Ella Dominici: Poema ‘Despedida’


Na estrada,
a lua envelhece.
Olhos cansados
de tantos milênios
perdem-se
nas curvas do tempo.
E despedem-se
as palavras.
Uma a uma,
recolhem-se
ao longo corredor da espera,
onde o silêncio
é terra,
é semente,
é repouso.
Abre-se então o mistério
para além da noite fria.
Ali,
os olhos fincados no céu
aguardam que a poeira assente,
que o rumor dos dias se dissolva,
que a memória do sol
abandone suas últimas cinzas.
Tudo se distancia.
Tudo regressa.
E o que parecia fim
desata-se em horizonte.
Há um deslumbre
na alva que raia,
um clarão sem nome
entre a ausência e o retorno,
como se a eternidade
respirasse devagar
atrás das manhãs.
Na estrada,
a lua continua.
E nós,
feitos luz desprendida do instante,
seguimos
para dentro do infinito.
Ella Dominici
- Despedida - 29 de maio de 2026
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ella, esta tarde outonal, em Sorocaba, é de uma mansuetude relaxante. Apenas a tarde em si já me seria um presente do céu. Todavia, ao ler seu poema, ou melhor, ao sentir seu poema, recebo este instante como uma dádiva de Euterpe, a Musa da Poesia Lírica!
Simplesmente maravilhoso seu comentário, Sérgio Diniz!
Obrigada