Ella Dominici transforma ouro, fogo e água em metáforas do desejo, conduzindo o leitor por uma experiência poética de entrega, paixão e dissolução

Pergunta-me onde me achava morrendo,
como um navio incendiado em alto-mar,
deixando tombar o ouro que se fundia
em plena lava,
incandescente, derretendo aos poucos,
a formar arte deslumbrante.
Sem ar nos pulmões das águas frias,
pergunta-me as palavras que te dissera.
Foram de audácia as correntes que te prenderam,
algema líquida que te segurou bem firme.
Deixara-te deslizar
como peixe que escorrega das mãos.
Redime-te.
Lembra-te e salta em águas conhecidas.
Reconhece teu habitat,
peixe que passa por minhas pedras limosas,
de cheiro do mar.
Marulho te canta aos ouvidos,
salgado, salino ao teu paladar.
Brinda — e não esqueças
do açúcar molhado na borda da taça.
Folga-te das bolhas que se formam
na boca que beijas.
Palavras poéticas feitas de um nada
se agitam e dizem o tudo de uma só vez.
Brigas comigo
que o tudo é teu, é meu,
é demais e de mais ninguém.
Nademos sem rumo,
de mãos enamoradas.
Se me afundas, te sossego;
se te afundo, nadas de braçadas
e boias de prazer comigo.
Olha-me, molha-me debaixo d’água.
Meu corpo se dilui
e a visão é ilusão.
O movimento é nosso,
no insustentável,
até que morras,
até que acordes
de tuas águas que me quiseram
e me amaram.
Pergunta-me onde me achava,
morrendo como um navio incendiado em alto-mar.
Olha melhor
e sente se é comigo:
meu ouro derretido à deriva.
Ella Dominici
- Ouro derretido à deriva - 11 de setembro de 2026
- Ainda cedo o corpo ao silêncio - 4 de setembro de 2026
- Cântico de Ítaca - 21 de agosto de 2026
Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento



Ella, lendo e relendo, a inspiração vai chegando… O que me encanta no gênero poesia, em especial, é o uso – feito luva – das metáforas. Neste poema, o desejo, metaforicamente, se funde na amálgama entre o ouro, o fogo e água.
A paixão, numa temperatura maior do que 1.060º C, funde o ouro, que é entregue ao mar. O desejo, dessa forma, afunda, flutua, perde-se e encontrar-se!