Entrevista com a artista visual iraquiana Hala Kusiak

“A verdadeira propriedade da arte é tornar-se parte da memória dos outros.” (Dra. Hala Kusiak)

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Entrevista realizada por Ali Sahin Abdul Aziz

Dra. Hala Kusiak
Dra. Hala Kusiak – Foto cedida pela entrevistada

As obras da artista visual e acadêmica iraquiana, Dra. Hala Kusiak, refletem, ao mesmo tempo, orientações filosóficas e intelectuais. É dentro dessas reflexões que nascem suas pinturas, incorporando sua visão e seu desejo de expressar suas ideias por meio da obra de arte — por meio da escolha de suas ferramentas, de suas formas de expressão filosófica e de sua visão sobre a humanidade e as razões de sua existência na Terra. Assim, vemos essas emoções refletidas naturalmente em sua produção artística.

É precisamente isso que nossa entrevistada confirma ao afirmar que “a arte é um diálogo, não uma palestra”, e que a escola surrealista lhe proporciona liberdade para transitar entre a realidade e o inconsciente, enquanto a ideia e a emoção determinam sua própria linguagem visual.

Para lançar luz sobre suas realizações, realizamos esta entrevista com ela, abordando diversos aspectos de sua experiência artística. Eis suas respostas:

Dra. Hala Kusiak
Dra. Hala Kusiak – Foto cedida pela entrevistada

• Em sua exposição “Fingers of Fate” (“Dedos do Destino”), parecia haver uma espécie de investigação criminal artística sobre determinada realidade. A quem se dirigia sua mensagem?

Esta exposição não era dirigida a uma pessoa específica, mas, sobretudo, era um confronto com o próprio ser humano — com aqueles espaços nos quais fazemos nossas escolhas e, depois, atribuímos suas consequências ao destino.

Eu explorava a complicada relação entre aquilo que escolhemos por nós mesmos e aquilo que nos é imposto; entre liberdade e determinismo; e entre o impacto que nossas ações deixam em nossas próprias vidas e nas vidas dos outros.

Portanto, pode-se dizer que a exposição contém algo de uma “investigação artística” sobre a psique humana. Não ofereço respostas prontas; em vez disso, coloco o espectador diante de perguntas que talvez tenha passado muito tempo evitando:

Quanto do que nos aconteceu foi realmente destino? E quanto foi resultado de nosso silêncio, medo, escolhas ou concessões?

Minha mensagem era dirigida ao ser humano, onde quer que ele esteja, porque acredito que a verdadeira arte começa com uma experiência pessoal, mas só alcança seu êxito quando se transforma em uma experiência humana compartilhada.

• “The N of Visual Surrealism” (“O N do Surrealismo Visual”) é uma das descrições marcantes de seu trabalho. As outras escolas de arte visual não conseguiram acolher suas ideias e ambições?

Não considero uma escola artística como um conjunto de limites dentro dos quais devo permanecer. Para mim, uma escola é conhecimento, não uma restrição.

Um crítico pode encontrar surrealismo, abstração, simbolismo ou até traços de expressionismo em meu trabalho. Mas não começo uma pintura dizendo: “Hoje vou pintar uma obra surrealista” ou “Hoje vou criar uma pintura abstrata”.

Geralmente começo com a ideia e o sentimento e, então, permito que eles escolham sua própria linguagem visual.

Talvez o surrealismo pareça próximo da minha experiência porque me dá a liberdade de transitar entre a realidade e o inconsciente, e entre aquilo que é visível e aquilo que ocultamos dentro de nós mesmos.

Mas, em última análise, estou buscando minha própria linguagem, em vez de procurar filiação a uma determinada escola. O que importa para mim é que, um dia, uma obra seja reconhecida como portadora da assinatura de Hala antes que alguém diga que ela pertence a esta ou àquela escola.

• Como o espectador ocidental percebe a arte visual iraquiana contemporânea? E você desempenhou algum papel na aproximação dessas perspectivas?

Acredito que o público ocidental tenha se tornado cada vez mais curioso em relação à arte iraquiana contemporânea. No entanto, muitas vezes ainda a enxerga através da imagem política ou histórica do Iraque, ou de sua associação com as guerras.

É aí que reside a responsabilidade do artista iraquiano contemporâneo: dizer ao mundo que o Iraque não é apenas uma notícia política, nem somente uma civilização antiga. É também uma sociedade viva e em transformação, repleta de perguntas, contradições e beleza.

Por meio de minha participação internacional, tenho tido o cuidado de não me apresentar simplesmente como uma artista iraquiana em sentido folclórico, nem como uma artista ocidental desconectada de suas raízes.

Procuro ser uma ponte entre as duas.

Quando um espectador em Nova York ou na Europa se coloca diante de uma pintura de uma artista iraquiana e descobre que a questão levantada pela pintura também o toca como ser humano, as distâncias geográficas e culturais começam a desaparecer.

Para mim, esse é um dos papéis mais importantes da arte: descobrir que, por trás de nossas diferenças de língua e identidade, carregamos medos, desejos e sonhos semelhantes.

• No sentido mais amplo e filosófico, existe uma relação entre a cor e aquilo que o artista visual deseja deixar para trás depois de concluir uma pintura. A quem pertencem, em última instância, suas pinturas, e que legado você deixou?

A propriedade legal de uma obra de arte pode passar para um colecionador, uma instituição ou um museu. Mas não acredito que uma obra de arte permaneça inteiramente propriedade do artista depois que deixa o ateliê.

No momento em que me coloco diante de uma pintura e sinto que a concluí, ela começa uma nova vida própria, independente de mim.

Alguém pode adquiri-la, mas, em termos de significado, ela se torna propriedade de todos aqueles que se colocam diante dela e encontram nela uma parte de si mesmos.

Talvez, muitos anos depois, o espectador não saiba em que circunstâncias a pintei, ou sequer conheça minha história pessoal. Ainda assim, ele a lerá à sua própria maneira.

Quanto ao legado que desejo deixar, não é o número de pinturas que levam meu nome. Em vez disso, espero deixar uma linguagem visual e ideias que façam com que alguém, muito depois de eu ter partido, se coloque diante de uma pintura e diga:

“Esta pintura me fez pensar de maneira diferente.”

Para mim, esta é a verdadeira propriedade da arte: tornar-se parte da memória dos outros.

• O que distingue suas pinturas é a grande precisão com que você emprega a cor, combinada à estranheza das ideias. Você não acha que precisamos construir uma ponte com o espectador?

Certamente, precisamos construir essa ponte. Mas não acredito que a solução seja simplificar a arte a ponto de eliminar seu mistério.

Gosto de oferecer ao espectador uma chave, mas não quero abrir todas as portas para ele.

Existe uma diferença entre uma obra misteriosa e uma obra inacessível. Uma bela ambiguidade o atrai, enquanto o fechamento o afasta da obra.

Por isso, procuro garantir que minhas pinturas contenham um ponto de entrada para o espectador. Pode ser uma cor, uma forma, um movimento ou um paradoxo visual.

Depois disso, o espectador começa a criar sua própria história.

Também acredito que o espectador é mais inteligente do que alguns artistas imaginam. Não precisamos explicar tudo a ele; antes, devemos respeitar sua capacidade de sentir e interpretar.

Para mim, a arte é um diálogo, não uma palestra.

• Em que medida a crítica contribui para avaliar e aperfeiçoar a arte visual?

A crítica genuína é essencial para um artista porque lhe oferece um segundo olhar, através do qual ele pode enxergar aquilo que não consegue ver enquanto está imerso em sua própria experiência.

Mas existe uma grande diferença entre crítica e julgamento.

Uma boa crítica não diz ao artista: “Faça isto e não faça aquilo”. Em vez disso, revela as relações, os contextos, os pontos fortes e as fragilidades presentes em sua experiência artística e, então, deixa o artista livre para tomar a decisão.

Por isso, escuto as críticas e respeito o crítico que possui conhecimento, experiência e visão. Ao mesmo tempo, porém, protejo minha voz interior.

Se um artista começa a criar para agradar aos críticos, ao mercado ou ao público, perde algo essencial de sua liberdade.

Trato a crítica como um espelho: olho para ele atentamente, mas não permito que decida quem sou.

• Todo começo deve ter sido influenciado por alguma experiência. Conte-nos sobre as características de seus primeiros passos e o que a influenciou.

Acredito que meus verdadeiros começos aconteceram antes que eu tivesse consciência de que me tornaria uma artista.

Desde a infância, eu via as coisas de maneira diferente. Lembro-me de que o desenho entrou muito cedo em minha vida como um espaço onde eu podia dizer aquilo que não conseguia expressar em palavras.

Cresci em um ambiente iraquiano que carregava muita beleza, mas que também continha um grande sistema de restrições sociais: “Não”, “Isso é vergonhoso”, o que deveria ser dito e o que deveria permanecer sem ser dito.

Talvez seja por isso que a arte tenha se tornado, mais tarde, para mim, um ato de liberdade.


Biografia

Nome: Hala Aziz Abdul Hadi
Nome artístico: Hala Kusiak
Em inglês: Hala Kusiak
Nascida em: Bagdá, Iraque
Nacionalidade: Iraquiana e canadense
Formação: Mestrado em Tradução

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Invasão

Surendra Nagaraju: quando um político invade o muro, expulsa um gato e deixa o felino… tímido!

Surendra Nagaraju - Elanaaga
Surendra Nagaraju – Elanaaga
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Invadindo o muro, um
político irredutível
expulsou um gato.
O felino ficou tímido.

Surendra Nagaraju

Encroachment

Encroaching upon the wall, a
die hard politician
evicted a cat.
The feline felt shy.

Surendra Nagaraju

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Cuando las horas ceden

Adriana Rodríguez: ‘Cuando las horas ceden’

Adriana Rodríguez
Adriana Rodríguez
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No imagino volver.
Mis pasos adheridos van
al fantasma de unas huellas
que no pretenden la herida,
que no pretenden su hogar.

No se hacen las cuentas.
Los días pasan ahora
como el río fluye en su cauce
y se sienten sus piedras bajo el llanto.

Septiembre llega con su esposa.
Los días, sabes, llegarán
y probablemente lleguen,
o probablemente se irán,
y quedará el sabor agridulce
de lo que deja con su paso.

Cuando un recuerdo
vuelve al calendario
y, a la vez, es tan solo
un espejismo lejano
que se pierde en el desierto
de una ciudad que se ha ido.

Lo más extraño
es que sigue habitada
por el dolor, por el silencio,
por esa punzada latiente,
recuerdo de cualquier cosa
que intentas olvidar.

Hoy ceden las horas.
Se instalan un momento
en la comisura de la tristeza,
se detienen a la puerta
y piden permiso para atravesar.

Ya han pasado.
Se siente su alivio,
pero también
el peso de su cuerpo pálido.

Hoy, para mí, es ese lunes
suspendido de una fecha lejana
que ahora se deja pasar,
sin importar la historia
que deja grabada.

Adriana Rodríguez

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Escritura pública do infinito

Clayton Alexandre Zocarato: ‘Escritura pública do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/4666255120514742?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

No princípio não havia o Verbo. Havia uma rasura. O universo começou como uma correção malfeita de um escriba que nunca existiu.

Toda cosmogonia é um processo administrativo do desespero; toda metafísica é um cartório onde o Nada registra imóveis que jamais possuirá. Chamaram aquilo de criação porque ninguém suporta a hipótese de que o primeiro gesto da existência tenha sido um erro de caligrafia.

Encontrei a Escritura Pública do Infinito numa repartição abandonada entre duas madrugadas. 

Não havia paredes, embora houvesse limites. 

Não havia teto, embora pingassem silêncios sobre a cabeça dos ausentes. O funcionário que me atendeu usava um rosto dobrável. 

Toda vez que sorria, sua face mudava de geometria, como se a carne estivesse cansada de representar a mesma pessoa.

— Nome?

A pergunta caiu sobre mim como um tijolo lançado por uma biblioteca.

Procurei meu nome nos bolsos. Não estava. Revirei minhas lembranças. 

Apenas encontrei fotografias de alguém que talvez tivesse morado dentro de mim muitos anos antes. Meu nome havia emigrado para alguma língua que ainda não inventara seus substantivos.

O funcionário esperava.

Então respondi:

— Sou aquilo que resta quando a linguagem desiste de respirar.

Ele anotou sem levantar os olhos.

Descobri, naquele instante, que todo cartório é um cemitério de metáforas que conseguiram emprego.

Sobre a mesa repousava um livro tão espesso que parecia sustentar o peso da gravidade. 

Sua capa era feita de um material impossível, semelhante à pele do tempo quando este adoece de eternidade. Ao tocá-lo, ouvi o ruído de milhões de relógios desaprendendo as horas.

Abri a primeira página.

Ela estava completamente em branco.

Na segunda também.

Na terceira.

Na centésima.

Na milésima.

O funcionário explicou, com absoluta serenidade:

— Este é o registro oficial de tudo aquilo que nunca aconteceu.

Compreendi, então, que os acontecimentos são apenas acidentes burocráticos da inexistência.

Desde criança ensinaram-me que o infinito era uma linha sem fim. 

Mentiram. O infinito não possui extensão; possui fadiga. É o cansaço daquilo que jamais consegue terminar de ser impossível.

A filosofia gastou séculos tentando localizar o absoluto. Procurou-o nas estrelas, nos deuses, nas ideias puras, na razão, na matéria, na consciência. 

Nunca percebeu que o absoluto talvez fosse apenas o hábito infantil de exigir sentido onde existe apenas continuidade.

A metafísica não construiu catedrais.

Construiu espelhos.

E passou milênios ajoelhada diante do próprio reflexo.

Inventamos Deus para explicar o céu.

Depois inventamos o Universo para substituir Deus.

Depois inventamos equações para substituir o Universo.

Agora inventamos algoritmos para substituir as equações.

Mudam-se os nomes.

Permanece intacta a velha superstição de que alguma palavra será suficientemente grande para conter o abismo.

Mas o abismo não cabe.

O abismo transborda até das próprias ausências.

Percebi que minha sombra havia desaparecido.

Olhei em volta.

Todas as sombras daquele lugar caminhavam sozinhas.

Conversavam entre si.

Ignoravam completamente seus antigos proprietários.

Talvez as sombras fossem os verdadeiros seres, e nós apenas acidentes luminosos projetados por sua paciência.

A ideia me provocou um tipo inédito de vertigem.

Não era medo.

Nem espanto.

Era uma espécie de ontofratura.

Uma ruptura mineral na arquitetura do ser.

Algo dentro de mim começava a desexistir.

Sim.

Desexistir.

Porque deixar de existir ainda pressupõe que a existência tenha acontecido.

Desexistir é mais antigo.

É regressar ao estágio anterior à possibilidade.

É ser apagado antes da tinta.

É morrer antes da hipótese.

Descobri, nesse instante, que a língua portuguesa ainda sofre de excesso de realidade. Existem verbos demais comprometidos com o mundo. Poucos aceitam trabalhar para o impossível.

Passei a inventá-los.

Infinitar.

Abismar.

Silencificar.

Nadear.

Desmemoriar.

Metafisicar.

Vazionomar.

Cada palavra nova arrancava um tijolo invisível da prisão gramatical que chamamos de realidade.

A linguagem começou a ranger.

Os substantivos perderam peso.

Os adjetivos envelheceram de repente.

Os verbos recusaram-se a obedecer ao tempo.

A sintaxe sofreu uma pequena hemorragia ontológica.

O funcionário sorriu.

— Está funcionando.

— O quê?

— O processo de desapessoar.

Perguntei-lhe quanto tempo demoraria.

Ele respondeu:

— Tempo?

Sorriu novamente.

Naquele edifício ninguém utilizava relógios.

Utilizavam erosões.

Cada pensamento retirava uma camada do mundo.

Cada lembrança demolia um corredor do passado.

Cada esperança acrescentava uma janela ao vazio.

Comecei a perceber que as paredes respiravam conceitos.

A palavra “substância” exalava mofo.

“Causalidade” cheirava a papel queimado.

“Essência” tinha gosto de ferrugem molhada.

Quanto ao “eu”, era apenas um casaco esquecido sobre uma cadeira metafísica.

Sempre imaginei que a identidade fosse uma casa.

Descobri que era um contrato de aluguel vencido.

Passei então a caminhar pelos corredores daquele cartório.

Havia gavetas catalogadas sob títulos incompreensíveis:

“Objetos Perdidos Antes de Existirem.”

“Memórias de Pessoas Nunca Nascidas.”

“Silêncios Produzidos por Pedras.”

“Últimos Pensamentos de Deuses Cancelados.”

Abri uma delas.

Dentro havia apenas um vento dobrado cuidadosamente em quatro partes.

Ao tocá-lo, ouvi minha própria voz dizendo uma frase que jamais pronunciara:

“Todo infinito necessita de testemunhas porque, sozinho, ele não consegue acreditar em si mesmo.”

Fechei imediatamente a gaveta.

Não por medo.

Mas porque compreendi que talvez aquela frase estivesse me escrevendo.

Não era eu quem lia a Escritura Pública do Infinito.

Era ela que começava, lenta e impiedosamente, a registrar o desaparecimento daquele que acreditava ser seu leitor.

Depois daquela gaveta, compreendi que toda leitura é uma forma lenta de ser devorado. 

Os livros nunca precisaram de leitores; precisaram apenas de organismos suficientemente ingênuos para acreditar que permaneciam os mesmos depois da última página. Eu já não era o homem que atravessara a porta daquele cartório. Talvez nunca o tivesse sido. 

Talvez aquela recordação fosse um documento falsificado pela nostalgia, essa repartição clandestina onde o passado aprende a mentir com elegância.

Continuei caminhando.

Os corredores já não obedeciam à geometria.

Curvavam-se para dentro de si mesmos como serpentes tentando engolir o próprio conceito. 

As portas davam acesso a salas que continham apenas outras portas.

As escadas terminavam antes do primeiro degrau. 

As janelas olhavam para interiores mais profundos do que qualquer exterior poderia suportar.

Foi então que encontrei o Arquivo das Hipóteses Abortadas.

Ali repousavam todas as possibilidades que o universo recusou antes de fabricar esta realidade provisória.

Havia um mundo onde as pedras sonhavam os homens. Outro em que a morte precisava pedir licença para existir. 

Um terceiro onde a linguagem envelhecia mais rapidamente que seus falantes, obrigando cada geração a inventar uma gramática inteiramente nova para dizer a mesma solidão.

Pensei que fossem fantasias.

Mas imediatamente compreendi que fantasia é apenas o nome que a realidade dá aos mundos que teve medo de experimentar.

Foi quando ouvi um ruído.

Não vinha das paredes.

Nem do teto.

Vinha das palavras.

As palavras estavam rachando.

Cada substantivo começava a perder seus contornos. “Árvore” já não apontava para nenhuma árvore. “Corpo” tornava-se um recipiente vazio. “Memória” dissolvia-se como sal lançado sobre um rio de espelhos.

A linguagem sofria uma ontorragia.

Não havia mais correspondência entre os nomes e as coisas.

Talvez nunca tivesse havido.

Talvez a filosofia inteira tivesse sido construída sobre uma coincidência fonética.

Recordei todos os tratados que buscavam definir essência, substância, verdade, ser.

Sorri.

Que extraordinária ingenuidade.

Durante séculos discutimos o conteúdo das palavras sem perceber que eram as palavras que discutiam secretamente o conteúdo de nós mesmos.

Comecei a sentir pequenas fissuras atravessando minha consciência.

Não era dor.

Era uma espécie de deseu.

O eu descolava lentamente de mim.

Como tinta antiga abandonando uma parede úmida.

Vi minha infância caminhando alguns metros adiante.

Ela não me reconheceu.

Vi meu futuro sentado num banco, alimentando pombos invisíveis.

Também desviou o olhar.

Então compreendi que passado e futuro jamais pertencem ao presente; são apenas vizinhos mal-educados que ocupam terrenos imaginários dentro da cabeça.

Continuei andando.

Mas quem continuava?

A pergunta já não possuía sujeito.

Descobri que a identidade é um vício gramatical.

A primeira pessoa talvez tenha sido o maior erro da linguagem.

O “eu” é apenas um pronome excessivamente otimista.

Inventei outro.

Ø.

Nem eu.

Nem tu.

Nem ele.

Ø.

O pronome do intervalo.

Daquilo que ainda não aconteceu suficiente para existir.

Passei a conjugar o impossível.

Ø desvive.

Ø deslembra.

Ø infinita.

Ø desaparece para dentro.

Os corredores aprovaram.

As paredes tornaram-se líquidas.

O chão começou a escrever pegadas antes que meus pés decidissem caminhar.

Tudo acontecia alguns segundos antes da própria possibilidade.

Era uma realidade premeditada pelo vazio.

No centro do edifício encontrei uma mesa circular.

Sobre ela repousava um espelho coberto por um tecido negro.

Retirei cuidadosamente o pano.

O espelho estava vazio.

Nenhum reflexo.

Nenhuma imagem.

Nenhuma luz.

Olhei demoradamente.

Depois de algum tempo surgiu uma frase escrita do lado de dentro do vidro.

“Quem procura a si mesmo já começou a fabricar o próprio cárcere.”

Afastei-me.

Mas a frase continuou olhando para mim.

Percebi que certas ideias possuem pupilas.

E observam seus autores até depois da morte.

Sentei-me.

Ou talvez tenha sido a cadeira que resolveu acomodar minha ausência.

Já não fazia diferença.

Foi então que compreendi a verdadeira natureza daquele cartório.

Não registrava propriedades.

Nem nascimentos.

Nem casamentos.

Nem óbitos.

Registrava desistências.

Cada documento ali arquivado correspondia ao instante exato em que alguém desistira de compreender o infinito e passara apenas a descrevê-lo.

Toda metafísica era isso.

Uma escritura pública lavrada por testemunhas incapazes de aceitar o silêncio.

Sorri novamente.

Não por felicidade.

Mas porque a ironia é a última articulação que permanece funcionando quando o pensamento sofre falência múltipla dos órgãos.

Olhei minhas mãos.

Os dedos haviam adquirido transparência mineral.

Dentro deles circulavam pequenas letras.

Consoantes caminhavam pelas veias.

Vogais respiravam nos ossos.

Meu sangue transformara-se em sintaxe.

Cada batimento reorganizava um parágrafo invisível.

Meu coração já não bombeava vida.

Bombeava linguagem.

Assustei-me.

Logo depois percebi que sempre fora assim.

Não pensamos porque existimos.

Existimos apenas enquanto alguma frase continua nos escrevendo.

Quando a última palavra termina de pronunciar nosso nome, chamamos esse acontecimento de morte.

Mas talvez seja apenas pontuação.

Talvez Deus nunca tenha criado homens.

Talvez tenha criado apenas vírgulas.

E o universo inteiro não passe de uma oração subordinada cujo verbo principal foi perdido antes da invenção do tempo.

Levantei-me.

Ou fui levantado pela própria ausência.

Ao fundo do corredor surgiu uma porta que não existia alguns instantes antes.

Sobre ela havia apenas uma inscrição.

“Setor de Retificação Ontológica.”

Empurrei lentamente a maçaneta.

Do outro lado não encontrei um quarto.

Encontrei uma página.

Branca.

Infinita.

Esperando.

E pela primeira vez suspeitei que o mundo inteiro talvez fosse apenas a margem de um livro que ainda não começou a ser escrito.

Quando atravessei a página, não fui eu quem entrou.

Foi o branco.

Durante séculos imaginei que o branco fosse uma ausência de escrita.

Descobri, tarde demais, que a escrita é apenas uma doença passageira do branco.

O branco não espera.

O branco mastiga.

Cada passo que eu dava era imediatamente apagado antes de acontecer. 

Não havia pegadas. Havia pré-esquecimentos.

O chão possuía a delicadeza cruel de quem nunca permitiu que nenhuma memória criasse raízes.

Olhei para trás.

O corredor desaparecera.

Olhei para frente.

Também.

Pela primeira vez compreendi que direção é uma superstição espacial.

Os homens inventaram o “adiante” porque tinham medo de admitir que toda caminhada é um círculo desenhado por uma reta delirante.

Não aquele silêncio que sucede um ruído.

Mas outro.

Mais antigo.

O silêncio anterior ao primeiro átomo.

O silêncio que existia antes mesmo da possibilidade da ausência.

Ele aproximou-se lentamente.

Sentou-se diante de mim.

Tinha mãos.

Não possuía rosto.

Nem precisava.

Os rostos são apenas máscaras que o vazio utiliza para conversar consigo mesmo.

— És o infinito? — perguntei.

Ele permaneceu calado.

Compreendi.

Responder seria limitar-se.

Todo nome é uma cerca construída ao redor do indizível.

Durante toda a história da filosofia confundimos definição com aproximação.

Quanto mais precisamente descrevíamos uma coisa, mais distante dela permanecíamos.

As palavras não alcançam.

Circundam.

Toda linguagem é uma órbita.

Jamais um pouso.

Sentei-me diante do silêncio.

Passamos um tempo conversando sem utilizar nenhuma existência.

Foi a conversa mais honesta que já tive.

Depois disso minha respiração começou a desaprender o ar.

Inspirava vazio.

Expirava distância.

Meu corpo tornou-se cada vez mais leve.

Não porque estivesse desaparecendo.

Mas porque finalmente abandonava o peso de acreditar em si mesmo.

Toda identidade é gravidade.

Toda consciência é um excesso de massa.

Todo nome é uma pedra amarrada ao tornozelo daquilo que gostaria de evaporar.

Comecei a perder substância.

Primeiro os ossos.

Depois a memória.

Mais tarde o tempo.

Por último o verbo.

O verbo foi o mais resistente.

Agarrava-se desesperadamente às minhas frases.

Recusava-se a morrer.

Era compreensível.

Os verbos vivem da ilusão de que existe movimento.

Mas o movimento nunca existiu.

Existiu apenas uma lentíssima mudança de perspectiva do imóvel.

Então aconteceu.

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As palavras começaram a abandonar suas funções.

Os substantivos transformaram-se em ventos.

Os adjetivos criaram ferrugem.

Os pronomes emigraram para um idioma mineral.

As vírgulas recusaram-se a separar o que jamais estivera unido.

Os pontos finais fugiram.

Ninguém mais conseguia terminar nenhuma frase.

Nem a realidade.

Observei o universo inteiro sofrer uma gramaticlise.

Era semelhante a uma avalanche.

Mas de sintaxe.

As montanhas perderam seus nomes.

Os oceanos esqueceram a profundidade.

Os relógios começaram a marcar apenas “talvez”.

As árvores floresciam perguntas.

As pedras produziam infância.

Os espelhos refletiam futuros extintos.

Os cadáveres envelheciam para dentro.

As crianças nasciam já saudosas de alguma coisa que nunca aconteceria.

Compreendi, finalmente, que o cosmos inteiro era apenas uma tentativa mal resolvida de conjugar um verbo impossível.

Exister.

Não existir.

Nem deixar de existir.

Exister.

Habitar o intervalo entre duas impossibilidades.

O universo era apenas isso.

Um intervalo pronunciando-se.

Passei a caminhar sobre conceitos.

Pisei na causalidade.

Ela quebrou.

Atravessei a essência.

Era oca.

Toquei a verdade.

Produziu eco.

Encontrei a identidade.

Dormia dentro de um armário cheio de máscaras descartadas.

Nenhuma servia.

Todas eram minhas.

Nenhuma me pertencia.

Foi quando descobri o último departamento daquele cartório.

A sala não possuía paredes.

Nem teto.

Nem chão.

Apenas uma inscrição suspensa.

“Setor de Cancelamento dos Absolutos.”

Entrei.

Sobre uma mesa havia um único documento.

Meu nome aparecia no alto.

Ou aquilo que um dia respondera por mim.

Logo abaixo lia-se:

Objeto do processo:

Revogação definitiva da necessidade de existir.

Assinatura do interessado: ___________

Não havia caneta.

Nem tinta.

Nem testemunhas.

Assinei com o desaparecimento.

No instante seguinte o universo inteiro respirou aliviado.

Como se minha identidade fosse um erro administrativo mantido durante bilhões de anos.

Então tudo começou a apagar-se.

Não em direção ao escuro.

Mas em direção ao impensável.

As estrelas esqueceram como iluminar.

A matemática desaprendeu o número.

O tempo arquivou sua última tarde.

O espaço dobrou cuidadosamente suas distâncias e guardou-as numa gaveta sem interior.

Restou apenas a página.

A primeira.

A mesma.

Ainda em branco.

Percebi, enfim, o segredo da Escritura Pública do Infinito.

Ela jamais registrou aquilo que existe.

Registrava apenas todos os fracassos da linguagem em tentar justificar o fato inexplicável de haver alguma coisa onde talvez bastasse o silêncio.

Fechei o livro.

Ou talvez tenha sido ele quem me fechou.

Desde então ninguém mais encontrou aquele cartório.

Alguns afirmam que nunca existiu.

Outros dizem que continua funcionando em algum lugar entre uma pergunta e outra.

Quanto a mim, já não posso oferecer testemunho.

Porque aquilo que um dia respondeu pelo meu nome foi definitivamente cancelado no registro das possibilidades.

Se estas palavras ainda chegaram até alguém, desconfie.

Talvez você não esteja lendo este conto.

Talvez seja este conto que acaba de protocolar, silenciosamente, a escritura pública do seu próprio infinito.

Clayton Alexandre Zocarato

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Alces e alpes…

Clayton Alexandre Zocarato: Poema ‘Alces e alpes…’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton Zocarato
Os alces tocam o céu como véu
Os alces tocam o céu como véu…
Criador de imagem do Bing

Alces desejam tocar as aves…
Os alpes tocam o céu…
Como véu…
Para fazer as pazes…
Com disseres…
Que nos penhascos da discórdia…
Diariamente lembra o homem…
Em estar ao avesso do amor…
Alces são violentos…
Os homens são muitos ciumentos…
Os alpes produzem avalanches de lamentos…
Entre juramentos invernais…
Os alces são hibernais…
Se fechando em espirituais…
Nada fraternais…

Clayton Alexandre Zocarato

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