15 segundos de inconsciência

Milton Gaspar Domingos: Conto ’15 segundos de inconsciência’

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Fazia já seis minutos desde que o motor de 16 cavalos começara a rugir, e dois minutos desde que deixara os  seus aposentos. Os cinco ocupantes já sentiam o gosto da mandioca, o gosto da ginguba, o gosto da ginguenga, o gosto de tudo o que a fazenda lhes poderia oferecer. Umblina sempre pensava num jeito mais artístico de confeccionar a muteta. Clemente almejava bijir a kizaka do passado fim-de-semana -, leve como a erva de batata, saborosa como só ela conseguia fazer: “você é o máximo!” pensou alto. 

– Quê? – inquiriu a mulher, que estava no pendura. 

– Hum?!, dando-se conta de que havia soltado o seu pensamento para o público, fez-se de bobo. 

– “O que foi que disseste?

– Ah… deixa pra lá! As crianças ficam muito animadas quando a gente vai à fazenda, né?!

– Elas não são as únicas, pois não?

– Pois é!

Nem a forte e fresca brisa conseguia silenciar o entusiasmo da rapaziada. A alegria perfumava, especialmente, o banco de trás do Mitsubishi L 200. Na estrada nacional 140, já haviam contornado a rotunda “EU AMO MALANJE”, saindo da rua do Só Delegado e percorrido já um bom bocado. A escola de condução – à esquerda e, mais à diante, a Casa Branca – à direita, já se entristeciam de lhes terem deixado apenas com o frio da manhã e reclamavam dos seus direitos à socialização.

O carro branco trespassava o ar como a espada de um samurai e cortava a brisa com uma sutileza de serpente. O desvio para o Kambaxi pedia aflitivamente por socorro, pois o silêncio e a névoa o asfixiavam sem quase o deixar respirar.  A carrinha deslizou suave e confiantemente para a esquerda, levando grande alegria para as veias que escoavam a seiva de Kambaxi para o coração das Pedras. 30 segundos foi o tempo necessário para um monstro verde e enferrujado exigir o respeito que lhe cabia em seu território. Sem nem sequer um pavio que denunciasse a sua presença na faixa contrária, pois na sua havia vários buracos exibindo uma vaidade maliciosa, mas compreensível para quem já os conhecia bem.

Quando Clemente se confrontou com a monstruosidade à sua frente, era tarde demais. Tudo o que ele conseguiu, foi evitar beijar o velho monstro pela boca, mas lhe deu beijo na matama esquerda com a sua bochecha esquerda e o L 200 entregou as suas partes mais baixas ao ar a meio aos capins, numa baixeira, sacudindo de alegria a névoa que envolvia o lugar. Após um assustador estrondo, fez-se um silêncio ensurdecedor, embora o rádio continuasse a soltar as vozes das Gingas do Maculusso:

Canta, não chora

Que eu ainda voltarei

Oh canta, não chora

Que eu ainda voltarei

Aqui no mundo existe a má-língua

Ai meu amor que mal é que eu fiz

Kudizanga, kudizanga

Ngolo yamiye

Kudizanga, kudizanga

Ngolo yamiye

Ey ah, wolo dinanza mukonda ngi wadyama

Si nga kukwatela ki nga kubana jimbangala

A patrulha, que vinha em bisga na mesma direção de onde saía o camião velho, ostentando toda a sua virilidade e lucifericidade, não ignorou o infortúnio. 

Os para militares desceram com uma intrepidez de arrepiar o corpo. Parecia já terem sido informados do acidente, parecia já terem visualizado o espaço e treinado a coreografia perfeita.

Deitado no chão, de bruços, Clemente não se conseguia mexer, mas com a chegada da polícia, ouvia ao longe vozes que pareciam circunloquiar. Ficou assim durante 15 segundos. Assim que se apercebeu do que estava a acontecer, fingiu estar apagado, pois temia pela sua vida, uma vez que  sentira apalpadelas nos bolsos e o seu esvaziamento  e ouvira os visitantes num escrutínio: “Vê no porta-luvas, nos bolsos da madame!” Berrou o alguém a partir da cabine. “Tem Multicaixa Xpress?!” preguntou o mesmo homem. “Rápido, rápido, despachem-se!” ordenou-os.

Em 1 único minuto terminaram a vistoria e, zás, foram-se embora.

Já consciente, Clemente ouve o acelerar dos bongós, abre o olho direito e inclina-se um pouquinho para vigiar e, levanta-se e vai depressa socorrer a família, que ainda se encontrava inertes no carro capotado. Sem mesmo tocar no carro, a mulher e dois de seus filhos se despertam, tontos, semi inconscientes. O marido ajudou Umblina, e juntos ajudaram a descendência a se livrarem dos sintos de segurança. A mãe abraçou a mais nova de casa e o pai estava com os dois rapazes.

Umblina procurou pelo tablet, mas o vazio lhe fazia caretas. Vendo isto, o marido contextualizou-a:

  • Não adianta eles levaram tudo!
  • Eles? Eles quem?
  • Vamos. Falamos depois.

Um starlet vermelho, que também ía a Kambaxi, parou, mesmo sem um pedido de ajuda. Depois de o motorista ser informado da situação, Clemente pôs a família no carro e foram para o Hospital regional.

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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Clarões amorosos

Rita Odeh: Pensamentos ‘Clarões amorosos’

Rita Odeh
Rita Odeh
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1.
Quando juraste tornar-te a minha voz e o meu eco,
Por que é que andorinhas voaram do meu peito e o horizonte se expandiu?!
​2.
​Uma mulher basta?
= Tu és todas as mulheres numa só, por isso bastas.
​3.
O amor é como a vida, como a morte; só acontece uma vez.
​4.
Timing Amoroso
​Que horas são agora?
​São nove e… amo-te.
​5.
Espantoso! A seta que atravessou o meu coração não o fez sangrar; antes, encheu-o de amor!
​6.
Terás chegado no momento em que os meus olhos se pintaram de kohl à tua vista,
Ou estavas lá antes mesmo de o sonho nascer?!
​7.
Tudo começa como uma semente e depois cresce, exceto o nosso sonho. Chegou com o tamanho do Sol.
​8.
Somos iguais: como se fôssemos duas metades do mesmo pão.
​9.
Vou arrancar-te do teu inferno para o meu paraíso, onde não há ninguém além de: eu, tu e uma profecia.
​10.
Abraça-me, como um poeta abraça o verso final contra o seu peito.
​11.
Eles viram-me como uma mulher bonita e passaram. Tu viste-me como vinho e… embriagaste-te.
​13.
Assim como a primavera chega e percebemos que todas as estações eram apenas um prelúdio para a sua vinda, o homem do sonho chegou, e percebi que tudo o que vivi na vida era apenas um prelúdio para ele.
​14.
Maquilho os meus olhos com kohl para que as outras mulheres te possam ver neles em todo o teu esplendor, e me invejem por ti.
​15.
Por princípio, detesto a posse. Mas quando me chamas: “Minha Rita”, oh, como eu adoro!
​16.
As nossas almas não se uniram por acaso. Isto é uma questão vinda do meu Senhor.
​17.
Eras como a última peça do puzzle; quando te encontrei, tornei-me completa.
​18.
O mais estranho neste amor é que pediste a minha mão a Deus, e os anjos foram testemunhas deste pacto!
​19.
Chamam por ti e eu viro-me. Não serás tu… o meu próprio eu?!
​20.
A diferença entre o meu amado e todos os outros homens é como a diferença entre um ser humano comum e um profeta.

Rita Odeh

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Hoje eu sonhei com você

Paulo Siuves: Poema ‘Hoje eu sonhei com você’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem gerada pela IA do Bing – 10 de março de 2026, às 12:34

Hoje eu sonhei com você.

E você jamais saberá disso,

a menos que tropece neste poema.

Sonhei — e foi bom — de um jeito simples,
como quem encontra abrigo numa varanda

enquanto a tarde desmancha.

Acordei sorrindo, sem pressa,

com a sensação de que o mundo, por um instante,

tinha se alinhado ao que eu queria sentir.

Não importa o que fizemos.
Nem o que dissemos.
Amor, nós não fizemos.

Ficamos vestidos, inteiros, leves,
como duas brasas que preferem o calor contido
ao incêndio.
Rimos. Flertamos.
E havia ali algo maior
do que o cotidiano comporta,
um brilho que não cabe
na claridade comum dos dias.
Foi bonito. Tão bonito
que quase doeu ao despertar.

Mas eu não vou te contar.
Não direi que sonhei,
que gostei,
que por segundos desejei
que tudo tivesse sido real.

Guardo o sonho comigo,
como se fosse uma garrafa de água fresca
que não se divide,
porque minha sede
não acabou no sonho.

Paulo Siuves

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Pipa vadia

Paulo Siuves: Poema ‘Pipa vadia’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
IA criada com auxílio do ChatGPT1º de março de 2026,
às 23:07

O sol no meio dessa imensidão azul,
a ausência de nuvens,
uma pipa;
ligação de um pivete à imensidão azul.

Uma linha,
um menino,
um sonho,
sonho de estar no lugar da pipa
e esquecer que existem horas,
horas de parar de brincar,
horas de ir pra esquina da avenida
esperar o vermelho do semáforo…

No céu não existe semáforo.

Dá-se um puxão na linha
e magicamente eu vou com ela pra esquerda,
levo a pipa pra direita
ou pra baixo!

Subo sobre ela até perto do sol,
vou cortar a linha do sol.

“- Êta, solão!”

De repente – zás.

“- Um intruso no meu limite!?”

A pipa sobe incontrolável
como a ira do menino sentado à beira do caminho,
sonhando em ser pipa,
conhecer os sete céus
e os sete mares.

“- Por onde você anda querida pipa?”

“- Com certeza nas mãos de outro menino que sonha ser a pipa, aquela pipa vadia!!”

Coração apertado,
latinha de linha na mão,
menino suado,
cabeça confusa,
desilusão…

Chegou a hora,
essas horas,
que mundo!

“- Esquina, ai vou eu, contar os meus carros, cobrar dessa gente grande por passar na minha rua…”

Paulo Siuves

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Sonho ou paixão?

Eliana Hoenhe Pereira: Poema ‘Sonho ou paixão?’

Eliana Hoenhe Pereira
Eliana Hoenhe Pereira
Imagem criada por IA do Grok - 02 de fevereiro de 2026, às 10:02 PM - https://grok.com/imagine/post/f65b3207-47e3-4c1e-8ad8-61c93a948db8
Imagem criada por IA do Grok – 02 de fevereiro de 2026, às 10:02 PM – https://grok.com/imagine/post/f65b3207-47e3-4c1e-8ad8-61c93a948db8

Sonho ou paixão, 

só sei que mexe com o meu coração. 

Revestir-me-ei de desejos

e cobrir-te-ei com os meus beijos.

Navegar pelo luar

à luz das estrelas douradas 

a brilhar ;

ouvir palavras adocicadas

como quem tem a certeza dos passos.

Amar-te-ei em ninho de felicidade. 

Quero adormecer ao teu lado,

perder-me no teu abraço. 

Um querer de alma 

que aquece e floresce. 

Eliana Hoenhe Pereira

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O Sonho Louco dos Sensatos

Quando empatia e coragem decidem mudar um mundo

Há livros que chegam até nós como leitura.

Outros chegam como encontro.

O sonho louco dos sensatos pertence, sem dúvida, ao segundo grupo.

Uma obra que fala de empatia, resiliência, amadurecimento e descobertas, daquelas que não acontecem de repente, mas se constroem no caminhar.

Fernanda Sanson Durand, paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, hoje radicada em Santos, tem 49 anos, é advogada e servidora pública da Advocacia-Geral da União.

Fernanda Sanson Durand
Fernanda Sanson Durand

Casada, mãe, corinthiana assumida, “maloqueira e sofredora, graças a Deus”, como ela mesma brinca, encontra na escrita de ficção um espaço de reflexão profunda, com forte viés psicológico e filosófico, alimentado também por seus estudos de filosofia clássica, cultivados como hobby.

A semente da história nasceu de um pensamento aparentemente simples, mas poderoso: se existem tantas crianças sem pais, por que a adoção não poderia ser sustentada por uma rede de apoio verdadeira?

Amigos que ajudam financeiramente, que dividem tarefas, que estendem a mão no cotidiano, desde o cuidado emocional até gestos práticos, como passar uma roupa ou segurar a barra quando o cansaço chega.

Mas essa ideia exige algo essencial: confiança.

A certeza de que essas pessoas não abandonarão o barco no meio da travessia.

É a partir desse ponto que O sonho louco dos sensatos se constrói.

O livro fala de sonhadores e, como todo sonhador que quer mudar o mundo, seus personagens decidem começar mudando ao menos um mundo possível.

Ao longo desse processo difícil, delicado e profundamente humano, as dores, memórias e histórias pessoais vão emergindo aos poucos, “como nhoques subindo na panela de água fervente”: inevitáveis, reveladoras, transformadoras.

A narrativa avança mostrando que amadurecer não é chegar a um destino final, mas aceitar os caminhos, os tropeços e as escolhas feitas em conjunto.

É uma história que acolhe, provoca reflexão e convida o leitor a repensar vínculos, responsabilidades e afetos.

A obra ganha ainda uma camada especial de emoção fora das páginas, quando fui convidada por Fernanda, minha primeira seguidora conhecida pessoalmente, para escrever a apresentação do livro, antes mesmo do prefácio.

Um gesto simbólico e potente, que transformou o lançamento em um momento de profunda gratidão e reconhecimento.

Apresentar uma história tão forte, escrita por alguém que acreditou em mim desde o início, tornou a experiência ainda mais marcante.

O sonho louco dos sensatos é, acima de tudo, um livro sobre pessoas comuns fazendo escolhas extraordinárias.

Um convite delicado, e corajoso, para acreditar que empatia, quando compartilhada, pode sustentar até os sonhos mais ousados.

REDE SOCIAL DA AUTORA

O SONHO LOUCO DOS SENSATOS

SINOPSE

Cinco jovens. Um professor. Um encontro que mudará tudo.

No coração de uma universidade, um grupo improvável se reúne para falar sobre a vida, a humanidade e os dilemas que raramente cabem nas salas de aula.

Entre debates sobre filosofia, ciência e valores atemporais, eles descobrem que o maior desafio não está nas respostas, mas nas perguntas que ousam fazer.

Antonia, Clara, Roberto, Yago e Luigi não sabiam que se tornariam os Sensatos e que, juntos, seriam confrontados com histórias reais capazes de abalar certezas, despertar empatia e transformar a maneira como enxergam a si mesmos e ao mundo.

Com diálogos instigantes, situações comoventes e personagens que poderiam estar na sua vida, O Sonho Louco dos Sensatos é um romance que mistura drama, humor e reflexão, convidando o leitor a desacelerar, olhar para dentro e redescobrir o poder de ser humano.

E você?

O que faria se tivesse nas mãos a chance de mudar, ou salvar, o mundo de alguém?

Assista à resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRAS DA AUTORA

Suicidas
Suicidas

O espelho de José
O espelho de José

O sonho louco dos sensatos
O sonho louco dos sensatos

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Resenhas da colunista Lee Oliveira




Genuíno pensamento

Irene da Rocha: Poema ‘Genuíno pensamento’

Irene da Rocha
Irene da Rocha
Imagem criada por IA do Bing - 05 de junho de 2025, às 00:42 AM
Imagem criada por IA do Bing – 05 de junho de 2025,
às 00:42 AM

Sonhar contigo, mesmo além do oceano,
Imaginar tua pele, quente e morena,
Te ouvir como eco de uma voz serena,
Desejar teus beijos em meu rosto insano.

Respirar ofegante, o coração em declínio,
Seus braços entrelaçados, dúvida e desejo,
Apenas tua presença faz o tempo enlevo,
E transforma o silêncio em ritmo divino.

Aguardo esse instante, sonho e esperança,
Tão vívido, quase utopia que encanta,
Vida segue seu rumo, com esperança,

Mas minha razão insiste em que vale a pena,
Crer nesse amor que o coração revela,
Um sonho verdadeiro, pura e serena.

Irene da Rocha

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