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Liceu 4 de Janeiro – Kizanga

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Milton Gaspar Domingos: ‘Liceu 4 de Janeiro – Kizanga’

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Mirosman saía da escola, transbordando rios de ansiedade. Entrou sem cumprimentar a mãe, a única pessoa em casa no momento.

– Mamã, mamã!

Chamou ele, ofegante, quase que enxotava da sua caixa toráxica seu coração, fazendo o coração da mãe expludir de preocupação dada a gritaria do menino de oito anos. Quase que correndo, Umblina veio em socorro do rapaz.

– Quê foi, Miros?! – perguntou ela num tom calmo e tranquilizador. Diz-me: o que é que se passa? interrogou Umblina pela segunda vez.

– Tá vê junto da nossa scola, né?

– Sim…

– Há uma outra scola, né, mamã!

– Sim, Mirosman… é o Liceu 4 de Janeiro.

– A nossa Professora disse que o nome daquela scola veio da Baixa de Kassange. Como assim, mamã?

“Aham… então, é isso???!!! Muito bem… vá, leve, primeiro a mochila para o teu quarto e, venha, vamos conversar.”

Mirosman correu, passando para o corredor, deixou a primeira porta e, na segunda, empurrou-a, desfez-se da mochila, atirando-a para sua cama, que em nada estranhou o comportamento do rapaz, e aquietou-se. Mirosman saiu, voando para a cozinha, onde estava a mãe.

– Já, mamã!

– Toma, relaxa ainda!

Umblina fixou atentamente no seu pequeno, respirando ares de alívio, disse:

– Muito bem… agora me diz, o que é que você sabe sobre Baixa de Kassange?

– Hoje, mamã, em Estudo do Meio, falamos das formas de relevo, e o papá já tinha me ajudado com aquela maquete que mostra as planícies, as depressões, os rios e as montanhas.” Umblina mostrou-se satisfeita com o rumo que levava a conversa, soltando algum riso. “Então, como exemplo de montanha, a Professora falou do morro do Moco, e de depressão, ela falou da Baixa de Kassange. Mas a Professora disse também que essa depressão fica entre os municípios do Marimba, Kunda dya Base, Kela, Kiwaba Nzoji e Massango… agora, mamã, esses municípios estão bem longe daqui. Como é que essa escola, junto à nossa, tem um nome que se relaciona com baixa de Kassange? Aliás, como é que o nome Liceu 4 de Janeiro está ligado à Baixa de Kassange?

– Realmente, meu filho, isso é intrigante. – reconheceu Umblina. Mas a vossa Professora não vos explicou que foi na Baixa de Kassange em que aconteceu um dos maiores massacres já registado no processo da independência de Angola?

O rapaz arregalou os olhos grossos e pretos, espantado com o que acabava de ouvir. Meneou a cabeça, soltando um não abafado desde os pulmões às cordas vocais. Limpou a garganta antes de um novo gole do seu sumo natural de manga.

 – Portanto, – continuou a mãe. – trata-se de um evento nacional e, isso aconteceu a 4 de Janeiro de 1961.

– Aham… é por isso que quando chega essa data, nas rádio e nas televisões falam muito sobre 4 de Janeiro e Baixa de Kassange!

– Exatamente! Mas, sabe de uma coisa?

– O que é, mamã?

– Há apenas três escolas em toda Angola com esse nome – dois liceus, na província de Malanje e um colégio em Namibe. Mas este Liceu da Kinzanga é muito especial.

– Como assim, ‘muito especial’, mamã?

– Veja que esse Liceu, para além de estar muito distante da Baixa de Kassange, o seu nome e história estão diretamente ligados aos eventos naquela localidade.

– Ainda não entendi, mamã.

– Isso mesmo! Lembras-te de que houve um massacre na Baixa de Kassange?

– Sim.

– Esse massacre aconteceu de portugueses europeus para com os camponeses angolanos descontentes com as políticas administrativas do colono. Aos camponeses eram dados uns cartões que os obrigava a realizar trabalhos forçados a custo de quase nada, em benefício dos seus patrões, donos das plantações e das grandes fábricas. Os camponeses, de tão descontentes que estavam, desfizeram-se do cartões, queimando-os e, desse modo, mostrando ao colono que já não queriam quaisquer espécie de acordo com eles. Até às plantações atiraram fogo, às lojas e fábricas puseram mãos.

– Aham… já entendi. Os portugueses ficaram muito zangados e, por isso, massacraram os camponeses.

– Isso mesmo, Miros! Dentre os massacrados, houve pessoas que, segundo o colono, não mereciam ter um enterro digno das pessoas.

– E o que é que fizeram a eles, mamã?

– Todos os identificados como chefes e agitadores e os que os estavam a apoiá-los diretamente foram levados para bem longe de suas terras.

– Onde, mamã?

– Numa terra distante das suas, onde, de acordo com o colono, era bem adequada para o depósito de rebeldes, filhos de cães. Essa terra era, ainda, pouco habitada e o povo que ali morava também era tido pelos portugueses como rebeldes. Essa terra se chama Kizanga.

– Mas, mamã, Kizanga é o nosso… Ehééé, Ehééé, Ehééé!

– E foi exatamente no espaço onde hoje é o Liceu 4 de Janeiro, em que se enterrou todas aquelas pessoas massacradas. Com o tempo, as pessoas que viviam no bairro passaram a enterrar lá os seus ente queridos falecidos, fazendo do local um verdadeiro cemitério.

– Mais tarde, quando já não se enterravam ali, o estado viu no terreno um bom espaço para se construir uma escola. Mas essa é uma outra história.

O rapaz parecia muito pensativo, quando Umblina lhe orientou:

– Não conte isso para ninguém, Miros!

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano) nasceu em Angola, na província de Malanje, onde reside e trabalha (como Professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

É Mestrando e Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO), Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade António Agostinho Neto (UAN).

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Sergio Diniz da Costa

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