Avaliação imobiliária do indizível

Clayton Alexandre Zocarato

‘Avaliação imobiliária do indizível’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Toda arquitetura nasce de um erro cometido pela matéria ao acreditar que o vazio necessita de paredes. Antes da primeira pedra já existia a ruína; antes da fundação já havia a poeira esperando pacientemente pela sua vitória. O mundo nunca foi um lugar habitável, apenas um contrato assinado entre o silêncio e a decomposição. Chamaram de realidade aquilo que apenas resistia por alguns instantes ao colapso inevitável, como um edifício sustentado por cálculos elaborados por vermes. 

Desde então tudo passou a possuir um preço, inclusive aquilo que jamais poderia ser comprado: o peso da ausência, a umidade do esquecimento, a espessura daquilo que nunca chegou a existir. Inventou-se uma corretora para negociar o invisível, um cartório destinado a registrar a posse do impossível, uma escritura lavrada com tinta feita de dias perdidos. A partir desse momento o indizível tornou-se propriedade de ninguém e patrimônio daquilo que jamais aprenderia a desaparecer completamente.

Existe uma metragem secreta que nenhuma geometria alcança. Ela mede a distância entre o pensamento que nasce e aquele que morre antes de ser pronunciado. Não pertence ao espaço, mas ao fracasso do espaço em conter aquilo que o ultrapassa. Cada centímetro desse terreno invisível possui o peso de séculos inteiros de expectativas abandonadas. É uma terra estéril onde florescem apenas possibilidades abortadas. Não existe horizonte porque toda linha termina antes de começar. Não existe profundidade porque o abismo também possui medo de cair em si mesmo.

O primeiro avaliador do indizível descobriu tarde demais que não havia levado instrumentos suficientes. As réguas quebravam ao tocar aquilo que não tinha extensão. As balanças recusavam qualquer tentativa de pesar uma ausência. Os mapas transformavam-se em superfícies lisas onde todas as direções coincidiam com o mesmo ponto imóvel. 

A bússola passou a girar sem descanso, não por desorientação, mas por compreender que qualquer escolha seria igualmente falsa. Foi então que surgiu a suspeita mais ofensiva: talvez o universo inteiro não passasse de uma tentativa frustrada de localizar um endereço inexistente.

Cada parede visível escondia uma parede impossível. Cada teto ocultava outro teto construído sobre o medo de não existir nenhum acima dele. Cada porta conduzia ao interior de uma pergunta incapaz de formular a si mesma. Nenhum cômodo permanecia igual depois de observado. As dimensões alteravam-se não porque crescessem ou diminuíssem, mas porque desistiam de obedecer às leis que haviam recebido da matéria. A física revelava-se apenas uma superstição compartilhada por átomos excessivamente disciplinados.

As janelas jamais serviram para contemplar o exterior. Foram abertas para permitir que o nada respirasse lentamente dentro das construções. A claridade nunca entrou; foi o escuro que aprendeu a parecer luminoso por alguns instantes. Chamaram esse fenômeno de manhã. Mais tarde deram-lhe o nome de esperança. Em seguida perceberam que ambos significavam exatamente o mesmo equívoco.

A escritura do universo foi redigida sobre papel molhado. Cada palavra dissolveu-se antes que pudesse significar alguma coisa. Restaram apenas manchas interpretadas como leis naturais. A metafísica nasceu dessa umidade. Não procurava explicar o ser, mas justificar a permanência de um documento cuja tinta desaparecera antes da leitura. Toda ontologia tornou-se uma perícia realizada sobre ruínas que nunca estiveram inteiras.

Há imóveis abandonados cuja única função consiste em hospedar ecos futuros. São edifícios construídos para lembranças que ainda não fracassaram. Os corredores prolongam-se além da necessidade, como se procurassem alcançar um destino proibido pela própria extensão. As escadas sobem em direção ao peso. Os elevadores descem para alturas negativas. 

Os alicerces sustentam apenas o cansaço mineral de continuar sustentando. O concreto envelhece mais rapidamente quando percebe que nenhuma existência será capaz de justificar sua resistência.

A ferrugem compreendeu antes de todos que o tempo jamais existiu. Ela nunca corroeu metais; apenas revelou a verdadeira aparência das superfícies. Tudo sempre foi oxidação esperando pela ocasião adequada para retirar a máscara da permanência. A deterioração não destrói. Apenas informa que toda forma estava mentindo desde o princípio.

Existe um mercado clandestino onde são negociadas propriedades inexistentes. Vendem-se terrenos situados entre dois pensamentos interrompidos. Comercializam-se apartamentos edificados sobre arrependimentos nunca experimentados. Escritórios ocupam o interior de palavras que não suportaram nascer. Nenhuma transação produz lucro, prejuízo ou consequência. O capital ali acumulado consiste exclusivamente na quantidade de ilusões que conseguiram sobreviver ao conhecimento da própria inutilidade.

O absurdo não é um acidente da razão. É sua planta baixa definitiva. Durante séculos acreditou-se que a lógica ocupava os andares superiores enquanto a loucura permanecia confinada ao porão. 

A inspeção revelou precisamente o contrário. A razão era apenas um elevador quebrado transportando equívocos de um pavimento para outro. O edifício inteiro havia sido erguido sobre um terreno onde a coerência nunca recebeu autorização para construir.

Todo cálculo conduz inevitavelmente ao mesmo resultado: uma cifra composta apenas por espaços em branco. Não se trata do zero. O zero ainda possui a dignidade de representar alguma ausência determinada. O branco absoluto nem sequer alcança esse privilégio.

É uma falência anterior ao número, uma insolvência da própria possibilidade de contar. O universo acumula déficits de realidade desde antes de sua inauguração.

A avaliação prossegue porque não pode terminar. Não existe laudo suficiente para concluir aquilo cuja matéria consiste justamente na impossibilidade de ser delimitada. Cada conclusão acrescenta novos cômodos ao edifício do impensável. Cada certeza inaugura mais um corredor onde nenhuma saída será permitida. 

A perícia transforma-se lentamente na própria construção que pretendia examinar. O avaliador desaparece dentro da avaliação, a medida dissolve o instrumento, o objeto torna-se proprietário daquilo que tentava possuí-lo.

No final, quando todas as plantas arquitetônicas forem reduzidas ao pó que sempre anteciparam, descobrir-se-á que o indizível jamais foi o imóvel avaliado. Era o único comprador possível.

Tudo o mais — a matéria, a linguagem, a metafísica, o vazio, a esperança, a decomposição e a própria ideia de existir — constituía apenas a mobília descartável de uma casa condenada antes mesmo da invenção do primeiro alicerce, onde cada parede sustentava apenas a lenta evidência de que o universo inteiro nunca passou da mais cara e inútil especulação imobiliária realizada pelo nada contra si mesmo.

A documentação do indizível jamais permaneceu arquivada no mesmo lugar. Os registros deslocavam-se por iniciativa própria, como se recusassem a testemunhar qualquer estabilidade. 

Toda certidão envelhecia antes da assinatura. As datas nasciam fossilizadas. O calendário era apenas um cemitério onde dias ainda não vividos aguardavam exumação. Chamaram de futuro a decomposição antecipada de um passado que insistia em não terminar. Chamaram de memória a infiltração produzida por um tempo incapaz de sustentar seu próprio peso.

A cronologia transformou-se em uma doença da linguagem, e toda biografia converteu-se numa sucessão de rachaduras abertas sobre um terreno que nunca suportou o primeiro passo.

A avaliação encontrou então um subsolo que não figurava em planta alguma. Não estava abaixo da construção, mas abaixo da própria ideia de profundidade. Era uma camada onde o espaço esquecia sua obrigação de estender-se. 

Ali toda distância implodia até adquirir espessura suficiente para esmagar qualquer tentativa de localização. Não havia direção. Não havia centro. Tampouco existia periferia. Apenas uma massa imóvel de ausência comprimida sobre si mesma, semelhante àquilo que permaneceria depois da destruição completa da possibilidade de existir destruição.

O silêncio revelava uma arquitetura mais sofisticada do que qualquer linguagem. Não era a falta de som, mas o excesso de tudo aquilo que nenhuma palavra suportaria transportar. Cada frase pronunciada equivalia a uma demolição parcial dessa construção invisível. 

Falar era cometer vandalismo contra aquilo que jamais solicitara interpretação. O idioma foi, desde o princípio, uma retroescavadeira contratada para nivelar montanhas feitas exclusivamente de mistério. Nunca conseguiu terminar o serviço. Apenas espalhou destroços semânticos sobre uma superfície onde antes existia um vazio perfeitamente íntegro.

As fundações do mundo possuíam um defeito anterior à própria matéria. Não afundavam por desgaste, mas por vergonha. Nenhuma estrutura suporta indefinidamente o constrangimento de existir sem justificativa. 

Os pilares arqueavam-se lentamente diante da evidência de que sustentavam apenas a repetição de um equívoco cósmico. Cada coluna era uma vértebra pertencente ao cadáver de uma hipótese esquecida. Cada viga permanecia tensionada entre duas impossibilidades igualmente sólidas. A engenharia tornou-se a arte de distribuir fracassos de maneira simétrica.

Toda superfície escondia uma dívida ontológica impossível de quitar. O reboco encobria apenas a falência da pedra. A pedra ocultava a insolvência do mineral. O mineral mascarava a ruína do elemento. O elemento escondia a falência da própria existência. Escavar nunca conduziu à origem; conduziu apenas a camadas sucessivas de inadimplência metafísica. Quanto mais profunda a investigação, maior a certeza de que nenhuma fundação havia sido completamente paga.

A luz começou a apresentar fissuras. Não se tratava de eclipses, sombras ou qualquer fenômeno óptico. A própria claridade dava sinais de exaustão. Tornava-se opaca por compreender que iluminava apenas corredores destinados à decomposição. Sua fadiga espalhava-se pelas superfícies como um fungo invisível. Os objetos deixavam de refletir porque já não viam sentido em continuar distinguindo-se do vazio. A luminosidade tornou-se um aluguel atrasado cobrado por um proprietário inexistente.

As linhas retas passaram a desconfiar da própria direção. Curvavam-se discretamente, não obedecendo à gravidade, mas ao cansaço. Nenhuma geometria resiste por muito tempo ao conhecimento de que todo ângulo desemboca inevitavelmente na mesma inutilidade

O círculo era apenas uma resignação elegante. O quadrado escondia quatro arrependimentos simultâneos. O triângulo constituía o esforço desesperado da matéria para convencer-se de que três fracassos seriam mais estáveis do que um.

Foi então que surgiu uma rachadura impossível. Não atravessava paredes, mas conceitos. A fissura dividia cada certeza em duas metades igualmente falsas. Nenhuma ideia sobrevivia inteira ao contato com ela. A verdade fragmentava-se antes mesmo de adquirir consistência suficiente para ser negada. O erro já não precisava combater a razão. Bastava esperar. Toda convicção acabava espontaneamente transformando-se em entulho epistemológico.

A propriedade do vazio entrou em litígio consigo mesma. As fronteiras começaram a mover-se durante a ausência de qualquer observação. Terrenos desapareciam sem serem destruídos. Outros surgiam onde nunca houvera espaço disponível. 

As escrituras tornaram-se inúteis porque os limites recusavam qualquer compromisso com a permanência. A cartografia descobriu que sempre desenhara apenas cicatrizes sobre um organismo incapaz de possuir pele.

Nenhuma janela oferecia paisagem. Do outro lado existia apenas outra janela, voltada para outra abertura idêntica, repetindo-se indefinidamente até que o horizonte se transformasse numa sucessão infinita de molduras vazias enquadrando a ausência de qualquer exterior. A contemplação revelou-se um circuito fechado. Nunca houve mundo para além do olhar; havia somente o reflexo interminável da expectativa de encontrá-lo.

A poeira começou a adquirir densidade filosófica. Já não era resíduo da deterioração, mas substância primordial. Talvez tudo tivesse surgido dela e apenas fingisse possuir outra composição. 

Cada partícula carregava consigo fragmentos de edifícios nunca construídos, monumentos jamais sonhados e civilizações abortadas pela própria impossibilidade. Respirar tornou-se um lento processo de incorporação de ruínas anteriores à criação.

O absurdo recusava qualquer definição porque toda definição representava um cercamento. Cercar é domesticar. Domesticar é diminuir. O absurdo jamais aceitou dimensões administráveis.

Expandia-se precisamente onde tentavam compreendê-lo. Tornava-se mais ilegível quanto mais cuidadosamente era descrito. Alimentava-se da inteligência destinada a capturá-lo. Cada sistema filosófico que pretendia encerrá-lo acabava servindo apenas como mais um cômodo em sua propriedade ilimitada.

A existência começou então a parecer um imóvel colocado à venda por um corretor que jamais possuíra autorização para negociar. O anúncio prometia solidez, permanência e valor de mercado. 

A vistoria encontrou apenas infiltrações ontológicas, rachaduras lógicas, colunas corroídas pela contingência e telhados incapazes de proteger contra a chuva do nada. Nenhum comprador apresentou proposta. Nem mesmo o vazio desejava assumir a responsabilidade por tamanho passivo metafísico.

Toda tentativa de restauração agravava a decadência. Reparar significava acrescentar novas camadas de ilusão sobre uma superfície que implorava pelo colapso definitivo. 

A conservação revelou-se a forma mais sofisticada de destruição. Preservar consiste em prolongar artificialmente a agonia das formas. A ruína, ao contrário, sempre foi sincera. Nunca prometeu estabilidade. Apenas cumpriu rigorosamente o destino inscrito em cada molécula desde antes da primeira pedra imaginar tornar-se parede.

Ao final desta etapa da perícia tornou-se impossível distinguir o edifício da linguagem que o descrevia. Ambos apresentavam as mesmas rachaduras, os mesmos vazios estruturais, a mesma inclinação imperceptível em direção ao colapso. As palavras já não representavam a construção; haviam se tornado seus tijolos deteriorados. A leitura deixava de ser interpretação para converter-se em ocupação clandestina de um imóvel condenado, onde cada frase ameaçava desabar sobre a seguinte e onde toda conclusão permanecia interditada por uma única constatação irrecorrível: talvez o indizível nunca tenha sido aquilo que escapa às palavras, mas precisamente aquilo que as utiliza como escombros para continuar edificando o infinito fracasso de toda realidade.

A perícia tornou-se gradualmente indistinguível da doença que pretendia diagnosticar. Cada medição acrescentava novas irregularidades ao objeto medido. O cálculo produzia deformações cuja existência anterior jamais poderia ser comprovada. A exatidão revelou-se apenas uma superstição praticada por instrumentos incapazes de reconhecer a própria ferrugem. Nenhuma régua alcançou o comprimento do intervalo que separa uma coisa de sua inutilidade. Nenhuma balança suportou o peso acumulado por aquilo que nunca aconteceu. O resultado de toda aferição consistia apenas na ampliação daquilo que escapava à própria possibilidade de ser aferido.

As paredes começaram a adquirir comportamento mineralmente hostil. Não desabavam. Permaneciam de pé por uma forma de crueldade estrutural. A permanência era o método mais eficiente de deterioração. Cair representaria um encerramento digno; continuar existindo equivalia à condenação perpétua da matéria a sustentar o próprio esgotamento. Descobriu-se então que a solidez nunca foi sinônimo de força. Era apenas a incapacidade das ruínas de reconhecerem que já haviam terminado.

O teto perdeu sua função antes de perder sua forma. Continuava acima apenas por hábito. Não protegia contra nada porque o exterior já havia atravessado todas as superfícies possíveis. O céu infiltrara-se no interior da construção muito antes da primeira rachadura. 

Depois veio algo ainda mais silencioso que o céu: a ausência da necessidade de qualquer acima. A vertical deixou de possuir sentido. Alto e baixo dissolveram-se na mesma planície fenomenológica, onde toda direção desembocava em um idêntico esgotamento.

O chão revelou uma elasticidade impossível. Não afundava nem sustentava. Limitava-se a adiar a queda absoluta. Cada ponto de apoio era uma promessa que se desfazia antes de completar o próprio enunciado. 

Toda estabilidade dependia de um acordo secreto entre o peso e a desistência. Bastava que um deles revogasse o contrato para que a realidade inteira perdesse o equilíbrio que jamais possuíra.

A matéria começou a produzir ecos anteriores ao impacto. O ruído vinha antes da colisão. A consequência antecedia a causa. O efeito envelhecia enquanto o acontecimento ainda procurava autorização para existir. 

A causalidade revelou-se uma convenção burocrática criada para organizar o caos em arquivos mais facilmente consultáveis. Nada obedecia verdadeiramente à sequência. O universo funcionava por antecipações fracassadas e lembranças de fatos que nunca ocorreram.

Toda superfície passou a exalar um odor semelhante ao daquilo que permanece fechado há milênios dentro de uma linguagem abandonada. Não era cheiro de decomposição. A decomposição ainda pressupõe alguma vitalidade anterior. Tratava-se do perfume discreto daquilo que jamais encontrou ocasião para nascer. 

A inexistência também fermenta. Também amadurece. Também produz resíduos invisíveis que se acumulam lentamente sobre o pensamento até torná-lo irreconhecível para si mesmo.

As medidas oficiais da realidade sofreram sucessivas desvalorizações. O metro perdeu extensão. O segundo deixou de durar. A massa tornou-se uma opinião provisória dos minerais. A temperatura converteu-se na melancolia experimentada pelos átomos durante o lento processo de abandonar a crença em sua própria consistência. 

As unidades permaneceram impressas nos tratados científicos, mas seu conteúdo evaporou sem deixar vestígios. Toda ciência passou a contabilizar ausências utilizando instrumentos fabricados pela nostalgia da precisão.

A propriedade entrou em estado de falência metafísica. Não havia credores porque ninguém jamais possuíra legitimidade suficiente para reivindicar posse sobre qualquer fragmento do vazio. 

Também não existiam devedores. A dívida pertencia exclusivamente ao ato de existir. Cada parede devia ao nada a matéria que havia tomado emprestada. Cada sombra devia à luz o privilégio temporário de parecer escura. Cada silêncio devia à linguagem o favor de nunca precisar justificá-la.

A avaliação alcançou uma sala cuja porta não poderia ser aberta porque nunca estivera fechada. Ali nenhuma dimensão permanecia constante. O espaço respirava lentamente, expandindo-se durante aquilo que poderia ser chamado de esquecimento e contraindo-se toda vez que uma ideia tentava estabelecer residência. 

Nenhuma permanência sobrevivia naquele ambiente. Até a ausência parecia desconfortável consigo mesma. O vazio apresentava sinais inequívocos de saturação.

As linhas arquitetônicas começaram a escrever frases sobre o concreto. Não utilizavam letras, mas inclinações quase imperceptíveis. O edifício transformou-se em um manuscrito mineral cuja leitura exigia o abandono completo da expectativa de compreender. 

Cada fissura era uma sílaba pronunciada pela erosão. Cada desnível correspondia a um verbo recusando a conjugação. As colunas declinavam substantivos inexistentes. As vigas articulavam uma gramática destinada exclusivamente ao colapso.

A ruína deixou de representar um estágio da construção para revelar-se como sua verdadeira condição permanente. Tudo nasce em estado avançado de desaparecimento. 

A infância das coisas consiste apenas em sua incapacidade de perceber a velocidade com que se aproximam do próprio fim. O envelhecimento não acrescenta decadência; apenas remove a maquiagem aplicada pela expectativa.

O tempo nunca destruiu absolutamente nada. Apenas retirou sucessivas camadas de equívoco.

O indizível começou então a apresentar rachaduras internas. Nem mesmo aquilo que escapa completamente à linguagem permaneceu íntegro. Existia um desgaste anterior ao próprio mistério. 

Uma erosão atingindo o incomunicável antes mesmo de qualquer tentativa de comunicá-lo. A transcendência revelou-se igualmente vulnerável à fadiga. O absoluto possuía infiltrações. O infinito apresentava mofo em suas extremidades. A eternidade acumulava poeira sobre superfícies onde jamais deveria existir superfície alguma.

Foi nesse ponto que a avaliação deixou de procurar valor. Toda valoração pressupõe alguma possibilidade de troca. Mas o indizível não poderia ser vendido porque ninguém suportaria recebê-lo. Sua posse equivaleria ao desaparecimento imediato da diferença entre proprietário e propriedade. 

Aquilo que pertence ao impossível transforma automaticamente em impossível tudo aquilo que tenta pertencê-lo. O mercado inteiro dissolveu-se diante dessa incompatibilidade fundamental. Restou apenas a cotação do nada, variando incessantemente entre o vazio absoluto e um vazio ainda mais profundo, como se até mesmo a ausência fosse capaz de perder valor.

Então compreendeu-se que a construção nunca ocupou terreno algum. Era o terreno que havia sido lentamente produzido pela insistência da construção em fracassar. Não existia solo anterior às ruínas. Não existia fundamento anterior ao desmoronamento. 

A própria ideia de origem revelava-se apenas mais um cômodo interditado de um edifício condenado desde antes da possibilidade de receber qualquer nome.

E aquilo que durante todo esse tempo parecera um laudo técnico aproximava-se silenciosamente de sua verdadeira natureza: uma escritura lavrada pela própria inexistência para oficializar a aquisição definitiva de tudo aquilo que jamais teve autorização para ser.

A escritura começou lentamente a rejeitar o papel sobre o qual havia sido inscrita. As palavras desprendiam-se da superfície como reboco abandonando uma parede demasiadamente antiga para continuar fingindo integridade. 

Nenhuma letra aceitava permanecer ao lado da seguinte. As frases desfaziam-se antes de alcançar qualquer sentido, não porque fossem incompreensíveis, mas porque compreender passou a significar um tipo particularmente refinado de destruição.

Todo significado representa uma amputação praticada contra aquilo que poderia permanecer ilimitado. Nomear é demolir. Explicar é reduzir. Conhecer é retirar do mistério a última possibilidade de permanecer inteiro.

O próprio vazio começou a apresentar sintomas de fadiga. Durante incontáveis permanências sustentara silenciosamente a arrogância das formas, aceitando receber aquilo que continuamente desabava sobre ele. Agora, entretanto, demonstrava sinais inequívocos de saturação. 

Nem mesmo a ausência possui capacidade infinita para acolher aquilo que fracassa. Há um instante em que o nada também se torna insuficiente para conter o excesso de inexistência produzido pelas coisas.

As rachaduras já não obedeciam à mineralidade. Cruzavam conceitos, atravessavam hipóteses, fragmentavam sistemas inteiros de pensamento. A metafísica revelou fissuras invisíveis pelas quais escorria lentamente tudo aquilo que durante séculos fora chamado de essência. 

O ser não desaparecia; evaporava. Sua evaporação não deixava resíduos. Restava apenas um odor semelhante ao da pedra molhada por uma chuva que jamais ocorreu.

Toda permanência revelou uma textura inesperadamente orgânica. As paredes respiravam um ar inexistente. Os corredores dilatavam-se como veias congestionadas por uma circulação impossível. 

As colunas pulsavam discretamente sob o peso de uma gravidade anterior à própria matéria. Nada estava vivo. Mas tudo havia adquirido o cansaço característico daquilo que permaneceu demasiadamente próximo da existência durante tempo suficiente para ser contaminado por ela.

A geometria perdeu completamente sua inocência. Os ângulos tornaram-se suspeitos de conspirar contra a estabilidade que fingiam garantir. As linhas paralelas aproximavam-se lentamente umas das outras, não para encontrar-se, mas para confessar que jamais haviam suportado permanecer separadas pelo infinito.

O círculo deixou de fechar-se sobre si mesmo. Em algum ponto imperceptível abria-se uma fresta por onde escapava aquilo que nenhum cálculo havia previsto: a inutilidade da perfeição.

As medidas sofreram um colapso silencioso. O comprimento passou a depender da intensidade do esquecimento. O volume variava conforme a quantidade de silêncio acumulado em cada superfície. 

O peso tornou-se proporcional ao número de perguntas abandonadas sem resposta. Toda física converteu-se numa jurisprudência precária destinada a regulamentar acidentes,  entre inexistências incompatíveis.

O concreto envelhecia para dentro. Sua superfície permanecia aparentemente intacta enquanto seu interior era lentamente substituído por uma substância que não possuía composição, densidade ou qualquer propriedade identificável. 

Não era oco. O vazio ainda constitui uma condição. Aquilo era anterior até mesmo à possibilidade de faltar alguma coisa. Um espaço onde nem sequer a ausência conseguia estabelecer residência.

As portas continuavam abertas porque esqueceram completamente a diferença entre abrir e fechar. Os limites perderam a autoridade necessária para separar um lado do outro. Interior e exterior fundiram-se na mesma falência espacial. Não havia acesso. Não havia saída. Existia apenas uma circulação imóvel onde cada deslocamento retornava imediatamente ao ponto de onde jamais partira.

A deterioração tornou-se extremamente discreta. Já não atacava paredes, metais ou pedras. Corroía possibilidades. 

Cada hipótese envelhecia antes de completar sua formulação. Toda conclusão surgia arqueológica. A novidade aparecia coberta pela poeira de milênios inexistentes. O futuro assumira definitivamente a aparência de um fóssil escavado no interior de um presente incapaz de acontecer.

O silêncio revelou um comportamento ainda mais ofensivo. Não permanecia entre os sons. Habitava dentro deles. Cada ruído carregava consigo uma região muda infinitamente maior do que sua própria duração. 

Escutar significava apenas aproximar-se da enorme quantidade de silêncio escondida em qualquer manifestação. A linguagem inteira passou a funcionar como uma delicada película estendida sobre um oceano absolutamente imóvel.

A avaliação aproximava-se de um resultado impossível. Não porque faltassem dados, mas porque havia informação em excesso. Cada fragmento da construção continha todas as ruínas simultaneamente. 

Cada partícula reproduzia integralmente o colapso do conjunto. O detalhe tornara-se maior que a totalidade. O fragmento recusava a condição de parte. A soma revelou-se muito menor que qualquer uma de suas frações.

Foi então que a própria inexistência pareceu estremecer. Não se tratava do surgimento de alguma coisa, mas do esgotamento daquilo que nunca chegou a surgir. Como se até mesmo o nada pudesse experimentar uma lenta erosão produzida pelo peso de sustentar interminavelmente o fracasso do universo. Havia fadiga antes do ser. Havia decomposição antes da matéria. Havia ruína antes da possibilidade de qualquer arquitetura.

A perícia já não examinava um imóvel, um conceito ou uma hipótese. Examinava a lenta desintegração da própria condição de haver algo examinável. Cada palavra utilizada no laudo era imediatamente confiscada pelo indizível e devolvida completamente vazia, semelhante a uma chave fabricada para uma fechadura que jamais admitiu possuir porta.

Restava apenas a persistência mecânica do exame, continuando não por esperança de alcançar uma conclusão, mas porque até o encerramento havia sido condenado a permanecer eternamente inacabado, como um edifício cuja única finalidade consistia em impedir que a última pedra descobrisse que sempre pertenceu à primeira ruína.

Não havia mais qualquer diferença perceptível entre a deterioração da construção e a deterioração da ideia de construção. Ambas passaram a ruir com a mesma lentidão mineral, como se obedecessem a uma fadiga anterior ao próprio conceito de permanência. 

A matéria deixara de ser uma substância para converter-se em um adiamento. Tudo aquilo que aparentava consistência não passava de um atraso cuidadosamente organizado entre o nascimento impossível e a decomposição inevitável. O universo inteiro revelou-se uma burocracia administrando prazos para o desaparecimento.

As superfícies adquiriram uma característica inédita: recusavam a proximidade. Aproximar-se delas significava apenas aumentar a distância. Quanto mais curta parecia a separação, maior se tornava o intervalo ontológico entre aquilo que observava e aquilo que era observado. 

Nenhum contato ocorreu desde o princípio. Toda experiência sensível consistiu apenas na convivência simultânea de solidões incapazes de alcançar umas às outras. A matéria nunca tocou a matéria. 

A luz jamais encontrou os objetos. O pensamento nunca atravessou a própria espessura. A existência inteira aconteceu dentro de uma sucessão de desencontros suficientemente bem organizados para serem confundidos com realidade.

As paredes começaram a produzir sombras sem depender de claridade alguma. Eram sombras autônomas, anteriores à luz e independentes da escuridão. Não ocultavam formas.

Ocultavam possibilidades. Cada sombra apagava uma existência que jamais chegaria a acontecer. Assim o imóvel aumentava continuamente, não pela construção de novos espaços, mas pelo acúmulo de tudo aquilo que deixava de existir antes de nascer. A verdadeira expansão sempre pertenceu ao fracasso.

Descobriu-se que a arquitetura possuía uma anatomia invisível composta exclusivamente por hesitações. Toda coluna era sustentada por uma dúvida. Todo arco dependia de uma incerteza perfeitamente equilibrada. 

Toda fundação repousava sobre a incapacidade absoluta da matéria em decidir se deveria continuar existindo.

Os edifícios nunca permaneceram de pé graças aos cálculos; sustentaram-se porque o colapso também desconhecia a direção para onde deveria cair.

A erosão começou a consumir aquilo que jamais possuíra superfície. A abstração envelhecia. Os conceitos apresentavam infiltrações. As ideias acumulavam ferrugem em regiões onde nenhuma metáfora alcançava. 

Até mesmo o indizível passou a exibir discretos sintomas de desgaste. Sua incomunicabilidade tornou-se menos intensa, não porque estivesse mais próximo da linguagem, mas porque até o mistério sofrera a lenta abrasão provocada pelo excesso de permanecer oculto. Nada suporta infinitamente a própria condição.

O silêncio modificou novamente sua natureza. Já não ocupava os intervalos entre as palavras; passou a instalar-se dentro das sílabas. Cada vocábulo transformou-se em um edifício construído ao redor de um núcleo absolutamente mudo. 

Falar consistia em revestir esse núcleo com camadas sucessivas de ruído, como quem cobre uma ruína milenar com tinta fresca para ocultar sua idade. A linguagem inteira converteu-se em restauração mal executada.

A avaliação prosseguia sem finalidade. Não porque ignorasse seu objetivo, mas porque compreendera que toda finalidade constitui uma superstição temporal. Os fins pressupõem trajetórias. 

As trajetórias exigem movimento. O movimento depende da ilusão de que alguma coisa muda de lugar. Entretanto, nenhum deslocamento jamais ocorreu. 

O universo permaneceu imóvel desde antes da possibilidade de ser criado. Apenas o desgaste se movimentava, e mesmo ele caminhava em círculos cujo centro permanecia vazio.

As plantas arquitetônicas começaram a envelhecer mais rapidamente que as ruínas que descreviam. O desenho antecedia a deterioração porque toda representação nasce mais frágil do que aquilo que pretende representar. 

Os traços apagavam-se espontaneamente, como se o papel recusasse participar da mentira segundo a qual as formas poderiam conservar uma identidade. Restavam manchas. Depois nem mesmo as manchas aceitavam permanecer.

O próprio cálculo do valor tornou-se obsceno. Avaliar pressupõe equivalência, mas nada era equivalente ao indizível. Nem a perda, nem a ausência, nem o esquecimento, nem o nada conseguiam oferecer parâmetro suficiente.

O indizível não possuía preço porque já havia consumido a possibilidade de qualquer economia. Sua riqueza consistia precisamente na impossibilidade absoluta de ser comparado. Toda medida era humilhada pela simples proximidade de sua existência impossível.

Então ocorreu a mais discreta das catástrofes: o imóvel começou lentamente a esquecer que era imóvel. Suas paredes perderam a memória da verticalidade. Os corredores esqueceram para onde conduziam. As portas abandonaram a lembrança de terem sido passagens. As janelas esqueceram completamente a existência de qualquer lado externo. O edifício mergulhou numa amnésia mineral tão profunda que sua própria ruína deixou de reconhecer aquilo que um dia acreditara destruir.

A poeira, até então silenciosa, revelou-se a única testemunha fiel. Não porque registrasse acontecimentos, mas porque sobrevivia igualmente à presença e à ausência deles. Cada partícula transportava fragmentos de futuros demolidos antes da inauguração. 

Sobre ela repousavam cidades nunca erguidas, templos nunca profanados, casas jamais habitadas e sepulturas destinadas a cadáveres que não receberam autorização para existir. A poeira era mais antiga que a origem e mais recente que o último desaparecimento.

Restava apenas o laudo. Contudo, o laudo já não descrevia o imóvel. Descrevia a lenta inviabilidade da própria descrição. Cada frase anulava a anterior. Cada conclusão dissolvia seu fundamento. 

O texto transformava-se em um edifício feito exclusivamente de demolições sucessivas. Quanto mais avançava, menos permanecia escrito. As palavras desapareciam sem apagar-se, como se compreendessem finalmente que sua maior fidelidade ao indizível consistia em abandonar voluntariamente qualquer pretensão de significar.

Foi nesse abandono que a avaliação atingiu seu ponto mais preciso. Não encontrou um valor. Encontrou a impossibilidade definitiva de qualquer valor sobreviver diante daquilo que jamais pertenceu ao domínio do ser. 

O imóvel não estava condenado porque iria desaparecer. Estava condenado porque jamais conseguira nascer inteiramente.

Toda sua existência consistira em uma interminável aproximação do próprio fracasso, e toda realidade revelou-se apenas o ruído produzido por essa aproximação interminável, semelhante ao ranger de uma estrutura infinita sustentada apenas pela obstinação daquilo que insiste em não admitir que sempre foi, ruína antes mesmo de imaginar a primeira pedra.

A partir de um instante que jamais pôde ser distinguido de todos os outros, o imóvel deixou de conservar qualquer cumplicidade com a matéria. As paredes permaneceram apenas como uma lembrança daquilo que a pedra imaginara ser antes de descobrir a fadiga de sustentar significados. 

Os alicerces transformaram-se em remorsos geológicos. As vigas tornaram-se nervuras de um organismo cuja morte antecedera a própria anatomia. Nada ali se encontrava destruído, porque a destruição exige um passado íntegro, e nunca houve integridade suficiente para justificar semelhante privilégio. 

Existia somente uma sucessão de aproximações fracassadas da forma, uma tentativa infinita de alcançar uma consistência que continuamente se desfazia no exato momento em que parecia possível.

A arquitetura revelou sua natureza mais antiga: não era a ciência da construção, mas a liturgia do adiamento. Cada edifício consistia em um ritual destinado a retardar a evidência de que toda matéria deseja regressar à indiferença absoluta. 

As colunas não sustentavam tetos; retardavam o instante em que o vazio retomaria aquilo que nunca deixara de lhe pertencer. 

As paredes jamais dividiram espaços; apenas administraram provisoriamente a circulação da inexistência. As janelas nunca permitiram ver o exterior; ensinaram o interior a acreditar na fábula de que algo pudesse permanecer além de si mesmo.

Então o próprio conceito de interior dissolveu-se. Nenhum recinto possuía um dentro, porque toda interioridade depende da crença em um limite. E os limites haviam desertado silenciosamente da geometria. 

Cada contorno perdera sua autoridade, cada fronteira tornara-se uma lembrança burocrática de uma ordem espacial que jamais existira. Tudo se confundia não por expansão, mas por esgotamento. A diferença cansara de diferenciar.

As superfícies começaram a envelhecer em direção inversa. Não retornavam ao estado original; aproximavam-se de um estágio anterior à possibilidade de possuir origem.

A pedra regredia para além do mineral. O concreto esquecia o cimento. O ferro abandonava lentamente a memória do fogo.

Cada substância descia por uma escada ontológica onde cada degrau removia não uma camada de tempo, mas uma camada de ser. No último patamar já não permanecia qualquer elemento reconhecível, apenas uma espessura muda, incapaz até mesmo de ser chamada de vazio.

O silêncio assumiu uma consistência mineral. Não era ouvido. Era suportado. Pesava sobre cada frase como uma laje sepulcral colocada sobre a linguagem ainda viva. Toda palavra surgia esmagada antes de alcançar a superfície da voz. 

O idioma inteiro passou a parecer uma escavação realizada dentro de um túmulo cujo cadáver nunca aceitara morrer completamente. Falar converteu-se na arqueologia de uma ausência infinitamente mais antiga que a memória.

As medidas desapareceram sem produzir escândalo. O universo continuou aparentando dimensões, mas elas já não correspondiam a qualquer extensão. O comprimento tornou-se uma superstição óptica. A profundidade, uma nostalgia da queda. 

A altura, um preconceito da gravidade. Nada podia ser localizado porque toda localização pressupõe um espaço capaz de permanecer fiel às próprias coordenadas. Entretanto, o espaço desertara de si mesmo. Cada direção caminhava lentamente para uma desorientação anterior ao movimento.

A avaliação insistia em registrar o que já não possuía registro possível. O laudo adquiria a aparência de um documento escrito por uma caligrafia que desconhecia completamente o alfabeto. 

As frases não descreviam; escavavam. Cada período abria um novo abismo dentro daquilo que restava da linguagem. Não havia mais distinção entre argumento e erosão. Pensar consistia apenas em remover sucessivas camadas de estabilidade até que o próprio pensamento cedesse sob o peso daquilo que revelava.

O imóvel passou a emitir uma espécie de luminosidade negativa. Não iluminava. Retirava claridade das coisas ao redor. Toda proximidade era imediatamente empobrecida pela sua presença. 

As formas perdiam contorno, os conceitos perdiam precisão, as certezas perdiam substância. 

Não era uma influência. Era uma fome metafísica. Uma arquitetura construída para alimentar-se da possibilidade de existir qualquer diferença entre ser e desaparecer.

Então a própria ruína pareceu envergonhar-se de sua condição. Compreendeu que até ela pressupunha uma história demasiado generosa. 

A ruína ainda conserva vestígios. Ainda preserva relações entre aquilo que caiu e aquilo que permaneceu. Mas ali nem mesmo o vestígio sobrevivia. 

O desaparecimento havia ultrapassado a destruição e alcançado uma região onde toda memória do objeto era apagada antes que pudesse transformar-se em lembrança. Restava somente uma sensação de perda cuja origem fora cuidadosamente eliminada.

Foi nesse ponto que a avaliação deixou definitivamente de procurar qualquer resposta. As perguntas também haviam adoecido. Interrogar significava admitir a possibilidade de uma solução escondida em algum lugar do real. Contudo, o real revelara-se incapaz de ocultar qualquer coisa. Sua pobreza era absoluta. 

Não escondia mistérios; escondia apenas o fato de jamais ter possuído mistério algum. A transcendência mostrou-se tão exausta quanto a, matéria. O absoluto apresentou sinais inequívocos de desgaste. A eternidade envelheceu sem que o tempo tivesse participado desse processo.

Assim o imóvel permaneceu, não como objeto, nem como metáfora, tampouco como alegoria, mas como a mais perfeita demonstração de que toda existência talvez constitua apenas uma perícia interminável realizada sobre um patrimônio inexistente, um inventário redigido antes da abertura do espólio, uma escritura lavrada para registrar a posse de um território que sempre pertenceu ao silêncio anterior ao nascimento da própria possibilidade de haver qualquer coisa digna de ser chamada de mundo.

Ao aproximar-se do encerramento da avaliação, tornou-se evidente que nenhum encerramento seria admissível. Concluir pressupõe que alguma coisa permaneça suficientemente inteira para receber um ponto final, mas ali toda inteireza havia sido consumida muito antes da primeira palavra pretender descrevê-la. O laudo aproximava-se de seu término apenas porque a linguagem começava a desmoronar sob o peso daquilo que insistira inutilmente em medir. Não era o indizível que resistia à escrita; era a escrita que finalmente reconhecia sua incapacidade de sobreviver ao contato prolongado com aquilo que jamais aceitara transformar-se em significado.

As últimas superfícies abandonaram discretamente a condição de superfície. Não desapareceram. Tornaram-se incapazes de oferecer qualquer resistência ao olhar. A matéria já não possuía espessura suficiente para distinguir-se daquilo que a atravessava. O espaço deixou de conter volumes e passou a comportar apenas hesitações. Cada vazio apresentava fissuras internas por onde escapava uma ausência ainda mais antiga. Descobriu-se então que o nada também possuía profundidades, e que suas camadas inferiores jamais haviam recebido a visita de qualquer forma de existência.

O edifício inteiro começou a, esquecer o próprio fracasso. Durante toda a sua permanência sustentara a memória de um desmoronamento inevitável. Agora nem mesmo essa lembrança permanecia. 

A ruína dissolvia-se naquilo que antecede toda ruína: uma condição onde, nenhuma pedra chega a desejar transformar-se em parede, onde nenhum alicerce concebe a possibilidade de suportar peso, onde toda arquitetura permanece apenas como um rumor ainda incapaz de distinguir-se do silêncio absoluto.

A avaliação prosseguia mecanicamente, embora já não existisse objeto, critério ou avaliador. 

Permanecera apenas o procedimento, funcionando por uma espécie de inércia metafísica, semelhante ao movimento de engrenagens que continuam girando durante algum tempo depois de terem perdido completamente a máquina da qual faziam parte. 

A burocracia sobrevivia ao universo. Os formulários persistiam quando toda propriedade havia regressado à sua condição original de inapropriável. A assinatura aguardava um nome que jamais chegaria. A data permanecia em branco porque até o calendário havia desistido de organizar o desaparecimento.

A linguagem sofreu então sua última deformação. As palavras deixaram de significar não por insuficiência, mas por excesso. Cada vocábulo passou a conter todas as interpretações simultaneamente. Nenhuma delas prevalecia. O resultado não era riqueza semântica, mas colapso.

O sentido implodia dentro de si mesmo, esmagado pela infinidade de direções incompatíveis que tentavam ocupá-lo. Ler transformou-se numa experiência semelhante à de observar um edifício desabar infinitamente sem jamais alcançar o chão.

O silêncio, por sua vez, deixou de ser ausência de som para tornar-se ausência da própria necessidade de distinguir qualquer manifestação. Não havia mais diferença entre o ruído de uma pedra partindo-se e a quietude de uma eternidade completamente imóvel. 

Ambos pertenciam à mesma substância indiferente. A oposição entre presença e ausência revelou-se apenas um expediente provisório utilizado pela consciência enquanto ainda acreditava habitar algum lugar.

Foi nesse instante impossível de localizar que o imóvel perdeu definitivamente seu endereço. Não um endereço geográfico, mas ontológico. Deixou de situar-se no ser e também deixou de situar-se no não-ser. 

Passou a ocupar uma região onde nenhuma categoria alcançava autoridade suficiente para nomear o que quer que fosse. Nem mesmo o indizível permaneceu adequado. 

Havia algo ainda mais remoto do que aquilo que não pode ser dito: aquilo que jamais admitiu a possibilidade de existir para ser silenciado.

As últimas linhas do laudo começaram lentamente a apagar as primeiras. O documento escrevia-se ao mesmo tempo em que eliminava retrospectivamente sua própria origem. Cada frase anulava a anterior desde sempre. Cada palavra retirava do passado a justificativa para ter sido escrita.

A avaliação convertia-se em um manuscrito arqueológico de uma civilização que nunca alcançara a invenção da escrita. O texto tornava-se anterior ao alfabeto e posterior ao esquecimento.

Nenhuma conclusão restava possível. Conclusões pertencem aos edifícios terminados, às histórias encerradas, às ideias que ainda acreditam possuir contornos. Mas aquilo nunca constituiu um edifício, uma história ou uma ideia. 

Tratava-se apenas da lenta combustão do próprio conceito de realidade, queimando sem produzir calor, luz ou cinzas. 

A destruição havia alcançado um grau tão absoluto que deixara de produzir vestígios. O colapso tornara-se perfeitamente transparente.

Então até a inexistência começou a retirar-se de si mesma. O vazio abandonou sua função de vazio. O nada renunciou à responsabilidade de permanecer nada. A ausência exauriu a própria capacidade de ausentar. 

Não surgiu qualquer plenitude em seu lugar. Surgiu algo incomparavelmente mais inquietante: uma neutralidade anterior à oposição entre haver e faltar, uma região onde a metafísica jamais ousara construir porque ali até mesmo a impossibilidade parecia excessivamente afirmativa.

Restou apenas o título.

Mas o título já não nomeava obra alguma.

Nomeava unicamente o fracasso de toda tentativa de atribuir valor ao que nunca aceitou converter-se em propriedade da linguagem.

Avaliação Imobiliária do Indizível revelou-se, por fim, não como um documento, nem como uma narrativa, nem como um tratado, mas como o último expediente burocrático da própria inexistência, elaborado para registrar em cartório a falência definitiva do ser perante aquilo que o antecedeu, o atravessou e o sobreviverá sem jamais admitir que, em algum momento, tenha realmente existido qualquer realidade capaz de ser avaliada.

Clayton Alexandre Zocarato

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Inexprimível

Bruno Marquês Areno: Poema ‘Inexprimível’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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Se um dia precisei de coragem,
não foi para conquistar o mundo,
mas apenas para ser
o pouco que me cabia.

E falhei.

Falhei por descuido,
como quem deixa cair a própria vida
sem sequer ouvir o impacto.

Viver
não é senão a amarga doçura
de morrer lentamente.

Hoje, uma dor discreta.

Amanhã,
meia dúzia de sangues silenciosos
a correr por dentro,
sem testemunha.

Depois,
lágrimas em quantidade suficiente
para salgar o corpo inteiro
como se a tristeza
fosse o único modo de me conservar.

E então a voz cede.

Primeiro vacila.
Depois falha.
Por fim, esquece.

A boca desaprende o gemido.
E o gemido ainda que imperfeito,
ainda que desafinado
era o último instrumento
capaz de sustentar a dor.

Quando até isso se perde,
já não há tradução possível da dor .

E sem tradução,
a dor deixa de existir
porque deixa de ser dita.

E sem dor,

não há mais nada:
nem choro,
nem riso,
nem lágrima.

Nem sequer o corpo
para carregar o que resta de nós

Bruno Marquês Areno

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Topografia da ausência

Clayton Alexandre Zocarato: Ensaio Filosófico ‘Topografia da ausência’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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A primeira coisa que desapareceu não foi uma pessoa, nem um objeto, nem uma lembrança. Foi uma certeza.

Talvez você conheça essa sensação. Talvez não. Talvez esteja lendo estas linhas acreditando que ainda habita um mundo sólido, composto de fatos, identidades e significados estáveis. Mas responda com sinceridade: quantas das coisas que você chama de suas realmente permanecem? Quantas sobreviveram intactas à passagem dos anos? Quantas resistiram à lenta erosão do tempo?

A ausência começa assim.

Não como um acontecimento.

Como uma infiltração.

Ela entra pelos cantos invisíveis da existência e, pouco a pouco, corrói aquilo que parecia definitivo. Primeiro leva os rostos. Depois as vozes. Mais tarde os motivos. Por fim, quando já não resta quase nada, leva também as perguntas.

Foi numa dessas regiões silenciosas da vida que alguém despertou certa manhã e percebeu que havia esquecido uma coisa fundamental. Não sabia exatamente o quê. Talvez um acontecimento. Talvez um sentimento. Talvez a si mesmo.

Levantou-se e caminhou pela casa.

As paredes estavam onde sempre estiveram. As janelas continuavam abertas para a mesma rua. 

Os móveis guardavam a mesma disposição de décadas. Entretanto, tudo parecia deslocado por uma distância impossível de medir. Como se os objetos tivessem emigrado para dentro de si próprios.

Já aconteceu com você?

Olhar para uma fotografia antiga e sentir que a pessoa retratada é uma desconhecida?

Entrar no quarto onde passou a infância e perceber que as memórias não moram mais ali?

Ou pior: perceber que talvez nunca tenham morado.

Existe uma diferença profunda entre recordar e inventar. Contudo, quem é capaz de determinar onde termina uma coisa e começa a outra?

A memória é uma ficção escrita pelo sobrevivente.

E o sobrevivente é sempre suspeito.

Ao longo daquele dia, a sensação cresceu.

Havia uma ausência espalhada pelos cômodos.

Não a ausência de alguém específico.

A ausência daquilo que tornava todas as presenças possíveis.

Sentou-se diante da janela.

Lá fora, as pessoas atravessavam a rua carregando sacolas, compromissos, preocupações, destinos. Pareciam saber para onde iam. Pareciam compreender a lógica secreta que organiza a realidade.

Mas será que compreendiam?

Ou apenas repetiam movimentos herdados?

Quantas vidas são realmente vividas?

Quantas são apenas administradas?

Você já se perguntou isso?

Ou prefere continuar acreditando que existir e viver são sinônimos?

A tarde avançou lentamente.

O sol deslizava pelos telhados como uma moeda gasta rolando sobre uma mesa infinita.

Talvez a ausência não fosse uma falha da existência.

Talvez fosse sua arquitetura.

Talvez tudo o que existe estivesse construído sobre aquilo que falta.

O desejo nasce da ausência.

A esperança nasce da ausência.

A linguagem nasce da ausência.

Até o amor talvez seja apenas uma tentativa desesperada de preencher um espaço que jamais poderá ser preenchido.

Pense nisso.

Se fôssemos completos, amaríamos?

Se nada nos faltasse, desejaríamos?

Se estivéssemos inteiros, procuraríamos alguém?

Talvez não.

Talvez o ser humano seja apenas uma ferida que aprendeu a falar.

A noite chegou.

E com ela vieram os corredores.

Não os corredores da casa.

Os corredores da consciência.

Aqueles lugares escuros onde pensamentos esquecidos continuam andando de um lado para o outro como prisioneiros que perderam a memória do crime.

Lá dentro existiam portas.

Milhares delas.

Atrás de algumas havia lembranças.

Atrás de outras havia arrependimentos.

Muitas escondiam futuros que nunca aconteceram.

Você guarda quantos futuros mortos dentro de si?

Quantas versões da sua vida foram abandonadas pelo caminho?

Quantas cidades você não conheceu?

Quantas palavras não disse?

Quantos amores não viveu?

Há cemitérios inteiros dentro de cada pessoa.

Mas ninguém fala deles.

Porque o mundo prefere celebrar as realizações.

A ausência não vende livros de autoajuda.

A ausência não produz heróis.

A ausência não cabe nos discursos motivacionais.

Entretanto, ela está em toda parte.

Ela mora atrás dos olhos.

Respira entre duas frases.

Habita os espaços vazios das fotografias.

Talvez esteja lendo este texto junto com você.

Talvez seja ela quem move seus olhos neste exato instante.

A madrugada avançava.

O silêncio tornava-se cada vez mais espesso.

Então aconteceu algo estranho.

As paredes começaram a desaparecer.

Não fisicamente.

Metafisicamente.

Como se perdessem sua função.

Como se deixassem de separar dentro e fora.

Eu e mundo.

Sujeito e objeto.

Tudo parecia dissolver-se numa espécie de névoa ontológica.

Quem observava?

Quem era observado?

Onde terminava a consciência?

Onde começava a realidade?

As perguntas se multiplicavam.

Mas nenhuma resposta surgia.

E talvez fosse melhor assim.

As respostas costumam ser túmulos prematuros para perguntas importantes.

A humanidade construiu religiões para responder.

Construiu filosofias para responder.

Construiu ideologias para responder.

Entretanto, séculos depois, continua sentada diante do mesmo abismo.

Mudaram apenas os nomes.

O vazio permaneceu.

Você consegue suportar essa ideia?

A possibilidade de que não exista uma explicação final?

De que o universo não esconda uma mensagem secreta?

De que talvez o sentido não esteja esperando para ser encontrado?

Talvez precise ser inventado.

Ou talvez nem isso.

Talvez a obsessão pelo sentido seja apenas mais uma forma de medo.

Medo da ausência.

Medo do silêncio.

Medo daquilo que permanece quando todas as narrativas desmoronam.

Perto do amanhecer, surgiu uma visão.

Uma paisagem imensa.

Sem árvores.

Sem rios.

Sem montanhas.

Uma extensão infinita composta exclusivamente de vazios.

Como um mapa.

Uma cartografia do que não existe.

Uma topografia da ausência.

E então tornou-se evidente.

A vida inteira havia sido passada tentando preencher aqueles espaços.

Com trabalho.

Com dinheiro.

Com relacionamentos.

Com crenças.

Com memórias.

Com distrações.

Mas os espaços permaneciam.

Porque não haviam sido feitos para ser preenchidos.

E sim habitados.

Há uma diferença enorme entre eliminar o vazio e aprender a viver dentro dele.

A maioria das pessoas passa a existência inteira fugindo.

Correndo de compromisso em compromisso.

De tela em tela.

De ruído em ruído.

Como se o silêncio fosse um predador.

Como se a solidão fosse uma doença.

Como se a ausência fosse um erro.

Mas e se ela não for?

E se a ausência for justamente aquilo que nos torna humanos?

E se ela for o espaço onde nasce a liberdade?

Porque somente quem não está completo pode escolher.

Somente quem não está terminado pode transformar-se.

Somente quem não possui todas as respostas pode continuar procurando.

O sol começou a nascer.

Uma luz pálida atravessou a janela.

Nada havia mudado.

A casa continuava a mesma.

A rua permanecia igual.

Os objetos estavam onde sempre estiveram.

Entretanto, alguma coisa havia se deslocado.

Talvez a compreensão.

Talvez a ilusão.

Talvez apenas a forma de olhar.

A ausência continuava ali.

Mas agora possuía relevo.

Possuía profundidade.

Possuía geografia.

Já não era um inimigo.

Era uma paisagem.

E toda paisagem exige contemplação.

Você também carrega a sua.

Talvez a esconda atrás das tarefas diárias.

Talvez a disfarce com palavras bonitas.

Talvez a cubra com sucessos, projetos e promessas.

Mas ela está aí.

Esperando.

Não para ser vencida.

Não para ser curada.

Não para ser preenchida.

Esperando para ser reconhecida.

Porque, no final de todas as jornadas, depois que os amores partem, depois que os sonhos envelhecem, depois que os nomes desaparecem das lápides e as fotografias perdem suas cores, resta uma pergunta simples e terrível.

Quem somos quando tudo aquilo que nos definia se ausenta?

Talvez você passe a vida inteira procurando a resposta.

Talvez nunca a encontre.

Mas talvez a verdadeira questão não seja encontrar.

Talvez seja aprender a caminhar.

Atravessar os desertos interiores.

Escutar os ecos.

Habitar os vazios.

Ler os contornos invisíveis daquilo que falta.

E reconhecer, enfim, que a existência não é um território de presenças.

E, ainda assim, a travessia não termina quando se reconhece a paisagem.

Este é o engano mais antigo da consciência.

Acreditar que compreender uma ferida equivale a cicatrizá-la.

Não equivale.

Há conhecimentos que não libertam. Há revelações que apenas ampliam a extensão do horizonte. E todo horizonte ampliado carrega consigo uma quantidade ainda maior de desconhecido.

Foi isso que se descobriu depois.

A ausência não era apenas uma região da existência.

Era também um método.

Uma linguagem.

Uma forma pela qual o próprio real se manifestava.

Observe uma árvore.

Você dirá que ela existe porque vê seu tronco, seus galhos, suas folhas. Mas o que permite à árvore ser árvore não é apenas aquilo que aparece. São também os espaços invisíveis entre as raízes e a terra, entre as folhas e o vento, entre a matéria e o tempo.

Observe uma casa.

O que a torna habitável não são os tijolos.

São os vazios entre os tijolos.

Os corredores.

As portas.

As janelas.

Os espaços que podem ser atravessados.

Talvez o mesmo aconteça com a vida.

Talvez aquilo que somos não esteja contido apenas nas presenças que acumulamos, mas nos vazios que conseguimos sustentar sem desmoronar.

Você já pensou nisso?

Talvez sua identidade não seja formada pelas certezas que possui.

Talvez seja formada pelas ausências que aprendeu a carregar.

Há pessoas que nunca se recuperam de uma perda.

Não porque a perda seja insuportável.

Mas porque construíram a própria existência sobre a ilusão da permanência.

E nada permanece.

Nem mesmo esta frase.

No instante em que você a lê, ela já pertence ao passado.

No instante em que compreende seu significado, ela já começou a desaparecer.

Tudo escapa.

Tudo flui.

Tudo abandona silenciosamente aquilo que foi.

Talvez seja por isso que o ser humano inventou monumentos.

Livros.

Arquivos.

Museus.

Fotografias.

Não para preservar o passado.

Mas para negociar com o desaparecimento.

Toda memória é um tratado diplomático assinado com o esquecimento.

Toda lembrança é uma tentativa de retardar o inevitável.

Mas o inevitável possui uma paciência infinita.

Ele espera.

Sempre espera.

Há algo profundamente perturbador nisso.

O fato de que o universo não precisa nos destruir.

Basta aguardar.

O tempo faz o restante.

As cidades afundam.

Os idiomas morrem.

As civilizações tornam-se notas de rodapé.

Os amores transformam-se em nomes que ninguém mais pronuncia.

E até os deuses, quando esquecidos, acabam desaparecendo.

Você percebe a dimensão desse silêncio?

Pense em todas as pessoas que viveram antes de você.

Bilhões.

Respiraram.

Amaram.

Sofreram.

Planejaram futuros.

Temeram a morte.

Contemplaram o céu.

E agora?

Onde estão?

Talvez em lugar algum.

Talvez apenas nesta pergunta.

Talvez a verdadeira morada dos mortos não seja a terra.

Mas a ausência.

E talvez seja exatamente por isso que a ausência provoque tanto medo.

Porque ela nos lembra de nossa condição transitória.

Ela desmonta a fantasia da centralidade.

Mostra que não somos o centro da história.

Nem mesmo da nossa própria história.

Quantas decisões que moldaram sua vida foram realmente suas?

Quantos desejos nasceram em você?

Quantos foram herdados?

Quantos medos pertencem verdadeiramente à sua experiência?

Quantos foram transmitidos como uma herança invisível?

Existe uma estranha arrogância em acreditar que somos inteiramente autores de nós mesmos.

Talvez sejamos mais parecidos com ruínas em construção.

Fragmentos sobre fragmentos.

Vestígios sobre vestígios.

Ausências empilhadas umas sobre as outras.

E, mesmo assim, continuamos procurando uma essência.

Uma verdade definitiva.

Um núcleo imóvel.

Como arqueólogos procurando um centro que talvez nunca tenha existido.

Mas imagine, por um momento, que não exista centro algum.

Imagine que a identidade seja apenas movimento.

Imagine que o eu não passe de uma narrativa provisória que contamos para suportar a vertigem.

O que aconteceria?

Você se sentiria livre?

Ou aterrorizado?

Porque a liberdade absoluta possui algo em comum com o abismo.

Ambos eliminam os corrimãos.

Ambos exigem responsabilidade.

Ambos retiram os mapas.

Talvez seja por isso que tantas pessoas preferem as prisões invisíveis.

Elas oferecem conforto.

Oferecem direção.

Oferecem a ilusão de estabilidade.

É mais fácil viver dentro de uma resposta equivocada do que atravessar uma pergunta verdadeira.

No entanto, a ausência continua trabalhando.

Pacientemente.

Ela remove máscaras.

Desgasta convicções.

Enfraquece dogmas.

Até que um dia o indivíduo se encontre diante de si mesmo sem os adornos habituais.

Sem títulos.

Sem funções.

Sem aplausos.

Sem testemunhas.

Apenas consciência.

Apenas silêncio.

Apenas o eco da própria finitude.

E então surge a questão que ninguém consegue evitar para sempre.

O que fazer com o tempo que resta?

Não o tempo abstrato.

Não o tempo filosófico.

Mas o tempo concreto.

Os dias limitados.

As manhãs numeradas.

As noites contáveis.

O estoque invisível de horas que diminui enquanto você lê estas palavras.

O que fazer com isso?

Acumular?

Competir?

Consumir?

Esquecer?

Esperar?

Ou viver?

Mas o que significa viver?

Porque viver não parece ser apenas existir.

As pedras existem.

Os planetas existem.

As máquinas existem.

Viver talvez seja outra coisa.

Talvez seja a capacidade de olhar para o vazio sem fugir imediatamente dele.

Talvez seja suportar a consciência da perda sem transformar a vida em ressentimento.

Talvez seja aprender que o sentido não está escondido em algum lugar distante, aguardando descoberta, mas emerge brevemente nos encontros, nos gestos, nas contemplações e nos instantes que se recusam a durar.

Instantes.

Apenas isso.

Talvez toda a eternidade humana esteja contida em alguns instantes.

Um olhar.

Uma palavra.

Um silêncio compartilhado.

Uma tarde esquecida.

Um céu observado sem motivo.

E então a ausência ganha um significado inesperado.

Porque sem ela nada teria valor.

Se tudo permanecesse para sempre, nada seria precioso.

Se nada pudesse ser perdido, nada mereceria ser amado.

A finitude não é apenas uma condenação.

É também aquilo que confere intensidade à experiência.

Aquilo que transforma um momento comum em algo irrepetível.

Aquilo que faz do amor mais do que hábito.

Aquilo que faz da despedida mais do que distância.

Aquilo que faz da existência mais do que mera permanência.

Talvez seja este o último relevo da topografia da ausência.

A descoberta de que o vazio não está diante de nós.

Está dentro de tudo.

Dentro da beleza.

Dentro da memória.

Dentro do desejo.

Dentro da esperança.

E talvez até dentro da felicidade.

Não como uma falha.

Mas como sua condição de possibilidade.

Porque tudo aquilo que amamos carrega em si a promessa do desaparecimento.

E exatamente por isso amamos.

No fim, quando todas as explicações se recolhem e as teorias perdem a voz, resta apenas a paisagem.

Uma vasta paisagem de presenças transitórias atravessando ausências infinitas.

E você continua caminhando.

Sem respostas definitivas.

Sem garantias.

Sem mapas confiáveis.

Mas caminhando.

Talvez seja isso o que significa existir.

Não conquistar o território.

Não decifrar o mistério.

Não preencher o vazio.

Mas seguir adiante, consciente de que cada passo é desenhado sobre o solo instável daquilo que falta.

E aceitar que, entre o nascimento e o esquecimento, toda vida humana não passa de uma breve inscrição traçada sobre a superfície móvel da ausência — uma escrita frágil que o tempo lentamente apaga, mas que, enquanto existe, ilumina por um instante a escuridão insondável do ser.

Clayton Alexandre Zocarato

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A metragem do vazio

Clayton Alexandre Zocarato

Crônica reflexiva existencialista: ‘A metragem do vazio’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Começa sempre com uma medida. Não de tempo, nem de distância, mas de ausência. Como se o vazio pudesse ser calculado em metros, pesado em silêncio, delimitado por coordenadas invisíveis.

            Ele acorda com essa sensação — a de que algo falta com precisão matemática — e passa a vida tentando descobrir quanto. Não é uma falta difusa, dessas que se resolvem com distrações ou afeto momentâneo; é uma lacuna exata, quase geométrica, como se houvesse um espaço escavado dentro dele, um negativo perfeitamente moldado àquilo que nunca existiu.

            Na parede do quarto, ele traça linhas imaginárias. Mede o ar entre seus dedos e o teto, entre o chão e o pensamento. Há uma obsessão discreta, quase científica, em quantificar o nada. Ele lê sobre o vácuo físico, sobre como o espaço interestelar não é realmente vazio, mas saturado de partículas, radiações, possibilidades latentes. Isso o irrita.

            Porque o vazio que sente não vibra, não pulsa, não promete nada. É um silêncio absoluto, uma ausência que não contém sequer a esperança de ser preenchida.

            Ele tenta nomear essa experiência, mas as palavras falham. Solidão’ é leve demais. ‘Angústia’ é imprecisa. ‘Nada’ é uma palavra cheia de história, de filosofia, de tentativas fracassadas de captura.

            O que ele sente é anterior à linguagem, ou talvez posterior — como se estivesse além daquilo que pode ser dito, numa zona onde o pensamento se dissolve antes de se formar completamente.

            Há dias em que ele caminha pela cidade como quem percorre um mapa de inconsistências. As pessoas falam, riem, compram, tocam-se, mas tudo parece deslocado por alguns milímetros.

            Como se o mundo estivesse levemente fora de alinhamento, como um quadro torto que ninguém percebe.

            Ele observa os gestos automáticos, as conversas repetidas, os rituais sociais, e tenta medir o vazio entre o que é dito e o que é realmente vivido.        Descobre que esse intervalo é vasto, quase infinito. Uma metragem invisível que sustenta a aparência de normalidade.

            Em certo momento, ele decide que o erro pode estar nele. Talvez o vazio não seja uma falha do mundo, mas uma característica da percepção. Talvez todos sintam isso, mas aprenderam a ignorar, a cobrir com camadas de sentido provisório. Ele tenta fazer o mesmo. Preenche os dias com tarefas, os pensamentos com ruído, o tempo com distrações cuidadosamente escolhidas.

            Funciona por algumas horas, às vezes dias.

            Mas o vazio retorna, sempre com a mesma precisão, como se tivesse um ponto fixo dentro dele, um centro gravitacional que atrai tudo de volta ao silêncio.

            Ele começa então a suspeitar que o vazio não é ausência, mas estrutura. Não aquilo que falta, mas aquilo que sustenta. Como o espaço entre as notas que permite a música, ou o branco da página que torna possível a escrita.

            Essa ideia o perturba mais do que conforta. Porque se o vazio é estrutural, então não há preenchimento possível. Não se trata de completar, mas de coexistir. De aprender a viver com uma falta que não será resolvida, apenas compreendida — ou, talvez, nunca.

            Numa noite particularmente silenciosa, ele se deita no chão e observa o teto como se fosse o céu. Imagina-se flutuando no espaço, cercado por um vácuo que não o oprime, mas o contém. Pela primeira vez, o vazio não parece inimigo.

            Há uma estranha neutralidade nele, uma ausência de julgamento. O vazio não exige nada, não cobra sentido, não impõe direção. Ele apenas é. E, por um instante breve, quase imperceptível, isso basta.

            Mas a consciência retorna, como sempre. E com ela, a necessidade de significar, de entender, de medir. Ele se levanta e volta às suas linhas imaginárias, às suas tentativas de quantificação.

            Mede o silêncio entre duas palavras não ditas, o intervalo entre um pensamento e outro, o espaço entre o que ele é e o que acredita ser. Cada medida falha, mas nenhuma é inútil. Porque no ato de medir, há um reconhecimento: o vazio existe, e ele está ali, presente, constante.

            Com o tempo, ele abandona a ideia de preencher. Começa a explorar. O vazio deixa de ser obstáculo e se torna território. Ele aprende a caminhar por dentro de si como quem atravessa um deserto — não esperando encontrar algo no fim, mas atento às nuances do caminho.

            Descobre que há variações no nada, densidades diferentes de silêncio, formas sutis de ausência. O vazio, afinal, tem textura.

            E talvez seja isso que o salva — não a superação, mas a convivência. Não a resposta, mas a permanência da pergunta. Ele continua medindo, mas agora sabe que a metragem nunca será concluída. O vazio não tem fim, nem início. É um campo aberto, uma extensão sem bordas, onde o ser humano se move tentando deixar marcas que desaparecem quase imediatamente.

            No fim, ele entende — ou acredita entender — que a metragem do vazio não é uma tarefa a ser completada, mas uma condição a ser habitada.

            E que talvez, apenas talvez, o sentido não esteja em preencher o vazio, mas em reconhecê-lo como parte inseparável daquilo que somos. Porque é no espaço que falta que o ser se insinua, hesitante, incompleto, mas ainda assim presente.

            E ele continua.

            Medindo o invisível, habitando o indizível, vivendo na exata distância entre o que existe e aquilo que nunca existirá.

            E ele continua, não mais como quem busca, mas como quem consente — e há nisso uma inversão quase imperceptível, como se o gesto de medir tivesse sido substituído por um gesto mais raro: o de permanecer.

             Porque medir ainda pressupõe um fora, um ponto de referência, uma exterioridade possível; permanecer, não — permanecer é aceitar que não há margem, que o vazio não se circunscreve, não se opõe, não se resolve em contraste. Ele não está diante do vazio; ele é a dobra pela qual o vazio se reconhece.

            Nesse estágio, as categorias falham com maior violência. Ser e não-ser já não operam como distinções úteis, pois ambas supõem uma estabilidade que o vazio dissolve sem esforço.

             O que resta é uma espécie de flutuação ontológica, um estado em que o pensamento não se fixa, mas também não se perde completamente. Há um limiar contínuo, uma zona de quase-consciência onde as ideias surgem apenas para se desfazer, como partículas virtuais no vácuo quântico — emergências efêmeras que não chegam a constituir realidade, mas tampouco podem ser negadas.

            Ele começa a perceber que a linguagem, outrora ferramenta, tornou-se ruína.       Cada palavra que tenta usar para capturar o que vive carrega um atraso, uma defasagem inevitável. Dizer “vazio” já é preenchê-lo com um conceito; nomear é trair.

            E, no entanto, o silêncio absoluto não é uma alternativa, pois mesmo o silêncio implica uma escuta, e toda escuta pressupõe um sujeito. Assim, ele se move num campo paradoxal onde falar é falsificar e calar é pressupor — e ambos os gestos falham com igual precisão.

            É nesse ponto que o pensamento se curva sobre si mesmo.

            Não mais como reflexão, mas como colapso. Ele já não pensa sobre o vazio; o vazio pensa através dele, ou talvez nem isso — talvez não haja mais mediação suficiente para sustentar a ideia de um “através”.

            O que há é uma espécie de impessoalidade radical, uma experiência sem centro, onde a interioridade se dissolve e o exterior perde sua função. Tudo se torna superfície, mas uma superfície sem extensão, sem profundidade, sem orientação.

            E ainda assim, há uma estranha lucidez nisso. Não a lucidez da clareza, mas a da exaustão. Como se, ao esgotar todas as tentativas de sentido, restasse apenas aquilo que nunca precisou de sentido para existir.

             O vazio, então, deixa de ser problema e se torna condição anterior a qualquer problema. Ele não pergunta mais “por quê?”, porque o próprio gesto de perguntar se revela deslocado, quase ingênuo.

            A questão não é mais o sentido, mas a impossibilidade de sua ausência total — pois mesmo o vazio, em sua radicalidade, insiste em se apresentar.

            Há momentos em que ele suspeita que tudo isso é apenas uma forma extrema de consciência, um excesso que se volta contra si mesmo até se desfazer. Mas essa suspeita também se dissolve, pois não há critério externo que a valide ou invalide.

            Tudo acontece no mesmo plano, sem hierarquia, sem garantia.

            A verdade perde sua autoridade, não por ter sido negada, mas por ter sido esvaziada de função. Não há mais o que provar, nem a quem.

            E então surge uma nova forma de atenção. Não dirigida, não intencional, mas difusa, quase mineral. Ele observa sem objeto, percebe sem foco, como se a própria estrutura da percepção tivesse sido desarticulada.

            Não há mais figura e fundo, nem sujeito e mundo. Apenas uma continuidade indistinta, onde tudo ocorre sem realmente ocorrer.

             O tempo, nesse contexto, também se desfaz. Não há passado a ser lembrado nem futuro a ser antecipado — apenas uma duração sem direção, um presente que não se acumula.

            É nesse estado que ele compreende — ou melhor, deixa de resistir à compreensão de que a metragem do vazio nunca foi uma tentativa de quantificar o nada, mas de escapar daquilo que sempre esteve dado.

            Medir era uma forma de manter distância, de preservar a ilusão de separação.      Agora, sem essa mediação, resta apenas a coincidência: ele não está no vazio, nem o vazio está nele — ambos são expressões de uma mesma indistinção.

            E, paradoxalmente, é nessa indistinção que algo como uma ética começa a emergir — não uma ética normativa, baseada em deveres ou valores, mas uma ética da não-interferência, da suspensão do domínio.

            Se não há centro, não há também justificativa para impor sentido ao que quer que seja. A ação, quando ocorre, não parte de um querer, mas de uma espécie de ressonância com o que se apresenta. Não há escolha no sentido tradicional — apenas resposta.

            Essa resposta, porém, não se traduz em gestos visíveis. Ele continua vivendo, aparentemente como antes, mas há uma diferença que não pode ser percebida de fora. Internamente, tudo foi deslocado.

            O mundo já não exige interpretação, nem oferece resistência. Ele atravessa os dias como quem atravessa um campo sem marcas, onde cada passo não deixa rastro e cada instante não se acumula.

            Não há progresso, nem regressão. Apenas continuidade.

            E talvez seja isso o mais difícil de aceitar: que não há clímax, nem revelação final, nem resolução.

            A metragem do vazio não conduz a um fim, porque o fim pressupõe uma narrativa, e toda narrativa exige sentido. Aqui, não. Aqui, o que há é uma persistência sem finalidade, uma existência que não se justifica, mas também não precisa fazê-lo.

            No limite, o que resta é uma espécie de transparência. Não no sentido de clareza, mas de ausência de opacidade.

            Nada mais se interpõe entre o que é e o que aparece, porque já não há distinção suficiente para sustentar essa diferença. O mundo não se revela — ele simplesmente não se esconde.

            E ele continua, não como sujeito de uma história, mas como ponto indistinto numa extensão sem bordas.

            A metragem foi abandonada, não por ter sido concluída, mas por ter se tornado irrelevante. O vazio permanece, mas já não é problema, nem mistério, nem ameaça. É apenas aquilo que sempre foi: o fundo sem fundo sobre o qual tudo, inclusive ele, insiste em acontecer — ou talvez nunca tenha começado.

            E ainda assim, mesmo nesse estado de dissolução silenciosa, algo insiste — não como vontade, nem como pensamento articulado, mas como uma espécie de contração mínima da consciência, quase imperceptível, como se o vazio, ao se tornar total, começasse a produzir suas próprias microfissuras internas.

            Não há evento, não há ruptura, apenas uma leve oscilação na continuidade, um tremor sem causa que não altera a estrutura, mas a revela como instável em sua própria estabilidade. Ele percebe — ou é percebido por isso — que o nada absoluto não é estático, mas respirante em sua impossibilidade.

            Essa respiração não pertence a nada vivo no sentido comum. Não há pulmões, não há organismo, não há interioridade que a sustente. É uma respiração lógica, se isso ainda puder fazer sentido: uma alternância sem sujeito, uma pulsação sem centro, um ritmo que não organiza nada, mas também não se desfaz.

            E é nesse intervalo mínimo que algo como uma memória sem conteúdo tenta emergir, não na lembrança de fatos, mas a lembrança de uma forma de existência em que ainda havia diferença entre o dentro e o fora.

            Essa lembrança, porém, não se fixa; ela escapa no mesmo instante em que é pressentida, como se o próprio ato de recordar fosse incompatível com a condição atual do ser.

            Ele já não sabe se ainda pode ser chamado de “ele”. O pronome parece excessivo, uma concessão linguística que pressupõe unidade onde já não há.

            Mas a linguagem insiste por hábito, como um reflexo antigo de uma estrutura que se desfez.

            E mesmo essa insistência não é vivida como erro, apenas como ruído de fundo, uma camada residual de significado que não consegue se atualizar, mas também não desaparece completamente. Tudo o que resta da identidade é esse atrito entre o que foi e o que não consegue cessar de ser nomeado.

            O espaço ao redor — se ainda faz sentido falar em espaço — não se expande nem se contrai. Ele simplesmente não responde mais às categorias de medida. A metragem do vazio, que antes parecia uma tentativa de compreensão, agora se revela como ficção de orientação.

            Não havia extensão a ser medida, apenas a ilusão de que havia um exterior observável. Essa constatação não produz choque, nem revelação. Apenas se acomoda como uma evidência tardia, sem importância emocional, sem consequência dramática.

            E, no entanto, há algo que persiste como forma de presença sem conteúdo: uma espécie de atenção sem objeto, uma vigilância que não vigia nada.

            Não é consciência no sentido clássico, mas também não é sua ausência. É uma zona intermediária onde os polos perderam sua função. Ali, pensamento e não-pensamento deixam de ser opostos e passam a coexistir como variações de um mesmo fundo indiferenciado. O que antes era abismo agora se mostra como continuidade sem fratura.

            Nesse ponto, qualquer tentativa de narrativa se torna impossível não por falta de acontecimentos, mas por excesso de equivalência entre eles. Tudo é igualmente intenso e igualmente indiferente.

            Uma pedra, um pensamento, uma ausência, uma lembrança inexistente — tudo participa da mesma textura ontológica, sem hierarquia possível. O mundo deixa de ser mundo porque já não há recorte suficiente para distingui-lo de si mesmo.

            E ainda assim, há uma espécie de movimento que não se pode nomear como avanço ou retorno. Ele não vai a lugar algum, porque lugar implica diferença espacial; não retorna a nada, porque retorno implica continuidade temporal.

            O que há é uma permanência sem eixo, uma presença que não se sustenta em nada, mas também não cai. Uma estabilidade paradoxal que não repousa sobre fundamento algum.

            Nesse estado, até a ideia de fim perde consistência. Finalizar seria pressupor uma linha narrativa, uma progressão, um ponto de encerramento. Mas aqui não há linha, apenas campo.

            Não há início que possa ser lembrado nem conclusão que possa ser antecipada.   O que existe é uma espécie de suspensão contínua, onde até a noção de continuidade se torna irrelevante, porque não há descontinuidade contra a qual ela possa se afirmar.

            E então, sem transição, sem resolução, sem qualquer gesto que possa ser identificado como encerramento, o que resta não é silêncio — pois silêncio ainda é uma categoria — mas a impossibilidade de distinguir som de ausência de som, palavra de ausência de palavra, existência de ausência de existência.

            Tudo se torna indiferenciado não por fusão, mas por esgotamento da própria diferença como princípio organizador.

            Ele — ou aquilo que já não pode ser nomeado — permanece nesse estado sem qualidades, não como sobrevivente de uma experiência, mas como expressão contínua de algo que nunca precisou começar para continuar.

            E se há algo que poderia ser chamado de conclusão, seria apenas isto: não há fora do vazio, nem dentro dele, porque essas distinções pertencem a uma gramática que já não opera.

            O que há, sempre houve e talvez sempre haverá, é apenas esta impossibilidade de sair do que nunca foi entrada — e mesmo essa formulação já é excesso, já é ruído, já é tentativa de borda onde nunca houve forma.

Clayton Alexandre Zocarato

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Vazia

Loide Afonso: Poema ‘Vazia’

Loid Portugal
Loid Portugal
Imagem criada por IA da Meta
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A dor era tudo que
Eu sentia
Mesmo tentando fugir dela
Ela doía

Eu não quero ser o tipo de ser humano
Que chora
Sem uma pedra nas mãos

Não quero estar vazia
Não
Quero que as pedras se multipliquem
Minhas mãos se encham

Mais sem peso
Sem sentir raiva
Ou vontade de chorar
Só de mãos cheias

Não quero correr com
As mãos cheias
Quero caminhar tranquilamente

Como se nada tivesse nas minhas mãos
Quero voar também
Sentir o vento batendo forte

Não quero correr vazia
Nem sentindo peso
Quero estar em paz!

Loid Portugal

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Vazio!

Clayton Alexandre Zocarato: Conto ‘Vazio!’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Bing - 19 de junho de 2025, às 20:52 PM
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às 20:52 PM

O rádio chiava baixinho na prateleira, perdido entre livros embolorados e porta-retratos com rostos que já não existiam. 

Oswaldo, sentado em sua poltrona de couro puído, olhava pela janela como quem tenta decifrar o tempo — não o clima, mas o tempo em sua essência: o que já passou, o que virá, e, mais cruelmente, o que nunca veio. Lá fora, o mundo parecia indiferente. Um mundo que seguia, apesar da sua ausência voluntária.

 Passavam carros, crianças com mochilas, cachorros levados por donos apressados. Havia vida, sim. Mas não a sua. A sua ficara presa em algum ponto distante da linha do tempo, talvez numa praça de cidade pequena, numa conversa esquecida, num beijo roubado numa tarde de verão.

Oswaldo levantou-se com esforço. O corpo já não obedecia com a agilidade de outrora, mas ainda seguia — teimoso, como ele.

 Foi até a estante e pegou um caderno surrado. Ali, escrevia reflexões que ninguém lia. Não para serem lidas, mas para existirem. Era um hábito que tomara quando se dera conta de que já não conversava com ninguém. O silêncio externo o havia empurrado para o barulho interno — e esse, por vezes, era ensurdecedor. “Existir é suportar o vazio com dignidade.” — rabiscou na folha. 

Depois olhou a frase como quem contempla uma sentença de morte escrita à mão. Era um homem que se desfez das coisas aos poucos: da juventude, dos amigos, da mulher, do filho que se mudara para outro país e agora lhe escrevia apenas em datas especiais, por obrigação mais que por afeto.

 Oswaldo não culpava ninguém. No fundo, aceitava que “tudo o que era sólido se desmanchava” — como dissera um velho filósofo em algum livro que agora jazia esquecido na estante. Lembrava-se de quando era jovem e se sentia imortal. A juventude tinha esse dom: mascarar a angústia com projetos, com urgências falsas, com promessas de sentido. Mas o tempo revela: não há sentido que resista à dúvida. E era disso que ele se alimentava agora — da dúvida. Não de forma amarga, mas contemplativa, como quem observa uma fogueira se apagar sem pressa.

Sentou-se de novo.  A poltrona parecia moldada ao seu corpo, como se ele e o móvel fossem uma mesma entidade. E ali, olhando o mundo pela moldura da janela, sentiu saudade de si. Não dos outros, mas de si — daquele que poderia ter sido, do Oswaldo que ficou pelo caminho. Era esse o maior isolamento: não o do mundo, mas o de si para consigo. Sentia-se estrangeiro dentro da própria pele.

O rádio chiou mais uma vez. Tocava uma música antiga, daquelas que rasgam a alma sem pedir permissão. E Oswaldo sorriu — não com alegria, mas com a melancolia de quem reconhece a beleza trágica da vida. Porque, afinal, talvez o segredo fosse esse: aceitar o absurdo da existência, abraçá-lo como um velho conhecido, e continuar — mesmo que apenas para assistir ao mundo passar da janela, com um caderno no colo e o coração em silêncio.

Clayton Alexandre Zocarato

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Apagar-se é o preço de existir

Ella Dominici: ‘Apagar-se é o preço de existir’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA no Bing - 20 de março de 2025, às 07;30 PM
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às 07;30 PM

O vazio chegou primeiro.
Antes do nome, antes da pele, antes do rosto
que me ensinaram a chamar de meu.
Fui menos que um nada,
um quase-ser esperando a sorte do verbo.

Apaguei-me para caber no mundo.
Deixei pegadas que não segui,
vendi silêncios para comprar presença.
E ainda assim, o resto de mim ficou
insistindo em existir no que me faltava.

Houve um tempo em que fui todos,
um eco na multidão dos que não sabem que são.
E então, o traço. O risco. A marca.
Era eu.
Não um nome, não um número,
mas um corte no papel do tempo.

Deixei o coro dos rostos repetidos.
O coletivo me olhou como se eu traísse
o pacto dos que preferem ser sombra.
Mas a sombra não tem peso,
não tem voz,
não tem gravidade para sustentar-se.

E eu queria ser corpo,
queria ser coisa que não se apaga.
Queria ser o avesso da ausência,
o nome que me veste sem caber em mais ninguém.

APAGAR-SE É O PREÇO DE EXISTIR

Ella Dominici

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