UNESCO e o Patrimônio Mundial

Alexandre Rurikovich Carvalho

UNESCO e o Patrimônio Mundial: a importância da  preservação da herança cultural e natural da humanidade

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
A capa ilustra uma reflexão sobre a atuação da UNESCO e a importância da preservação do  Patrimônio Mundial como legado histórico, cultural e natural da humanidade. Na parte inferior,  destacam-se a identificação do autor e a identidade editorial do Jornal Cultural ROL.  Imagem criada por IA.

Resumo 

A preservação do patrimônio cultural e natural constitui um dos pilares fundamentais  para a proteção da memória coletiva, da identidade dos povos e da diversidade  ambiental do planeta. Em um mundo marcado por profundas transformações sociais,  econômicas e tecnológicas, a conservação dos bens históricos, artísticos,  arqueológicos e naturais assume importância estratégica para assegurar que as  futuras gerações possam conhecer e compreender o legado deixado pelas  civilizações. Nesse contexto, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a  Ciência e a Cultura (UNESCO) desempenha papel de destaque ao promover a  cooperação internacional voltada para a educação, a ciência, a cultura e a  preservação do patrimônio de Valor Universal Excepcional. 

Criada em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, a UNESCO consolidou-se  como uma das principais instituições multilaterais responsáveis pela formulação de  políticas internacionais de proteção do patrimônio cultural e natural. A partir da  Convenção do Patrimônio Mundial de 1972, estabeleceu critérios técnicos e  científicos para o reconhecimento de sítios considerados de importância excepcional  para toda a humanidade, fortalecendo ações de conservação, pesquisa, educação  patrimonial e desenvolvimento sustentável.

O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário internacional ao possuir 25 sítios  inscritos na Lista do Patrimônio Mundial, distribuídos entre bens culturais, naturais e  mistos, que refletem a riqueza histórica, arquitetônica, artística, paisagística e  ambiental do país. Esses reconhecimentos reforçam não apenas o valor da  diversidade cultural brasileira, mas também a responsabilidade compartilhada entre  poder público, comunidade científica e sociedade civil na preservação desse  patrimônio. 

O presente artigo apresenta uma análise histórica sobre a origem da UNESCO, seus  objetivos institucionais, o processo de reconhecimento dos bens inscritos na Lista do  Patrimônio Mundial e a importância desse mecanismo internacional para a  valorização da memória, da identidade cultural e da conservação do patrimônio  brasileiro. Busca-se, igualmente, esclarecer aspectos frequentemente confundidos  pela opinião pública, demonstrando que o reconhecimento concedido pela UNESCO  destina-se exclusivamente a bens culturais e naturais de Valor Universal Excepcional,  e não a pessoas ou instituições. 

Palavras-chave: UNESCO; Patrimônio Mundial; Patrimônio Cultural; Patrimônio  Natural; Preservação; História; Brasil. 

Introdução 

A preservação do patrimônio cultural e natural representa uma das mais relevantes  responsabilidades assumidas pela sociedade contemporânea diante das gerações  futuras. Monumentos históricos, centros urbanos antigos, paisagens culturais, sítios  arqueológicos, reservas ambientais e parques nacionais constituem testemunhos  materiais da trajetória da humanidade e expressam valores históricos, científicos,  artísticos, arquitetônicos, culturais e ecológicos que transcendem as fronteiras  nacionais. 

Ao longo dos séculos, inúmeros bens de valor inestimável foram destruídos em  decorrência de guerras, conflitos políticos, expansão urbana desordenada, exploração  econômica predatória, desastres naturais e da própria ação do tempo. A perda desses  bens representa não apenas o desaparecimento de importantes referências  históricas, mas também o empobrecimento da memória coletiva da humanidade,  comprometendo a compreensão das diferentes civilizações e de seus processos de  desenvolvimento. 

Foi especialmente após os impactos devastadores da Segunda Guerra Mundial  (1939–1945), quando milhares de cidades históricas, bibliotecas, igrejas, museus,  monumentos e obras de arte foram destruídos, que a comunidade internacional  reconheceu a necessidade de estabelecer mecanismos permanentes de cooperação  para proteger o patrimônio cultural e natural em escala global. Dessa percepção  surgiu um amplo movimento internacional voltado para a promoção da paz por meio  da educação, da ciência, da cultura e do respeito à diversidade entre os povos. 

Nesse contexto, foi criada a Organização das Nações Unidas para a Educação, a  Ciência e a Cultura (UNESCO), instituição que passou a desempenhar papel decisivo  na formulação de políticas internacionais destinadas à proteção do patrimônio da  humanidade. Ao longo de sua história, a organização consolidou importantes  instrumentos jurídicos internacionais, dentre os quais se destaca a Convenção para a  Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, aprovada em 1972, considerada  um marco na preservação dos bens de Valor Universal Excepcional.

O Brasil participa ativamente desse sistema internacional de proteção patrimonial,  possuindo atualmente 26 sítios inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO,  abrangendo cidades históricas, paisagens culturais, parques nacionais, áreas de  biodiversidade e sítios de excepcional relevância histórica e ambiental. Esses  reconhecimentos projetam o país no cenário internacional e reforçam a necessidade  de políticas públicas voltadas à conservação, à pesquisa científica, ao turismo  sustentável e à educação patrimonial. 

Diante desse panorama, o presente artigo tem como objetivo analisar a origem e a  evolução histórica da UNESCO, apresentar sua missão institucional, explicar o  funcionamento do sistema de reconhecimento do Patrimônio Mundial e discutir a  importância desse mecanismo para a preservação do patrimônio cultural e natural  brasileiro. Pretende-se ainda esclarecer equívocos frequentemente difundidos acerca  do papel da UNESCO, evidenciando que o reconhecimento concedido pela  organização é destinado exclusivamente a bens culturais, naturais ou mistos dotados  de Valor Universal Excepcional, não sendo aplicável a pessoas, entidades,  associações ou instituições. 

A criação da UNESCO 

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura,  internacionalmente conhecida pela sigla UNESCO (United Nations Educational,  Scientific and Cultural Organization), foi oficialmente criada em 16 de novembro de  1945, poucos meses após o término da Segunda Guerra Mundial, em um período  marcado por intensa reconstrução política, econômica, social e cultural (UNESCO,  2024). 

O conflito mundial deixou um cenário de devastação sem precedentes. Milhões de  vidas foram perdidas, cidades inteiras foram destruídas, importantes bibliotecas  desapareceram, museus sofreram saques, monumentos históricos foram reduzidos a  escombros e incontáveis obras de arte foram danificadas ou dispersas. Além das  perdas humanas e materiais, tornou-se evidente que a destruição do patrimônio  cultural representava também um ataque à memória, à identidade e à história dos  povos. 

Foi nesse contexto que diversas nações compreenderam que a paz duradoura não  poderia ser construída apenas por meio de tratados diplomáticos ou acordos militares.  Tornava-se necessário fortalecer o diálogo entre os povos por intermédio da  educação, da ciência, da cultura e da cooperação internacional. Essa visão inspirou a  criação da UNESCO, concebida como um organismo especializado do recém-criado  sistema das Nações Unidas. 

Sua Constituição foi assinada em Londres por representantes de dezenas de países  durante a Conferência das Nações Unidas para o Estabelecimento de uma  Organização Educacional e Cultural. Após a ratificação pelos Estados signatários, a  UNESCO iniciou oficialmente suas atividades em 4 de novembro de 1946,  estabelecendo posteriormente sua sede permanente em Paris, na França (UNESCO,  2024). 

Desde sua fundação, a missão da UNESCO tem sido promover a cooperação  intelectual entre as nações, estimular o acesso universal à educação, incentivar o  desenvolvimento científico, proteger a diversidade cultural e preservar o patrimônio  histórico e natural da humanidade. Seu trabalho parte do princípio de que a  construção da paz depende da valorização do conhecimento, do respeito às  diferenças culturais e da promoção dos direitos humanos.

Esse compromisso encontra-se sintetizado no célebre preâmbulo de sua Constituição: 

“Como as guerras nascem na mente dos homens, é na mente dos homens que  devem ser erguidas as defesas da paz.” (UNESCO, 1945) 

Essa afirmação tornou-se um dos mais conhecidos princípios da diplomacia cultural  contemporânea e expressa a convicção de que a educação, a ciência e a cultura  constituem instrumentos essenciais para prevenir conflitos, fortalecer o entendimento  entre os povos e promover sociedades mais justas e democráticas. 

Ao longo de mais de oito décadas de atuação, a UNESCO expandiu  significativamente suas áreas de atuação. Além da proteção do Patrimônio Mundial, a  organização desenvolve programas voltados para a preservação do patrimônio  imaterial, da diversidade linguística, dos arquivos históricos, das reservas da biosfera,  dos geoparques mundiais, da liberdade de expressão, da educação inclusiva, da  pesquisa científica e do desenvolvimento sustentável. Dessa forma, consolidou-se  como uma das mais importantes organizações internacionais dedicadas à proteção do  legado cultural e natural da humanidade e à promoção da cooperação entre os  Estados em benefício das gerações presentes e futuras (UNESCO, 2024). 

O que a UNESCO reconhece e o que ela não reconhece? 

A ampla credibilidade internacional da UNESCO faz com que seu nome seja  frequentemente associado a diferentes iniciativas culturais, educacionais e científicas.  Entretanto, essa notoriedade também contribui para a disseminação de interpretações  equivocadas acerca de suas competências institucionais. Entre os equívocos mais  comuns está a crença de que a UNESCO concede títulos honoríficos, certificados de  excelência ou reconhecimentos oficiais a pessoas físicas, associações, fundações,  academias, empresas ou outras entidades privadas. Tal entendimento não encontra  respaldo nas normas que regem a atuação da organização (UNESCO, 1972). 

No âmbito do Programa do Patrimônio Mundial, instituído pela Convenção para a  Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, de 1972, a UNESCO reconhece  exclusivamente bens culturais, bens naturais e bens mistos que apresentem Valor  Universal Excepcional (UNESCO, 1972). Esses bens correspondem a monumentos,  conjuntos arquitetônicos, cidades históricas, sítios arqueológicos, paisagens culturais,  parques nacionais, reservas naturais e outros locais cuja importância transcende as  fronteiras nacionais, sendo considerados patrimônio comum da humanidade. Até  2025, o Brasil contava com 25 sítios inscritos nessa lista, incluindo 15 bens culturais,  9 naturais e 1 misto, sendo os mais recentes o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu  (MG, 2025) e Paraty e Ilha Grande (RJ, 2019) (IPHAN, 2024; UNESCO, 2025). 

O reconhecimento desses bens resulta de um rigoroso processo técnico e científico,  conduzido em cooperação com os Estados Partes da Convenção e com organismos  consultivos internacionais especializados, tais como o International Council on  Monuments and Sites (ICOMOS) e a International Union for Conservation of Nature 

(IUCN) (UNESCO, 1972). A inscrição na Lista do Patrimônio Mundial somente ocorre  após extensa avaliação documental, análise de critérios de autenticidade, integridade,  estado de conservação, plano de gestão e comprovação do valor universal do bem  candidato (UNESCO, 2024). 

É importante destacar que esse reconhecimento não se destina a instituições públicas  ou privadas, organizações da sociedade civil, academias de letras, fundações  culturais, universidades, museus, empresas, entidades religiosas ou associações  profissionais. Embora muitas dessas instituições desempenhem papel relevante na 

preservação da cultura, elas não são objeto da inscrição na Lista do Patrimônio  Mundial (UNESCO, 1972). 

Da mesma forma, a UNESCO não concede títulos pessoais, como “Embaixador  da UNESCO”, “Doutor da UNESCO”, “Patrono da UNESCO”, “Comendador da  UNESCO” ou outras designações semelhantes que, por vezes, aparecem  indevidamente em materiais de divulgação. Quando a organização estabelece  vínculos com pessoas de reconhecida projeção internacional, isso ocorre por meio de  programas específicos, como o de Embaixadores da Boa Vontade (Goodwill  Ambassadors), Artistas pela Paz (Artists for Peace) ou Campeões do Esporte  (Champions for Sport) (UNESCO, 2024). Essas designações são conferidas  diretamente pela própria UNESCO, mediante critérios institucionais próprios e com o  objetivo de colaborar na divulgação de suas causas e campanhas globais. Elas não  constituem títulos acadêmicos, honoríficos ou nobiliárquicos. 

Além do Programa do Patrimônio Mundial, a UNESCO coordena outras iniciativas  internacionais igualmente relevantes, tais como: 

Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade (Convenção de 2003); 

Programa Memória do Mundo (Memory of the World, criado em 1992); • Rede Mundial de Reservas da Biosfera (Man and the Biosphere Programme,  MAB); 

Rede Mundial de Geoparques (UNESCO Global Geoparks Network); • Rede de Cidades Criativas (Creative Cities Network, criada em 2004)  (UNESCO, 2024). 

Em todos esses casos, os reconhecimentos recaem sobre bens culturais,  manifestações tradicionais, documentos históricos, áreas naturais ou cidades que  atendam aos critérios técnicos estabelecidos para cada programa, e não sobre  pessoas ou instituições enquanto destinatárias de títulos honoríficos (UNESCO, 1972;  UNESCO, 2003). 

Esclarecer essa distinção é fundamental para evitar a circulação de informações  incorretas e preservar a credibilidade dos programas oficiais da UNESCO. A  autoridade da organização decorre justamente do rigor técnico, científico e jurídico  que orienta seus processos de reconhecimento, sempre fundamentados em  convenções internacionais ratificadas pelos Estados-membros e em avaliações  conduzidas por especialistas independentes (UNESCO, 1972). 

Assim, compreender corretamente o alcance das competências da UNESCO contribui  para fortalecer a educação patrimonial, valorizar os mecanismos internacionais de  proteção da cultura e da natureza e promover uma visão mais precisa sobre o papel  desempenhado pela organização na preservação do legado comum da humanidade.  Esse conhecimento permite distinguir os reconhecimentos oficiais concedidos pela  UNESCO das homenagens, premiações ou certificações promovidas por outras  instituições, todas legítimas em seus respectivos âmbitos, mas juridicamente distintas  dos programas oficiais da organização.

O que é o Patrimônio Mundial? 

O conceito de Patrimônio Mundial está diretamente relacionado à preservação de  bens considerados de importância extraordinária para toda a humanidade. Esses  bens representam realizações excepcionais da criatividade humana, testemunhos de  antigas civilizações, paisagens culturais construídas ao longo dos séculos ou  ecossistemas naturais de elevada relevância científica e ambiental. Sua proteção  ultrapassa o interesse exclusivo de um país, tornando-se uma responsabilidade  compartilhada por toda a comunidade internacional (UNESCO, 1972). 

A base jurídica desse sistema internacional de proteção foi estabelecida em 16 de  novembro de 1972, quando a Conferência Geral da UNESCO aprovou a Convenção  para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (UNESCO, 1972). Esse  tratado internacional tornou-se um dos instrumentos mais importantes da cooperação  internacional voltada à preservação do patrimônio histórico e ambiental. Até 2026, a  Lista do Patrimônio Mundial reunia mais de 1.200 sítios distribuídos em diversos  países, constituindo um verdadeiro inventário dos bens mais relevantes do planeta  sob os aspectos histórico, artístico, científico, arquitetônico, arqueológico, paisagístico  e ambiental (UNESCO, 2026). 

A Convenção surgiu da percepção de que inúmeros bens de excepcional importância  estavam ameaçados por guerras, conflitos armados, crescimento urbano  desordenado, industrialização acelerada, turismo predatório, exploração econômica,  poluição e mudanças ambientais. Diante desses desafios, tornou-se evidente que  determinados monumentos, cidades históricas e áreas naturais possuíam relevância  tão significativa que sua preservação deveria ser considerada uma responsabilidade  da humanidade como um todo (UNESCO, 1972). 

A Convenção definiu duas grandes categorias de patrimônio: 

Patrimônio Cultural, compreendendo: 

• monumentos arquitetônicos; 

• conjuntos urbanos históricos; 

• sítios arqueológicos; 

• paisagens culturais; 

• obras de engenharia de excepcional valor histórico; 

• bens representativos da criatividade humana (UNESCO, 1972). Patrimônio Natural, abrangendo: 

• parques nacionais; 

• reservas ecológicas; 

• áreas de elevada biodiversidade; 

• formações geológicas; 

• habitats naturais de espécies ameaçadas; 

• paisagens naturais de excepcional beleza cênica (UNESCO, 1972). 

Posteriormente, consolidou-se também a categoria dos bens mistos, que reúnem  simultaneamente valores culturais e naturais (UNESCO, 1972). 

Entretanto, nem todo bem histórico ou ambiental pode ser reconhecido como  Patrimônio Mundial. A UNESCO exige que o local possua aquilo que denomina Valor  Universal Excepcional (Outstanding Universal Value – OUV), ou seja, características  tão relevantes que transcendam os interesses nacionais e sejam consideradas 

patrimônio de toda a humanidade (UNESCO, 1972). Para ser incluído na Lista do  Patrimônio Mundial, o bem deve atender a pelo menos um dos dez critérios de  seleção estabelecidos pela Convenção, dos quais seis são aplicáveis a bens culturais  e quatro a bens naturais (UNESCO, 2024): 

Critérios culturais: 

1. Representar uma obra-prima do gênio criativo humano; 

2. Exibir uma importante interação de valores humanos, ao longo do tempo ou  dentro de uma área cultural do mundo, no que diz respeito a desenvolvimentos  na arquitetura ou tecnologia, nas artes monumentais, no planejamento urbano  ou no projeto paisagístico; 

3. Constituir um testemunho único ou, pelo menos, excepcional de uma tradição  cultural ou de uma civilização viva ou extinta; 

4. Ser um exemplo notável de um tipo de edifício, conjunto arquitetônico ou  tecnológico ou paisagem que ilustre uma ou mais etapas significativas da  história da humanidade; 

5. Ser um exemplo notável de um assentamento humano tradicional, uso da terra  ou do mar que seja representativo de uma cultura (ou culturas), ou da interação  humana com o meio ambiente, especialmente quando se tornou vulnerável sob  o impacto de mudanças irreversíveis; 

6. Estar direta ou tangivelmente associado a eventos ou tradições vivas, a ideias  ou crenças, a obras artísticas e literárias de notável significado universal  (UNESCO, 2024). 

Critérios naturais: 

7. Conter fenômenos naturais superlativos ou áreas de excepcional beleza natural  e importância estética; 

8. Ser exemplos notáveis que representem as principais etapas da história da  Terra, incluindo o registro da vida, processos geológicos significativos em  andamento no desenvolvimento das formas do relevo ou características  geomórficas ou fisiográficas significativas; 

9. Ser exemplos notáveis que representem processos ecológicos e biológicos  significativos e em andamento na evolução e no desenvolvimento de  ecossistemas terrestres, de água doce, costeiros e marinhos, bem como de  comunidades de plantas e animais; 

10.Abrigar os habitats naturais mais importantes e significativos para a  conservação in situ da diversidade biológica, incluindo aqueles que abrigam  espécies ameaçadas de valor universal excepcional do ponto de vista da  ciência ou da conservação (UNESCO, 2024). 

Atualmente, a Lista do Patrimônio Mundial reúne mais de 1.200 sítios distribuídos em  diversos países, constituindo um verdadeiro inventário dos bens mais relevantes do  planeta sob os aspectos histórico, artístico, científico, arquitetônico, arqueológico,  paisagístico e ambiental (UNESCO, 2026). 

Como um bem recebe o título de Patrimônio Mundial? 

O reconhecimento de um bem como Patrimônio Mundial não ocorre de forma  automática nem representa uma simples homenagem simbólica. Trata-se de um  processo técnico altamente rigoroso, fundamentado em estudos científicos,  avaliações multidisciplinares e cooperação internacional (UNESCO, 1972).

O procedimento inicia-se com o próprio Estado Parte da Convenção do Patrimônio  Mundial. Cada país elabora uma Lista Indicativa (Tentative List) contendo os bens  que futuramente poderão ser candidatos ao reconhecimento internacional. Somente  os bens previamente incluídos nessa lista podem apresentar candidatura oficial  (UNESCO, 2024). O Brasil, por exemplo, conta atualmente com 23 locais em sua  Lista Indicativa, aguardando avaliação para possível inscrição futura (IPHAN, 2024;  UNESCO, 2024). 

Após essa etapa, é elaborado um extenso dossiê técnico contendo informações  detalhadas sobre: 

• importância histórica; 

• autenticidade; 

• integridade; 

• estado de conservação; 

• pesquisas científicas realizadas; 

• legislação de proteção; 

• plano permanente de gestão; 

• estratégias de preservação; 

• monitoramento contínuo do bem (UNESCO, 2024). 

Esse material é encaminhado ao Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO, que o  submete à avaliação de organismos consultivos especializados. 

No caso dos bens culturais, a análise técnica é realizada pelo Conselho  Internacional de Monumentos e Sítios (International Council on Monuments and  Sites – ICOMOS). 

Quando se trata de patrimônio natural, a avaliação cabe à União Internacional para  a Conservação da Natureza (International Union for Conservation of Nature – IUCN)  (UNESCO, 1972). 

Os pareceres desses organismos são encaminhados ao Comitê do Patrimônio  Mundial, composto por representantes de 21 Estados Partes eleitos, que se reúne  anualmente para deliberar sobre as novas inscrições (UNESCO, 2024). Durante essa  avaliação, o Comitê verifica se o bem atende a pelo menos um dos dez critérios  oficiais estabelecidos pela Convenção, os quais incluem aspectos relacionados à  criatividade humana, importância histórica, intercâmbio cultural, testemunho de  civilizações, conservação da biodiversidade, processos geológicos, fenômenos  naturais e beleza paisagística (UNESCO, 1972; UNESCO, 2024). 

É importante destacar que o reconhecimento da UNESCO não é concedido a  pessoas, empresas, fundações, associações, academias, universidades ou órgãos  públicos. O título destina-se exclusivamente a bens materiais ou paisagens culturais e  naturais dotados de Valor Universal Excepcional (UNESCO, 1972). 

Esse esclarecimento possui grande importância, pois frequentemente surgem  interpretações equivocadas sobre a atuação da UNESCO, levando parte da  sociedade a acreditar que a organização concede certificados ou títulos honoríficos a  instituições privadas, o que não corresponde às normas estabelecidas pela  Convenção do Patrimônio Mundial (UNESCO, 1972). 

Atualmente, a Lista do Patrimônio Mundial reúne 1.273 sítios distribuídos em 173  países, refletindo a diversidade e a riqueza do legado cultural e natural da  humanidade (UNESCO, 2026).

Os Patrimônios Mundiais do Brasil 

O Brasil destaca-se internacionalmente pela extraordinária diversidade de seu  patrimônio histórico, artístico, arquitetônico, arqueológico, paisagístico e ambiental.  Essa riqueza cultural e natural encontra reconhecimento na Lista do Patrimônio  Mundial da UNESCO, na qual o país possui atualmente 26 sítios inscritos, distribuídos  entre bens culturais, naturais e mistos (UNESCO, 2026). 

Os bens culturais refletem diferentes períodos da formação histórica brasileira,  abrangendo desde o ciclo do ouro no período colonial até importantes realizações da  arquitetura moderna. Já os bens naturais evidenciam a diversidade dos biomas  nacionais, protegendo ecossistemas de relevância mundial e áreas de elevada  biodiversidade (IPHAN, 2024). 

Entre os principais sítios culturais reconhecidos encontram-se: 

• Cidade Histórica de Ouro Preto (MG) – primeiro bem brasileiro inscrito na Lista  do Patrimônio Mundial em 1980; 

• Centro Histórico de Olinda (PE); 

• Ruínas Jesuíticas de São Miguel das Missões (RS); 

• Centro Histórico de Salvador (BA); 

• Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG); • Brasília (DF) – considerada um dos mais importantes exemplos do urbanismo  modernista do século XX; 

• Centro Histórico de São Luís (MA); 

• Centro Histórico de Diamantina (MG); 

• Centro Histórico da Cidade de Goiás (GO); 

• Praça de São Francisco, em São Cristóvão (SE); 

• Rio de Janeiro: Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar (RJ); • Conjunto Moderno da Pampulha (MG); 

• Cais do Valongo (RJ) – importante marco da memória da diáspora africana; • Sítio Roberto Burle Marx (RJ); 

• Complexo do Ver-o-Peso (PA) – inscrito em 2026, representando a arquitetura  e o patrimônio portuário da Amazônia; 

Teatros da Amazônia – reconhecidos como Patrimônio Mundial Cultural pela  UNESCO em julho de 2026, sob candidatura conjunta do Teatro Amazonas  (Manaus, AM) e do Theatro da Paz (Belém, PA), símbolos da arquitetura e da  cultura da região amazônica no século XIX 

• Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) – sítio arqueológico com registros  de ocupação humana pré-histórica (IPHAN, 2024; UNESCO, 2026). 

No patrimônio natural destacam-se: 

• Parque Nacional do Iguaçu (PR) – famoso por suas cataratas; • Complexo de Conservação da Amazônia Central (AM); 

• Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal (MT, MS); 

• Reservas da Mata Atlântica da Costa do Descobrimento (BA, ES); • Reservas do Sudeste da Mata Atlântica (SP, PR, RJ); 

• Ilhas Atlânticas Brasileiras: Fernando de Noronha e Atol das Rocas (PE); • Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA) – incorporado à Lista em  2024; 

• Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (MG) – inscrito em 2025; • Zonas Protegidas do Cerrado: Parques Nacionais da Chapada dos Veadeiros e  das Emas (GO) (IPHAN, 2024; UNESCO, 2026).

O único sítio misto (cultural e natural) do Brasil é: 

• Paraty e Ilha Grande (RJ) – inscrito em 2019 (UNESCO, 2026). 

Cada um desses sítios representa uma parte essencial da identidade brasileira e  demonstra que a história nacional não se limita aos monumentos construídos pelo ser  humano, abrangendo também a riqueza de seus ecossistemas, paisagens naturais e  manifestações culturais. 

A importância do reconhecimento internacional 

A inscrição de um bem na Lista do Patrimônio Mundial representa muito mais do que  um reconhecimento honorífico. Trata-se de um compromisso internacional assumido  pelo Estado responsável, que passa a desenvolver políticas permanentes de  preservação, monitoramento e gestão do patrimônio reconhecido (UNESCO, 1972). 

O título fortalece a cooperação entre os países, amplia a visibilidade internacional do  bem e favorece o intercâmbio científico entre universidades, centros de pesquisa e  organismos especializados em conservação (UNESCO, 2024). 

Além disso, o reconhecimento impulsiona o turismo cultural e ecológico, gerando  oportunidades de desenvolvimento econômico sustentável para comunidades locais.  A valorização do patrimônio frequentemente estimula investimentos em infraestrutura,  restauração, educação patrimonial, formação profissional e pesquisas científicas  (IPHAN, 2024). 

Outro aspecto relevante consiste na possibilidade de acesso à cooperação técnica  internacional e, em determinadas circunstâncias, ao Fundo do Patrimônio Mundial,  destinado a apoiar ações de preservação em locais ameaçados (UNESCO, 1972). 

Todavia, o reconhecimento também amplia a responsabilidade dos governos e da  sociedade civil. Um bem inscrito pode, inclusive, ser incluído na Lista do Patrimônio  Mundial em Perigo caso enfrente riscos decorrentes de conflitos, degradação  ambiental, urbanização descontrolada ou má gestão (UNESCO, 2024). 

Assim, o título da UNESCO representa simultaneamente um reconhecimento  internacional e um compromisso permanente de preservação. 

Patrimônio e cidadania 

A preservação do patrimônio mundial não depende exclusivamente das instituições  governamentais. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada entre poder  público, universidades, pesquisadores, museus, escolas, organizações da sociedade  civil e toda a população (UNESCO, 1972). 

Nesse contexto, destaca-se a importância da educação patrimonial, entendida como  um conjunto de ações destinadas a aproximar a sociedade de seu patrimônio histórico  e cultural. Conhecer a história de uma cidade, compreender a importância de um  monumento ou reconhecer o valor de uma área natural fortalece o sentimento de  pertencimento e incentiva atitudes voltadas à conservação desses bens (IPHAN,  2024). 

O patrimônio constitui um elemento essencial da identidade coletiva. Monumentos,  edifícios históricos, centros urbanos antigos, parques nacionais e paisagens culturais 

contam a trajetória das sociedades, preservando referências fundamentais para a  construção da memória nacional. 

Da mesma forma, a cidadania plena pressupõe o reconhecimento do patrimônio como  bem público, cuja preservação interessa a toda a coletividade. Quando a população  participa da valorização e da proteção desses espaços, fortalece-se a democracia  cultural e amplia-se o compromisso social com a conservação da herança histórica e  ambiental. 

Nesse sentido, escolas, universidades, instituições culturais e meios de comunicação  desempenham papel estratégico na difusão do conhecimento sobre o patrimônio,  formando cidadãos conscientes da importância de preservar os bens que  representam a história da humanidade. 

Considerações Finais 

A criação da UNESCO representou um dos mais importantes avanços da cooperação  internacional no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Ao reconhecer que a  paz depende não apenas de acordos políticos, mas também da valorização da  educação, da ciência, da cultura e da memória histórica, a organização consolidou um  modelo inovador de proteção do patrimônio mundial (UNESCO, 1945). 

A Convenção do Patrimônio Mundial de 1972 estabeleceu um marco jurídico  internacional para a conservação de bens culturais e naturais dotados de Valor  Universal Excepcional, promovendo uma rede global de cooperação voltada à  preservação da herança comum da humanidade (UNESCO, 1972). 

O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário ao reunir atualmente 26 sítios  inscritos na Lista do Patrimônio Mundial, representativos da diversidade histórica,  arquitetônica, artística, arqueológica, paisagística e ambiental do país (UNESCO,  2026). Entre os mais recentes, destacam-se o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu  (MG, 2025), o Complexo do Ver-o-Peso (PA, 2026) e os Teatros da Amazônia  (AM/PA, 2026), estes últimos reconhecidos como Patrimônio Mundial Cultural em  julho de 2026 (IPHAN, 2024; UNESCO, 2026). Esses reconhecimentos demonstram a  riqueza do patrimônio brasileiro e reforçam a necessidade de políticas públicas  permanentes de conservação, pesquisa científica, turismo sustentável e educação  patrimonial. 

Além de destacar os benefícios do reconhecimento internacional, este estudo buscou  esclarecer um aspecto frequentemente mal compreendido pela sociedade: a  UNESCO não concede títulos honoríficos a pessoas físicas, associações, fundações,  academias ou outras instituições (UNESCO, 1972). Sua atuação está voltada ao  reconhecimento e à proteção de bens culturais, naturais e mistos que possuam Valor  Universal Excepcional, conforme os critérios estabelecidos pela Convenção de 1972  (UNESCO, 1972; UNESCO, 2024). 

Preservar o patrimônio mundial significa preservar a própria história da humanidade.  Cada cidade histórica, monumento, parque nacional ou paisagem cultural inscrita na  Lista do Patrimônio Mundial representa um testemunho da criatividade humana, da  diversidade cultural e da riqueza natural do planeta (UNESCO, 1972). A proteção  desses bens constitui um dever coletivo e uma demonstração de respeito às gerações  passadas, presentes e futuras.

Dessa forma, a atuação da UNESCO permanece essencial para fortalecer a  cooperação entre as nações, incentivar a cultura da paz e assegurar que o patrimônio  da humanidade continue a inspirar conhecimento, identidade, diálogo intercultural e  desenvolvimento sustentável em escala global (UNESCO, 2024). 

Referências Bibliográficas 

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Patrimônio Mundial.  Brasília: IPHAN, 2024. Disponível em: [site oficial do IPHAN].  

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Lista Indicativa a  Patrimônio Mundial. Brasília: IPHAN, 2022. Disponível em: [site oficial do IPHAN].  

CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. 

FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra C. A. Patrimônio Histórico e Cultural. Rio de  Janeiro: Zahar, 2003. 

UNESCO. Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência  e a Cultura. Paris: UNESCO, 1945. 

UNESCO. Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural. Paris:  UNESCO, 1972. 

UNESCO. Operational Guidelines for the Implementation of the World Heritage  Convention. Paris: UNESCO, 2024. Disponível em: [whc.unesco.org].  

UNESCO. World Heritage List. Paris: UNESCO, 2026. Disponível em: [whc.unesco.org].

Alexandre Rurikovich Crvalho

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farão parte da mostra

Mostra sobre as línguas indígenas do Brasil ocupará o Hall Ségur de 14 a 26 de março

A exposição Nhe’ẽ Porã: memória e transformação chega a Paris para uma curta temporada no Hall Ségur da sede da UNESCO, entre 14 e 26 de março. A mostra, originalmente montada no Museu da Língua Portuguesa, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, destaca a diversidade das línguas e as histórias de resistência dos povos indígenas no Brasil. Na capital francesa, a exposição estará em cartaz durante o encontro do Conselho Executivo da UNESCO, que reunirá representantes de 58 Estados-membros e 195 observadores de todo o mundo. 

Com curadoria da artista indígena e mestre em Direitos Humanos Daiara Tukano, a exposição Nhe’ẽ Porã: memória e transformação marcou o início das celebrações da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032) no Brasil, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) e coordenada pela UNESCO em todo o mundo.  

A mostra em Paris conta com patrocínio do Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores, e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Tem articulação e patrocínio do Instituto Cultural Vale e cooperação da UNESCO. Nhe’ẽ Porã: memória e transformação é realizada pelo Museu da Língua Portuguesa, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo. 

Além da exposição, acontecerá o evento Línguas Indígenas da América do Sul: memória e transformação no prestigioso Collège de France, no dia 15 de março. O ciclo de debates é organizado pelo Laboratoire d’Anthropologie Sociale (LAS), Collège de France, e pelo Museu da Língua Portuguesa, com patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), da Embaixada da França no Brasil, da Comissão Francesa para a UNESCO e do Instituto Cultural Vale. Conta, ainda, com o apoio do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (USP), da Embaixada do Brasil na França. 

“A cultura não existe sem a diversidade, por isso essa mostra é tão importante. Reconhecemos a relevância de celebrar as múltiplas experiências no panorama cultural e exportar nossa rica herança para que outros lugares conheçam um pouco mais da nossa história”, declara a secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, Marilia Marton. 

Nhe’ẽ Porã: memória e transformação propõe um mergulho na história, memória e realidade atual das línguas dos povos indígenas do Brasil. A exposição busca mostrar outros pontos de vista sobre os territórios materiais e imateriais, histórias, memórias e identidades desses povos, trazendo à tona suas trajetórias de luta e resistência, assim como os cantos e encantos de suas culturas.  

O título da exposição vem da língua Guarani Mbya: nhe’ẽ significa espírito, sopro, vida, palavra, fala; e porã quer dizer belo, bom. Juntos, os dois vocábulos significam “belas palavras”, “boas palavras” – ou seja, palavras sagradas que dão vida à experiência humana na terra.  

O projeto contou com a participação de cerca de 50 profissionais indígenas, entre artistas plásticos, cineastas, acadêmicos, educadores e influenciadores digitais. Além da curadoria de Daiara Tukano, tem cocuradoria da antropóloga Majoí Gongora; consultoria especial de Luciana Storto, linguista especialista no estudo de línguas indígenas; em diálogo com a curadora especial do Museu da Língua Portuguesa, Isa Grinspum Ferraz. 

“A língua é uma parte fundamental de quem somos. É um veículo de expressões humanas e um meio fundamental para que as pessoas tenham acesso à cultura, à justiça e à educação. A UNESCO tem o prazer de sediar esta exposição dedicada aos povos indígenas e suas línguas, aumentando a conscientização sobre suas culturas e resiliência contra todas as adversidades”, afirma o diretor-geral adjunto de Cultura da UNESCO, Ernesto Ottone R. 

“A exposição Nhe’ẽ Porã marcou o início do desenvolvimento do eixo temático sobre línguas indígenas no Museu da Língua Portuguesa. Trata-se de aprofundar as pesquisas e realizar ações continuadas com foco na influência das línguas dos povos originários no português do Brasil. A mostra destaca a perspectiva multilíngue, a diversidade e a urgência de preservação das milhares de línguas autóctones faladas no Brasil e em todo o mundo. A exposição, que chega à sede da UNESCO em Paris, celebrando a Década Internacional das Línguas Indígenas; e o colóquio internacional no Collège de France, com especialistas indígenas e não indígenas, demarcam a excelência da mostra e a grande relevância do tema hoje”, afirma Renata Motta, diretora executiva do Museu da Língua Portuguesa. 

Nhe’ẽ Porã é uma exposição necessária e urgente. Ela possibilita, àqueles que a visitam, aprofundar-se no universo dos povos originários brasileiros: são mais de 267 povos, falantes de mais de 150 línguas diferentes. Ao articularmos e apoiarmos a realização da exposição junto ao Museu da Língua Portuguesa e à UNESCO, contribuímos para significar ainda mais a Década Internacional das Línguas Indígenas. A itinerância de Nhe’ẽ Porã dá sequência ao movimento de circulação da exposição em 2024, possibilitando que mais pessoas conheçam sobre os povos originários e, assim, reflitam sobre diferentes formas de criar, viver e conviver”, diz o diretor presidente do Instituto Cultural Vale, Hugo Barreto. 

“A exposição Nhe’ẽ Porã: memória e transformação é uma oportunidade de aproximação do público internacional à diversidade brasileira e às potencialidades dos povos indígenas. Nosso objetivo é que o mundo conheça a riqueza cultural e produtiva abrigada nas nossas florestas. Produtos como açaí, cacau, castanhas, óleos essenciais e artesanato indígena, frutos de tradições milenares, podem ser consumidos internacionalmente, configurando uma alternativa à exploração predatória, que contribui para a manutenção da floresta em pé”, afirma Jorge Viana, presidente da ApexBrasil. 

“O colóquio internacional ‘Línguas indígenas da América do Sul: memória e transformação’, a ser realizado no Collège de France, com o apoio da FAPESP, reveste-se de grande importância, pois está inserido nas celebrações da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032). Além disso, ele integra o conjunto de iniciativas que a Fundação apoiará para fazer dessa década um marco nos estudos e na preservação das línguas indígenas faladas no Brasil”, comenta Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP. 


A exposição na sede da UNESCO
 
Para ocupar o Hall Ségur, foi pensado um recorte especial da exposição original, com destaque para obras e pesquisas realizadas exclusivamente para a mostra. Na entrada da exposição, os visitantes vão passar por uma instalação composta por árvores, desenhadas por Daiara Tukano e feitas de tecido, que representam as grandes famílias linguísticas faladas pelos povos indígenas no Brasil, podendo ouvir registros sonoros de línguas das famílias Tupi, Macro-Jê, Pano, Aruak, Karib e Tukano e das línguas isoladas Arutani e Yaathe.  

O mapa Terra de muitos cantos – famílias linguísticas originárias das Américas ilustra o continente americano de uma forma incomum, de cabeça para baixo, destacando, portanto, a América do Sul. O mapa apresenta a localização das centenas de línguas faladas até hoje na região. A obra foi produzida especialmente para a exposição a partir do cruzamento de várias fontes de pesquisa sobre línguas indígenas na região. 

A instalação visual Chuva de Palavras – projeção de um poema de Daiara Tukano traduzido para várias línguas indígenas, com vídeo mapping desenvolvido pelo Estúdio Bijari – também estará presente. 

Haverá a exibição da animação Resistência Indígena, também de autoria da curadora em parceria com Estúdio Bijari, que denuncia o impacto da colonização no Brasil desde 1500 sobre as línguas originárias. A obra associa os conflitos e perseguições sofridos pelos povos indígenas com o desaparecimento de suas línguas, até os dias de hoje, em que restaram 175 ainda faladas no Brasil.    

O espaço apresentará, ainda, a obra audiovisual Marcha dos Povos Indígenas, sob direção do cineasta Kamikia Kisêdjê, e uma linha do tempo que traz à tona históricos de contato, violência e conflito decorrentes da invasão dos territórios indígenas desde o século 16 até a contemporaneidade. A linha do tempo também ressalta as transformações das línguas indígenas, destacando a resiliência, a riqueza e a multiplicidade das formas de expressão dos povos indígenas. 

Uma experiência interativa com a versão virtual de Nhe’ẽ Porã: memória e transformação, conforme montada em São Paulo, estará disponível no Hall Ségur para o público conhecer mais sobre a exposição original, que ficou em cartaz de outubro de 2022 a abril de 2023, no Museu da Língua Portuguesa, atraindo mais de 189.000 visitantes.  

A exposição viajante 
Em 2024 no Brasil, a exposição também está sendo exibida no Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém) até 28 de julho e passará, ainda, pelo Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro) e o Centro Cultural Vale Maranhão (São Luís). O projeto original contou com articulação e patrocínio máster do Instituto Cultural Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet – e parceria do Instituto Socioambiental, Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Museu Paraense Emílio Goeldi e Museu do Índio da FUNAI. 

O colóquio no Collège de France  
A passagem da exposição pela França será associada ao colóquio internacional Línguas indígenas da América do Sul: memória e transformação, a ser realizado no dia 15 de março no Collège de France, uma das mais importantes instituições de pesquisa da França. O encontro é organizado pelo Museu da Língua Portuguesa, a USP e o Laboratório de Antropologia Social (LAS) do Collège de France, com parceria da FAPESP e presença do presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago. 

Das 9h às 18h, pesquisadores e interessados no tema línguas indígenas poderão participar de mesas redondas com a presença de Daiara Tukano;  de Altaci Rubim Corrêa Kokama e Joziléia Kaingang, integrantes  da delegação do Ministério dos Povos Indígenas; de Fernanda Kaingang, diretora do Museu Nacional dos Povos Indígenas; de Mairu Hakuwi Kuady, pós-graduando em Direitos do povo Karajá; de Clarisse Taulewali da Silva, artista do povo Kali’na e representante da Jeunesse Autochtone de Guyane (JAG); de Phillipe Descola, professor emérito do Collège de France e um dos principais nomes da antropologia da sua geração; além de renomados antropólogos do LAS e outras universidades francesas como Andrea-Luz Gutierrez-Choquevilca, Pierre Déléage, Emmanuel de Vienne, Cédric Yvinec e Capuciine Boidin; e Majoí Gongora e Luciana Storto, pesquisadoras da Universidade de São Paulo.  

O evento será aberto e gratuito a todos os públicos, sem a necessidade de inscrição prévia, sujeito à lotação da sala onde ocorrerão as mesas redondas. 

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Sobre o Museu da Língua Portuguesa 
Localizado na Estação da Luz, no centro de São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa tem como tema o patrimônio imaterial que é a língua portuguesa e faz uso da tecnologia e de suportes interativos para construir e apresentar seu acervo. O público é convidado para uma viagem sensorial e subjetiva, apresentando a língua como uma manifestação cultural viva, rica, diversa e em constante construção.  

O Museu da Língua Portuguesa é um equipamento da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, concebido e implantado em parceria com a Fundação Roberto Marinho. O IDBrasil Cultura, Esporte e Educação é a Organização Social de Cultura responsável pela sua gestão.  

Instituto Guimarães Rosa – MRE  
O Instituto Guimarães Rosa (IGR) é a unidade do Ministério das Relações Exteriores responsável pela diplomacia cultural brasileira. O conceito de diplomacia cultural empregado pelo governo brasileiro refere-se à promoção do interesse nacional no campo da política externa por meio de ações nos campos da cultura, da educação e da língua portuguesa no exterior.  

Como parte de suas atribuições voltadas à promoção da vertente brasileira da língua portuguesa no exterior, as unidades do IGR promovem atividades para comunidades brasileiras residentes em outros países, como cursos de Português como língua de herança para expatriados. Também oferecem cursos de língua portuguesa para estrangeiros e aplicam o exame CELPE-Bras, destinado à comprovação da proficiência no idioma português do Brasil. Além disso, as unidades do IGR oferecem cursos de dança, música, culinária e artes plásticas, entre outras atividades ligadas à promoção da cultura brasileira. 

ApexBrasil 
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) tem como missão impulsionar as exportações de produtos e serviços do Brasil no mercado internacional, além de atrair investimentos estrangeiros para setores estratégicos da economia do país. A montagem da exposição Nhe’ẽ Porã: memória e transformação, em Paris, está alinhada com um dos objetivos atuais da Agência: promover internacionalmente a cultura e os produtos das florestas brasileiras, que geram desenvolvimento sustentável para as comunidades locais. 

A ApexBrasil tem desenvolvido uma série de iniciativas para levar pouco da biossociodiversidade brasileira para o mundo, valorizando os produtos e os povos que mantêm a floresta em pé.  Em 2023 um grupo de compradores internacionais foi convidado a conhecer os produtores de alguns alimentos nativos, como açaí, cacau e castanhas. O Exporta Mais Amazônia gerou mais de R$ 50 milhões em negócios, que serão reinvestidos na região.  Cuidar da Amazônia também passa por valorizar os produtos sustentáveis que geram prosperidade para quem vive e cuida desse patrimônio da humanidade. 

Instituto Cultural Vale 
O Instituto Cultural Vale acredita que a cultura transforma vidas. Por isso, patrocina e fomenta projetos em parcerias que promovem conexões entre pessoas, iniciativas e territórios. Seu compromisso é contribuir com uma cultura cada vez mais acessível e plural, ao mesmo tempo em que atua para o fortalecimento da economia criativa. 

Desde a sua criação, em 2020, o Instituto Cultural Vale já esteve ao lado de mais de 800 projetos em 24 estados e no Distrito Federal, contemplando as cinco regiões do país. Dentre eles, uma rede de espaços culturais próprios, patrocinados via Lei Federal de Incentivo à Cultura, com visitação gratuita, identidade e vocação únicas: Memorial Minas Gerais Vale (MG), Museu Vale (ES), Centro Cultural Vale Maranhão (MA) e Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (PA). Onde tem Cultura, a Vale está.  

Visite o site do Instituto Cultural Vale: institutoculturalvale.org 

SERVIÇO  
Exposição itinerante Nhe’ẽ Porã: memória e transformação – Paris 
No Hall Ségur, na sede da UNESCO (7 place de Fontenoy 75007) 
De 14 a 26 de março  
De segunda a sexta-feira, das 9h às 18h 
Grátis 

Tela pintada por Daiara Tukano para a exposição Nhe'ẽ Porã: Memória e Transformação
Foto: Gabriel Barrera
Tela pintada por Daiara Tukano para a exposição Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação

Instalação "Chuva de Palavras" estará na exposição em Paris
Foto: Gabriel Barrera
Instalação ‘Chuva de Palavras’ estará na exposição em Paris

Obra de Paulo Desana faz parte da exposição
Obra de Paulo Desana faz parte da exposição

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