Três telefones em pensão para senhoras

Em um corredor silencioso, três telefones são o único elo com o mundo e com a esperança do reencontro

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem colorida mostra seis mulheres idosas num pátio de pedra. No centro, uma mulher de cabelo cacheado e casaco azul caminha. À esquerda, três mulheres sentadas, uma com andador. À direita, uma mulher numa cadeira de rodas e duas numa banca. O fundo tem paredes de tijolo e telefones pretos vintage.
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Três telefones presos à mesma parede do corredor daquela pensão para senhoras. Enquanto aqueles três objetos permaneciam grudados, sempre no mesmo lugar, as hóspedes, ansiosas, olhavam para o vazio na esperança de que a próxima chamada fosse para elas. Nesse silêncio, até o zumbido de uma mosca poderia ser confundido com o toque do telefone.         

          Alice, uma das hóspedes mais antigas, imaginava estar em um hospício. Já Ruth, que há dois dias havia sido levada para lá, não tinha a menor dúvida. Mas outras opiniões saíam da boca daquelas mulheres, a maioria já passada dos 70, cinco ou seis beirando os 90, sem contar Clara, que insistia em permanecer sobre a terra, apesar dos 104 completados em janeiro. 

          Não eram maltratadas fisicamente, pois o tempo já se encarregara desse papel. Todavia, dor maior era aquela que todas sentiam: o abandono. É verdade que algumas recebiam visitas de parentes, que, aos poucos ou de modo mais ligeiro, iam escasseando até que restassem apenas datas especiais, quando muito. 

          — Isto é uma prisão!

          — Dona Laura, aqui estão os seus remédios. A senhora precisa tomá-los.

          A velha, olhos arregalados, torceu os lábios e, contrariada, obedeceu. Bebeu meio copo d’água e, em seguida, abriu bem a boca para mostrar que havia engolido tudo. A funcionária, assim que deu as costas para levar medicamentos para outras hóspedes, esboçou um sorriso com as palavras de Laura para a hóspede ao lado, Solange.

          — Essa aí é uma peste!

          Solange, que há tempos não falava e mal se movia, se esforçou ao máximo para concordar. Maldito AVC, que a limitou ao quase imperceptível movimento do indicador da mão esquerda. Por conta de toda essa limitação, era comum colocá-la em frente à televisão, onde era obrigada a assistir à mesma programação todos os dias. Ela sonhava em ter o controle do aparelho em suas mãos para poder trocar de canal. Melhor, desligaria aquela caixa falante e cheia de imagens distorcidas. Pobre mulher, sonhava com os dias em que possuía controle sobre suas próprias ações. 

          Hora para isso, hora para aquilo, hora que não era hora. Ora, vê se pode? Onde já se viu ter hora para tudo e para nada? Isso lá é vida? Até planta tem hora de abrir e fechar as flores. Ali, naquele lugar, não havia botões. Todas as pétalas já teriam caído há tempos. Há tempos! Quiçá não foram arrancadas por mãos truculentas. 

          Hora do pátio. A osteoporose comia solta naquele ambiente. Melhor tomar um solzinho. Era hora de relembrar tempos de praia, idas ao clube ou banhos de cachoeira. Por ali, no entanto, quando muito, um borrifador. 

          Aquelas velhas, algumas sentadas, outras em pé, praticamente todas com a face virada para cima tentando sentir os raios solares invadirem a alma. Momento em que se simulavam vivas. Eis que o telefone tocou. Todas se olharam, sorrisos estampados em lábios murchos. 

          Elizabeth, no auge dos 73, simulou uma corrida até o corredor. Não demorou, voltou para o pátio, onde ouviu várias vozes perguntando para quem era a ligação. A mulher, olhos tristonhos, voz quase muda, finalmente respondeu.

          — Era engano.

Eduardo Cesario-Martínez

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Aquela triste madrugada

Milton Gaspar Domingos: Poema ‘Aquela triste madrugada’

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Naquela triste madrugada,
Quando tocou silenciosamente o telefone
Despertei-me e senti um palpitar pesado
Um palpitar que ascendia do tutano da minha alma

Quando fiz com que o telefone do outro lado soltasse o grito de desespero,
Vi a voz que anunciava trespassar,
trespassar a cortina de mais de quatrocentos e cinquenta quilómetros de espessura que nos unia.

Anunciava ela naquela triste madrugada.
Um anúncio que gelou o epicentro das minhas emoções,
Um anúncio que as comprimiu em mil canções,
Um anúncio que me fez impotente até ao fim.
Anunciava uma eterna escuridão que agora existe entre ti e mim.

Naquela triste madrugada, eu senti,
Senti o universo denunciar a insignificância do homem sem o tutor,
senti o amargo e o salgado da mais profunda dor
A cama parecia grande e pequena
Todas as vozes do universo pendiam nas pontas das minhas orelhas.
Naquela triste madrugada, o ar sabia a tudo e a nada.

Reclamaram-se os ganhos não partilhados
Os bens, os risos, os choros, todos privados
As conversas, as tristezas, os sentimentos, todos negados
Os olhares, as lembranças, os afetos, todos guardados

Naquela triste madrugada tudo mudou
Uma posição de autotutor você me deixou
Sempre a lembro com choros
Acordado ou no sono
Aquela triste madrugada ao mundo impotente me revelou

Abençoada seja a sua maldição 23 de novembro de 2022,
Foi naquela triste madrugada
em que tudo se calou para que se nascesse voz entre nós dois!

Milton Gaspar Domingos

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Angela Fiorenzo: 'A síndrome do telefone'

Angela Fiorenzo

A síndrome do telefone

Antes de começar a escrever, Ella me contou depois, correu no Google para certificar-se de que o que estava sentindo poderia chamar de síndrome!

– É perfeito – disse. E quer saber mais?  Tenho certeza de que não sou a única, muita gente sente igual!!

Achei graça e ri, embora no fundo eu soubesse que alguma coisa estava acontecendo.

– Por quê? – perguntei.

Ella contou rapidamente, assegurando que eu seria a primeira a ler sua crônica. Ou seria um desabafo?  Ou poderia ter qualquer outro nome, como válvula de escape???

Foi o que entendi.

– Enquanto escrevo, o tempo passa, e isso ajuda a me sentir melhor….

Claro que, quando Ella me mandou o texto pronto, finalizado, eu já imaginava o que seria a tal síndrome! Quem já não sentiu a angústia da espera, a dor da ausência, a incerteza da continuidade?

Então… eu li.

Voltei no tempo… Não foi uma nem foram duas vezes que senti isso tudo. Doeu sempre. Umas mais, outras menos… Todas machucaram, deixaram marcas, lembranças que não se apagaram… Será que se apagam??? Não acredito. Mas passam… a gente sobrevive. Como se diz, a vida continua, independentemente de tudo!

E novamente, como já havia feito no passado, me perguntei – Por quê? Por que me deixar envolver? Por que acreditar que desta vez seria diferente? Por que sonhar? Por que dar asas à imaginação?

Mas, ao mesmo tempo que me questionava, com o peito apertado pelas perguntas que não tinham resposta, pois o primeiro encontro foi maravilhoso e vai deixar saudade se foi o último, eu sabia que as coisas do coração a gente não consegue controlar!!!  É um terreno arenoso que nos engole, nos consome e chega a exaurir nossas forças. Caminho sem volta. Quem entra precisa encontrar a saída!!! E não adiantam os avisos, os conselhos, a experiência vivida –  kkkk – a tentação de mergulhar nesse lago cujas profundezas desconhecemos, é maior que a prudência! rsrsrs

Assim, não fiz diferente. Abri os braços para a esperança, para o desejo e me deixei levar… Se foi bom? Muito!

Trocamos mensagens,  conversamos muito, rimos, ficamos juntos na intimidade, descobri que temos vários pontos em comum com relação ao que desejamos para um relacionamento… nada que obrigue, pressione. Tem que fluir gostoso, tem que ser suave – a gíria do momento! rsrs

Não nos falamos depois… O telefone permaneceu mudo. Mensagens? Chegaram, recebi muitas, mas não de quem eu gostaria. E aquela ausência, um vazio que incomoda e deixa a boca seca, aquele friozinho no estômago (ou na barriga??? kkkk) trazendo desassossego.  Num turbilhão de pensamentos, as dúvidas, e com elas, as desculpas que nós mesmos procuramos dar… Talvez trabalho, preocupação, medo de assumir um novo compromisso???

São desculpas, essas e outras, é verdade, porém ajudam a não matar a esperança nem o sonho! E assim… seguimos. Acreditando e com o celular ao meu lado.

Depois de ler, pensei, o que de melhor eu poderia fazer para Ella naquele momento. Bolinho de chuva!!! Um dos seus preferidos. Tem açúcar, tem canela, tem sabor de casa de mãe e de avó, lembranças e sabores que aquecem o coração. Foi o que fiz.