O que é a vida?

Uma viagem poética e profunda sobre o verdadeiro significado de estar vivo

Marli Freitas
Marli Freitas
Uma composição artística e vibrante em formato de colagem com elementos da natureza e espirituais. No primeiro plano à esquerda, uma mulher de perfil, com os olhos fechados e expressão de serenidade, veste uma blusa branca e está rodeada por flores coloridas, incluindo girassóis e uma borboleta. Na parte superior esquerda, vê-se uma paisagem montanhosa ao amanhecer com pássaros a voar. Ao centro e à direita, a imagem transita por cenários místicos: flores brancas em destaque, uma fogueira com chamas em formato de coração, uma cachoeira límpida, uma galáxia espiralada no espaço e mãos estendidas na direcção de um planeta iluminado. Na parte inferior direita, uma rocha exibe um cristal lapidado brilhante com vista para montanhas e vales ao entardecer.
https://gemini.google.com/share/8103ff2bfa79?social_preview=false&skid=3993cab5-f86d-4ede-926a-a6ccf0c00e29

A vida é…

O movimento vestido de magia e poesia,

O desassossego que move a procura,

O sal que valoriza o advento.

A vida é…

O entusiasmo que embeleza o etéreo,

O colorido que matiza a alma de céu,

A infinita novidade de cada revelar em flor.

A vida é…

O fogo em eterna vigília de amor,

O frescor que perfuma o espaço e o tempo,

O delírio que leva à imaginação e nutre o sonho.

A vida é…

A fé que significa o mistério,

O elo que nos une à grandeza do universo,

A essência cristalina de Deus.

Marli F. Freitas

Voltar

Facebook




Vekinha mineirinha virou princesa!

Descubra, com Verônica Moreira, o que acontece quando o jeitinho mineiro de uma menina sonhadora cai para dentro das páginas de um clássico conto de fadas

Verônica Moreira
Verônica Moreira
Capa do livro infantil "Vekinha: A mineirinha que virou princesa", de Verônica Moreira. Ao centro, uma jovem princesa sorridente com vestido cor-de-rosa e coroa dourada, cercada por gnomos de jardim, com um castelo ao fundo.
Imagem criada pelo ChatGPT

Era uma vez…

Na cidade de Caratinga (Minas Gerais), havia uma menina muito bonita e simpática chamada Vekinha, todos a conheciam e sabiam o quanto ela era sonhadora. Chamavam-na de Mineirinha, porque ela tinha o dom de cativar a todos com seu jeitinho mineiro de ser.

Vekinha tinha um sonho lindo: sonhava ser uma princesa bailarina e ter asas cintilantes como de borboletas. Isso, porque ela queria voar muito alto, tão alto quanto pudesse. Ela queria conhecer melhor a cidade onde vivia.

Ela nunca havia subido no topo das montanhas, e havia um lugar que ela adoraria conhecer de perto: o topo da pedra Itaúna.

Sempre ouviu seus irmãos dizerem que era o lugar mais alto da cidade e, lá de cima, dava pra ver todas as belezas da região; a praça das palmeiras, o coreto do jardim, o monumento Menino Maluquinho e até a estátua do cantor caratinguense Agnaldo Timóteo.

Acontece, que Vekinha era muito sonhadora, e isso é o que movia seu coraçãozinho. “Afinal” – pensava ela -, “tudo que eu quiser, eu posso fazer, basta eu acreditar que é possível!”

Vekinha gostava muito de sua amiga Kaká. Elas se divertiam e trocavam livros. Amavam ler histórias de fada e princesas, rainhas e reis, barões e baronesas e todas essas histórias de realeza.

Elas decidiriam ir à biblioteca Municipal de Caratinga e pegar um livro muito interessante que fala de uma princesa que se chama Branca de Neve. A pobre princesa do livro foi vítima de inveja de sua madrasta malvada.

Às meninas decidiram ler o livro para depois compartilhar a história e o que aprenderam. Isso, porque, ao ler uma história, cada pessoa tem uma interpretação daquilo que leu.

Vekinha chegou em casa com o livro na mão e disse para sua mamãe Conceição:  − Mamãe, vou começar a ler este livro da Branca de Neve e os Sete Anões. Vou para o meu quartinho e não quero ser interrompida, tá certo?

A mãe de Vekinha ficou feliz, afinal, a leitura desenvolve a criatividade, a forma argumentativa, melhora nossa comunicação e ainda nos ajuda a compreender muitas coisas.

− Ah, Vekinha! Claro que você pode ficar no seu quanto, vou cuidar para que ninguém a incomode.

No seu quarto, Vekinha começou a ler a história, cheia de acontecimentos curiosos. Ela chegou na parte em que o caçador corre atrás de Branca de Neve na floresta e, de repente, no decorrer da leitura, Vekinha pegou no sono e deixou o livro cair no chão …

O quarto da menina se transformou em um cenário estranho. Havia uma floresta com uma casa bem pequena. Na casa moravam sete anões, sete homenzinhos simpáticos.

Vekinha se levantou da cama e caminhou até a porta da casinha pequena. Quando entrou numa sala muito apertadinha, viu um dos homenzinhos deitado no sofá. Ela se aproximou e percebeu que ele estava bravo. Muito bravo! Tanto, que seu rosto  ficou vermelho, como se fosse soltar fogo pelas ventas.

Vekinha perguntou: − Olá, nobre senhorzinho, poderia me dizer por que você está bravo assim?

O pequeno homem lhe respondeu:

 − Claro que posso! É que acabei de chegar em casa e mais uma vez deu tudo errado! Todos os dias pela manhã, eu subo para escalar a pedra Itaúna e, às vezes, uso cordas para tentar chegar ao topo, mas ao chegar quase lá, fico totalmente frustrado, pois minhas pernas são curtinhas e sempre permaneço a um passo para chegar e as cordas nunca são suficientes Acredito que eu preciso de uma ajudinha.

Vekinha compreendeu e disse para o anão que, dá próxima vez, iria com ele para ajudá-lo.

O anão agradeceu e perguntou o que ela estava fazendo ali.

−  Estou apenas lendo este livro e, de repente, vim parar aqui dentro dessa história! − respondeu, ainda confusa com aquela situação.

Vekinha perguntou:

− Qual é o seu nome?

Ele disse:

− Zangado, menina. E o seu nome?

− Meu nome é VEKINHA, senhor anão

− Seja muitíssimo bem-vinda, menina! Gostei de você!

− Ah, obrigada senhor Zangado, também gostei de conhecê-lo, mas você poderia me dizer como faço pra voltar pra minha casa?

− Pra voltar para a sua casa eu não sei menina, mas você pode passar a noite aqui e me ajudar a escalar a pedra Itaúna amanhã. Se eu conseguir, prometo que a ajudo a voltar para casa.

Vekinha achou melhor não contrariar o anãozinho, porque, afinal, ele já estava zangado.

− Combinado… Eu fico aqui e amanhã bem cedo o ajudo. Vekinha ficou surpresa, pois não imaginava que numa floresta tão grande poderiam alcançar aa pedra Itaúna qu, até então só existia em sua cidade. Será só uma coencidência? Pensou ela…

De repente, Vekinha ouviu um ronco muito alto vindo da varanda da casinha e foi se aproximando para ver o que era. Avistou outro homenzinho, outro anão. Assustada, ela exclamou:

− Outro homenzinho!

Zangado disse a ela que não precisava ter medo, o anão era seu irmão, Soneca, que vivia dormindo por todo lugar, pobrezinho, mal conseguia trabalhar, pois vivia com sono. Vekinha achou melhor não acordá-lo, mas ele deu um pulo como se estivesse fingindo, e questionou:

− Quem é essa menina estranha? De onde veio essa criatura?

Zangado respondeu:

− Calma, Soneca, é só uma amiguinha que acabei de conhecer e que vai se hospedar aqui em casa até amanhã de manhã!

Como zangado era muito bravo, Soneca não o contrariou.

− Tá bom, pode ficar menina, mas não faça barulho, porque eu preciso dormir.

Vekinha saiu de fininho, “pé por pé” e viu uma porta que levava para um corredor. Viu uma cadeira de balanço e nela estava mais um homenzinho. Ela se aproximou, enquanto ele acariciava um gatinho, e perguntou:

− Você gosta de animaizinhos?

O homenzinho, assustado, pulou da cadeira e disse:

− Quem é você?

Vekinha chegou bem perto, acariciou sua barba enorme, e esclareceu:

 − Não se assuste, amiguinho, eu sou hóspede do senhor Zangado, e o vi sentado na cadeira. O senhor parecia tão bonzinho, que deu até vontade de lhe dar um abraço.

Dengoso se derreteu todo e, com às bochechas avermelhadas, disse a Vekinha:

 − Ah, menina! Perdoe esse meu jeito desajeitado. Pode ficar à vontade. Sinta-se em casa. Mas eu posso fazer um pedido?

− Claro que sim, senhor!

− Poderia fazer um cafuné na minha barba?

Vekinha se aproximou novamente e o acariciou com suas mãos de fada.

Dengoso ficou todo empolgado com o jeitinho doce da hóspede e a convidou para tomar um café. Foram à cozinha e, chegando lá, encontraram mais dois anões, que, ao vê-la, deram um salto da mesa e, com olhos arregalados, perguntaram:

− Quem é essa criatura desengonçada?

 Vekinha se chateou, e questionou:

− Desengonçada, eu? Respeitem-me, por favor! Sou apenas uma menina do interior, não precisam me ofender. Desengonçada eu não sou!

Dengoso, tomando as dores da menina, disse aos irmãos:

− Calma gente, essa é a Vekinha, ela veio parar aqui por acaso, mas não tem onde dormir. Podemos hospedá-la esta noite, afinal, lá fora está muito frio, e olhem como ela é frágil, pode pegar um resfriado e morrer!

Os irmãos concordaram, e responderam:

– Então tá bom, mas somente esta noite, mas temos uma condição: você fica, mas vai preparar o jantar…

Vekinha respondeu:

− Eu faço o jantar, não tem problema! 

De repente, o homenzinho soltou um espirro: atchim!

−  Você está gripado ? − perguntou Vekinha. − Quer que eu faça um chá?

O anão respondeu:

− Não precisa de chá, eu me chamo Atchim, e por isso eu espirro assim!

−  Ah, prazer, senhor Atchim!

− O prazer é todo meu, querida! Agora você pode se sentar que eu mesmo irei servir o seu café.

Vekinha se sentou e, percebendo que o outro anão estava muito calado, decidiu perguntar o seu nome:

−  Como você se chama?

O homenzinho respondeu. morrendo de rir:

−  Eu sou o Feliz, e estou muito contente por tê-la aqui na nossa casa. Vou até cantar uma música para alegrá-la:

Vekinha feliz, lá,lá lá lá lá!…

Se quiser podemos dançar!!

Me concede essa dança, princesa?

Vekinha ia se levantar para dançar com seu feliz cavalheiro anão, quando, de repente, ouviu um grito:

− Nem pensem em levantar-se dessa mesa! Não é hora de jantar. Vamos tomar o nosso café, porque precisamos trabalhar bem cedo. E você, mocinha, precisa cozinhar, portanto, tome logo esse café!

− Quem é você, senhor? −  perguntou Vekinha.

− Eu sou o Mestre. Aqui ninguém faz nada sem minha permissão, e eu não dei permissão para você dormir aqui, exceto se você me pedir com muito jeitinho. Aliás, implore!

− Eu não vou implorar! −  disse Vekinha.

− Então, vá embora! – gritou Mestre, bravo.

O outro anão ouvia a conversa e veio do quintal, dizendo:

−  Acalme-se Mestre! Nós não podemos deixar esta menina solta na floresta, pois as feras podem devorá-la, e isso seria muita maldade da nossa parte. Devemos dar abrigo a esta menina, mas somente esta noite!

Todos concordaram, e Vekinha agradeceu o simpático senhor anão, perguntando seu nome.

Ele disse: meu nome é Dunga. Seja muito bem-vinda à nossa casinha, e agora vamos tomar café.

− Certo. E onde está a cafeteira?  − perguntou Vekinha. Porém, quando, olhando para a pia, percebeu que o café foi coado numa meia suja e “chulezenta”, disse imediatamente:

− Eu não vou tomar esse café e nem vocês irão! Vou fazer um café novo, mas antes me arrumem uma agulha e um pano limpinho.

Os anões buscaram agulha, linha e um pano limpo. Vekinha cortou com a tesoura e fez um coador de café, costurou e, finalmente terminando a obra, foi até o fogão, ferveu a água e passou o café no coador novinho que fez para os anões. Eles ficaram muito gratos e, juntos, beberam aquele delicioso café, feito pelas mãos de uma mineira de “mão cheia”.

Vekinha nasceu no interior de Minas Gerais, na cidade que ela amava e que se chamava Caratinga. A cidade era conhecida por ser uma região muito importante para a produção do café, e, por isso, todos amam o café mineiro.

Os anões ficaram tão felizes, que convidaram Vekinha para morar com eles para sempre, mas Vekinha agradeceu dizendo que ama muito sua família e não poderia ficar longe nem um dia mais.

Os anões compreenderam e fizeram de tudo para agradar a menina, afinal, nunca haviam provado um café tão saboroso quanto o café de Vekinha.

A noite veio chegando e, enquanto Vekinha cozinhava um guisado de chuchu com pedacinhos de carne de boi, arroz, feijão preto e um anguzinho à moda mineira, os anões ficaram cheios de água na boca com o cheirinho da comida de Vekinha, que fez todo com muito amor, afinal, os anões a tratavam com muito carinho; inclusive, arrumaram a melhor cama da casa para ela pernoitar.

E chegou o grande momento! Vekinha chamou todos para jantar, deliciando-se com aquele guisado. Depois que estavam todos de barriga cheia, Vekinha leu uma história muito bonita sobre um “Menino Maluquinho”, personagem do livro de Ziraldo Alves Pinto, que foi um grande escritor e cartunista que morou na cidade de Vekinha, na amada Caratinga.

Os sete anões ficaram deslumbrados com a história e queriam ouvir mais histórias, mas Vekinha já estava morrendo de sono. Quando, finalmente, adormeceu no sofá, os anões, com muita dificuldade por serem muito pequenos, levaram-na pra cama e a deitaram, indo cada um pra sua caminha, pois, no dia seguinte, teriam que trabalhar bastante e Vekinha precisava voltar para sua casa.

Os anões, por sua vez, ficaram imaginando como seria essa cidade de Vekinha, sabiam que a culinária era maravilhosa, já que nunca haviam provado uma comida tão saborosa como a dela. Dormiram, sonhando com a possibilidade de um dia poderem conhecer mais dessa cidade maravilhosa.

No dia seguinte, Vekinha acordou cedo e fez novamente o café, mas percebeu que os anões não estavam em casa. Saiu pela floresta, gritando: Mestre! Dunga! Atchim! Soneca! Feliz! Dengoso! Zangado! Cadê vocês todos! Venham tomar café!

Os anões desceram da montanha às pressas e foram ao encontro de Vekinha, tomaram o café e comeram pão de queijo que acabavam de sair do forno, sairam satisfeitos com tamanha gostosura e disseram pra Vekinha  ficar quietinha dentro de casa até o horário do almoço, que eles voltariam para ajudá-la a ir pra casa dela.

Disseram ainda:

− Vekinha, não abra a porta para ninguém, não temos amigos por aqui, mas temos um inimigo, na verdade, uma bruxa muito má que tentou matar a Branca de Neve. Isso foi há muito tempo. Branca de Neve também era nossa hóspede, e igualmente perdida na floresta e a bruxa veio, disfarçada como uma velhinha e deu uma maçã envenenada para ela, de modo que, ao comer a maçã, Branca de Neve entrou em um sono profundo. Todavia, graças a um príncipe que a beijou, o feitiço da bruxa foi desfeito e a Branca de Neve se casou com o príncipe e foi feliz para sempre!

Portanto, VEKINHA, como a Branca de Neve foi morar no reino com o príncipe, nós iremos adotar você como nossa princesa!

Vekinha se sentiu muito emocionada, de forma que às lágrimas de felicidade começaram a escorrer por sua face. Os anões a abraçaram e eles se alegraram juntos. Vekinha, então, disse para os anões que não se preocupassem, pois ela nem gostava de maçã; ela amava comer  era amoras e ficaria atenta caso alguém quisesse lhe oferecer algo para comer.

Os anões foram até a floresta e fizeram uma coroa para Vekinha com folhas de amoras. A coroa ficou linda e Vekinha ficou muito feliz por ter sido coroada como Princesa do Reino da Floresta e protetora do meio-ambiente e  das riquezas culturais de sua Minas Gerais.

Os sete anões voltaram ao trabalho e Vekinha resolveu deitar e dormir um pouco. Adormeceu rapidamente ouvindo o cantar dos passarinhos na janelinha do quarto dos anões. De repente, ouviu um grito: Vekinha!!!

− Acorda menina, você já está atrasada pra ir pra escola, deve ter lido o livro inteiro durante a noite, não é possível!

Vekinha acordou, olhou em volta e não viu mais a casinha na floresta. Percebeu que já estava novamente em casa e que precisava se apressar, pois queria contar pra sua amiga Kaká o que havia acontecido com ela naquela noite. Era como se ela tivesse entrado naquela história.

Feliz com o que aconteceu, Vekinha indagou: “será que fui mesmo coroada e agora sou uma princesa?” Ao sair às pressas, Vekinha tomou uma xícara de café na cozinha e se despediu da mãe,  com a mochila e o livro na mão.

A mãe perguntou:

− Conseguiu ler o livro todo, Vekinha?

− Não mamãe, eu não li o livro todo, mas pude viver uma grande aventura com o pouco que li, mas depois te conto tudo! Bença, mamãe. Tô indo pra escola; ah, se encontrar uma coroa com folhas de amoras, a senhora guarda pra mim com muito carinho. Até mais, mamãe. Até mais, amiguinhos! 

Verônica Moreira

Voltar

Facebook




Uma estrela a menos

Najwa Sadi Juma:
Quando o desejo alcança a estrela, mas encontra o vazio

Najwa Sadi Juma
Najwa Sadi Juma
https://gemini.google.com/app/75b6ba02c8702e8c?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Uma estrela deslumbra você,
distante,
brilhando.
Você estende a mão para alcançá-la…
e, de repente,
ela repousa na sua palma.

Você lê as linhas de sua mão.
Sua luz começa a se apagar,
até transformar-se em fumaça,
escorrendo por entre seus dedos.

O céu tem uma estrela a menos.
Sua mão segura mais vazio.

Najwa Sadi Juma

Voltar

Facebook




15 segundos de inconsciência

Milton Gaspar Domingos: Conto ’15 segundos de inconsciência’

Logo da seção O Leitor Participa
Logo da seção O Leitor Participa
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a148e91-da28-83e9-b1e3-fa9387e0a5ac

Fazia já seis minutos desde que o motor de 16 cavalos começara a rugir, e dois minutos desde que deixara os  seus aposentos. Os cinco ocupantes já sentiam o gosto da mandioca, o gosto da ginguba, o gosto da ginguenga, o gosto de tudo o que a fazenda lhes poderia oferecer. Umblina sempre pensava num jeito mais artístico de confeccionar a muteta. Clemente almejava bijir a kizaka do passado fim-de-semana -, leve como a erva de batata, saborosa como só ela conseguia fazer: “você é o máximo!” pensou alto. 

– Quê? – inquiriu a mulher, que estava no pendura. 

– Hum?!, dando-se conta de que havia soltado o seu pensamento para o público, fez-se de bobo. 

– “O que foi que disseste?

– Ah… deixa pra lá! As crianças ficam muito animadas quando a gente vai à fazenda, né?!

– Elas não são as únicas, pois não?

– Pois é!

Nem a forte e fresca brisa conseguia silenciar o entusiasmo da rapaziada. A alegria perfumava, especialmente, o banco de trás do Mitsubishi L 200. Na estrada nacional 140, já haviam contornado a rotunda “EU AMO MALANJE”, saindo da rua do Só Delegado e percorrido já um bom bocado. A escola de condução – à esquerda e, mais à diante, a Casa Branca – à direita, já se entristeciam de lhes terem deixado apenas com o frio da manhã e reclamavam dos seus direitos à socialização.

O carro branco trespassava o ar como a espada de um samurai e cortava a brisa com uma sutileza de serpente. O desvio para o Kambaxi pedia aflitivamente por socorro, pois o silêncio e a névoa o asfixiavam sem quase o deixar respirar.  A carrinha deslizou suave e confiantemente para a esquerda, levando grande alegria para as veias que escoavam a seiva de Kambaxi para o coração das Pedras. 30 segundos foi o tempo necessário para um monstro verde e enferrujado exigir o respeito que lhe cabia em seu território. Sem nem sequer um pavio que denunciasse a sua presença na faixa contrária, pois na sua havia vários buracos exibindo uma vaidade maliciosa, mas compreensível para quem já os conhecia bem.

Quando Clemente se confrontou com a monstruosidade à sua frente, era tarde demais. Tudo o que ele conseguiu, foi evitar beijar o velho monstro pela boca, mas lhe deu beijo na matama esquerda com a sua bochecha esquerda e o L 200 entregou as suas partes mais baixas ao ar a meio aos capins, numa baixeira, sacudindo de alegria a névoa que envolvia o lugar. Após um assustador estrondo, fez-se um silêncio ensurdecedor, embora o rádio continuasse a soltar as vozes das Gingas do Maculusso:

Canta, não chora

Que eu ainda voltarei

Oh canta, não chora

Que eu ainda voltarei

Aqui no mundo existe a má-língua

Ai meu amor que mal é que eu fiz

Kudizanga, kudizanga

Ngolo yamiye

Kudizanga, kudizanga

Ngolo yamiye

Ey ah, wolo dinanza mukonda ngi wadyama

Si nga kukwatela ki nga kubana jimbangala

A patrulha, que vinha em bisga na mesma direção de onde saía o camião velho, ostentando toda a sua virilidade e lucifericidade, não ignorou o infortúnio. 

Os para militares desceram com uma intrepidez de arrepiar o corpo. Parecia já terem sido informados do acidente, parecia já terem visualizado o espaço e treinado a coreografia perfeita.

Deitado no chão, de bruços, Clemente não se conseguia mexer, mas com a chegada da polícia, ouvia ao longe vozes que pareciam circunloquiar. Ficou assim durante 15 segundos. Assim que se apercebeu do que estava a acontecer, fingiu estar apagado, pois temia pela sua vida, uma vez que  sentira apalpadelas nos bolsos e o seu esvaziamento  e ouvira os visitantes num escrutínio: “Vê no porta-luvas, nos bolsos da madame!” Berrou o alguém a partir da cabine. “Tem Multicaixa Xpress?!” preguntou o mesmo homem. “Rápido, rápido, despachem-se!” ordenou-os.

Em 1 único minuto terminaram a vistoria e, zás, foram-se embora.

Já consciente, Clemente ouve o acelerar dos bongós, abre o olho direito e inclina-se um pouquinho para vigiar e, levanta-se e vai depressa socorrer a família, que ainda se encontrava inertes no carro capotado. Sem mesmo tocar no carro, a mulher e dois de seus filhos se despertam, tontos, semi inconscientes. O marido ajudou Umblina, e juntos ajudaram a descendência a se livrarem dos sintos de segurança. A mãe abraçou a mais nova de casa e o pai estava com os dois rapazes.

Umblina procurou pelo tablet, mas o vazio lhe fazia caretas. Vendo isto, o marido contextualizou-a:

  • Não adianta eles levaram tudo!
  • Eles? Eles quem?
  • Vamos. Falamos depois.

Um starlet vermelho, que também ía a Kambaxi, parou, mesmo sem um pedido de ajuda. Depois de o motorista ser informado da situação, Clemente pôs a família no carro e foram para o Hospital regional.

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

Voltar

Facebook




Clarões amorosos

Rita Odeh: Pensamentos ‘Clarões amorosos’

Rita Odeh
Rita Odeh
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69dfaacf-a5cc-83e9-ad61-88bdaa91a20c

1.
Quando juraste tornar-te a minha voz e o meu eco,
Por que é que andorinhas voaram do meu peito e o horizonte se expandiu?!
​2.
​Uma mulher basta?
= Tu és todas as mulheres numa só, por isso bastas.
​3.
O amor é como a vida, como a morte; só acontece uma vez.
​4.
Timing Amoroso
​Que horas são agora?
​São nove e… amo-te.
​5.
Espantoso! A seta que atravessou o meu coração não o fez sangrar; antes, encheu-o de amor!
​6.
Terás chegado no momento em que os meus olhos se pintaram de kohl à tua vista,
Ou estavas lá antes mesmo de o sonho nascer?!
​7.
Tudo começa como uma semente e depois cresce, exceto o nosso sonho. Chegou com o tamanho do Sol.
​8.
Somos iguais: como se fôssemos duas metades do mesmo pão.
​9.
Vou arrancar-te do teu inferno para o meu paraíso, onde não há ninguém além de: eu, tu e uma profecia.
​10.
Abraça-me, como um poeta abraça o verso final contra o seu peito.
​11.
Eles viram-me como uma mulher bonita e passaram. Tu viste-me como vinho e… embriagaste-te.
​13.
Assim como a primavera chega e percebemos que todas as estações eram apenas um prelúdio para a sua vinda, o homem do sonho chegou, e percebi que tudo o que vivi na vida era apenas um prelúdio para ele.
​14.
Maquilho os meus olhos com kohl para que as outras mulheres te possam ver neles em todo o teu esplendor, e me invejem por ti.
​15.
Por princípio, detesto a posse. Mas quando me chamas: “Minha Rita”, oh, como eu adoro!
​16.
As nossas almas não se uniram por acaso. Isto é uma questão vinda do meu Senhor.
​17.
Eras como a última peça do puzzle; quando te encontrei, tornei-me completa.
​18.
O mais estranho neste amor é que pediste a minha mão a Deus, e os anjos foram testemunhas deste pacto!
​19.
Chamam por ti e eu viro-me. Não serás tu… o meu próprio eu?!
​20.
A diferença entre o meu amado e todos os outros homens é como a diferença entre um ser humano comum e um profeta.

Rita Odeh

Voltar

Facebook




Hoje eu sonhei com você

Paulo Siuves: Poema ‘Hoje eu sonhei com você’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem gerada pela IA do Bing – 10 de março de 2026, às 12:34

Hoje eu sonhei com você.

E você jamais saberá disso,

a menos que tropece neste poema.

Sonhei — e foi bom — de um jeito simples,
como quem encontra abrigo numa varanda

enquanto a tarde desmancha.

Acordei sorrindo, sem pressa,

com a sensação de que o mundo, por um instante,

tinha se alinhado ao que eu queria sentir.

Não importa o que fizemos.
Nem o que dissemos.
Amor, nós não fizemos.

Ficamos vestidos, inteiros, leves,
como duas brasas que preferem o calor contido
ao incêndio.
Rimos. Flertamos.
E havia ali algo maior
do que o cotidiano comporta,
um brilho que não cabe
na claridade comum dos dias.
Foi bonito. Tão bonito
que quase doeu ao despertar.

Mas eu não vou te contar.
Não direi que sonhei,
que gostei,
que por segundos desejei
que tudo tivesse sido real.

Guardo o sonho comigo,
como se fosse uma garrafa de água fresca
que não se divide,
porque minha sede
não acabou no sonho.

Paulo Siuves

Voltar

Facebook




Pipa vadia

Paulo Siuves: Poema ‘Pipa vadia’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
IA criada com auxílio do ChatGPT – 1º de março de 2026,
às 23:07

O sol no meio dessa imensidão azul,
a ausência de nuvens,
uma pipa;
ligação de um pivete à imensidão azul.

Uma linha,
um menino,
um sonho,
sonho de estar no lugar da pipa
e esquecer que existem horas,
horas de parar de brincar,
horas de ir pra esquina da avenida
esperar o vermelho do semáforo…

No céu não existe semáforo.

Dá-se um puxão na linha
e magicamente eu vou com ela pra esquerda,
levo a pipa pra direita
ou pra baixo!

Subo sobre ela até perto do sol,
vou cortar a linha do sol.

“- Êta, solão!”

De repente – zás.

“- Um intruso no meu limite!?”

A pipa sobe incontrolável
como a ira do menino sentado à beira do caminho,
sonhando em ser pipa,
conhecer os sete céus
e os sete mares.

“- Por onde você anda querida pipa?”

“- Com certeza nas mãos de outro menino que sonha ser a pipa, aquela pipa vadia!!”

Coração apertado,
latinha de linha na mão,
menino suado,
cabeça confusa,
desilusão…

Chegou a hora,
essas horas,
que mundo!

“- Esquina, ai vou eu, contar os meus carros, cobrar dessa gente grande por passar na minha rua…”

Paulo Siuves

Voltar

Facebook