conchas esmagadas em sofrido aperto contritas consternadas pelo vento constantes sopros desmesurados neste amor que une graciosas pérolas rochas com a sedimentação dos tempos
águas colam enquanto passam argolas adentrando os montes pelas grutas choro nas paredes lágrimas nos tetos nas lástimas me inundo em lago interno
dentro vigora azul profundo água-estéril pinga-pinga de arbustos-folhas-sacras ondas desiguais do mar na praia estrondos violência em sons espetaculares
como o mar se comporta mediante Impassibilidade das rochas recontam o amor louco e estupendo em tuas rochas abres fenda e adentro enquanto mar no ímpeto
Paulo SiuvesImagem criada por IA do Bing – 08 de julho de 2025, às 19:30 PM
Sempre vi o frio como poesia sazonal. Ele chega devagar, no começo do outono, cortante e sussurrante — um frio que as pessoas desprezam, até que percebem que não era só um ventinho qualquer, mas um inverno disfarçado.
De manhã, o frio contrasta com o brilho generoso do sol, mas é um brilho gelado, como o da luz acesa da geladeira — presença sem calor.
À tarde, o vento sopra na minha orelha frases que ninguém mais escuta. Os outros correm pela avenida, com seus fones de ouvido, seus compromissos, suas camisetas de verão. E eu, me encolho num frio que castiga os mais frágeis do que eu — e às vezes, sou eu quem é.
À noite, um mingau, um caldo, ou um vinho encorpado, tinto generoso como as estrelas que brilham de longe, trazem algum alento.
Os tecidos de algodão tentam, em vão, proteger minha pele desse poema gelado que o frio insiste em declamar na minha orelha.
E eu me recolho, em silêncio, sob o abrigo dos cobertores, porque o frio — o frio não é psicológico, coronel.
Evani RochaImagem criada por IA do Gencraft – 16 de junho de 2025, às 10:20 PM
Sobre a mesa os cotovelos magros, e as mãos com seus dedos longos e finos apoiando o queixo… Era uma mesa de madeira lisa, dura, silenciosa. Os lábios cerrados também eram silenciosos. Os olhos parados ao longe, no abandono daquele rosto esguio cruelmente insignificante. Quem se importa com a dor da infância? Se já é gente grande, com dores tão imensas, e tão distante daquelas? O horizonte parece um caminho para as nuvens, mas não são nuvens dessas brancas que se diz como algodão. Elas têm cores: alaranjadas, acinzentadas, violetas e carmim… O quadro da parede retrata uma casinha solitária em frente a uma montanha nua, sem árvores, sem rios… Talvez aqueles pontinhos verdes sejam cactáceas, para resistir ao tamanho daquele sol!
O vento sopra o pó da estrada de terras que vai embora serpenteando o vale. A mesa também é insignificante. Não menos que todas as preces do fim das tardes, a se repetirem dia após dia… os pensamentos caóticos lhe cansam a paciência. Esperar dói! Dói muito, talvez pela incerteza. O quadro está torto, exposto, na parede de adobe. Que importa um quadro torto, se a vida também é torta!? Se pudesse arrumaria o quadro na parede, e colocaria nele pelo menos uma arvorezinha ao lado da casa… Se pudesse, tiraria as curvas do caminho de terra e deixaria que ele entrasse céu adentro, até às nuvens…
Se pudesse, não pensaria mais, deitaria na cama desarrumada, puxaria o cobertor e fecharia os olhos. Esticaria os braços frágeis com suas mãos magras e seus dedos longos. Lá fora na varanda ficaria a mesa dura e silenciosa para sempre, a olhar um horizonte tão distante a mudar de cores todos os dias. Insignificante, cruelmente insignificante.