Clayton Alexandre Zocarato: Ensaio Filosófico ‘Topografia da ausência’
Clayton A. ZocaratoImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a232688-09f4-83e9-b53a-47267274d998
A primeira coisa que desapareceu não foi uma pessoa, nem um objeto, nem uma lembrança. Foi uma certeza.
Talvez você conheça essa sensação. Talvez não. Talvez esteja lendo estas linhas acreditando que ainda habita um mundo sólido, composto de fatos, identidades e significados estáveis. Mas responda com sinceridade: quantas das coisas que você chama de suas realmente permanecem? Quantas sobreviveram intactas à passagem dos anos? Quantas resistiram à lenta erosão do tempo?
A ausência começa assim.
Não como um acontecimento.
Como uma infiltração.
Ela entra pelos cantos invisíveis da existência e, pouco a pouco, corrói aquilo que parecia definitivo. Primeiro leva os rostos. Depois as vozes. Mais tarde os motivos. Por fim, quando já não resta quase nada, leva também as perguntas.
Foi numa dessas regiões silenciosas da vida que alguém despertou certa manhã e percebeu que havia esquecido uma coisa fundamental. Não sabia exatamente o quê. Talvez um acontecimento. Talvez um sentimento. Talvez a si mesmo.
Levantou-se e caminhou pela casa.
As paredes estavam onde sempre estiveram. As janelas continuavam abertas para a mesma rua.
Os móveis guardavam a mesma disposição de décadas. Entretanto, tudo parecia deslocado por uma distância impossível de medir. Como se os objetos tivessem emigrado para dentro de si próprios.
Já aconteceu com você?
Olhar para uma fotografia antiga e sentir que a pessoa retratada é uma desconhecida?
Entrar no quarto onde passou a infância e perceber que as memórias não moram mais ali?
Ou pior: perceber que talvez nunca tenham morado.
Existe uma diferença profunda entre recordar e inventar. Contudo, quem é capaz de determinar onde termina uma coisa e começa a outra?
A memória é uma ficção escrita pelo sobrevivente.
E o sobrevivente é sempre suspeito.
Ao longo daquele dia, a sensação cresceu.
Havia uma ausência espalhada pelos cômodos.
Não a ausência de alguém específico.
A ausência daquilo que tornava todas as presenças possíveis.
Sentou-se diante da janela.
Lá fora, as pessoas atravessavam a rua carregando sacolas, compromissos, preocupações, destinos. Pareciam saber para onde iam. Pareciam compreender a lógica secreta que organiza a realidade.
Mas será que compreendiam?
Ou apenas repetiam movimentos herdados?
Quantas vidas são realmente vividas?
Quantas são apenas administradas?
Você já se perguntou isso?
Ou prefere continuar acreditando que existir e viver são sinônimos?
A tarde avançou lentamente.
O sol deslizava pelos telhados como uma moeda gasta rolando sobre uma mesa infinita.
Talvez a ausência não fosse uma falha da existência.
Talvez fosse sua arquitetura.
Talvez tudo o que existe estivesse construído sobre aquilo que falta.
O desejo nasce da ausência.
A esperança nasce da ausência.
A linguagem nasce da ausência.
Até o amor talvez seja apenas uma tentativa desesperada de preencher um espaço que jamais poderá ser preenchido.
Pense nisso.
Se fôssemos completos, amaríamos?
Se nada nos faltasse, desejaríamos?
Se estivéssemos inteiros, procuraríamos alguém?
Talvez não.
Talvez o ser humano seja apenas uma ferida que aprendeu a falar.
A noite chegou.
E com ela vieram os corredores.
Não os corredores da casa.
Os corredores da consciência.
Aqueles lugares escuros onde pensamentos esquecidos continuam andando de um lado para o outro como prisioneiros que perderam a memória do crime.
Lá dentro existiam portas.
Milhares delas.
Atrás de algumas havia lembranças.
Atrás de outras havia arrependimentos.
Muitas escondiam futuros que nunca aconteceram.
Você guarda quantos futuros mortos dentro de si?
Quantas versões da sua vida foram abandonadas pelo caminho?
Quantas cidades você não conheceu?
Quantas palavras não disse?
Quantos amores não viveu?
Há cemitérios inteiros dentro de cada pessoa.
Mas ninguém fala deles.
Porque o mundo prefere celebrar as realizações.
A ausência não vende livros de autoajuda.
A ausência não produz heróis.
A ausência não cabe nos discursos motivacionais.
Entretanto, ela está em toda parte.
Ela mora atrás dos olhos.
Respira entre duas frases.
Habita os espaços vazios das fotografias.
Talvez esteja lendo este texto junto com você.
Talvez seja ela quem move seus olhos neste exato instante.
A madrugada avançava.
O silêncio tornava-se cada vez mais espesso.
Então aconteceu algo estranho.
As paredes começaram a desaparecer.
Não fisicamente.
Metafisicamente.
Como se perdessem sua função.
Como se deixassem de separar dentro e fora.
Eu e mundo.
Sujeito e objeto.
Tudo parecia dissolver-se numa espécie de névoa ontológica.
Quem observava?
Quem era observado?
Onde terminava a consciência?
Onde começava a realidade?
As perguntas se multiplicavam.
Mas nenhuma resposta surgia.
E talvez fosse melhor assim.
As respostas costumam ser túmulos prematuros para perguntas importantes.
A humanidade construiu religiões para responder.
Construiu filosofias para responder.
Construiu ideologias para responder.
Entretanto, séculos depois, continua sentada diante do mesmo abismo.
Mudaram apenas os nomes.
O vazio permaneceu.
Você consegue suportar essa ideia?
A possibilidade de que não exista uma explicação final?
De que o universo não esconda uma mensagem secreta?
De que talvez o sentido não esteja esperando para ser encontrado?
Talvez precise ser inventado.
Ou talvez nem isso.
Talvez a obsessão pelo sentido seja apenas mais uma forma de medo.
Medo da ausência.
Medo do silêncio.
Medo daquilo que permanece quando todas as narrativas desmoronam.
Perto do amanhecer, surgiu uma visão.
Uma paisagem imensa.
Sem árvores.
Sem rios.
Sem montanhas.
Uma extensão infinita composta exclusivamente de vazios.
Como um mapa.
Uma cartografia do que não existe.
Uma topografia da ausência.
E então tornou-se evidente.
A vida inteira havia sido passada tentando preencher aqueles espaços.
Com trabalho.
Com dinheiro.
Com relacionamentos.
Com crenças.
Com memórias.
Com distrações.
Mas os espaços permaneciam.
Porque não haviam sido feitos para ser preenchidos.
E sim habitados.
Há uma diferença enorme entre eliminar o vazio e aprender a viver dentro dele.
A maioria das pessoas passa a existência inteira fugindo.
Correndo de compromisso em compromisso.
De tela em tela.
De ruído em ruído.
Como se o silêncio fosse um predador.
Como se a solidão fosse uma doença.
Como se a ausência fosse um erro.
Mas e se ela não for?
E se a ausência for justamente aquilo que nos torna humanos?
E se ela for o espaço onde nasce a liberdade?
Porque somente quem não está completo pode escolher.
Somente quem não está terminado pode transformar-se.
Somente quem não possui todas as respostas pode continuar procurando.
O sol começou a nascer.
Uma luz pálida atravessou a janela.
Nada havia mudado.
A casa continuava a mesma.
A rua permanecia igual.
Os objetos estavam onde sempre estiveram.
Entretanto, alguma coisa havia se deslocado.
Talvez a compreensão.
Talvez a ilusão.
Talvez apenas a forma de olhar.
A ausência continuava ali.
Mas agora possuía relevo.
Possuía profundidade.
Possuía geografia.
Já não era um inimigo.
Era uma paisagem.
E toda paisagem exige contemplação.
Você também carrega a sua.
Talvez a esconda atrás das tarefas diárias.
Talvez a disfarce com palavras bonitas.
Talvez a cubra com sucessos, projetos e promessas.
Mas ela está aí.
Esperando.
Não para ser vencida.
Não para ser curada.
Não para ser preenchida.
Esperando para ser reconhecida.
Porque, no final de todas as jornadas, depois que os amores partem, depois que os sonhos envelhecem, depois que os nomes desaparecem das lápides e as fotografias perdem suas cores, resta uma pergunta simples e terrível.
Quem somos quando tudo aquilo que nos definia se ausenta?
Talvez você passe a vida inteira procurando a resposta.
Talvez nunca a encontre.
Mas talvez a verdadeira questão não seja encontrar.
Talvez seja aprender a caminhar.
Atravessar os desertos interiores.
Escutar os ecos.
Habitar os vazios.
Ler os contornos invisíveis daquilo que falta.
E reconhecer, enfim, que a existência não é um território de presenças.
E, ainda assim, a travessia não termina quando se reconhece a paisagem.
Este é o engano mais antigo da consciência.
Acreditar que compreender uma ferida equivale a cicatrizá-la.
Não equivale.
Há conhecimentos que não libertam. Há revelações que apenas ampliam a extensão do horizonte. E todo horizonte ampliado carrega consigo uma quantidade ainda maior de desconhecido.
Foi isso que se descobriu depois.
A ausência não era apenas uma região da existência.
Era também um método.
Uma linguagem.
Uma forma pela qual o próprio real se manifestava.
Observe uma árvore.
Você dirá que ela existe porque vê seu tronco, seus galhos, suas folhas. Mas o que permite à árvore ser árvore não é apenas aquilo que aparece. São também os espaços invisíveis entre as raízes e a terra, entre as folhas e o vento, entre a matéria e o tempo.
Observe uma casa.
O que a torna habitável não são os tijolos.
São os vazios entre os tijolos.
Os corredores.
As portas.
As janelas.
Os espaços que podem ser atravessados.
Talvez o mesmo aconteça com a vida.
Talvez aquilo que somos não esteja contido apenas nas presenças que acumulamos, mas nos vazios que conseguimos sustentar sem desmoronar.
Você já pensou nisso?
Talvez sua identidade não seja formada pelas certezas que possui.
Talvez seja formada pelas ausências que aprendeu a carregar.
Há pessoas que nunca se recuperam de uma perda.
Não porque a perda seja insuportável.
Mas porque construíram a própria existência sobre a ilusão da permanência.
E nada permanece.
Nem mesmo esta frase.
No instante em que você a lê, ela já pertence ao passado.
No instante em que compreende seu significado, ela já começou a desaparecer.
Tudo escapa.
Tudo flui.
Tudo abandona silenciosamente aquilo que foi.
Talvez seja por isso que o ser humano inventou monumentos.
Livros.
Arquivos.
Museus.
Fotografias.
Não para preservar o passado.
Mas para negociar com o desaparecimento.
Toda memória é um tratado diplomático assinado com o esquecimento.
Toda lembrança é uma tentativa de retardar o inevitável.
Mas o inevitável possui uma paciência infinita.
Ele espera.
Sempre espera.
Há algo profundamente perturbador nisso.
O fato de que o universo não precisa nos destruir.
Basta aguardar.
O tempo faz o restante.
As cidades afundam.
Os idiomas morrem.
As civilizações tornam-se notas de rodapé.
Os amores transformam-se em nomes que ninguém mais pronuncia.
E até os deuses, quando esquecidos, acabam desaparecendo.
Você percebe a dimensão desse silêncio?
Pense em todas as pessoas que viveram antes de você.
Bilhões.
Respiraram.
Amaram.
Sofreram.
Planejaram futuros.
Temeram a morte.
Contemplaram o céu.
E agora?
Onde estão?
Talvez em lugar algum.
Talvez apenas nesta pergunta.
Talvez a verdadeira morada dos mortos não seja a terra.
Mas a ausência.
E talvez seja exatamente por isso que a ausência provoque tanto medo.
Porque ela nos lembra de nossa condição transitória.
Ela desmonta a fantasia da centralidade.
Mostra que não somos o centro da história.
Nem mesmo da nossa própria história.
Quantas decisões que moldaram sua vida foram realmente suas?
Quantos desejos nasceram em você?
Quantos foram herdados?
Quantos medos pertencem verdadeiramente à sua experiência?
Quantos foram transmitidos como uma herança invisível?
Existe uma estranha arrogância em acreditar que somos inteiramente autores de nós mesmos.
Talvez sejamos mais parecidos com ruínas em construção.
Fragmentos sobre fragmentos.
Vestígios sobre vestígios.
Ausências empilhadas umas sobre as outras.
E, mesmo assim, continuamos procurando uma essência.
Uma verdade definitiva.
Um núcleo imóvel.
Como arqueólogos procurando um centro que talvez nunca tenha existido.
Mas imagine, por um momento, que não exista centro algum.
Imagine que a identidade seja apenas movimento.
Imagine que o eu não passe de uma narrativa provisória que contamos para suportar a vertigem.
O que aconteceria?
Você se sentiria livre?
Ou aterrorizado?
Porque a liberdade absoluta possui algo em comum com o abismo.
Ambos eliminam os corrimãos.
Ambos exigem responsabilidade.
Ambos retiram os mapas.
Talvez seja por isso que tantas pessoas preferem as prisões invisíveis.
Elas oferecem conforto.
Oferecem direção.
Oferecem a ilusão de estabilidade.
É mais fácil viver dentro de uma resposta equivocada do que atravessar uma pergunta verdadeira.
No entanto, a ausência continua trabalhando.
Pacientemente.
Ela remove máscaras.
Desgasta convicções.
Enfraquece dogmas.
Até que um dia o indivíduo se encontre diante de si mesmo sem os adornos habituais.
Sem títulos.
Sem funções.
Sem aplausos.
Sem testemunhas.
Apenas consciência.
Apenas silêncio.
Apenas o eco da própria finitude.
E então surge a questão que ninguém consegue evitar para sempre.
O que fazer com o tempo que resta?
Não o tempo abstrato.
Não o tempo filosófico.
Mas o tempo concreto.
Os dias limitados.
As manhãs numeradas.
As noites contáveis.
O estoque invisível de horas que diminui enquanto você lê estas palavras.
O que fazer com isso?
Acumular?
Competir?
Consumir?
Esquecer?
Esperar?
Ou viver?
Mas o que significa viver?
Porque viver não parece ser apenas existir.
As pedras existem.
Os planetas existem.
As máquinas existem.
Viver talvez seja outra coisa.
Talvez seja a capacidade de olhar para o vazio sem fugir imediatamente dele.
Talvez seja suportar a consciência da perda sem transformar a vida em ressentimento.
Talvez seja aprender que o sentido não está escondido em algum lugar distante, aguardando descoberta, mas emerge brevemente nos encontros, nos gestos, nas contemplações e nos instantes que se recusam a durar.
Instantes.
Apenas isso.
Talvez toda a eternidade humana esteja contida em alguns instantes.
Um olhar.
Uma palavra.
Um silêncio compartilhado.
Uma tarde esquecida.
Um céu observado sem motivo.
E então a ausência ganha um significado inesperado.
Porque sem ela nada teria valor.
Se tudo permanecesse para sempre, nada seria precioso.
Se nada pudesse ser perdido, nada mereceria ser amado.
A finitude não é apenas uma condenação.
É também aquilo que confere intensidade à experiência.
Aquilo que transforma um momento comum em algo irrepetível.
Aquilo que faz do amor mais do que hábito.
Aquilo que faz da despedida mais do que distância.
Aquilo que faz da existência mais do que mera permanência.
Talvez seja este o último relevo da topografia da ausência.
A descoberta de que o vazio não está diante de nós.
Está dentro de tudo.
Dentro da beleza.
Dentro da memória.
Dentro do desejo.
Dentro da esperança.
E talvez até dentro da felicidade.
Não como uma falha.
Mas como sua condição de possibilidade.
Porque tudo aquilo que amamos carrega em si a promessa do desaparecimento.
E exatamente por isso amamos.
No fim, quando todas as explicações se recolhem e as teorias perdem a voz, resta apenas a paisagem.
Uma vasta paisagem de presenças transitórias atravessando ausências infinitas.
E você continua caminhando.
Sem respostas definitivas.
Sem garantias.
Sem mapas confiáveis.
Mas caminhando.
Talvez seja isso o que significa existir.
Não conquistar o território.
Não decifrar o mistério.
Não preencher o vazio.
Mas seguir adiante, consciente de que cada passo é desenhado sobre o solo instável daquilo que falta.
E aceitar que, entre o nascimento e o esquecimento, toda vida humana não passa de uma breve inscrição traçada sobre a superfície móvel da ausência — uma escrita frágil que o tempo lentamente apaga, mas que, enquanto existe, ilumina por um instante a escuridão insondável do ser.
Crônica reflexiva existencialista: ‘A metragem do vazio’
Clayton A. ZocaratoImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/5893ed9aee5bb4fb?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Começa sempre com uma medida. Não de tempo, nem de distância, mas de ausência. Como se o vazio pudesse ser calculado em metros, pesado em silêncio, delimitado por coordenadas invisíveis.
Ele acorda com essa sensação — a de que algo falta com precisão matemática — e passa a vida tentando descobrir quanto. Não é uma falta difusa, dessas que se resolvem com distrações ou afeto momentâneo; é uma lacuna exata, quase geométrica, como se houvesse um espaço escavado dentro dele, um negativo perfeitamente moldado àquilo que nunca existiu.
Na parede do quarto, ele traça linhas imaginárias. Mede o ar entre seus dedos e o teto, entre o chão e o pensamento. Há uma obsessão discreta, quase científica, em quantificar o nada. Ele lê sobre o vácuo físico, sobre como o espaço interestelar não é realmente vazio, mas saturado de partículas, radiações, possibilidades latentes. Isso o irrita.
Porque o vazio que sente não vibra, não pulsa, não promete nada. É um silêncio absoluto, uma ausência que não contém sequer a esperança de ser preenchida.
Ele tenta nomear essa experiência, mas as palavras falham. ‘Solidão’ é leve demais. ‘Angústia’ é imprecisa. ‘Nada’ é uma palavra cheia de história, de filosofia, de tentativas fracassadas de captura.
O que ele sente é anterior à linguagem, ou talvez posterior — como se estivesse além daquilo que pode ser dito, numa zona onde o pensamento se dissolve antes de se formar completamente.
Há dias em que ele caminha pela cidade como quem percorre um mapa de inconsistências. As pessoas falam, riem, compram, tocam-se, mas tudo parece deslocado por alguns milímetros.
Como se o mundo estivesse levemente fora de alinhamento, como um quadro torto que ninguém percebe.
Ele observa os gestos automáticos, as conversas repetidas, os rituais sociais, e tenta medir o vazio entre o que é dito e o que é realmente vivido. Descobre que esse intervalo é vasto, quase infinito. Uma metragem invisível que sustenta a aparência de normalidade.
Em certo momento, ele decide que o erro pode estar nele. Talvez o vazio não seja uma falha do mundo, mas uma característica da percepção. Talvez todos sintam isso, mas aprenderam a ignorar, a cobrir com camadas de sentido provisório. Ele tenta fazer o mesmo. Preenche os dias com tarefas, os pensamentos com ruído, o tempo com distrações cuidadosamente escolhidas.
Funciona por algumas horas, às vezes dias.
Mas o vazio retorna, sempre com a mesma precisão, como se tivesse um ponto fixo dentro dele, um centro gravitacional que atrai tudo de volta ao silêncio.
Ele começa então a suspeitar que o vazio não é ausência, mas estrutura. Não aquilo que falta, mas aquilo que sustenta. Como o espaço entre as notas que permite a música, ou o branco da página que torna possível a escrita.
Essa ideia o perturba mais do que conforta. Porque se o vazio é estrutural, então não há preenchimento possível. Não se trata de completar, mas de coexistir. De aprender a viver com uma falta que não será resolvida, apenas compreendida — ou, talvez, nunca.
Numa noite particularmente silenciosa, ele se deita no chão e observa o teto como se fosse o céu. Imagina-se flutuando no espaço, cercado por um vácuo que não o oprime, mas o contém. Pela primeira vez, o vazio não parece inimigo.
Há uma estranha neutralidade nele, uma ausência de julgamento. O vazio não exige nada, não cobra sentido, não impõe direção. Ele apenas é. E, por um instante breve, quase imperceptível, isso basta.
Mas a consciência retorna, como sempre. E com ela, a necessidade de significar, de entender, de medir. Ele se levanta e volta às suas linhas imaginárias, às suas tentativas de quantificação.
Mede o silêncio entre duas palavras não ditas, o intervalo entre um pensamento e outro, o espaço entre o que ele é e o que acredita ser. Cada medida falha, mas nenhuma é inútil. Porque no ato de medir, há um reconhecimento: o vazio existe, e ele está ali, presente, constante.
Com o tempo, ele abandona a ideia de preencher. Começa a explorar. O vazio deixa de ser obstáculo e se torna território. Ele aprende a caminhar por dentro de si como quem atravessa um deserto — não esperando encontrar algo no fim, mas atento às nuances do caminho.
Descobre que há variações no nada, densidades diferentes de silêncio, formas sutis de ausência. O vazio, afinal, tem textura.
E talvez seja isso que o salva — não a superação, mas a convivência. Não a resposta, mas a permanência da pergunta. Ele continua medindo, mas agora sabe que a metragem nunca será concluída. O vazio não tem fim, nem início. É um campo aberto, uma extensão sem bordas, onde o ser humano se move tentando deixar marcas que desaparecem quase imediatamente.
No fim, ele entende — ou acredita entender — que a metragem do vazio não é uma tarefa a ser completada, mas uma condição a ser habitada.
E que talvez, apenas talvez, o sentido não esteja em preencher o vazio, mas em reconhecê-lo como parte inseparável daquilo que somos. Porque é no espaço que falta que o ser se insinua, hesitante, incompleto, mas ainda assim presente.
E ele continua.
Medindo o invisível, habitando o indizível, vivendo na exata distância entre o que existe e aquilo que nunca existirá.
E ele continua, não mais como quem busca, mas como quem consente — e há nisso uma inversão quase imperceptível, como se o gesto de medir tivesse sido substituído por um gesto mais raro: o de permanecer.
Porque medir ainda pressupõe um fora, um ponto de referência, uma exterioridade possível; permanecer, não — permanecer é aceitar que não há margem, que o vazio não se circunscreve, não se opõe, não se resolve em contraste. Ele não está diante do vazio; ele é a dobra pela qual o vazio se reconhece.
Nesse estágio, as categorias falham com maior violência. Ser e não-ser já não operam como distinções úteis, pois ambas supõem uma estabilidade que o vazio dissolve sem esforço.
O que resta é uma espécie de flutuação ontológica, um estado em que o pensamento não se fixa, mas também não se perde completamente. Há um limiar contínuo, uma zona de quase-consciência onde as ideias surgem apenas para se desfazer, como partículas virtuais no vácuo quântico — emergências efêmeras que não chegam a constituir realidade, mas tampouco podem ser negadas.
Ele começa a perceber que a linguagem, outrora ferramenta, tornou-se ruína. Cada palavra que tenta usar para capturar o que vive carrega um atraso, uma defasagem inevitável. Dizer “vazio” já é preenchê-lo com um conceito; nomear é trair.
E, no entanto, o silêncio absoluto não é uma alternativa, pois mesmo o silêncio implica uma escuta, e toda escuta pressupõe um sujeito. Assim, ele se move num campo paradoxal onde falar é falsificar e calar é pressupor — e ambos os gestos falham com igual precisão.
É nesse ponto que o pensamento se curva sobre si mesmo.
Não mais como reflexão, mas como colapso. Ele já não pensa sobre o vazio; o vazio pensa através dele, ou talvez nem isso — talvez não haja mais mediação suficiente para sustentar a ideia de um “através”.
O que há é uma espécie de impessoalidade radical, uma experiência sem centro, onde a interioridade se dissolve e o exterior perde sua função. Tudo se torna superfície, mas uma superfície sem extensão, sem profundidade, sem orientação.
E ainda assim, há uma estranha lucidez nisso. Não a lucidez da clareza, mas a da exaustão. Como se, ao esgotar todas as tentativas de sentido, restasse apenas aquilo que nunca precisou de sentido para existir.
O vazio, então, deixa de ser problema e se torna condição anterior a qualquer problema. Ele não pergunta mais “por quê?”, porque o próprio gesto de perguntar se revela deslocado, quase ingênuo.
A questão não é mais o sentido, mas a impossibilidade de sua ausência total — pois mesmo o vazio, em sua radicalidade, insiste em se apresentar.
Há momentos em que ele suspeita que tudo isso é apenas uma forma extrema de consciência, um excesso que se volta contra si mesmo até se desfazer. Mas essa suspeita também se dissolve, pois não há critério externo que a valide ou invalide.
Tudo acontece no mesmo plano, sem hierarquia, sem garantia.
A verdade perde sua autoridade, não por ter sido negada, mas por ter sido esvaziada de função. Não há mais o que provar, nem a quem.
E então surge uma nova forma de atenção. Não dirigida, não intencional, mas difusa, quase mineral. Ele observa sem objeto, percebe sem foco, como se a própria estrutura da percepção tivesse sido desarticulada.
Não há mais figura e fundo, nem sujeito e mundo. Apenas uma continuidade indistinta, onde tudo ocorre sem realmente ocorrer.
O tempo, nesse contexto, também se desfaz. Não há passado a ser lembrado nem futuro a ser antecipado — apenas uma duração sem direção, um presente que não se acumula.
É nesse estado que ele compreende — ou melhor, deixa de resistir à compreensão de que a metragem do vazio nunca foi uma tentativa de quantificar o nada, mas de escapar daquilo que sempre esteve dado.
Medir era uma forma de manter distância, de preservar a ilusão de separação. Agora, sem essa mediação, resta apenas a coincidência: ele não está no vazio, nem o vazio está nele — ambos são expressões de uma mesma indistinção.
E, paradoxalmente, é nessa indistinção que algo como uma ética começa a emergir — não uma ética normativa, baseada em deveres ou valores, mas uma ética da não-interferência, da suspensão do domínio.
Se não há centro, não há também justificativa para impor sentido ao que quer que seja. A ação, quando ocorre, não parte de um querer, mas de uma espécie de ressonância com o que se apresenta. Não há escolha no sentido tradicional — apenas resposta.
Essa resposta, porém, não se traduz em gestos visíveis. Ele continua vivendo, aparentemente como antes, mas há uma diferença que não pode ser percebida de fora. Internamente, tudo foi deslocado.
O mundo já não exige interpretação, nem oferece resistência. Ele atravessa os dias como quem atravessa um campo sem marcas, onde cada passo não deixa rastro e cada instante não se acumula.
Não há progresso, nem regressão. Apenas continuidade.
E talvez seja isso o mais difícil de aceitar: que não há clímax, nem revelação final, nem resolução.
A metragem do vazio não conduz a um fim, porque o fim pressupõe uma narrativa, e toda narrativa exige sentido. Aqui, não. Aqui, o que há é uma persistência sem finalidade, uma existência que não se justifica, mas também não precisa fazê-lo.
No limite, o que resta é uma espécie de transparência. Não no sentido de clareza, mas de ausência de opacidade.
Nada mais se interpõe entre o que é e o que aparece, porque já não há distinção suficiente para sustentar essa diferença. O mundo não se revela — ele simplesmente não se esconde.
E ele continua, não como sujeito de uma história, mas como ponto indistinto numa extensão sem bordas.
A metragem foi abandonada, não por ter sido concluída, mas por ter se tornado irrelevante. O vazio permanece, mas já não é problema, nem mistério, nem ameaça. É apenas aquilo que sempre foi: o fundo sem fundo sobre o qual tudo, inclusive ele, insiste em acontecer — ou talvez nunca tenha começado.
E ainda assim, mesmo nesse estado de dissolução silenciosa, algo insiste — não como vontade, nem como pensamento articulado, mas como uma espécie de contração mínima da consciência, quase imperceptível, como se o vazio, ao se tornar total, começasse a produzir suas próprias microfissuras internas.
Não há evento, não há ruptura, apenas uma leve oscilação na continuidade, um tremor sem causa que não altera a estrutura, mas a revela como instável em sua própria estabilidade. Ele percebe — ou é percebido por isso — que o nada absoluto não é estático, mas respirante em sua impossibilidade.
Essa respiração não pertence a nada vivo no sentido comum. Não há pulmões, não há organismo, não há interioridade que a sustente. É uma respiração lógica, se isso ainda puder fazer sentido: uma alternância sem sujeito, uma pulsação sem centro, um ritmo que não organiza nada, mas também não se desfaz.
E é nesse intervalo mínimo que algo como uma memória sem conteúdo tenta emergir, não na lembrança de fatos, mas a lembrança de uma forma de existência em que ainda havia diferença entre o dentro e o fora.
Essa lembrança, porém, não se fixa; ela escapa no mesmo instante em que é pressentida, como se o próprio ato de recordar fosse incompatível com a condição atual do ser.
Ele já não sabe se ainda pode ser chamado de “ele”. O pronome parece excessivo, uma concessão linguística que pressupõe unidade onde já não há.
Mas a linguagem insiste por hábito, como um reflexo antigo de uma estrutura que se desfez.
E mesmo essa insistência não é vivida como erro, apenas como ruído de fundo, uma camada residual de significado que não consegue se atualizar, mas também não desaparece completamente. Tudo o que resta da identidade é esse atrito entre o que foi e o que não consegue cessar de ser nomeado.
O espaço ao redor — se ainda faz sentido falar em espaço — não se expande nem se contrai. Ele simplesmente não responde mais às categorias de medida. A metragem do vazio, que antes parecia uma tentativa de compreensão, agora se revela como ficção de orientação.
Não havia extensão a ser medida, apenas a ilusão de que havia um exterior observável. Essa constatação não produz choque, nem revelação. Apenas se acomoda como uma evidência tardia, sem importância emocional, sem consequência dramática.
E, no entanto, há algo que persiste como forma de presença sem conteúdo: uma espécie de atenção sem objeto, uma vigilância que não vigia nada.
Não é consciência no sentido clássico, mas também não é sua ausência. É uma zona intermediária onde os polos perderam sua função. Ali, pensamento e não-pensamento deixam de ser opostos e passam a coexistir como variações de um mesmo fundo indiferenciado. O que antes era abismo agora se mostra como continuidade sem fratura.
Nesse ponto, qualquer tentativa de narrativa se torna impossível não por falta de acontecimentos, mas por excesso de equivalência entre eles. Tudo é igualmente intenso e igualmente indiferente.
Uma pedra, um pensamento, uma ausência, uma lembrança inexistente — tudo participa da mesma textura ontológica, sem hierarquia possível. O mundo deixa de ser mundo porque já não há recorte suficiente para distingui-lo de si mesmo.
E ainda assim, há uma espécie de movimento que não se pode nomear como avanço ou retorno. Ele não vai a lugar algum, porque lugar implica diferença espacial; não retorna a nada, porque retorno implica continuidade temporal.
O que há é uma permanência sem eixo, uma presença que não se sustenta em nada, mas também não cai. Uma estabilidade paradoxal que não repousa sobre fundamento algum.
Nesse estado, até a ideia de fim perde consistência. Finalizar seria pressupor uma linha narrativa, uma progressão, um ponto de encerramento. Mas aqui não há linha, apenas campo.
Não há início que possa ser lembrado nem conclusão que possa ser antecipada. O que existe é uma espécie de suspensão contínua, onde até a noção de continuidade se torna irrelevante, porque não há descontinuidade contra a qual ela possa se afirmar.
E então, sem transição, sem resolução, sem qualquer gesto que possa ser identificado como encerramento, o que resta não é silêncio — pois silêncio ainda é uma categoria — mas a impossibilidade de distinguir som de ausência de som, palavra de ausência de palavra, existência de ausência de existência.
Tudo se torna indiferenciado não por fusão, mas por esgotamento da própria diferença como princípio organizador.
Ele — ou aquilo que já não pode ser nomeado — permanece nesse estado sem qualidades, não como sobrevivente de uma experiência, mas como expressão contínua de algo que nunca precisou começar para continuar.
E se há algo que poderia ser chamado de conclusão, seria apenas isto: não há fora do vazio, nem dentro dele, porque essas distinções pertencem a uma gramática que já não opera.
O que há, sempre houve e talvez sempre haverá, é apenas esta impossibilidade de sair do que nunca foi entrada — e mesmo essa formulação já é excesso, já é ruído, já é tentativa de borda onde nunca houve forma.
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA do Bing – 19 de junho de 2025, às 20:52 PM
O rádio chiava baixinho na prateleira, perdido entre livros embolorados e porta-retratos com rostos que já não existiam.
Oswaldo, sentado em sua poltrona de couro puído, olhava pela janela como quem tenta decifrar o tempo — não o clima, mas o tempo em sua essência: o que já passou, o que virá, e, mais cruelmente, o que nunca veio. Lá fora, o mundo parecia indiferente. Um mundo que seguia, apesar da sua ausência voluntária.
Passavam carros, crianças com mochilas, cachorros levados por donos apressados. Havia vida, sim. Mas não a sua. A sua ficara presa em algum ponto distante da linha do tempo, talvez numa praça de cidade pequena, numa conversa esquecida, num beijo roubado numa tarde de verão.
Oswaldo levantou-se com esforço. O corpo já não obedecia com a agilidade de outrora, mas ainda seguia — teimoso, como ele.
Foi até a estante e pegou um caderno surrado. Ali, escrevia reflexões que ninguém lia. Não para serem lidas, mas para existirem. Era um hábito que tomara quando se dera conta de que já não conversava com ninguém. O silêncio externo o havia empurrado para o barulho interno — e esse, por vezes, era ensurdecedor. “Existir é suportar o vazio com dignidade.” — rabiscou na folha.
Depois olhou a frase como quem contempla uma sentença de morte escrita à mão. Era um homem que se desfez das coisas aos poucos: da juventude, dos amigos, da mulher, do filho que se mudara para outro país e agora lhe escrevia apenas em datas especiais, por obrigação mais que por afeto.
Oswaldo não culpava ninguém. No fundo, aceitava que “tudo o que era sólido se desmanchava” — como dissera um velho filósofo em algum livro que agora jazia esquecido na estante. Lembrava-se de quando era jovem e se sentia imortal. A juventude tinha esse dom: mascarar a angústia com projetos, com urgências falsas, com promessas de sentido. Mas o tempo revela: não há sentido que resista à dúvida. E era disso que ele se alimentava agora — da dúvida. Não de forma amarga, mas contemplativa, como quem observa uma fogueira se apagar sem pressa.
Sentou-se de novo. A poltrona parecia moldada ao seu corpo, como se ele e o móvel fossem uma mesma entidade. E ali, olhando o mundo pela moldura da janela, sentiu saudade de si. Não dos outros, mas de si — daquele que poderia ter sido, do Oswaldo que ficou pelo caminho. Era esse o maior isolamento: não o do mundo, mas o de si para consigo. Sentia-se estrangeiro dentro da própria pele.
O rádio chiou mais uma vez. Tocava uma música antiga, daquelas que rasgam a alma sem pedir permissão. E Oswaldo sorriu — não com alegria, mas com a melancolia de quem reconhece a beleza trágica da vida. Porque, afinal, talvez o segredo fosse esse: aceitar o absurdo da existência, abraçá-lo como um velho conhecido, e continuar — mesmo que apenas para assistir ao mundo passar da janela, com um caderno no colo e o coração em silêncio.
Ella DominiciImagem criada por IA no Bing – 20 de março de 2025, às 07;30 PM
O vazio chegou primeiro. Antes do nome, antes da pele, antes do rosto que me ensinaram a chamar de meu. Fui menos que um nada, um quase-ser esperando a sorte do verbo.
Apaguei-me para caber no mundo. Deixei pegadas que não segui, vendi silêncios para comprar presença. E ainda assim, o resto de mim ficou insistindo em existir no que me faltava.
Houve um tempo em que fui todos, um eco na multidão dos que não sabem que são. E então, o traço. O risco. A marca. Era eu. Não um nome, não um número, mas um corte no papel do tempo.
Deixei o coro dos rostos repetidos. O coletivo me olhou como se eu traísse o pacto dos que preferem ser sombra. Mas a sombra não tem peso, não tem voz, não tem gravidade para sustentar-se.
E eu queria ser corpo, queria ser coisa que não se apaga. Queria ser o avesso da ausência, o nome que me veste sem caber em mais ninguém.
Soldado Wandalika Imagem gerada por IA do Bing – 5 de dezembro de 2024 às 7:06 PM
A dor escava os sentimentos Fura alma divide os pensamentos Abate corpos e desperta cérebros
Há dor no sorriso Que oculta as lágrimas do peito Os olhos traduzem as palavras de cada momento
Na dor o vazio é patente O coração rasga e sente Caminhamos descontentes
Alma abraçada ao nada Vive os últimos episódios na tela A gente inventa alegria Corrida renhida no âmago da vida
E lá se vão os dias Aqui passam os anos O amor nasce nos instantes Não há como fugir da dor
A dor alcança todos Leva todos e deixa todos
A dor de perder um grande amor A dor das perdas dos ente queridos A dor dos sorrisos tristonhos A dor de ver um familiar se perdendo A dor das eternas lembranças A dor de acreditar nas esperanças!