Félix Nicolau

Entrevista com o escritor e professor universitário romeno
Félix Nicolau

Logo da seção Entrevistas ROLianas
Logo da seção Entrevistas ROLianas

“Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se
contra a censura”. (Félix Nicolau)

Professor Felix Nicolau - Arquivo pessoal
Professor Felix Nicolau – Arquivo pessoal

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, e´ com grande prazer que vos apresento Félix Nicolau, um erudito e uma das personalidades da literatura romena contemporânea, com uma carreira complexa e multifacetada que combina, com naturalidade, a criação literária, a reflexão crítica e a atividade académica. 

Licenciado em Filologia e Filosofia, obteve o título de Doutor em Filologia em 2003, com uma tese de literatura comparada. A sua estreia editorial ocorreu em 1996 com o livro de poesia Ascultând cerurile, publicado na revista Arca de Arad, marcando o início de uma atividade literária prolífica e diversificada. 

É membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras.  

Ao longo do tempo, Felix Nicolau publicou uma obra rica que inclui poesia (quatro volumes), prosa (dois romances) e ensaios e crítica literária (nove livros). 

No domínio da poesia, obras como Kamceatka, Time is Honey (2014), Bach, manele & kostel (2003), Salonul de invenții (2002) e Cucerirea râsului (1996) revelam um poeta preocupado com o jogo semântico, a ironia cultural e a expressão lúdica.

No que se refere à prosa, os romances Tandru și rece (2007) e Pe mâna femeilor (2011) são exemplos do seu interesse pela exploração das relações interpessoais e dos paradigmas socioculturais do espaço pós-moderno romeno. 

No domínio da crítica literária e da teoria cultural, Nicolau publicou vários volumes de ensaios e estudos que refletem profundas preocupações teóricas. Entre as suas obras de referência, destacam-se: Homo Imprudens (2006), Anticanonice (2009), Codul lui Eminescu (2010), Estetica umană: de la postmodernism la Facebook (2013) e os volumes de 2014: Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity e Comunicare și creativitate. Interpretarea textului contemporan e Take the Floor. Professional Communication: Theoretical Contextualization. Mais recentemente, Nicolau publicou Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice (2021) e Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale (2024), no qual aborda temas atuais relacionados com a hermenêutica, a identidade e o discurso cultural na era digital.

Além da paixão pela escrita e pela crítica, Felix Nicolau é um professor universitário dedicado e respeitado. Leciona literatura, comunicação e estudos culturais em diversas instituições académicas, nomeadamente como professor convidado do Instituto da Língua Romena (ILR) na Universidade Complutense de Madrid e na Universidade de Granada, como professor na Universidade Técnica de Construções Civis de Bucareste, na Roménia, e como professor convidado na Universidade de Lund, na Suécia.

Além disso, é afiliado à Escola de Doutoramento em Filologia da Universidade “1 de Dezembro de 1918” de Alba Iulia, na Roménia, onde contribui para a formação de investigadores nas áreas da literatura e da comunicação.

A obra e a atividade de Felix Nicolau inserem-se nos debates contemporâneos sobre literatura e cultura, dado que o autor participa ativamente na vida jornalística e académica, tanto romena como internacional, colaborando com publicações como o Swedish Journal of Romanian Studies, a Littera Nova ou a Bucovina literară.

Através das suas abordagens teóricas, ensaísticas e criativas, Felix Nicolau procura conferir clareza e profundidade ao discurso literário, explorando simultaneamente as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade.

Rhea Cristina: Conhece e fala sete línguas estrangeiras: inglês, italiano, francês, espanhol, alemão, português e sueco. O que o levou a estudar português? O que representam para si o Brasil e a América do Sul em geral?

Felix Nicolau: Há muitos anos, frequentei cursos de língua e cultura portuguesas na embaixada do Brasil em Bucareste. Com certeza irei frequentar um novo curso num instituto para atualizar os meus conhecimentos da língua. Por isso, conheço melhor o português do Brasil, que, aliás, tem uma pronúncia mais clara. 

Sempre me interessei pela cultura de expressão portuguesa, devido à sua vastidão temporal e espacial. O Brasil e a América do Sul são um caldeirão de culturas que não se pode deixar de conhecer. E como nós, romenos, também usamos uma língua neolatina, seria uma pena não aceder ao original do que as culturas de expressão portuguesa têm para oferecer.

Rhea Cristina: O que significam para si as palavras «história», «identidade» e «memória individual e coletiva»? 

Felix Nicolau: São conceitos essenciais para o ser humano. Por exemplo, não basta uma pessoa falar com um certo grau de correção a língua portuguesa ou a língua romena para se poder dizer que é brasileira ou romena. A identidade, que inclui os tipos de memória, significa conhecer a história sem distorções, as tradições e a cultura em causa. Sem isso, ninguém pode assumir uma identidade específica. 

Pelo contrário, se um estrangeiro aprender bem essas coisas, então torna-se mais nativo do que um habitante local que não se esforça para desenvolver a sua identidade. Portanto, a identidade conquista-se, não é algo que se tenha por direito. É em vão que muitos se gabam de ter nascido num determinado lugar. Podiam ter nascido noutro qualquer lugar. 

A falta de pensamento crítico e os automatismos são pragas da humanidade que só podem ser curadas através da exposição à cultura autêntica. No entanto, isso está a tornar-se cada vez mais difícil, pois a educação está cada vez mais diluída. Especialmente para se obter o ser humano globalizado, o homem de plasticina.

Rhea Cristina: Durante os 50 anos de totalitarismo, a Europa de Leste produziu apenas cultura de propaganda? A cultura da Europa de Leste submeteu-se totalmente aos cânones da ideologia oficial? Que ensinamentos sobre os valores do ser humano nos legou essa cultura?

Felix Nicolau: …De modo algum. É verdade, porém, que apenas a cultura alinhada com o sistema comunista foi promovida. Além disso, era mesmo perigoso produzir cultura não alinhada. Muitos acabaram na prisão, foram mortos ou perderam o estatuto social por causa disso. Em suma, apenas os fanáticos, os idiotas e os oportunistas se submeteram aos cânones da cultura oficial. 

A verdadeira cultura, a não alinhada, revelou o lado absurdo, ou mesmo feroz, do mundo. Não existe uma cultura do Leste europeu, mas sim várias. Os romenos promovem criações com um toque folclórico, mas também o absurdo e as vanguardas. Os checos têm um sentido de humor ingênuo-absurdo no cinema. Os húngaros têm uma inclinação para o absurdo sofisticado e para uma visão romântica e misteriosa. E assim sucessivamente. São povos com matrizes culturais semelhantes, mas também diferentes. 

Daí os frequentes conflitos e a incapacidade de estabelecer uma aliança político-militar-econômica em toda a região. Isso diz muito sobre as diferenças.

Rhea Cristina: Num mundo com grandes mudanças geopolíticas, como o atual, qual é ou qual deveria ser o papel da cultura a nível mundial? Que importância tem a cultura europeia? E a literatura sul-americana? 

Felix Nicolau: A cultura tem, como sempre, um papel duplo: preservar identidades e tradições elevadas, não bárbaras, e construir pontes interculturais. Não é uma tarefa fácil e, infelizmente, muitos promotores culturais têm um domínio limitado da cultura, limitando-se a procurar um lugar confortável em diversas instituições e projetos. Além disso, há muitos projetos supostamente culturais, mas centrados em aspectos da moda e ideologizados que, na verdade, não contribuem em nada para a vida cultural. 

A literatura sul-americana tem um papel especial precisamente devido à cultura de onde provém. Como se sabe, esta literatura abordou, com meios estilísticos espetaculares, temas relacionados com a ditadura e o autoritarismo. Afinal, é isso que a literatura deve fazer: propor novas formas narrativas e desenvolver a humanidade, expondo temas e situações de forma desideologizada. Não impor uma única forma de leitura.

Rhea Cristina: Qual é, atualmente, o estatuto do escritor, filósofo e tradutor no espaço cultural europeu e mundial? 

Felix Nicolau: Existem diferenças significativas entre estas três figuras. O escritor tornou-se um pilar da sociedade do espetáculo e um crítico desta, apenas na medida em que não é movido pelo desejo de receber prêmios. Refiro-me aos escritores representativos, aqueles que são apoiados pelos sistemas. No entanto, também existem escritores livres que não se deixam condicionar pelas relações comerciais em busca do sucesso. 

Ultimamente, os filósofos representativos têm recuperado a vantagem perdida face aos escritores. Surgem filósofos-influenciadores que dão conselhos, sobretudo, sobre a felicidade. Quanto aos tradutores, tinham alcançado um certo nível de respeitabilidade, sobretudo sob a pressão dos estudos de tradução. No entanto, a explosão de programas baseados em inteligência artificial irá reduzir a sua contribuição. Ficarão muito poucos tradutores, que se dedicarão mais a aperfeiçoar as traduções feitas com IA. 

Porém, os escritores também começaram a criar textos de forma pós-algorítmica com a ajuda da IA, embora poucos o reconheçam. De qualquer forma, um artista define-se pela liberdade na sua arte. Enquanto o artista se preocupar em incorporar a correção política do momento no seu processo criativo, a sua arte estará morta a nível ontológico. Por mais prêmios que receba.

Rhea Christina: Que tipo de intelectual existe atualmente na Europa e na cultura sul-americana? Estão presentes na cena cultural mundial?

Felix Nicolau: Na minha opinião, um intelectual não é apenas um especialista ou um homem de cultura pago pelo Sistema. O intelectual é alguém que está genuinamente em busca da verdade, com espírito crítico, e que se esforça por acumular informação de tantos domínios quanto possível. Essa informação é depois integrada no seu sistema cultural com base em critérios de valor, e não em função de ofertas e oportunidades. 

Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se contra a censura. Poderia dizer que uma pessoa amplamente aceite pelo Sistema e multipremiada não pode, de forma alguma, ser um intelectual. A função do intelectual consiste, acima de tudo, em lutar pela decência e pelos direitos, e não em alinhar com os diversos discursos do poder. Da mesma forma, um intelectual esforça-se por construir a sua cultura através de várias línguas estrangeiras. 

A verdade é que esta condição humana é extremamente rara e, na maioria dos casos, é marginalizada. A história mostra-nos que a espécie humana não gosta de jogos justos e baseados em regras. Desde sempre que os sistemas têm influenciado o resultado do jogo e da competição. O mundo poderia ter sido um paraíso para todos, mas está longe disso. 

O mito do robô que libertará o homem do trabalho e lhe permitirá dedicar-se à construção cultural não passa de um mito. A proliferação dos robôs empurra o homem verdadeiramente trabalhador, que não usufrui de diversos privilégios imerecidos, para fora do panorama, tornando-o inútil e dispensável. É uma perspetiva sombria, nada intelectual.

Rhea Cristina: Qual é a sua mensagem para a comunidade romena no Brasil e para a comunidade cultural brasileira?  

Felix Nicolau: Uma mensagem de coragem e abertura cultural, ou seja, de esforço intelectual contínuo, de acumulação e interpretação. Não nos limitemos à superfície das culturas; estudemos com energia durante toda a vida. Só assim as culturas podem permanecer verdadeiramente vivas e não se transformar em mecanismos festivos para a promoção de diversos funcionários. 

Lutem pela verdade e não se deixem levar apenas pelos influenciadores culturais. Procurem os verdadeiros sábios. Pensem, portanto, na vitória e na alegria.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

Todos los derechos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com

Rhea Cristina

Voltar

Facebook




Professor: profissão perigo?

                                                

Renata Barcellos: ‘Professor: profissão perigo?

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ce7556-f6dc-83e9-a142-841c6434d075

Desde o início deste ano letivo, tenho presenciado professores ‘desabafando’ em reuniões, intervalos… E o mais preocupante: todos os relatos são de capacitados e centrados. As queixas? Turmas numerosas, desinteresse dos alunos, desrespeito… Ao ouvi-los, veio-me à cabeça um fragmento desta música de Beth Carvalho cantada há décadas:

“Como será amanhã?

Responda quem puder

O que irá me acontecer?

O meu destino será como Deus quiser”.

Esta estrofe sintetiza a inquietação e indignação de muitos docentes como eu. Atuo na área da educação desde 92 e nunca vivi e presenciei tamanho caos. Os fatores são diversos como desinteresse, desrespeito, agressões, assédio, má formação profissional …A quem culpar? Ao método de ensino do professor apenas ? Cruel isso, não!?

Desafio o leitor a entrar em uma sala de aula sem estrutura física e/ou sem recursos com 50 alunos e, dentre estes, muitos com autismo, TDH… e conseguir ministrar uma aula motivadora. Em tempos de celular, de aplicativos variados … como concorrer com a tecnologia? Fomos orientados para utilizar ferramentas tecnológicas em aula? A escola e os responsáveis estão preparados para lidar com novas formas de construção de conhecimento? Em tempo, ainda hoje quando se propõe uma aula externa, persiste em considerar isso como passeio. Você, leitor, quais são suas recordações em tempo de escola? Com certeza, uma delas foram as atividades fora dos muros escolares. Recordo-me de todas as aulas externas como aluna ou professora. Experiências enriquecedoras e inesquecíveis. Navegar por outros mares é preciso!!!

Não é só o professor que deve se atualizar. A sociedade precisa se conscientizar. Enquanto não houver qualificação e apoio dos responsáveis, não haverá educação de qualidade. Na contemporaneidade, com tanta exposição, poluição visual como disse Ítalo Calvino, será luta em vão.

Professores estão cada vez mais doentes. Cada um sabe o fardo que carrega na vida pessoal. E ainda, em sala de aula, lidar com indisciplina, desacato…., Quanta sobrecarga!!!

Segundo um novo estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), em 2025, foi “desenhado” um cenário desafiador em sala de aula: altos índices de estresse, ansiedade e depressão. Isso pelo fato de o Brasil enfrentar um recorde de afastamentos de professores, com mais de 150 mil devido a transtornos mentais como depressão e Burnout. A crise de saúde mental na educação, impulsionada por jornadas excessivas e baixa valorização, teve forte impacto, por exemplo, em São Paulo, onde 25 mil professores foram afastados entre janeiro e setembro. 

Estatísticas de Afastamentos de Professores em 2025

  • Nacional: mais de 150 mil professores afastados por Burnout e Depressão.
  • São Paulo (Rede Estadual): mais de 25 mil professores foram afastados entre janeiro e setembro de 2025.
  • São Paulo (Rede Municipal): uma pesquisa indicou que cerca de 60% dos professores da rede municipal de São Paulo se afastaram por problemas de saúde nos últimos 12 meses.
  • Interior de SP (Regional): cidades como São Carlos e Araraquara registraram 565 licenças médicas por transtornos mentais de janeiro a setembro.
  • Tocantins: mais de 1,7 mil profissionais da rede estadual se afastaram por adoecimento mental em 2025.
  • Campinas (SP): mais de 3 mil professores afastados por transtornos mentais em 2025. 
  • Rio de Janeiro (RJ): 25% dos professores licenciados foram por motivos de depressão ou ansiedade. A situação é agravada por assédio e sobrecarga de trabalho.

Principais Causas e Tendências

  • Saúde Mental: os transtornos mentais e comportamentais são a principal causa de licenças.
  • Diagnósticos Comuns: ansiedade, depressão e estresse, com destaque para a Síndrome de Burnout.
  • Fatores de Risco: as causas incluem jornadas de trabalho excessivas, violência escolar, desvalorização profissional, falta de estrutura e grandes números de alunos por sala.
  • Cenário de Adoecimento: os dados indicam que o adoecimento é estrutural, com tendência de aumento no número de afastamentos na área da educação.

A partir dos dados apresentados, constatamos que a profissão de professor é uma das mais afetadas por transtornos mentais.  No dia 26 de maio de 2025, riscos psicossociais foram incluídos na NR-1, norma que apresenta as diretrizes de saúde no ambiente do trabalho. Após a sua inclusão, o Ministério do Trabalho passa a fiscalizar os riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Isso pode acarretar penalizações, caso sejam identificadas questões como: 

  • metas excessivas 
  • jornadas extensas 
  • ausência de suporte 
  • assédio moral 
  • conflitos interpessoais 
  • falta de autonomia no trabalho 
  • condições precárias de trabalho 

Depois de vivenciar a sala de aula, iniciar mais um ano letivo, ouvir relatos de colegas, cada vez mais ecoa em minha cabeça esta estrofe:

“Como será amanhã?

Responda quem puder

O que irá me acontecer?

O meu destino será como Deus quiser”.

O ano letivo de 2026 mal iniciou e nós, professores, já estamos nos questionando:  “O que irá me acontecer?” E, pior ainda, pensar na aposentadoria. A reforma retardou a saída de milhares de professores. E há emocional para suportar até “pagar o pedágio”?

“Como será amanhã” diante de tantos fatores apresentados anteriormente? Com certeza,  o problema com relação à evasão escolar não está atrelada apenas ao método adotado por quem ensina. Será que todos utilizam os inadequados por serem ultrapassados?

Cabe ressaltar que os tipos de avaliação são diversos. Segundo a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), avaliar não se limita a aplicar provas ou atribuir notas: trata-se de acompanhar o desenvolvimento integral do estudante, identificando avanços, dificuldades e potencialidades. Nesse contexto, há quatro: avaliação diagnóstica, formativa, somativa e autoavaliação. Cada uma possui objetivos e aplicações próprias. Todas têm em comum o compromisso de tornar a aprendizagem mais significativa. Avaliar é preciso!!! Enquanto professora procedo como considero melhor. E, assim, o meu destino será como EU quiser. Abaixo à repressão!!! Viva a liberdade pedagógica!!!

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




O professor de Matemática

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O professor de Matemática’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira
Imagem criada por Gemini - a IA do Google - 1ºde março de2026, às 05:37
Imagem criada por Gemini – a IA do Google – 1ºde março de2026, às 05:37

Não vou conseguir precisar o dia em que aquele rapaz atravessou o portão da propriedade, sorriu confiante, apesar da vestimenta surrada, e foi direto cumprimentar meus pais, que já o aguardavam sentados a uma das mesas ao redor da piscina. Soube naquele momento que aquele jovem, apesar da aparência mais velha, contava apenas 18 anos, enquanto eu, no mês seguinte, completaria 20.

           Meu pai não tardou e se levantou. Foi em direção ao velho José, que já o aguardava, junto a um de nossos automóveis, com a porta de trás aberta. Minha mãe acompanhou com o olhar o marido. Os dois se despediram com beijos soltos no ar. Nessa época, creio que ainda guardavam um resquício do amor, que talvez tiveram algum dia.

            Assim que o Opala partiu, minha mãe pegou a mão do rapaz e veio até mim. Não muito alta, ela carregava o costumeiro du Maurier acoplado à piteira dourada. Por conta de tal hábito, um câncer a tomaria por completo duas décadas após.

            — Augusto, meu querido, quero lhe apresentar o Olegário. Ele o ajudará nas tarefas de matemática. 

            Olegário me estendeu a mão. Olhei para ele com ar de arrogância, que, na verdade, não passava de pura inveja. Como é que aquele maltrapilho poderia me ensinar algo? Mero bandalho! Devo ter feito cara de poucos amigos, pois a minha mãe lançou-me aquele olhar fulminante. Não tive escolha e aceitei o cumprimento.

           A partir da semana seguinte, comecei a ter aulas com o meu novo professor. Um prodígio em trigonometria e geometria, devo admitir. Relutante a princípio, acabei me encantando por aquela situação. Não pelos números, diga-se de passagem, pois até hoje não encontrei razão para decorar nem mesmo a tabuada. Se me interessei, foi por aquela voz rouca do Olegário, que, ainda por cima, era dono do sorriso mais lindo que, até recentemente, não tive o prazer de ver igual.

           Durante nossas tardes no meu quarto, ele tentava a todo custo me ensinar atalhos para que eu não tomasse bomba no final do ano. Por debaixo da mesa, ele cutucava a minha perna com a sua, com o intuito de me fazer prestar atenção. Isso me causava calafrios por todo o corpo, mas, covarde que ainda sou, mirava o piso para não ser descoberto.

          As provas finais vieram e, não sei como, consegui concluir meus estudos. Na certa, devo ter me esforçado além do esperado, pois não queria decepcionar o meu mestre. Não sei se ele ficou feliz com a minha aprovação, pois nunca mais o vi. Minha mãe, hoje consigo ter maior clareza sobre isso, o dispensou assim que possível para evitar que algo pudesse causar certo constrangimento na família. 

          Passei os anos seguintes envolto em códigos civis, penais e trabalhistas. Formei-me com louvor e, a partir de então, comecei a exercer a advocacia no escritório do meu pai. Foi justamente nessa época em que conheci Glória, brilhante advogada, com quem muito aprendi do ofício.

            Protegida do meu velho, ela passou a frequentar a nossa casa. Entretidos que estávamos com o volume de trabalho, não tínhamos tempo para o amor. Foi como um acordo que nos casamos no ano seguinte, logo após ganharmos uma causa de milhões. Minha mãe pareceu aliviada com o matrimônio.

            Como prêmio, viajamos para Europa por uma semana. A agora minha esposa, com um francês muito melhor do que o meu, pareceu adorar aquelas explicações intermináveis nas idas aos museus. Como bom marido, mantive-me sempre ao seu lado, mas com a cabeça na pilha de processos que me esperava no escritório.

            Assim que o avião pousou no Galeão, senti um grande alívio. Nada mais de passeios infrutíferos por Paris, onde sentamos em todos os cafés possíveis. A companhia era ótima, é verdade, tanto é que na segunda semana de volta ao Brasil, Glória se sentiu indisposta e correu para o banheiro a fim de evitar devolver, sobre a mesa, o salmão com nozes ingerido há pouco.

            No verão seguinte, eis que estávamos na sala de parto. Minha mulher segurava minhas mãos tão fortemente, que imaginei que iria arrancar todos os meus dedos. Devo confessar que aquela era uma situação nova para mim também, porém, muito mais cômoda. Afinal, todas as dores do parto se encontravam com Glória. 

            Às 12h43 do dia 15 de fevereiro de 1989, ouvimos pela primeira vez o choro de Rubens. Minha esposa e eu, talvez não querendo deixar nosso filho chorando sozinho, o acompanhamos. Esse momento mostrou a nós dois que, apesar de ter surgido de um acordo, aquele casamento havia conseguido gerar um fruto do nosso amor. 

            Depois de alguns meses de correria, a nossa vida acabou entrando nos eixos. É verdade que agora tínhamos um filho para criar e, hoje posso afirmar, o tempo é sábio e toma conta de tudo. Ou, caso não cuide tão bem assim, o dinheiro ajuda a superar as dificuldades.

            Nosso menino cresceu cercado de todos os mimos e regalias, é verdade. No entanto, até entre os abastados há certos percalços. Seja como for, lá estávamos para lhe dar o suporte necessário. E foi assim que fizemos, quando, antes de completar 10 anos, ele cismou em ser tenista.

            Compramos os melhores materiais esportivos, contratamos o mais afamado treinador. Até mandamos construir uma quadra de tênis na nossa ampla propriedade. Entretanto, essa febre passou e a raquete, comprada a peso de ouro, foi parar em algum canto.

            Aos 13, Rubens cismou que queria ser músico. Como dinheiro não era problema, compramos vários instrumentos, mas, no final, o nosso rapazinho desistiu de todos. Ainda carregou a gaita no bolso por alguns meses, mas nunca o vi soprando-a nem uma vez sequer.

            Rubens, prestes a concluir o ensino médio, parece ter herdado a minha aversão por números. Por isso, a minha mãe, ainda que adoentada, contratou um professor de matemática para o único neto. Na hora nem me dei conta da situação, até que, sentados a uma das mesas ao redor da piscina, vi passar pelo portão um jovem de lá seus 25. Na verdade, soube logo em seguida, ainda contava 18. Ele parou diante de mim e sorriu um sorriso, que há muito guardo na lembrança, e, então, naturalmente, acabei por me encantar por aquela rouquidão: “- Prazer, sou o Olegário!”

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Professor, quais são seus maiores desafios?

Renata Barcellos

‘Professor, quais são seus maiores desafios?’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Imagem criada por IA do Grok
Imagem criada por IA do Grok

Mês de outubro é de comemoração do professor. Antes de ser instituída a data foi criada a lei educacional do Brasil sancionada por Dom Pedro I em 15 de outubro de 1827. Entretanto, você sabia que foi uma mulher a criar a data em Santa Catarina, em 1948? Antonieta de Barros, uma das três primeiras mulheres eleitas no Brasil e a primeira parlamentar negra (apresentou na Assembleia Legislativa de Santa Catarina o projeto de lei nº 145, de 12 de outubro de 1948), autora da lei que instituiu o dia do professor e o feriado escolar no estado.

Na época, Antonieta justificou a importância da criação da data, argumentando que “Não há quem não reconheça, à luz da civilização, o inestimável serviço do professor”. Em 1963, o presidente João Goulart assinou o decreto nº 52.682, de 14 de outubro de 1963, ratificando a criação do Dia do Professor e determinando-o como feriado escolar.    

Dos anos 60 até a contemporaneidade, quem está em sala de aula percebe a drástica mudança da figura do professor. De admirado a respeitado, considerado o “detentor do conhecimento”; hoje, ser desprezado, violentado. Na maioria das vezes, a sociedade e a família não reconhecem mais a função social do professor. Não o valoriza em termos financeiros e nem acadêmico. O cursinho presencial ou online é melhor do que a escola oferece.

Constantemente, ouve do aluno: “depois eu assisto ou eu assisti ao vídeo do professor X”. Na atualidade, a questão é: qual o papel do professor à frente de uma turma? Estamos falando com as paredes? De acordo com pesquisa realizada durante a Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, menos de 40% dos estudantes nos anos finais do Fundamental (6º, 7°, 8º e 9 º anos) respeitam e valorizam seus professores. Por este índice, podemos imaginar a realidade do Ensino Médio.

O desafio inicial é quando se opta pela licenciatura. O que mais se ouve é: “você tem certeza?”, “vai passar fome”, “isso não é futuro para ninguém”… Quando se ingressa na graduação, eis um problema real: a inadequação das grades curriculares. No caso de Letras, quanto à oferta de Latim e das disciplinas de Literaturas africanas e indígenas,  a lei ainda não é uma realidade em muitas universidades públicas e privadas.                          

A “lei de ensino das literaturas africanas e indígenas” se refere à Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas do Ensino Fundamental e Médio. A lei ampliou a obrigatoriedade original da Lei nº 10.639/2003, que tratava apenas do tema afro-brasileiro. Essa legislação exige que os conteúdos sejam integrados ao currículo, com atenção especial a áreas como literatura, história e educação artística, para promover uma educação antirracista e multicultural.

Outro desafio inerente à formação é a questão de como lidar com alunos com necessidades educacionais especiais. Lidar com salas lotadas e com diferentes especificidades é missão impossível! Preparar atividades diversas e, no quotidiano, muitas vezes, administrar bullying com esses alunos e, pior, dos alunos com o professor… Sabemos que as consequências podem ser graves, incluindo problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, baixa autoestima e, em casos extremos, violência física grave ou suicídio. Com a Lei 14.811/2024, foi criminalizado no Brasil, podendo resultar em multas ou prisão.

Outra conscientização é quanto ao entendimento de como o conhecimento é construído. Definitivamente, a aula não é um espetáculo. E o espaço físico não é um teatro onde ao adentrar o professor encena um “personagem divertido”. Aprendizagem exige um ambiente acolhedor. É um processo solitário. Demanda foco. Atenção no conteúdo a ser estudado. Travar conexões…

Vamos pensar nossa rotina: muitos de nós saímos horas antes para estarmos no horário da aula. É um enorme desgaste físico e psicológico: congestionamentos, expostos à falta de segurança… E, quando se chega à instituição de ensino, muitas vezes, já se ouve de longe: “a senhora veio?” Se estamos passando mal, ouvimos: “Por que veio?”, “Por que não ficou em casa se estava passando mal?”. Ninguém merece ouvir isso! 

Nós, professores, precisamos conviver em harmonia. A sala de aula não deve ser um campo de batalha. Urge um ambiente harmonioso! As relações necessitam ser saudáveis! Jamais hostis – de constantes embates. Não estamos em um ringe! Alunos e responsáveis precisam se conscientizar de que o professor está ali para o desenvolvimento intelectual de cada aluno. No meu caso, das competências leitora e de escrita.                                                                                             

Outro desafio é a escolha (quando no setor público) do material didático. E, na rede privada, a IMPOSIÇÃO de material pronto para a rede. Pior ainda de avaliações já prontas. Fico me perguntando: neste caso, qual o papel do professor? Não tem liberdade para escolher seu material e elaborar suas avaliações? O profissional é monitorado o tempo todo: da câmera em sala de aula, supervisões para assistir às aulas, abordagem de conteúdos e utilização de material didático adotado pelas instituições. Ser professor está se tornando um reality show?

Na atualidade, um dos centros das atenções mundial é o uso do celular. A Lei nº 15.100/2025 restringe o uso de celulares por alunos em escolas públicas e privadas de educação básica, não sendo uma proibição total, pois permite a utilização para fins pedagógicos, em situações de segurança, para garantir acessibilidade, inclusão e para atender condições de saúde.

Sancionada em janeiro de 2025, visa melhorar a concentração, o aprendizado e a saúde mental dos estudantes, cabendo às escolas definir as estratégias de implementação. Hoje, uma das frases mais proferidas por nós é: “desliga ou guarda o celular”.

Nós, professores, estamos EXAUSTOS. Além desses desafios e de outros aqui não mencionados, há as constantes cobranças. Ainda mais neste período do ano: aprovação, índices de reprovados, metas…

Não poderia de deixar de abordar a violência física e ou psicológica e o assédio moral. Os índices só aumentam.  De acordo com uma pesquisa da Nova Escola e Instituto Ame Sua Mente, 8 em cada 10 educadores sofreram agressão em 2023, um aumento de 20% em relação a 2022. A maioria é verbal, mas outros tipos incluem assédio moral, bullying e agressões físicas. Em um estudo comparativo da OCDE, o Brasil apresentou o maior índice de agressões verbais ou intimidação de alunos por semana entre os países pesquisados. Lamentável!!!

E o reconhecimento daqueles que, apesar desses e de outros desafios, ainda fazem a diferença? É preciso valorizar os resilientes, os que vestem a camisa da EDUCAÇÃO, os que burlam o sistema e fazem a diferença na vida de cada um de seus alunos, os que consideram-nos protagonistas e não meros coadjuvantes da construção de seu conhecimento.

No que se refere à realidade da África, de países de Língua Portuguesa, de acordo com o angolano Celso Mariano Kahenda Praia (consultor linguístico e literário), um dos grandes desafios do professor hoje é “ter que ensinar um aluno que vai à escola apenas para cumprir formalidades familiar e social. O aluno vai à escola, mas não sabe o fundo da sua presença na escola, nem o para quê da sua formação.

A partir dali, percebemos o grandioso desinteresse na participação da construção de novos conhecimentos para si. Há alunos que nem sabem que disciplina terão num determinado dia, e ficam surpresos com a entrada do Professor. Portanto, não saber o porquê e o para quê ir e estar na escola é o motivo do insucesso de muitos alunos, e deve ser um dado fulcral na atenção não só dos Professores, mas também dos Pais e Encarregados de Educação”.

Já para Joaquim Einstein (professor de Matemática, Física e Química e escritor), os maiores desafios hoje para os professores estão “ligados a muitos aspectos como: falta de interesse nos estudos por parte dos estudantes, carência de materiais nas escolas, e rendimento débil dos estudantes. Como professores procuramos todos os dias mitigar estes problemas”. Podemos verificar que, apesar de continentes diferentes, os desafios são similares.

Nas literaturas brasileiras, há personagens que representam a figura do professor como:

-Antônio Conselheiro: Embora não seja um professor formal, ele é uma figura que transmite conhecimentos e tem um papel formador para a população do sertão, como aparece em obras de Euclides da Cunha e outros autores.

– Professora Maluquinha , criada por Ziraldo, é a protagonista de Uma Professora Muito Maluquinha. Ela se destaca por sua didática criativa e por ensinar com alegria e amor pela leitura.   

– Professor Heliseu do livro O Professor de Cristovão Tezza. É um professor aposentado que relembra sua carreira e os eventos políticos do Brasil enquanto prepara um discurso de homenagem. Além disso, muitos escritores brasileiros também foram professores.

Eis alguns exemplos: como   

– Ariano Suassuna: O autor de O Auto da Compadecida lecionou por mais de três décadas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde suas aulas de Estética eram consideradas espetaculares.   

– Cecília Meireles: além de ser uma das mais importantes poetisas modernistas, ela foi educadora da primeira infância. Fundou, em 1934, a primeira Biblioteca Infantil do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1953, recebeu o título de Doutora Honoris Causa (entregue a personalidades que se destacaram por sua contribuição à cultura, à educação ou à Humanidade).

– Conceição Evaristo: a professora Evaristo se tornou uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas. Sua obra é marcada por temas relacionados à identidade, discriminação racial e o papel da mulher negra na sociedade. Um de seus trabalhos mais significativos é o romance “Ponciá Vicêncio”, onde narra a trajetória de uma mulher negra em busca de sua ancestralidade e liberdade.

-Consuelo Travassos: professora e escritora.

– Jorge Eduardo Magalhães: professor, escritor e diretor da harmonia da Sociedade Recreativa Escola de Samba Lins Imperial.   

– Maria Firmina dos Reis: considerada a primeira mulher romancista brasileira, escreveu também o primeiro livro do Brasil que abordava a questão abolicionista na obra Úrsula.  

– Otto Lara Resende: jornalista e escritor, também atuou como professor universitário.                                                                                                                                      

– Ray Brandão: professora, escritora e idealizadora do Coletivo de Escritores Maranhenses.                                                                                                                              

– Wanda Cunha: professora aposentada, trovadora, presidente da Academia Maranhense de Trovas.  

Urge sermos mais humanos, solidários… Amo minha profissão, sempre estou implementando algo novo, mas a falta de tudo é desolador. Por uma EDUCAÇÃO SEM OPRESSÃO. ABAIXO À VIOLÊNCIA! EDUCAR, para liberdade conquistar. E parabéns ao Sinpro-Rio pela a campanha “Educação Tem Nome, CPF e Impressão Digital”, #EducaçãoTemNome.

Renata Barcellos

Voltar

Facebook




A desunião na classe dos professores

Fidel Fernando: ‘A desunião na classe dos professores
e os impactos na educação’

Fidel Fernando
Fidel Fernando
Imagem gerada por IA do Bing – 17 de Julho de 2025, às 16:38 AM
Imagem gerada por IA do Bing – 17 de Julho de 2025,
às 16:38 AM

Celso Antunes, na obra aludida, argumenta que o sistema educacional muitas vezes falha por não estabelecer padrões claros, perpectuando uma cultura de improvisação e falta de critério.”

A desvalorização da classe docente é um problema amplamente discutido, mas um aspecto menos explorado é a desunião entre os próprios professores, que fragiliza ainda mais a autoridade pedagógica e a eficácia do ensino. Como observa a Dra. Simone Benedetti, essa desunião manifesta-se na falta de padrões comuns de conduta dentro da escola, gerando confusão nos alunos e minando a coesão necessária para um ambiente educativo eficiente. 

Esta falta de uniformidade nas regras e métodos de ensino pode ser analisada à luz das obras de Celso Antunes (‘Escola Mentirosa’), Mário Sérgio Cortella (‘Família: Urgências e Turbulências’) e Leandro Karnal (‘Conversas com um Jovem Professor’). Enquanto Antunes critica a incoerência do sistema educativo, Cortella discute a importância de limites claros, e Karnal reflecte sobre a prática docente e a necessidade de consistência na relação professor-aluno. 

Um dos exemplos mais evidentes da desunião docente é a divergência nos critérios de correcção de actividades, provas e avaliações. Enquanto alguns professores são rigorosos, assinalando e corrigindo erros ortográficos, concordância e pontuação, outros ignoram esses detalhes, atribuindo notas sem a devida análise. Essa disparidade confunde os alunos, que não sabem ao certo o que é exigido. 

Celso Antunes, na obra aludida, argumenta que o sistema educacional muitas vezes falha por não estabelecer padrões claros, perpectuando uma cultura de improvisação e falta de critério. Se a escola não define parâmetros comuns, os alunos recebem mensagens contraditórias, prejudicando seu desenvolvimento linguístico e cognitivo. 

Outro ponto crítico é a permissividade versus rigor ou, melhor, a variação na aplicação de regras. Alguns professores proíbem o uso de corrector, incentivando a escrita precisa das palavras; outros permitem, mas com restrições; há ainda os que não se importam. Essa falta de uniformidade transmite aos alunos a ideia de que as normas são flexíveis conforme o professor, o que periga a autoridade colectiva do corpo docente. 

Mário Sérgio Cortella, no livro mencionado acima, ressalta que limites claros são fundamentais para a formação do carácter. Se na família a ausência de regras gera jovens despreparados para a vida, na escola, a inconsistência nas normas prejudica a disciplina e o respeito. 

A forma como os alunos reagem a diferentes figuras de autoridade (professores, coordenadores, funcionários não docentes) também evidencia a falta de unidade na condução disciplinar. Enquanto alguns docentes conseguem impor respeito com métodos próprios, outros enfrentam resistência dos alunos. 

Karnal, na sua obra, defende que a postura do professor deve ser firme, mas sem autoritarismo. Ele relata que a eficácia na gestão da sala de aula não depende de gritos, mas de clareza nas expectativas e consistência nas acções. Quando os professores agem de forma coordenada, os alunos internalizam melhor as regras.

Ademais, a desunião entre os professores não apenas afecta a dinâmica da sala de aula, mas também impacta o comportamento dos alunos. Quando um estudante desrespeita um professor, por exemplo, é crucial que todos os educadores intervenham de forma semelhante, reforçando a ideia de que a responsabilidade e o respeito devem ser universais. Caso contrário, a mensagem que os alunos recebem é de que existem diferentes padrões de conduta, dependendo do professor em questão.

Em jeito de conclusão, a desunião entre professores é um problema estrutural que exige reflexão colectiva. Se, por um lado, a diversidade de métodos pode enriquecer o ensino, por outro, a falta de padrões mínimos gera insegurança e indisciplina. Como sugerem Antunes, Cortella e Karnal, a solução passa por:  i) estabelecer normas claras e consensuais entre o corpo docente; ii) promover a formação contínua, discutindo estratégias pedagógicas alinhadas; iii) fortalecer a autoridade colectiva, para que os alunos encarem os professores como uma equipa coesa. 

A educação só será verdadeiramente eficaz quando os professores falarem a mesma língua, não no sentido de uniformizar pensamentos, mas de garantir coerência nas acções. Se queremos alunos disciplinados e críticos, precisamos de começar por uma docência unida e consistente. 

Fidel Fernando

Voltar

Facebook




Professor, a máscara caiu!

José Ngola Carlos: ‘Professor, a máscara caiu!’

Kamuenho Ngululia
Kamuenho Ngululia
Imagem criada por IA do Bing – 24 de março de 2025,
às 07:12 PM

À primeira vista, pode parecer estranho e ignorante a afirmação de que um Mestre não é um professor e um professor não é um Mestre. Mas, estimado leitor ou leitora, tenha em mente que esta é uma questão que deve ser compreendida tendo em conta o surgimento e o desenrolar histórico de cada um dos títulos em referência, nomeadamente: o Mestre e o professor.

Historicamente falando, quem eram os Mestres na antiguidade e quem são os mestres hoje?

Talvez não lhe tenha passado despercebido que, neste artigo, usou-se o título Mestre com a letra inicial maiúscula e mestre com a inicial minúscula. Essa distinção é proposital. A primeira designação é em referência aos Mestres do passado, e a segunda designação é uma referência aos mestres da nossa época.

Consideradas estas duas categorias de mestres, convém entendê-las por separado.

Os Mestres da primeira categoria compreendem todos os sábios ou pensadores da antiguidade que dedicavam as suas vidas para a emancipação intelectual de seus discípulos. Nesta primeira categoria, a relação existente era de Mestre e discípulos. Os Mestres da antiguidade possuíam suas próprias escolas nas quais os discípulos eram iniciados. E, por escola, convém sublinhar que não nos referimos a um edifício, antes, a um sistema de pensamento próprio. A título de exemplo, são dignos de menção como Mestres os seguintes pensadores: Sócrates, Heráclito, Jesus etc. Estes são os Mestres da vida, pela vida.

A segunda categoria de mestres compreende um grupo vasto de pessoas hoje que, possuindo algum poder financeiro e desejando algum status social, vão às universidades adquirir um certificado ou diploma de mestrado. Estes mestres, longe de serem comparados com os da primeira categoria, são o produto do poder económico e político, criado no esforço de se fazer a contínua manutenção dos dois poderes sociais já mencionados. Estes são os mestres do papel, no papel para a manutenção do poder.

Aqui, somos de ressaltar que, quando afirmamos que um Mestre não é um professor e um professor não é um Mestre, fazêmo-lo em referência aos Mestres da primeira categoria, que sempre foram poucos e que atualmente estão quase extintos e não aos mestres da segunda categoria que constituem a massa de gente equivocada e pouco ou nada producente hoje.

Quem é o professor?

Infelizmente, os professores são os sucessores em substituição aos Mestres, ou melhor, considerados uma ameaça pelo poder político, os Mestres da primeira categoria foram aos poucos combatidos por leis e força física até a sua quase extinção. De lembrar que muitos foram deportados, espancados e mortos, nomeadamente: Sorôkin, Diógenes e Sócrates, só para mencionar alguns. Pelo que, os professores são uma subclasse de políticos inferiores na educação.

Em síntese, um Mestre não é um professor e um professor não é um Mestre pelas seguintes razões:

  1. Um Mestre é um indivíduo autêntico, um professor é um produto social.
  2. Um Mestre é autónomo, um professor é dependente do poder político.
  3. Um Mestre é um ente produtor, um professor é um ente reprodutor.
  4. Um Mestre é um pensador livre, um professor está proibido de pensar.
  5. Um Mestre ensina a seus discípulos a pensar, um professor ensina a seus alunos a repetir o que já se pensou.
  6. Um Mestre ensina o que ele próprio conheceu, um professor ensina o que outros conheceram.
  7. Um Mestre é um ser humano, um professor é um papagaio.
  8. Um Mestre prepara os discípulos para os desafios da vida, um professor prepara os alunos para os exames.

Kamuenho Ngululia
Malanje, 24 de março de 2025

Como citar este artigo:  Ngululia, K. (2025:3). Professor, A Máscara Caiu! Brasil: Jornal Cultural ROL.

Voltar

Facebook




Era uma vez

Evani Rocha: Poema ‘Era uma vez’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada por IA do Gencraft, em 06 de março de 2025, às 8h.

Era uma vez um diário
Preenchido todo à mão
Caneta esferográfica
Com toda dedicação

Era aula após aula,
Era dia após dia
Era o bimestre inteiro
Sem rasura, sem borrão

Era uma vez uma escola
Feito campinho de bola
Das risadas no recreio
Da merenda saborosa

Era uma vez um estudante
Comprometido e educado
Sapato preto nos pés
E uniforme bem-passado

O livro encapado à mão
O caderno caprichado
Na memória a tabuada
E as respostas da lição.

Era uma vez um bom mestre
Experiente e exigente
Caxias ou mentor
Quadro negro e giz de pó

Era o mestre professor
Tabuada, cálculos e textos
Todos os tempos verbais
As quatro operações
Em aulas tradicionais?

Formavam-se outros mestres:
Professores, Advogados,
Engenheiros e médicos –
Competentes profissionais.

Era uma vez uma educação
Presenças, faltas e provas
Questionários e tarefas
Direito e obrigação?

Era uma vez um salário:
Da saliva ao pó de giz,
Do diário de papel,
Do ensino tradicional,
De valor profissional?

Evani Rocha