Professor: profissão perigo?

                                                

Renata Barcellos: ‘Professor: profissão perigo?

Renata Barcellos
Renata Barcellos
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Desde o início deste ano letivo, tenho presenciado professores ‘desabafando’ em reuniões, intervalos… E o mais preocupante: todos os relatos são de capacitados e centrados. As queixas? Turmas numerosas, desinteresse dos alunos, desrespeito… Ao ouvi-los, veio-me à cabeça um fragmento desta música de Beth Carvalho cantada há décadas:

“Como será amanhã?

Responda quem puder

O que irá me acontecer?

O meu destino será como Deus quiser”.

Esta estrofe sintetiza a inquietação e indignação de muitos docentes como eu. Atuo na área da educação desde 92 e nunca vivi e presenciei tamanho caos. Os fatores são diversos como desinteresse, desrespeito, agressões, assédio, má formação profissional …A quem culpar? Ao método de ensino do professor apenas ? Cruel isso, não!?

Desafio o leitor a entrar em uma sala de aula sem estrutura física e/ou sem recursos com 50 alunos e, dentre estes, muitos com autismo, TDH… e conseguir ministrar uma aula motivadora. Em tempos de celular, de aplicativos variados … como concorrer com a tecnologia? Fomos orientados para utilizar ferramentas tecnológicas em aula? A escola e os responsáveis estão preparados para lidar com novas formas de construção de conhecimento? Em tempo, ainda hoje quando se propõe uma aula externa, persiste em considerar isso como passeio. Você, leitor, quais são suas recordações em tempo de escola? Com certeza, uma delas foram as atividades fora dos muros escolares. Recordo-me de todas as aulas externas como aluna ou professora. Experiências enriquecedoras e inesquecíveis. Navegar por outros mares é preciso!!!

Não é só o professor que deve se atualizar. A sociedade precisa se conscientizar. Enquanto não houver qualificação e apoio dos responsáveis, não haverá educação de qualidade. Na contemporaneidade, com tanta exposição, poluição visual como disse Ítalo Calvino, será luta em vão.

Professores estão cada vez mais doentes. Cada um sabe o fardo que carrega na vida pessoal. E ainda, em sala de aula, lidar com indisciplina, desacato…., Quanta sobrecarga!!!

Segundo um novo estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), em 2025, foi “desenhado” um cenário desafiador em sala de aula: altos índices de estresse, ansiedade e depressão. Isso pelo fato de o Brasil enfrentar um recorde de afastamentos de professores, com mais de 150 mil devido a transtornos mentais como depressão e Burnout. A crise de saúde mental na educação, impulsionada por jornadas excessivas e baixa valorização, teve forte impacto, por exemplo, em São Paulo, onde 25 mil professores foram afastados entre janeiro e setembro. 

Estatísticas de Afastamentos de Professores em 2025

  • Nacional: mais de 150 mil professores afastados por Burnout e Depressão.
  • São Paulo (Rede Estadual): mais de 25 mil professores foram afastados entre janeiro e setembro de 2025.
  • São Paulo (Rede Municipal): uma pesquisa indicou que cerca de 60% dos professores da rede municipal de São Paulo se afastaram por problemas de saúde nos últimos 12 meses.
  • Interior de SP (Regional): cidades como São Carlos e Araraquara registraram 565 licenças médicas por transtornos mentais de janeiro a setembro.
  • Tocantins: mais de 1,7 mil profissionais da rede estadual se afastaram por adoecimento mental em 2025.
  • Campinas (SP): mais de 3 mil professores afastados por transtornos mentais em 2025. 
  • Rio de Janeiro (RJ): 25% dos professores licenciados foram por motivos de depressão ou ansiedade. A situação é agravada por assédio e sobrecarga de trabalho.

Principais Causas e Tendências

  • Saúde Mental: os transtornos mentais e comportamentais são a principal causa de licenças.
  • Diagnósticos Comuns: ansiedade, depressão e estresse, com destaque para a Síndrome de Burnout.
  • Fatores de Risco: as causas incluem jornadas de trabalho excessivas, violência escolar, desvalorização profissional, falta de estrutura e grandes números de alunos por sala.
  • Cenário de Adoecimento: os dados indicam que o adoecimento é estrutural, com tendência de aumento no número de afastamentos na área da educação.

A partir dos dados apresentados, constatamos que a profissão de professor é uma das mais afetadas por transtornos mentais.  No dia 26 de maio de 2025, riscos psicossociais foram incluídos na NR-1, norma que apresenta as diretrizes de saúde no ambiente do trabalho. Após a sua inclusão, o Ministério do Trabalho passa a fiscalizar os riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Isso pode acarretar penalizações, caso sejam identificadas questões como: 

  • metas excessivas 
  • jornadas extensas 
  • ausência de suporte 
  • assédio moral 
  • conflitos interpessoais 
  • falta de autonomia no trabalho 
  • condições precárias de trabalho 

Depois de vivenciar a sala de aula, iniciar mais um ano letivo, ouvir relatos de colegas, cada vez mais ecoa em minha cabeça esta estrofe:

“Como será amanhã?

Responda quem puder

O que irá me acontecer?

O meu destino será como Deus quiser”.

O ano letivo de 2026 mal iniciou e nós, professores, já estamos nos questionando:  “O que irá me acontecer?” E, pior ainda, pensar na aposentadoria. A reforma retardou a saída de milhares de professores. E há emocional para suportar até “pagar o pedágio”?

“Como será amanhã” diante de tantos fatores apresentados anteriormente? Com certeza,  o problema com relação à evasão escolar não está atrelada apenas ao método adotado por quem ensina. Será que todos utilizam os inadequados por serem ultrapassados?

Cabe ressaltar que os tipos de avaliação são diversos. Segundo a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), avaliar não se limita a aplicar provas ou atribuir notas: trata-se de acompanhar o desenvolvimento integral do estudante, identificando avanços, dificuldades e potencialidades. Nesse contexto, há quatro: avaliação diagnóstica, formativa, somativa e autoavaliação. Cada uma possui objetivos e aplicações próprias. Todas têm em comum o compromisso de tornar a aprendizagem mais significativa. Avaliar é preciso!!! Enquanto professora procedo como considero melhor. E, assim, o meu destino será como EU quiser. Abaixo à repressão!!! Viva a liberdade pedagógica!!!

Renata Barcellos

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O professor de Matemática

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O professor de Matemática’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira
Imagem criada por Gemini - a IA do Google - 1ºde março de2026, às 05:37
Imagem criada por Gemini – a IA do Google – 1ºde março de2026, às 05:37

Não vou conseguir precisar o dia em que aquele rapaz atravessou o portão da propriedade, sorriu confiante, apesar da vestimenta surrada, e foi direto cumprimentar meus pais, que já o aguardavam sentados a uma das mesas ao redor da piscina. Soube naquele momento que aquele jovem, apesar da aparência mais velha, contava apenas 18 anos, enquanto eu, no mês seguinte, completaria 20.

           Meu pai não tardou e se levantou. Foi em direção ao velho José, que já o aguardava, junto a um de nossos automóveis, com a porta de trás aberta. Minha mãe acompanhou com o olhar o marido. Os dois se despediram com beijos soltos no ar. Nessa época, creio que ainda guardavam um resquício do amor, que talvez tiveram algum dia.

            Assim que o Opala partiu, minha mãe pegou a mão do rapaz e veio até mim. Não muito alta, ela carregava o costumeiro du Maurier acoplado à piteira dourada. Por conta de tal hábito, um câncer a tomaria por completo duas décadas após.

            — Augusto, meu querido, quero lhe apresentar o Olegário. Ele o ajudará nas tarefas de matemática. 

            Olegário me estendeu a mão. Olhei para ele com ar de arrogância, que, na verdade, não passava de pura inveja. Como é que aquele maltrapilho poderia me ensinar algo? Mero bandalho! Devo ter feito cara de poucos amigos, pois a minha mãe lançou-me aquele olhar fulminante. Não tive escolha e aceitei o cumprimento.

           A partir da semana seguinte, comecei a ter aulas com o meu novo professor. Um prodígio em trigonometria e geometria, devo admitir. Relutante a princípio, acabei me encantando por aquela situação. Não pelos números, diga-se de passagem, pois até hoje não encontrei razão para decorar nem mesmo a tabuada. Se me interessei, foi por aquela voz rouca do Olegário, que, ainda por cima, era dono do sorriso mais lindo que, até recentemente, não tive o prazer de ver igual.

           Durante nossas tardes no meu quarto, ele tentava a todo custo me ensinar atalhos para que eu não tomasse bomba no final do ano. Por debaixo da mesa, ele cutucava a minha perna com a sua, com o intuito de me fazer prestar atenção. Isso me causava calafrios por todo o corpo, mas, covarde que ainda sou, mirava o piso para não ser descoberto.

          As provas finais vieram e, não sei como, consegui concluir meus estudos. Na certa, devo ter me esforçado além do esperado, pois não queria decepcionar o meu mestre. Não sei se ele ficou feliz com a minha aprovação, pois nunca mais o vi. Minha mãe, hoje consigo ter maior clareza sobre isso, o dispensou assim que possível para evitar que algo pudesse causar certo constrangimento na família. 

          Passei os anos seguintes envolto em códigos civis, penais e trabalhistas. Formei-me com louvor e, a partir de então, comecei a exercer a advocacia no escritório do meu pai. Foi justamente nessa época em que conheci Glória, brilhante advogada, com quem muito aprendi do ofício.

            Protegida do meu velho, ela passou a frequentar a nossa casa. Entretidos que estávamos com o volume de trabalho, não tínhamos tempo para o amor. Foi como um acordo que nos casamos no ano seguinte, logo após ganharmos uma causa de milhões. Minha mãe pareceu aliviada com o matrimônio.

            Como prêmio, viajamos para Europa por uma semana. A agora minha esposa, com um francês muito melhor do que o meu, pareceu adorar aquelas explicações intermináveis nas idas aos museus. Como bom marido, mantive-me sempre ao seu lado, mas com a cabeça na pilha de processos que me esperava no escritório.

            Assim que o avião pousou no Galeão, senti um grande alívio. Nada mais de passeios infrutíferos por Paris, onde sentamos em todos os cafés possíveis. A companhia era ótima, é verdade, tanto é que na segunda semana de volta ao Brasil, Glória se sentiu indisposta e correu para o banheiro a fim de evitar devolver, sobre a mesa, o salmão com nozes ingerido há pouco.

            No verão seguinte, eis que estávamos na sala de parto. Minha mulher segurava minhas mãos tão fortemente, que imaginei que iria arrancar todos os meus dedos. Devo confessar que aquela era uma situação nova para mim também, porém, muito mais cômoda. Afinal, todas as dores do parto se encontravam com Glória. 

            Às 12h43 do dia 15 de fevereiro de 1989, ouvimos pela primeira vez o choro de Rubens. Minha esposa e eu, talvez não querendo deixar nosso filho chorando sozinho, o acompanhamos. Esse momento mostrou a nós dois que, apesar de ter surgido de um acordo, aquele casamento havia conseguido gerar um fruto do nosso amor. 

            Depois de alguns meses de correria, a nossa vida acabou entrando nos eixos. É verdade que agora tínhamos um filho para criar e, hoje posso afirmar, o tempo é sábio e toma conta de tudo. Ou, caso não cuide tão bem assim, o dinheiro ajuda a superar as dificuldades.

            Nosso menino cresceu cercado de todos os mimos e regalias, é verdade. No entanto, até entre os abastados há certos percalços. Seja como for, lá estávamos para lhe dar o suporte necessário. E foi assim que fizemos, quando, antes de completar 10 anos, ele cismou em ser tenista.

            Compramos os melhores materiais esportivos, contratamos o mais afamado treinador. Até mandamos construir uma quadra de tênis na nossa ampla propriedade. Entretanto, essa febre passou e a raquete, comprada a peso de ouro, foi parar em algum canto.

            Aos 13, Rubens cismou que queria ser músico. Como dinheiro não era problema, compramos vários instrumentos, mas, no final, o nosso rapazinho desistiu de todos. Ainda carregou a gaita no bolso por alguns meses, mas nunca o vi soprando-a nem uma vez sequer.

            Rubens, prestes a concluir o ensino médio, parece ter herdado a minha aversão por números. Por isso, a minha mãe, ainda que adoentada, contratou um professor de matemática para o único neto. Na hora nem me dei conta da situação, até que, sentados a uma das mesas ao redor da piscina, vi passar pelo portão um jovem de lá seus 25. Na verdade, soube logo em seguida, ainda contava 18. Ele parou diante de mim e sorriu um sorriso, que há muito guardo na lembrança, e, então, naturalmente, acabei por me encantar por aquela rouquidão: “- Prazer, sou o Olegário!”

Eduardo Cesario-Martínez

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Professor, quais são seus maiores desafios?

Renata Barcellos

‘Professor, quais são seus maiores desafios?’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Imagem criada por IA do Grok
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Mês de outubro é de comemoração do professor. Antes de ser instituída a data foi criada a lei educacional do Brasil sancionada por Dom Pedro I em 15 de outubro de 1827. Entretanto, você sabia que foi uma mulher a criar a data em Santa Catarina, em 1948? Antonieta de Barros, uma das três primeiras mulheres eleitas no Brasil e a primeira parlamentar negra (apresentou na Assembleia Legislativa de Santa Catarina o projeto de lei nº 145, de 12 de outubro de 1948), autora da lei que instituiu o dia do professor e o feriado escolar no estado.

Na época, Antonieta justificou a importância da criação da data, argumentando que “Não há quem não reconheça, à luz da civilização, o inestimável serviço do professor”. Em 1963, o presidente João Goulart assinou o decreto nº 52.682, de 14 de outubro de 1963, ratificando a criação do Dia do Professor e determinando-o como feriado escolar.    

Dos anos 60 até a contemporaneidade, quem está em sala de aula percebe a drástica mudança da figura do professor. De admirado a respeitado, considerado o “detentor do conhecimento”; hoje, ser desprezado, violentado. Na maioria das vezes, a sociedade e a família não reconhecem mais a função social do professor. Não o valoriza em termos financeiros e nem acadêmico. O cursinho presencial ou online é melhor do que a escola oferece.

Constantemente, ouve do aluno: “depois eu assisto ou eu assisti ao vídeo do professor X”. Na atualidade, a questão é: qual o papel do professor à frente de uma turma? Estamos falando com as paredes? De acordo com pesquisa realizada durante a Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, menos de 40% dos estudantes nos anos finais do Fundamental (6º, 7°, 8º e 9 º anos) respeitam e valorizam seus professores. Por este índice, podemos imaginar a realidade do Ensino Médio.

O desafio inicial é quando se opta pela licenciatura. O que mais se ouve é: “você tem certeza?”, “vai passar fome”, “isso não é futuro para ninguém”… Quando se ingressa na graduação, eis um problema real: a inadequação das grades curriculares. No caso de Letras, quanto à oferta de Latim e das disciplinas de Literaturas africanas e indígenas,  a lei ainda não é uma realidade em muitas universidades públicas e privadas.                          

A “lei de ensino das literaturas africanas e indígenas” se refere à Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas do Ensino Fundamental e Médio. A lei ampliou a obrigatoriedade original da Lei nº 10.639/2003, que tratava apenas do tema afro-brasileiro. Essa legislação exige que os conteúdos sejam integrados ao currículo, com atenção especial a áreas como literatura, história e educação artística, para promover uma educação antirracista e multicultural.

Outro desafio inerente à formação é a questão de como lidar com alunos com necessidades educacionais especiais. Lidar com salas lotadas e com diferentes especificidades é missão impossível! Preparar atividades diversas e, no quotidiano, muitas vezes, administrar bullying com esses alunos e, pior, dos alunos com o professor… Sabemos que as consequências podem ser graves, incluindo problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, baixa autoestima e, em casos extremos, violência física grave ou suicídio. Com a Lei 14.811/2024, foi criminalizado no Brasil, podendo resultar em multas ou prisão.

Outra conscientização é quanto ao entendimento de como o conhecimento é construído. Definitivamente, a aula não é um espetáculo. E o espaço físico não é um teatro onde ao adentrar o professor encena um “personagem divertido”. Aprendizagem exige um ambiente acolhedor. É um processo solitário. Demanda foco. Atenção no conteúdo a ser estudado. Travar conexões…

Vamos pensar nossa rotina: muitos de nós saímos horas antes para estarmos no horário da aula. É um enorme desgaste físico e psicológico: congestionamentos, expostos à falta de segurança… E, quando se chega à instituição de ensino, muitas vezes, já se ouve de longe: “a senhora veio?” Se estamos passando mal, ouvimos: “Por que veio?”, “Por que não ficou em casa se estava passando mal?”. Ninguém merece ouvir isso! 

Nós, professores, precisamos conviver em harmonia. A sala de aula não deve ser um campo de batalha. Urge um ambiente harmonioso! As relações necessitam ser saudáveis! Jamais hostis – de constantes embates. Não estamos em um ringe! Alunos e responsáveis precisam se conscientizar de que o professor está ali para o desenvolvimento intelectual de cada aluno. No meu caso, das competências leitora e de escrita.                                                                                             

Outro desafio é a escolha (quando no setor público) do material didático. E, na rede privada, a IMPOSIÇÃO de material pronto para a rede. Pior ainda de avaliações já prontas. Fico me perguntando: neste caso, qual o papel do professor? Não tem liberdade para escolher seu material e elaborar suas avaliações? O profissional é monitorado o tempo todo: da câmera em sala de aula, supervisões para assistir às aulas, abordagem de conteúdos e utilização de material didático adotado pelas instituições. Ser professor está se tornando um reality show?

Na atualidade, um dos centros das atenções mundial é o uso do celular. A Lei nº 15.100/2025 restringe o uso de celulares por alunos em escolas públicas e privadas de educação básica, não sendo uma proibição total, pois permite a utilização para fins pedagógicos, em situações de segurança, para garantir acessibilidade, inclusão e para atender condições de saúde.

Sancionada em janeiro de 2025, visa melhorar a concentração, o aprendizado e a saúde mental dos estudantes, cabendo às escolas definir as estratégias de implementação. Hoje, uma das frases mais proferidas por nós é: “desliga ou guarda o celular”.

Nós, professores, estamos EXAUSTOS. Além desses desafios e de outros aqui não mencionados, há as constantes cobranças. Ainda mais neste período do ano: aprovação, índices de reprovados, metas…

Não poderia de deixar de abordar a violência física e ou psicológica e o assédio moral. Os índices só aumentam.  De acordo com uma pesquisa da Nova Escola e Instituto Ame Sua Mente, 8 em cada 10 educadores sofreram agressão em 2023, um aumento de 20% em relação a 2022. A maioria é verbal, mas outros tipos incluem assédio moral, bullying e agressões físicas. Em um estudo comparativo da OCDE, o Brasil apresentou o maior índice de agressões verbais ou intimidação de alunos por semana entre os países pesquisados. Lamentável!!!

E o reconhecimento daqueles que, apesar desses e de outros desafios, ainda fazem a diferença? É preciso valorizar os resilientes, os que vestem a camisa da EDUCAÇÃO, os que burlam o sistema e fazem a diferença na vida de cada um de seus alunos, os que consideram-nos protagonistas e não meros coadjuvantes da construção de seu conhecimento.

No que se refere à realidade da África, de países de Língua Portuguesa, de acordo com o angolano Celso Mariano Kahenda Praia (consultor linguístico e literário), um dos grandes desafios do professor hoje é “ter que ensinar um aluno que vai à escola apenas para cumprir formalidades familiar e social. O aluno vai à escola, mas não sabe o fundo da sua presença na escola, nem o para quê da sua formação.

A partir dali, percebemos o grandioso desinteresse na participação da construção de novos conhecimentos para si. Há alunos que nem sabem que disciplina terão num determinado dia, e ficam surpresos com a entrada do Professor. Portanto, não saber o porquê e o para quê ir e estar na escola é o motivo do insucesso de muitos alunos, e deve ser um dado fulcral na atenção não só dos Professores, mas também dos Pais e Encarregados de Educação”.

Já para Joaquim Einstein (professor de Matemática, Física e Química e escritor), os maiores desafios hoje para os professores estão “ligados a muitos aspectos como: falta de interesse nos estudos por parte dos estudantes, carência de materiais nas escolas, e rendimento débil dos estudantes. Como professores procuramos todos os dias mitigar estes problemas”. Podemos verificar que, apesar de continentes diferentes, os desafios são similares.

Nas literaturas brasileiras, há personagens que representam a figura do professor como:

-Antônio Conselheiro: Embora não seja um professor formal, ele é uma figura que transmite conhecimentos e tem um papel formador para a população do sertão, como aparece em obras de Euclides da Cunha e outros autores.

– Professora Maluquinha , criada por Ziraldo, é a protagonista de Uma Professora Muito Maluquinha. Ela se destaca por sua didática criativa e por ensinar com alegria e amor pela leitura.   

– Professor Heliseu do livro O Professor de Cristovão Tezza. É um professor aposentado que relembra sua carreira e os eventos políticos do Brasil enquanto prepara um discurso de homenagem. Além disso, muitos escritores brasileiros também foram professores.

Eis alguns exemplos: como   

– Ariano Suassuna: O autor de O Auto da Compadecida lecionou por mais de três décadas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde suas aulas de Estética eram consideradas espetaculares.   

– Cecília Meireles: além de ser uma das mais importantes poetisas modernistas, ela foi educadora da primeira infância. Fundou, em 1934, a primeira Biblioteca Infantil do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1953, recebeu o título de Doutora Honoris Causa (entregue a personalidades que se destacaram por sua contribuição à cultura, à educação ou à Humanidade).

– Conceição Evaristo: a professora Evaristo se tornou uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas. Sua obra é marcada por temas relacionados à identidade, discriminação racial e o papel da mulher negra na sociedade. Um de seus trabalhos mais significativos é o romance “Ponciá Vicêncio”, onde narra a trajetória de uma mulher negra em busca de sua ancestralidade e liberdade.

-Consuelo Travassos: professora e escritora.

– Jorge Eduardo Magalhães: professor, escritor e diretor da harmonia da Sociedade Recreativa Escola de Samba Lins Imperial.   

– Maria Firmina dos Reis: considerada a primeira mulher romancista brasileira, escreveu também o primeiro livro do Brasil que abordava a questão abolicionista na obra Úrsula.  

– Otto Lara Resende: jornalista e escritor, também atuou como professor universitário.                                                                                                                                      

– Ray Brandão: professora, escritora e idealizadora do Coletivo de Escritores Maranhenses.                                                                                                                              

– Wanda Cunha: professora aposentada, trovadora, presidente da Academia Maranhense de Trovas.  

Urge sermos mais humanos, solidários… Amo minha profissão, sempre estou implementando algo novo, mas a falta de tudo é desolador. Por uma EDUCAÇÃO SEM OPRESSÃO. ABAIXO À VIOLÊNCIA! EDUCAR, para liberdade conquistar. E parabéns ao Sinpro-Rio pela a campanha “Educação Tem Nome, CPF e Impressão Digital”, #EducaçãoTemNome.

Renata Barcellos

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A desunião na classe dos professores

Fidel Fernando: ‘A desunião na classe dos professores
e os impactos na educação’

Fidel Fernando
Fidel Fernando
Imagem gerada por IA do Bing – 17 de Julho de 2025, às 16:38 AM
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às 16:38 AM

Celso Antunes, na obra aludida, argumenta que o sistema educacional muitas vezes falha por não estabelecer padrões claros, perpectuando uma cultura de improvisação e falta de critério.”

A desvalorização da classe docente é um problema amplamente discutido, mas um aspecto menos explorado é a desunião entre os próprios professores, que fragiliza ainda mais a autoridade pedagógica e a eficácia do ensino. Como observa a Dra. Simone Benedetti, essa desunião manifesta-se na falta de padrões comuns de conduta dentro da escola, gerando confusão nos alunos e minando a coesão necessária para um ambiente educativo eficiente. 

Esta falta de uniformidade nas regras e métodos de ensino pode ser analisada à luz das obras de Celso Antunes (‘Escola Mentirosa’), Mário Sérgio Cortella (‘Família: Urgências e Turbulências’) e Leandro Karnal (‘Conversas com um Jovem Professor’). Enquanto Antunes critica a incoerência do sistema educativo, Cortella discute a importância de limites claros, e Karnal reflecte sobre a prática docente e a necessidade de consistência na relação professor-aluno. 

Um dos exemplos mais evidentes da desunião docente é a divergência nos critérios de correcção de actividades, provas e avaliações. Enquanto alguns professores são rigorosos, assinalando e corrigindo erros ortográficos, concordância e pontuação, outros ignoram esses detalhes, atribuindo notas sem a devida análise. Essa disparidade confunde os alunos, que não sabem ao certo o que é exigido. 

Celso Antunes, na obra aludida, argumenta que o sistema educacional muitas vezes falha por não estabelecer padrões claros, perpectuando uma cultura de improvisação e falta de critério. Se a escola não define parâmetros comuns, os alunos recebem mensagens contraditórias, prejudicando seu desenvolvimento linguístico e cognitivo. 

Outro ponto crítico é a permissividade versus rigor ou, melhor, a variação na aplicação de regras. Alguns professores proíbem o uso de corrector, incentivando a escrita precisa das palavras; outros permitem, mas com restrições; há ainda os que não se importam. Essa falta de uniformidade transmite aos alunos a ideia de que as normas são flexíveis conforme o professor, o que periga a autoridade colectiva do corpo docente. 

Mário Sérgio Cortella, no livro mencionado acima, ressalta que limites claros são fundamentais para a formação do carácter. Se na família a ausência de regras gera jovens despreparados para a vida, na escola, a inconsistência nas normas prejudica a disciplina e o respeito. 

A forma como os alunos reagem a diferentes figuras de autoridade (professores, coordenadores, funcionários não docentes) também evidencia a falta de unidade na condução disciplinar. Enquanto alguns docentes conseguem impor respeito com métodos próprios, outros enfrentam resistência dos alunos. 

Karnal, na sua obra, defende que a postura do professor deve ser firme, mas sem autoritarismo. Ele relata que a eficácia na gestão da sala de aula não depende de gritos, mas de clareza nas expectativas e consistência nas acções. Quando os professores agem de forma coordenada, os alunos internalizam melhor as regras.

Ademais, a desunião entre os professores não apenas afecta a dinâmica da sala de aula, mas também impacta o comportamento dos alunos. Quando um estudante desrespeita um professor, por exemplo, é crucial que todos os educadores intervenham de forma semelhante, reforçando a ideia de que a responsabilidade e o respeito devem ser universais. Caso contrário, a mensagem que os alunos recebem é de que existem diferentes padrões de conduta, dependendo do professor em questão.

Em jeito de conclusão, a desunião entre professores é um problema estrutural que exige reflexão colectiva. Se, por um lado, a diversidade de métodos pode enriquecer o ensino, por outro, a falta de padrões mínimos gera insegurança e indisciplina. Como sugerem Antunes, Cortella e Karnal, a solução passa por:  i) estabelecer normas claras e consensuais entre o corpo docente; ii) promover a formação contínua, discutindo estratégias pedagógicas alinhadas; iii) fortalecer a autoridade colectiva, para que os alunos encarem os professores como uma equipa coesa. 

A educação só será verdadeiramente eficaz quando os professores falarem a mesma língua, não no sentido de uniformizar pensamentos, mas de garantir coerência nas acções. Se queremos alunos disciplinados e críticos, precisamos de começar por uma docência unida e consistente. 

Fidel Fernando

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Professor, a máscara caiu!

José Ngola Carlos: ‘Professor, a máscara caiu!’

Kamuenho Ngululia
Kamuenho Ngululia
Imagem criada por IA do Bing – 24 de março de 2025,
às 07:12 PM

À primeira vista, pode parecer estranho e ignorante a afirmação de que um Mestre não é um professor e um professor não é um Mestre. Mas, estimado leitor ou leitora, tenha em mente que esta é uma questão que deve ser compreendida tendo em conta o surgimento e o desenrolar histórico de cada um dos títulos em referência, nomeadamente: o Mestre e o professor.

Historicamente falando, quem eram os Mestres na antiguidade e quem são os mestres hoje?

Talvez não lhe tenha passado despercebido que, neste artigo, usou-se o título Mestre com a letra inicial maiúscula e mestre com a inicial minúscula. Essa distinção é proposital. A primeira designação é em referência aos Mestres do passado, e a segunda designação é uma referência aos mestres da nossa época.

Consideradas estas duas categorias de mestres, convém entendê-las por separado.

Os Mestres da primeira categoria compreendem todos os sábios ou pensadores da antiguidade que dedicavam as suas vidas para a emancipação intelectual de seus discípulos. Nesta primeira categoria, a relação existente era de Mestre e discípulos. Os Mestres da antiguidade possuíam suas próprias escolas nas quais os discípulos eram iniciados. E, por escola, convém sublinhar que não nos referimos a um edifício, antes, a um sistema de pensamento próprio. A título de exemplo, são dignos de menção como Mestres os seguintes pensadores: Sócrates, Heráclito, Jesus etc. Estes são os Mestres da vida, pela vida.

A segunda categoria de mestres compreende um grupo vasto de pessoas hoje que, possuindo algum poder financeiro e desejando algum status social, vão às universidades adquirir um certificado ou diploma de mestrado. Estes mestres, longe de serem comparados com os da primeira categoria, são o produto do poder económico e político, criado no esforço de se fazer a contínua manutenção dos dois poderes sociais já mencionados. Estes são os mestres do papel, no papel para a manutenção do poder.

Aqui, somos de ressaltar que, quando afirmamos que um Mestre não é um professor e um professor não é um Mestre, fazêmo-lo em referência aos Mestres da primeira categoria, que sempre foram poucos e que atualmente estão quase extintos e não aos mestres da segunda categoria que constituem a massa de gente equivocada e pouco ou nada producente hoje.

Quem é o professor?

Infelizmente, os professores são os sucessores em substituição aos Mestres, ou melhor, considerados uma ameaça pelo poder político, os Mestres da primeira categoria foram aos poucos combatidos por leis e força física até a sua quase extinção. De lembrar que muitos foram deportados, espancados e mortos, nomeadamente: Sorôkin, Diógenes e Sócrates, só para mencionar alguns. Pelo que, os professores são uma subclasse de políticos inferiores na educação.

Em síntese, um Mestre não é um professor e um professor não é um Mestre pelas seguintes razões:

  1. Um Mestre é um indivíduo autêntico, um professor é um produto social.
  2. Um Mestre é autónomo, um professor é dependente do poder político.
  3. Um Mestre é um ente produtor, um professor é um ente reprodutor.
  4. Um Mestre é um pensador livre, um professor está proibido de pensar.
  5. Um Mestre ensina a seus discípulos a pensar, um professor ensina a seus alunos a repetir o que já se pensou.
  6. Um Mestre ensina o que ele próprio conheceu, um professor ensina o que outros conheceram.
  7. Um Mestre é um ser humano, um professor é um papagaio.
  8. Um Mestre prepara os discípulos para os desafios da vida, um professor prepara os alunos para os exames.

Kamuenho Ngululia
Malanje, 24 de março de 2025

Como citar este artigo:  Ngululia, K. (2025:3). Professor, A Máscara Caiu! Brasil: Jornal Cultural ROL.

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Era uma vez

Evani Rocha: Poema ‘Era uma vez’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada por IA do Gencraft, em 06 de março de 2025, às 8h.

Era uma vez um diário
Preenchido todo à mão
Caneta esferográfica
Com toda dedicação

Era aula após aula,
Era dia após dia
Era o bimestre inteiro
Sem rasura, sem borrão

Era uma vez uma escola
Feito campinho de bola
Das risadas no recreio
Da merenda saborosa

Era uma vez um estudante
Comprometido e educado
Sapato preto nos pés
E uniforme bem-passado

O livro encapado à mão
O caderno caprichado
Na memória a tabuada
E as respostas da lição.

Era uma vez um bom mestre
Experiente e exigente
Caxias ou mentor
Quadro negro e giz de pó

Era o mestre professor
Tabuada, cálculos e textos
Todos os tempos verbais
As quatro operações
Em aulas tradicionais?

Formavam-se outros mestres:
Professores, Advogados,
Engenheiros e médicos –
Competentes profissionais.

Era uma vez uma educação
Presenças, faltas e provas
Questionários e tarefas
Direito e obrigação?

Era uma vez um salário:
Da saliva ao pó de giz,
Do diário de papel,
Do ensino tradicional,
De valor profissional?

Evani Rocha




Professor

José Ngola Carlos

Professor: ‘uma subclasse de políticos inferiores na educação’

Kamuenho Ngululia
Kamuenho Ngululia
Imagem criada por IA no Bing – 25 de fevereiro de 2025,
às 15:24 PM

A história da educação revela que o processo educativo começou como um fenómeno comunal no qual a educação era ministrada pela comuna a todos os indivíduos pertencentes a ela. Nesta fase, a educação compreendia ensinar tudo a todos, uma educação para a vida e por meio da vida.

Passada esta fase, a educação se tornou um fenómeno social. Como fenómeno social, a educação se fez privilégio da classe alta, pelo que, já não se poderia ensinar tudo a todos, muito menos se poderia conceber uma educação para a vida e por meio da vida, antes, deu-se início à educação para a sobrevivência das classes baixas e a manutenção de poder para a classe alta.

Nas comunas, a educação era ministrada pelos mais velhos da comunidade em contexto de vida prática. Com o surgimento das sociedades, começam a surgir, na educação, figuras como o sacerdote, o mago, o mestre, etc. Porém, na sua gênese, o estado e a educação eram entidades não correlacionadas, o que quer dizer que, o estado não tinha nenhum controle sobre a educação, nem o manipulava para os seus fins.

Os mestres eram entidades independentes e autónomas. Estes concebiam seus próprios métodos e currículos educativos. Com o tempo, apercebendo-se da influência e do poder que os mestres ou educadores da época exerciam sobre as massas, conveio ao poder político regular o sistema educativo para evitar, diriam eles, anarquia e caos.

É com a presença do poder político na educação que surge a figura do professor e da professora.

Quem é o professor? Quem é a professora?

Os professores são uma subclasse de políticos inferiores, inseridos na educação pelo poder político como estratégia para conter a força e a influência dos mestres sobre a ordem social. Percebam ou não, os professores estão ao serviço da manutenção do poder político vigente, bem como a contínua subjugação das classes baixas.

Por que considerá-los uma subclasse de políticos inferiores inseridos na educação?

Os professores são uma subclasse de políticos inferiores inseridos na educação porque, dentre outras razões:

  1. O professor é um instrumento político e não um indivíduo pensante
  2. O professor não é autónomo, muito menos independente
  3. O professor está ao serviço da sociedade sob a direção do poder político e
  4. O professor não delibera sobre o que ensinar e como ensinar.

Kamuenho Ngululia
Malanje, 25 de fevereiro de 2025

Como citar este artigo: 
Ngululia, K. (2025:2). Professores: uma subclasse de políticos inferiores na educação.
Brasil: Jornal Cultural ROL

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