setembro 11, 2026
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Ouro derretido à deriva

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Ella Dominici transforma ouro, fogo e água em metáforas do desejo, conduzindo o leitor por uma experiência poética de entrega, paixão e dissolução

Ella Dominici
Ella Dominici

Pergunta-me onde me achava morrendo,
como um navio incendiado em alto-mar,
deixando tombar o ouro que se fundia
em plena lava,
incandescente, derretendo aos poucos,
a formar arte deslumbrante.

Sem ar nos pulmões das águas frias,
pergunta-me as palavras que te dissera.
Foram de audácia as correntes que te prenderam,
algema líquida que te segurou bem firme.
Deixara-te deslizar
como peixe que escorrega das mãos.

Redime-te.
Lembra-te e salta em águas conhecidas.
Reconhece teu habitat,
peixe que passa por minhas pedras limosas,
de cheiro do mar.

Marulho te canta aos ouvidos,
salgado, salino ao teu paladar.
Brinda — e não esqueças
do açúcar molhado na borda da taça.

Folga-te das bolhas que se formam
na boca que beijas.
Palavras poéticas feitas de um nada
se agitam e dizem o tudo de uma só vez.

Brigas comigo
que o tudo é teu, é meu,
é demais e de mais ninguém.

Nademos sem rumo,
de mãos enamoradas.
Se me afundas, te sossego;
se te afundo, nadas de braçadas
e boias de prazer comigo.

Olha-me, molha-me debaixo d’água.
Meu corpo se dilui
e a visão é ilusão.
O movimento é nosso,
no insustentável,
até que morras,
até que acordes
de tuas águas que me quiseram
e me amaram.

Pergunta-me onde me achava,
morrendo como um navio incendiado em alto-mar.

Olha melhor
e sente se é comigo:

meu ouro derretido à deriva.


Ella Dominici

Rute Ella Dominici
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One thought on “Ouro derretido à deriva

  1. Ella, lendo e relendo, a inspiração vai chegando… O que me encanta no gênero poesia, em especial, é o uso – feito luva – das metáforas. Neste poema, o desejo, metaforicamente, se funde na amálgama entre o ouro, o fogo e água.

    A paixão, numa temperatura maior do que 1.060º C, funde o ouro, que é entregue ao mar. O desejo, dessa forma, afunda, flutua, perde-se e encontrar-se!

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