Pietro CostaImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69cb1414-d2c4-83e9-be4b-9c076a87eb45
No peito humano, arde a chama inquieta, As beligerâncias são relâmpagos tardios, Mas a paz, conforme nascente pura e reta, Há de eclodir em silêncio sobre pátios frios.
Erguem-se muros alicerçados na vaidade, Estrugem mísseis como trovões sem lume; Porém, a paz, com sua alvinitente claridade, Tece límpidos horizontes no tear do costume.
É a ponte que transpassa os vendavais, O cântico que o desamor não alcança, O fruto que amadurece lá nos quintais da esperança, na qual o futuro balança.
Ó venturosa aurora, eterna e sem fronteira, flor plácida e impoluta, acima da destruição, seja nesse mundo insosso a seiva verdadeira, raízes rijas e porfiosas na alma e no coração.
* 2º lugar no Concurso Maria Firmina dos Reis 2025, tema ‘A Paz’, pelo Institut Cultive Suisse Brésil.
Osvaldo Manuel AlbertoImagem criada por IA do Grok
Vamos nos amar. Vamos nos amar para que a vergonha tenha vergonha de nos envergonhar
Vamos nos amar para que as lutas sejam colectivas e tornem-se mais fáceis de vencer.
Vamos nos amar para que a soberba diminua e a petulância se esvazie, para compreender que tudo é vaidade.
Vamos nos amar para que não precisemos de justificar nada, para que a empatia e a solidariedade não sejam objectos das redes sociais motivados por likes, que sejam naturais e refrescantes como a brisa do mar no entardecer.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para que a ciência se torne comum ao senso de todos os meros mortais, para que a pedra não pese sobre nós em forma de julgamento.
Vamos nos amar para que na presença ou na ausência os corações continuem verdejantes como a floricultura bem tratada.
Vamos nos amar para sentir menos dor, para ter paz, diluir qualquer peso que possa abalar a estrutura de uma consciência.
Vamos nos amar para que nem a dor, nem a doença e nem a morte possa importunar a criação dos nossos filhos. Mesmo quando o cerne é o corpo, em nada adianta proteger a carne quando o coração está em pedaços.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para juntos ultrapassarmos as intempéries calamitosas deste sistema, para juntos combatermos as armadilhas do passarinheiro. Para que a amizade perdure no tempo nessa caminhada efémera.
Vamos nos amar para evitar o empobrecimento da alma e o embrutecer do coração.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para não nos procurarmos quando já não é possível nos preocuparmos. Para evitar que morramos em vida. Para que a morte não signifique o fim, mas, tão somente, a etapa necessária que todos os seres viventes passarão.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para que ainda que um de nós parta, parta seguro de que ficará a saudade, as lembranças positivas e que nenhum peso abale a estrutura de uma consciência costurada pelo amor.
Vamos nos amar para demostrar segurança, não porque é desejo dos outros, mas porque o comando interno assim está programado.
Vamos nos amar para dar de beber quem tem sede, para criar uma barreira intransponível e ouvir os gritos do silêncio!
Virgínia Assunção: Crônica ‘O vestido preferido de Teresa’
Virgínia AssunçãoMicrosoft Bing – Criador de imagens do designer, da plataforma DALL-E3
Dona Tereza é uma mulher virtuosa, mãe dedicada, dona de casa prendada, cozinheira de mão cheia, daquelas comidinhas caseiras, que são as melhores que têm. Ela morava em uma bela casa, muito grande com um quintal gostoso, com muitas plantas, um pé de mangueira, a casinha dos dois cachorros; um perdigueiro e um dobermann.
No final dos anos 1970, que foi quando se passou essa história, ela ainda não tinha máquina de lavar, tinha uma pessoa que ia duas vezes por semana para ajudá-la nas tarefas domésticas. Porém, o fato de não ter máquina de lavar, não a incomodava, pois uma das coisas que ela mais gostava de fazer era lavar roupa na bela lavanderia que o marido construiu para ela.
No fundo da casa tinha também um pequeno apartamento, bem bonitinho, feito para a sua mãe, dona Dalva, para que ela tivesse a privacidade necessária. Todas as vezes que dona Tereza ia lavar as roupas, a sua mãe sentava-se ao seu lado para ficarem ouvindo rádio, cantando, conversando e sorrindo, sorriam sem parar, o tempo todo.
Dona Tereza sempre foi vaidosa, sempre! Já está idosa, mas até hoje não deixa de andar arrumadinha e sempre cheirosa, mesmo dentro de casa.
Nesse dia em especial, ela estava com um vestido, já surradinho, mas que ela amava muito e ficava se sentindo, segundo ela, toda vez que o usava. Principalmente, porque ela pedia a opinião da mãe sempre que vestia qualquer roupa e a resposta nunca deixava de ser positiva.
Naquela manhã ensolarada e feliz de um dia qualquer nos anos 70, dona Tereza estava lá fazendo o que mais gostava: lavar roupa. Toda bonitinha, com o vestido com o qual ela achava que a deixava mais bonita ainda. A sua mãe, silenciosa, ouvindo a filha cantar e observando tudo, num momento de profunda sinceridade, que acredito que só as mães têm; disse:
– Minha filha, você é toda bonitinha, fica bonitinha com qualquer roupa, mas esse vestido não deixa você muito bem, não. Se eu fosse você, não usava mais ele.
Dona Tereza não acreditava no que ouvia:
– O quê? O quê mamãe? Eu ouvi direito? Eu não fico bem nesse vestido? Não! Não, meu Deus! Não posso acreditar! Não! Eu não estou ouvindo isso. Não pode ser.
Dona Tereza tem o perfil muito brincalhão, apesar da idade, sempre faz graça de tudo e quando isso aconteceu ela fez o maior drama; pegou toda a roupa que estava ensaboada e jogou no chão, revoltada com a revelação tardia da mãe. Enquanto isso, a sua mãe estava quase tendo uma síncope de tanta rir. E dona Tereza continuou com o drama:
– Meu Deus, depois de tanto tempo achando que eu estava abafando, o vestido já está velho e a senhora agora vem me dizer que eu não fico bem, não posso acreditar que a minha própria mãe fez isso comigo…Não, não, não!
Dona Dalva estava engasgada de tanto rir…
Dona Tereza se retirou e para completar o drama, voltou com o vestido cortado pela cintura, vestida só com a parte de cima e de calcinha; fez uma blusa e jogou a outra metade do vestido no meio do quintal.
– Mamãe, não quero mais sua opinião! Ainda tem alguma roupa que a senhora disse que fico linda e não é verdade? Fale agora para que eu corte tudo! Mulher, eu confiei tanto na senhora, perguntei mil vezes se estava bem com esse vestido; a senhora deixou ele ficar velho para me dizer que fico feia nele… Agora eu vou terminar de lavar a roupa assim, de calcinha e com o resto do vestido. Inacreditável o que a senhora fez comigo e ainda fica rindo de mim.
– Vá vestir uma roupa, Tereza! Seu marido chega já com os meninos da escola.
Dona Dalva conseguiu balbuciar, pois não tinha forças de tanto rir.
– Não vou! Quando perguntarem o que aconteceu, vou dizer o que a senhora fez comigo.
Dona Dalva, não conseguia falar mais nada, afogada no próprio riso.