Não houve pranto,

Nem estardalhaço.

Apenas uma palavra contida,

Que não havia mais sentido…

Somente os olhos tristes,

Perdidos num tempo distante…

Onde hoje é morada da saudade.

Daquelas crianças correndo no terreiro,

Da inocência refletindo nos sorrisos…

O vento passou e trouxe as últimas folhas do outono,

Frágeis e quebradiças…

Como as lembranças.

Como a solidão desta despedida.

Vestida de branco e cabelos em trança…

Acabou, como acabam todas as coisas

Estáveis ou fugidias…

Como acaba tudo que um dia foi real

E hoje é somente ausência.

Evani Rocha

Voltar