Ramos António Amine: Poema ‘A quinta dos ímpios’


Na Quinta dos Ímpios, respira-se apenas porque o ar ainda não foi cooptado.
Ainda assim, é poluído, não absoluto, mas condicionado.
O sol aquece os sem-solo, sem jamais revelar o que se esconde.
As árvores são tão frondosas que suas raízes murcham numa terra de promessas vazias.
A quinta está entre reservas naturais;
sua riqueza, cercada por arames farpados,
seus guardas, escoltados por cães fardados.
Os donos exibem sorrisos que não naufragam,
mas esquecem que uma fenda diminuta foi suficiente para afundar o Titanic.
Farejam entre sorrisos e contratos.
Quando decidem tocar o solo, fazem-no como quem encena uma peça de teatro,
com cuidado, como se lidassem com extraterrestres.
São sempre atentos a não sujar as mãos;
para isso, têm os seus leais,
sempre vigilantes em manter o silêncio dos outros; por isso, têm seus executores.
Ali, proclama-se a paz
enquanto os frutos colhidos nascem da miséria de um povo empobrecido.
Na Quinta, normalizam-se as dificuldades
e vendem-se facilidades.
O acesso a elas é escasso,
embora não faltem, ao redor, animais que devoram os próprios donos.
As janelas da Quinta são espelhos:
refletem rostos limpos,
mas por trás de cada reflexo há olhos que já esqueceram o que é compaixão.
Os que passam por fora, indiferentes e sem esperança,
acreditam que não há vento capaz de derrubar as muralhas da Quinta.
Não percebem que quanto mais indiferentes se tornam, mais neutros são
e a neutralidade sempre esteve ao lado das correntes invisíveis.
Mas haverá os que sentirão o chão tremer sob os pés,
que verão a sombra do poder em cada folha da árvore frondosa,
que reconhecerão o cheiro da injustiça nos jardins bem cuidados por mãos sem compaixão.
Para eles, a Quinta não é quintal:
é prisão.
E um dia, hão de questionar.
Quando esse dia chegar,
as desculpas serão dispensadas
a culpa não aceitará morrer solteira
e a responsabilidade triunfará.
A voz do silêncio ecoará mais alto que a dos ímpios.
Os neutros farejarão, tardiamente, o mesmo odor da injustiça.
Os indiferentes dirão que sempre souberam – os hipócritas.
E aqueles que sentiram o chão tremer,
que tiveram a coragem de questionar
o calor infernal do poder
dos ímpios da Quinta?
Ramos António Amine
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Ramos António Amine é moçambicano, formado em Ensino de Filosofia. Lecciona a disciplina de Filosofia em Massangulo, na província do Niassa. Dedica-se à escrita de poesia crítica e de textos literários marcados pela reflexão filosófica e social. Tem textos publicados na revista Uphile. Possui vários artigos científicos publicados no site webartigos.com. É colunista do Jornal Destaque, onde assina artigos de opinião. Produz ainda vídeos de teor poético, nos quais cruza palavra, pensamento e sensibilidade estética. A sua escrita dialoga com os dilemas contemporâneos da sociedade moçambicana.

