A janela

José Antonio Torres: ‘A janela’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
Imagem criada pela IA da Meta.
28 de maio de 2026 às 11:28h

Sempre que por aqui caminho, te vejo na janela. Ela significa um portal que nos separa, em vez de nos conectar.
Me frustro, pois você não percebe a minha presença.
Meu coração grita por ti.
Sou completamente ignorado.
Enquanto te admiro, encantado por tua beleza, você sequer percebe a minha sombra.
Sigo o meu caminho, triste e desolado. Tudo eu faria por um simples olhar.
O mundo eu daria por um sorriso teu.
Mas nada, nada acontece.
Apenas a atmosfera gélida do vazio da tua frieza.
Estou ausente do teu horizonte.
Não entendo por que a imensidão do meu amor não consegue chamar a tua atenção.
Olhe para mim! Me perceba! Eu imploro! Silêncio e abstração são o que recebo em resposta.
Sigo na esperança de, um dia, o teu olhar se desviar e me encontrar.
E assim, extasiado, ver um sorriso teu dirigido a mim.
Nesse dia, sentirei todo o esplendor da vida me envolver.
Só então, exatamente nesse momento,
me sentirei vivo e a vida fará sentido.

José Antonio Torres

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Mi sombra

Humberto Napoleón Varela Robalino

Poema ‘Mi sombra’

Humberto Napoleón Varela Robalino
Humberto Napoleón Varela Robalino
Fotografía de Karinita Michel Fuel Varela, nieta de Humberto Napoleón, en Café Tortoni
Fotografía de Karinita Michel Fuel Varela, nieta de Humberto Napoleón, en Café Tortoni

Forma de gato mi sombra

mejor gatuna sombra

maullidos carcajadas

sombra girasol

gatuna girasol

como todo girasol te vas a donde el sol abriga.

Cargosa sombra

no te cansas de pisarme los talones

te me pegas como chicle

como saliva en los resecos labios

pero si hasta te bebes mis mejores vinos.

Un día te fallarán las 7 vidas

debajo de mis cenizas

humedad tu último maullido.

Humberto Napoleón Varela Robalino

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Claroescuro

Clayton Alexandre Zocarato: Poema ‘Claroescuro’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Grok
Imagem criada por IA do Grok

Ardente

é a língua secreta da sombra

que lambe o avesso das horas,

um estalo vermelho no silêncio,

um grito que se esconde atrás das paredes do peito

como um desejo com medo do próprio nome.

Ardente é a memória que ainda transpira,

aquele ponto cego entre o inconsciente e o quase

onde Eros afia as unhas

e fica esperando,

numa espécie de coxia da alma,

por um lapso,

por uma brecha,

por um tropeço emocional

onde possa nascer.

Ardente é o eco do que nunca se tocou,

mas insiste em pulsar

como se o corpo fosse um sonho

e o sonho fosse um corpo

— ambos pedindo tradução.

Freud chamaria isso de retorno do recalcado;

eu chamo de incêndio suave.

Uma combustão lenta,

quase elegante,

um fogo que não devora,

mas murmura.

Um fogo que olha para você

pelos corredores internos

e diz, sem dizer:

eu ainda estou aqui.”

Ardente é a culpa com perfume de absolvição,

a fantasia que se veste de metáfora,

o desejo que se analisa no divã do espelho

enquanto troca piscadelas com o Id

e acenos discretos com o Superego.

O Ego, coitado,

só observa, suando.

Porque o ardente não é moral —

é estrutural.

É um sussurro pré-conceito.

Um querer que não pediu licença.

É o fogo que nasce onde a palavra falha,

onde a boca esquece,

onde o corpo inventa um novo idioma

feito de cutucões simbólicos,

de vibrações silenciosas,

de códigos que só quem já ardeu entende.

Ardente

é o labirinto sem Minotauro,

onde o monstro é você mesmo,

mas com máscara de neblina

e perfume de quase-amor.

É um corredor psíquico

onde os sonhos caminham nus

e as lembranças vestem roupões de fumaça.

Ardente é o desejo adulto

que ainda dança com fantasmas antigos,

como quem tece no escuro

um bordado de sombras

para cobrir cicatrizes que não doem mais,

mas insistem em brilhar.

É o toque que não acontece,

mas acontece dentro.

Uma fricção metafórica,

um roçar de ideias,

um erotismo conceitual,

um convite hermético

que faz o coração arregalar a pupila.

Na psicanálise, isso seria pulsão deslocada;

no meu vocabulário, é labareda discreta.

Ardente é a chama que filosofa.

Que pergunta:

“E se o desejo for só um mapa do que falta?”

Que responde:

“Então eu sou geografia inacabada.”

E que conclui:

“Ótimo!

Só o que é inacabado pode continuar crescendo.”

No fundo, ardente é uma palavra esfomeada,

querendo devorar significados

como quem beija com sede,

mas sem encostar os lábios.

É um simbolismo que arrepia.

Um afeto que se esconde atrás do sofá da psique

e pula em você quando você menos espera.

Ardente é o sonho acordado

que se debate na sua garganta

pedindo para virar poema,

mas sempre escapa,

sempre escapa,

— até o dia em que você se cansa

e o escreve assim mesmo,

críptico,

surreal,

pulsional,

quase indecente,

mas absolutamente verdadeiro.

Porque ardente é isso:

essa fronteira vermelha

entre a metáfora e o corpo,

entre o que se sente e o que se admite,

entre o que se deseja e o que se confessa.

E se no fim das contas,

a palavra arde porque quer ser pele,

e a pele arde porque quer ser palavra,

então eu digo sem culpa:

Ardente sou eu.

Ardente é você.

Ardente é tudo o que a gente não ousou viver —

mas viveu por dentro.

Clayton Alexandre Zocarato

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Sou sombra

Irene da Rocha: Poema ‘Sou sombra’

Irene da Rocha
Irene da Rocha
“Um retrato da eternidade, que avança sem hesitar, mesmo na dança do tempo, sempre hei de continuar”
Imagem gerada por IA do Bing –  8 de novembro de 2024
às 10:58 AM

Sou sombra do que era; nem a memória resistiu,
pedaços do meu passado que o tempo de novo esculpiu.

As marcas no rosto contam histórias que o ontem teceu,
no meu coração, sem mágoas, que o tempo não desfez nem esqueceu.

Sou o reflexo de ontens que nas sombras se dividiram,
mas também o desconhecido, por caminhos que sempre surgiram.

Um eco de possibilidades que o futuro há de transformar,
sou a passagem dos dias, que lentamente volta a girar.

No espelho, a verdade se esconde, o momento se dilui,
um rosto que segue em frente, ousando ser o que sempre fui.

Um retrato da eternidade, que avança sem hesitar,
mesmo na dança do tempo, sempre hei de continuar.

Irene da Rocha

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O voo da dente-de-leão

Paulo Siuves: ‘O voo da flor dente-de-leão’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
O medo se desfazendo, feito a flor dente-de-leão
O medo se desfazendo, feito a flor dente-de-leão
Imagem gerada pela IA do Bing – 15 de setembro de 2024 às 7:24 PM

O medo nasce como uma sombra discreta, deslizando pelos cantos onde a luz mal chega. É um visitante silencioso, que se instala sem ser convidado e cria raízes profundas nos recantos que julgávamos seguros. Às vezes, ele murmura, uma voz baixa e insidiosa que nos faz hesitar; outras vezes, ele explode em gritos surdamente ensurdecedores, fazendo o peito apertar e a mente girar em círculos confusos. O medo é persistente, como uma erva daninha que insiste em crescer em solo seco, desafiando a aridez ao seu redor.

 Mas o medo não floresce como as flores que esperamos. Ele é frágil, uma flor delicada como o dente de leão. Surge inesperadamente, em brechas do concreto, em rachaduras do asfalto, em terrenos inóspitos onde nada deveria crescer. Sua resiliência é um paradoxo; ele se espalha sem pedir licença, mostrando uma força que na verdade é sua fragilidade. O medo se esconde nas fendas do cotidiano, mas quando nos aproximamos e o observamos de perto, percebemos que ele, assim como o dente de leão, é uma ilusão de força.

 Imagine, então, o medo como um mestre disfarçado, que nos ensina sobre os limites que autoimpomos e a coragem que precisamos descobrir. Ele nos desafia a encarar nossos receios mais profundos e a confrontar as sombras que projetamos em nós mesmos. É nesse confronto que revelamos nossa verdadeira essência, aquela capaz de transformar a sombra em luz.

Quando uma mulher se separa de seu parceiro, ela se vê cercada por um turbilhão de medos. O medo da opinião da sociedade, o receio de não conseguir pagar as contas, o temor de que seus filhos não a respeitem, o pavor das críticas dos parentes. Cada medo se torna uma muralha que tenta restringi-la, mas cada um também é uma oportunidade para que ela cresça e se liberte.

Na primeira brisa de coragem, o medo começa a se desfazer. Um sopro suave o leva embora, espalhando seus vilanos pelo vento, longe, para nunca mais retornar. O medo, antes colossal e opressor, se reduz a nada mais do que fragmentos leves, flutuando até desaparecer. O que resta é um caule vazio, um vestígio de uma força que nunca foi real, mas apenas uma construção ilusória.

Enfrentando  o medo, descobrimos que ele não é um monstro invencível, mas sim um espelho que reflete nossas inseguranças e limitações. Libertar-se do medo é como soltar um dente de leão ao vento: um ato simples, porém poderoso, que permite que novas possibilidades se espalhem. E, ao nos libertarmos do medo, nos tornamos mais inteiros e livres, capazes de crescer em terrenos antes inóspitos.

O dente de leão, com sua beleza efêmera e fragilidade aparente, nos lembra que, às vezes, a verdadeira força está na capacidade de transformar o medo em liberdade. E, ao soprar o medo para longe, encontramos não apenas a coragem de enfrentar nossos desafios, mas também a capacidade de nos reinventar e florescer, mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Paulo Siuves

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Por aonde andei?

Evani Rocha: Poema ‘Por aonde andei?

Evani Rocha
Evani Rocha
Paisagem da Chapada dos Guimarães - MT. Foto por Evani Rocha
Paisagem da Chapada dos Guimarães – MT – Foto por Evani Rocha

Por aonde andei naqueles tristes dias?

Porque não vi sequer a minha sombra,

Perdeu-se de meus olhos a luz

E de minha boca, as palavras…

Onde foi que deixei-me?

Em um casebre qualquer,

A perambular pelas trilhas,

A sonhar deitada sobre um lençol de estrelas?

Por aonde estive que não o vi passar?

 Por certo, carregava o mundo em suas mãos,

Ou então, o mundo escondia-o de mim.

Evani Rocha

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Coqueiro solitário

Ceiça Rocha Cruz: Poema ‘Coqueiro solitário’

Ceiça Rocha Cruz
Ceiça Rocha Cruz
Nas calmas tardes de estio ao rumor da brisa fria às margens do rio, um coqueiro sorri, majestoso"
“Nas calmas tardes de estio ao rumor da brisa fria às margens do rio, um coqueiro sorri, majestoso”
Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer

Nas calmas tardes de estio

ao rumor da brisa fria

às margens do rio,

um coqueiro sorri majestoso.

Na sombra, 

o balanço da rede.

Na areia branca,

sonhos que o amor assistiu

nos versos 

da minha/da tua canção.

Sopra o vento,

baila no tempo em lentidão.

Folhas que se entrelaçam

e nos trazem lembranças,

nas tardes sombrias

onde canta o sabiá…

Nas sombras da vida,

espreita o deslizar das águas

e o ir-e-vir de barcos.

E, num véu de areia,

o sol se esconde,

a nuvem passa…

Nas manhãs de inverno

o coqueiro balança ao vento,

às vezes chora,

açoitado pelo tempo,

maltratado pelo acaso.

Nas tempestades,

o silêncio impera.

Ouve-se o murmúrio das ondas

fragmentadas nas dunas, no cais.

E a ventania, a retorcer suas palhas

sussurrantes,

que balançam e tremem o velho coqueiro,

que, contudo, não teme, enverga, mas não cai,

ao furor dos solavancos dos ventos

da morte e da solidão.

Ceiça Rocha Cruz

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