A mulher e o ambiente familiar  sem respeito

Lina Veira

‘A mulher e o ambiente familiar  sem respeito’

Lina Veira
Lina Veira
Foto por Lina Veira

É absurdo no atual  mundo contemporâneo, em uma sociedade que busca o equilíbrio entre  o desenvolvimento e a sustentabilidade, a mulher que não trabalha fora ser tão desrespeitada, como se o respeito humano e a dignidade estivessem condicionados a uma remuneração financeira. Todo trabalho doméstico e o cuidado com o lar são essenciais, exigem real  esforço, organização da rotina, limpeza, educação dos filhos e apoio emocional. Esse reconhecimento de respeito é  o pilar essencial do lar.

Apesar de  ter uma origem antiga, o pensamento  ‘machista’ ganhou força no século XX com estudos feministas. E ainda hoje é uma ideologia forte  contra a mulher, (que trabalha em casa, seja em regime de home office ou fora de casa) manifestado  por um comportamento violento e de desvalor das tarefas domésticas e  de seus prazeres .

50% das mulheres denunciam o desrespeito dentro e fora de casa todos os dias. É o que mostra a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, o maior levantamento do país sobre o tema, realizado pelo DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), do Senado. Agência Brasil,  2025. Logo, não é só a rua que se apresenta  o perigo e desrespeito, com as mulheres, conforme demonstram nossos altos índices de feminicídio atual.

Reitero aqui que, num ambiente familiar, o respeito em casa baseia-se na valorização mútua das  atividades, não do salário.  A mulher que cuida da casa, dos filhos e da rotina familiar exerce uma profissão diária que merece respeito, não humilhações.  A rotina de limpar o banheiro, por exemplo, exige cuidados e educação de higiene, que  relatam aspectos negativos no comportamento cultural e, às vezes, psicológicos  do casal  em ação. Incômodos com  a higiene e limpezas das mãos  e o não uso da descarga são frequentes nas sessões de terapia familiar. 

Rotina, que seja qual for, precisa ser saudável, existir tolerâncias e  abranger  atitudes organizadas, com horários e tarefas, gerando conexão entre pais e filhos, inclusive nas atividades físicas e momentos de lazer. 

Resgatar nesta geração a rotina familiar  é desafiante,  pois nem todos estão decididos a definir prioridades e transformar seus sonhos em objetivos organizados.

Contudo, creio, que  somente uma rotina familiar pode reduzir  a ansiedade de crianças e adolescentes. Desenvolver o respeito,  autonomia e responsabilidade na vida, diminuindo a procrastinação e  melhorando  a conexão entre todos.

Não aceitar isso ,  é   não  aceitar contribui  com sua função na estruturação de uma sociedade mais equilibrada.

Um marido que não valoriza sua esposa, frequentemente demostra o descaso emocional, ignora as necessidades básicas dela, dos filhos e do lar. As críticas serão  constantes, com uso de palavras ásperas, e piadas ofensivas  e irônicas que  menospreza a opinião da esposa.

Estudos demostram, que as principais causas  que mantem a violência doméstica é  a dependência emocional e econômica –  E que fatores que dificultam a saída da vítima é o  financeiro e a  ilusão da esperança de mudança do parceiro.

Não mantenham relações com perfis controladores e abusivos,  modelos de um psicológico violento, caracterizado por baixa tolerância à frustração, necessidade de controle e falta de empatia. Entenda:  O tempo entre as pessoas não é homogêneo, olhar para você e ter certeza que a vida está seguindo do jeito que gostaria que fosse é refrigério. Não ignore a desigualdade intelectual nem a diferença cultural  entre vocês – são chaves que precisam ser postas sobre a mesa sem cópias.

Lina Veira

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Atravessando o tempo

Ivete Rosa de Souza: Crônica ‘Atravessando o tempo’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
O sofrimento de uma mulher...
O sofrimento de uma mulher…
Microsoft Bing – Imagem criada pelo Designer

Não basta ter coragem, tem de ter estômago, cuidado, e se colocar à frente dos que gostam de ofender, magoar, até agredir. Como policial, em meus anos de trabalho vi e ouvi coisas de seres humanos que jamais ousei ver ou ouvir. Crianças espancadas, abusadas fisicamente por aqueles que deveriam lhes dar segurança, amor e cuidados. Mulheres que sofriam abusos físicos e psicológicos, vidas perdidas, ceifadas pela violência e uma vida de escravidão.

Nos anos sessenta, ainda menina, vi uma vizinha apanhar no meio da rua. O marido chegou, ela estava dentro do quintal, debruçada no muro falando com a vizinha do lado. A mulher sorria, não sei de quê, a conversa de repente silenciou, foi quando, de repente, o marido puxou os cabelos da mulher com tanta violência que a mulher passou por cima do muro, caiu na calçada onde recebeu socos e chutes. Isso ficou gravado em minha memória.  Mudamos para outro bairro, e depois de um ano, ou menos, ouvi meu pai comentando que Fulano matou a mulher.

Ao me tornar policial, meu maior desejo era poder ajudar de alguma forma essas mulheres, e as crianças maltratadas. Mas na rua a realidade é outra. Atendíamos ocorrências de brigas de casal, com o tempo percebi, o motivo maior para que essas mulheres fossem vitimizadas era a   dependência financeira, de não ter aonde ir, sem família ou apoio emocional.

A grande maioria, quando chegávamos, estava com rosto inchado, olho roxo, até braço ou maxilar quebrado. O que podíamos fazer era algemar o agressor, e apresentá-lo ao distrito; a vítima, se ela concordasse, seria levada ao Pronto-Socorro. Mas a grande maioria, quando nos aproximávamos do agressor, a vítima simplesmente falava:

— Não prendam meu marido, ele é quem sustenta a casa, sem ele não sei o que vou fazer. Ou eu tenho filhos, que precisam de um pai. Ficava furiosa com a situação, mas se não há queixa, não há crime, e a vida segue.

Invariavelmente, aqueles mesmos agressores e vítimas seriam figuras carimbadas em novos plantões. Quando envolviam crianças, querendo ou não prestar queixa, pelo menos eu levava o agressor, convocava outros policiais, que levariam a fera, que amansava assim que via a viatura chegar.

Fui xingada, chamada de machona, de mulher sem coração, de metida e muitos outros adjetivos que nem vale a pena mencionar. Não só pelos agressores, mas pelas vítimas que se atiravam em seus companheiros, para que nós não os agredíssemos ou machucássemos.

Sempre fui de falar, de tentar acalmar, mas por diversas vezes queria me transformar no Hulk e detonar determinados elementos. Faço pesquisas, procuro informações, morre mais mulheres e crianças em sua própria casa, assombradas pela violência doméstica, do que em outras formas de óbito.

Estamos no século XXI, vítimas, escravas sexuais, mulheres sem alfabetização, que desconhecem leis, que nunca tiveram estudo ou trabalho. Mulheres que procriam como coelhos, mal-alimentadas, sem lugar para estar ou viver. Atravessamos gerações, desde os primórdios da humanidade, onde a mulher sempre foi relegada a um segundo plano. Tanto na nobreza, quanto na pobreza, esta última agravada pela ignorância cultural e monetária.

Somos as mães da terra, lavradoras, limpamos as latrinas, varremos as ruas, balconistas, diaristas, advogadas, médicas, cientistas. Mesmo assim, vez ou outra, somos manchetes sangrentas.

 Mulheres que achamos lindas ricas e poderosas, já apanharam de seus parceiros, já foram estupradas, seviciadas, roubadas em suas vidas, noticiadas como: Fulana de tal, veio a publico dizer que sofreu violência doméstica, essas são as que se mostram, depois de se cansar de anos de abuso, mesmo tendo dinheiro, advogados e apoio. Ainda passam anos sofrendo caladas, enquanto os abusadores desfrutam da vida de luxo E as que não têm coragem, continuam acorrentadas ao inferno de existir.

Ivete Rosa de Souza

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