Alexandre Rurikovich Carvalho
‘Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento‘


RESUMO
A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento , instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), constitui uma distinção honorífica de natureza cultural destinada a reconhecer personalidades que tenham contribuído significativamente para as ciências, as letras, as artes, a educação, a pesquisa, a cultura e a valorização do conhecimento humano. Sua fundamentação simbólica inspira -se no legado de três dos mais importantes mestres do Renascimento italiano: Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, representantes de diferentes dimensões da extraordinária transformação artística e intelectual ocorrida entre os séculos XV e XVI.
O presente artigo analisa a fundamentação histórica, cultural e iconográfica da Comenda, demonstrando como seus elementos visuais, as três coroas, as figuras dos três mestres, o sol nascente, os raios luminosos, os ramos de louro, o círculo e a identificação institucional da FEBACLA, constituem uma narrativa simbólica sobre conhecimento, criação, harmonia, excelência e renovação cultural. Busca -se compreender o conceito de “renascimento” não apenas como referência histórica a um período da civilização europeia, mas como um princípio permanente de renovação do pensamento, da arte, da cultura e dos valores humanísticos.
A Comenda apresenta -se, assim, como uma homenagem contemporânea àqueles que, à semelhança dos grandes mestres renascentistas, dedicam suas trajetórias à produção, preservação, transmissão e transformação do conhecimento.
Palavras-chave: Renascimento. Leonardo da Vinci. Michelangelo. Rafael. História da Arte. Humanismo. Honrarias. Cultura. FEBACLA.
1 INTRODUÇÃO
Ao longo da história, as sociedades desenvolveram diferentes formas de reconhecer aqueles que contribuíram de maneira relevante para a construção do conhecimento, o desenvolvimento das artes, a educação, a ciência e a preservação da memória coletiva. Medalhas, comendas, títulos e distinções honoríficas constituem, nesse contexto, instrumentos simbólicos por meio dos quais uma comunidade manifesta publicamente sua gratidão e reconhece trajetórias consideradas relevantes para a sociedade.
A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), insere -se nessa tradição de reconhecimento. Entretanto, sua proposta apresenta uma característica particular: sua simbologia está diretamente vinculada a um dos períodos de maior transformação cultural da história ocidental, o Renascimento, e especialmente ao legado de três artistas cuja produção alcançou dimensão universal: Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio. O Renascimento não pode ser reduzido a uma simples mudança no estilo artístico. Constituiu um amplo processo cultural no qual diferentes formas de conhecimento passaram a estabelecer relações mais estreitas.
A recuperação da Antiguidade clássica, o desenvolvimento do humanismo, a valorização da observação da natureza, o aperfeiçoamento da perspectiva, os estudos anatômicos, a arquitetura, a escultura, a pintura, a filosofia e a literatura participaram de uma transformação intelectual que marcou profundamente a cultura europeia (Burckhardt, 2009; Gombrich, 2012).
Nesse cenário, surgiu uma concepção particularmente significativa do artista como um indivíduo dotado de capacidade intelectual, investigativa e criadora. Leonardo da Vinci tornou -se uma das expressões máximas dessa concepção, enquanto Michelangelo levou a escultura, a pintura e a arquitetura a uma dimensão monumental, e Rafael desenvolveu uma linguagem marcada pelo equilíbrio, pela harmonia e pela síntese. É justamente dessa complementaridade que nasce a concepção da Tríplice Coroa do Renascimento.
A Comenda não pretende estabelecer uma hierarquia entre os três mestres, tampouco afirmar que o Renascimento se resume às suas trajetórias. Ao contrário, Leonardo, Michelangelo e Rafael são utilizados como referências simbólicas de três dimensões fundamentais da cultura: o conhecimento, a criação e a harmonia. A insígnia da Grande Comenda traduz visualmente essa concepção. Três coroas aparecem na parte superior; abaixo delas, três figuras representam os grandes mestres; um sol nascente ilumina a composição; raios de luz irradiam -se pelo medalhão; ramos de louro envolvem a parte inferior; e, no centro da base, encontra – se a identificação da FEBACLA. Cada um desses elementos possui significado próprio e, simultaneamente, integra uma narrativa única.
O objetivo deste artigo é apresentar a fundamentação histórica, cultural e simbólica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, demonstrando de que maneira sua iconografia estabelece um diálogo entre a tradição renascentista e o reconhecimento contemporâneo daqueles que dedicam suas vidas à cultura, à ciência, às letras, às artes, à educação e à construção do conhecimento.
2 O RENASCIMENTO E A TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA OCIDENTAL
O termo Renascimento está associado a um amplo processo de renovação cultural que se desenvolveu inicialmente em diferentes centros da Península Itálica e, posteriormente, expandiu -se por outras regiões da Europa. Embora sua cronologia não possa ser delimitada de maneira absolutamente rígida, os séculos XV e XVI constituem o período fundamental para compreender o desenvolvimento de suas principais manifestações.
A ideia de “renascimento” esteve relacionada à recuperação e à valorização da cultura da Antiguidade clássica, especialmente dos modelos greco -romanos, mas não significou simplesmente uma reprodução do passado. Os humanistas renascentistas reinterpretaram a Antiguidade a partir das necessidades e dos questionamentos de seu próprio tempo.
Burckhardt (2009) destacou a importância do período para o desenvolvimento de uma nova consciência do indivíduo e da cultura. Gombrich (2012), por sua vez, demonstra como a história da arte renascentista está profundamente relacionada ao desenvolvimento de novas formas de representar o espaço, o corpo humano, a natureza e a experiência visual. A perspectiva matemática, os estudos anatômicos e a observação sistemática da natureza modificaram profundamente a produção artística.
O artista passou progressivamente a ser reconhecido como alguém que não apenas executava uma obra, mas que pensava, investigava e elaborava intelectualmente aquilo que produzia. Essa transformação explica por que o Renascimento permanece como uma das principais referências quando se pretende discutir a relação entre arte e conhecimento: a pintura deixou de ser apenas representação e tornou -se também investigação; a escultura deixou de ser apenas ornamentação e tornou -se expressão da condição humana; a arquitetura passou a combinar estética, matemática, funcionalidade e simbolismo. A arte, portanto, aproximou -se da ciência, da filosofia e da literatura. É nesse contexto que se encontra a origem conceitual da Grande Comenda.
3 LEONARDO DA VINCI: O CONHECIMENTO COMO CAMINHO PARA A CRIAÇÃO
Leonardo da Vinci ocupa posição singular na história da cultura ocidental. Pintor, desenhista, inventor, estudioso da anatomia, observador da natureza, engenheiro e pesquisador, Leonardo tornou -se o símbolo do chamado “homem universal” ( homo universalis) renascentista. Sua trajetória demonstra que a curiosidade intelectual pode ultrapassar fronteiras disciplinares.
Para Leonardo, compreender a natureza constituía parte essencial do processo criativo. Seus estudos anatômicos, por exemplo, estavam relacionados não apenas à curiosidade científica, mas também à necessidade de compreender a estrutura do corpo humano para representá -lo artisticamente. Obras como Mona Lisa, A Última Ceia e A Virgem das Rochas demonstram seu extraordinário domínio pictórico, mas seus cadernos e desenhos revelam igualmente uma mente dedicada à investigação de fenômenos naturais, máquinas, anatomia, água, voo e movimento (Gombrich, 2012).
A importância de Leonardo para a Grande Comenda encontra -se justamente nessa capacidade de unir arte e conhecimento. Por essa razão, sua representação na insígnia é compreendida como o símbolo da Coroa do Conhecimento . O conhecimento é a primeira condição do renascimento; não existe verdadeira renovação cultural quando a sociedade deixa de investigar, questionar e aprender. Leonardo representa, portanto, o pesquisador, o estudioso e o intelectual que jamais considera o conhecimento concluído. Sua figura na Comenda transmite uma mensagem especialmente significativa: renascer é também aprender novamente, investigar novamente e olhar para o mundo com curiosidade renovada.
4 MICHELANGELO: A GRANDEZA DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA
Michelangelo Buonarroti representa outra dimensão fundamental do Renascimento. Escultor, pintor, arquiteto e poeta, Michelangelo construiu uma trajetória marcada pela monumentalidade e pela intensa expressividade de suas obras. Sua produção escultórica, especialmente o Davi e a Pietà, tornou -se referência universal. Na pintura, a decoração da abóbada da Capela Sistina representa um dos maiores empreendimentos artísticos da história.
Entre 1508 e 1512, Michelangelo executou o afresco do teto da Capela Sistina, incluindo cenas do Gênesis, profetas, sibilas e numerosas figuras. Décadas depois, entre 1536 e 1541, realizou o monumental Juízo Final na parede do altar (Musei Vaticani, 2026). Sua obra demonstra que a criação artística pode alcançar dimensões que ultrapassam o simples domínio técnico. O corpo humano, em Michelangelo, torna -se instrumento para representar força, espiritualidade, movimento e dramaticidade. Na simbologia da Grande Comenda, Michelangelo representa a Coroa da Criação.
A criação constitui a capacidade humana de transformar uma ideia em realidade: o artista imagina aquilo que ainda não existe e, por meio de seu talento, transforma pensamento em obra. Esse princípio aplica -se também ao cientista, ao escritor, ao professor, ao pesquisador, ao compositor, ao arquiteto, ao historiador e a todos aqueles que produzem conhecimento. A criação é, portanto, uma das principais vias pelas quais o ser humano participa do processo de transformação da sociedade.
5 RAFAEL SANZIO: HARMONIA, BELEZA E HUMANISMO
Rafael Sanzio representa uma terceira dimensão essencial da cultura renascentista. Sua produção artística é frequentemente associada ao equilíbrio, à proporção, à clareza e à harmonia. Sua obra A Escola de Atenas, realizada nos Palácios Vaticanos, tornou -se uma das representações mais célebres do pensamento humanista renascentista.
Na composição, Rafael reúne importantes pensadores da Antiguidade em um espaço arquitetônico monumental. No centro encontram -se Platão e Aristóteles, representando diferentes correntes e filosofias. A pintura estabelece uma síntese entre filosofia, arquitetura, matemática, arte e conhecimento (Musei Vaticani, 2026), demonstrando que a pintura pode ser também uma representação visual da história das ideias. Rafael, portanto, simboliza a capacidade de harmonizar diferentes saberes. Na Grande Comenda, sua figura representa a Coroa da Harmonia . A harmonia não significa ausência de divergências, mas sim a capacidade de integrar diferentes elementos em uma construção maior e equilibrada. Ciência e arte, história e filosofia, literatura e educação, patrimônio e memória podem e devem dialogar. A cultura é precisamente esse espaço de encontro.
6 A TRÍPLICE COROA: CONHECIMENTO, CRIAÇÃO E HARMONIA
A expressão Tríplice Coroa do Renascimento nasce da união simbólica das três dimensões representadas pelos grandes mestres. Cada um deles encarna um princípio central para a construção da cultura e do saber: Leonardo da Vinci associa – se ao Conhecimento, simbolizando a investigação, a ciência, a curiosidade intelectual e a busca constante pelo saber; Michelangelo Buonarroti representa a Criação, expressando a força da arte, a transformação da matéria, a expressividade e a genialidade humana; e Rafael Sanzio encarna a Harmonia, traduzida no equilíbrio, na busca pela beleza, na síntese do pensamento e nos ideais do humanismo.
Essas três dimensões não funcionam de maneira independente: o conhecimento alimenta a criação; a criação transforma o conhecimento em expressão; e a harmonia integra conhecimento e criação em benefício da cultura. A Tríplice Coroa simboliza, assim, uma concepção integral da excelência humana. Não basta conhecer, é necessário criar; não basta criar, é necessário integrar; não basta produzir, é necessário transmitir; e não basta transmitir, é preciso contribuir para que as novas gerações continuem o processo de construção cultural.
7 A ICONOGRAFIA DA GRANDE COMENDA
A insígnia da Grande Comenda foi concebida como uma composição iconográfica na qual cada elemento possui uma função simbólica específica. A medalha não deve ser compreendida apenas como um objeto ornamental, pois sua estrutura constitui uma verdadeira narrativa visual sobre o Renascimento e sobre o ideal de excelência cultural.
7.1 As três coroas
No alto da medalha estão representadas três coroas, elemento que dá nome à honraria. A coroa, tradicionalmente associada à dignidade, à excelência e à distinção, assume aqui um caráter cultural e intelectual. As três coroas remetem aos três grandes mestres que inspiram a Comenda e representam os pilares simbólicos: Conhecimento, Criação e Harmonia. Não existe hierarquia entre elas; a disposição conjunta demonstra que a verdadeira excelência nasce da integração equilibrada dessas três dimensões.
7.2 As três figuras centrais
No centro da medalha encontram -se três figuras humanas que representam Leonardo, Michelangelo e Rafael . A representação é de natureza alegórica, destinada a evocar o legado dos mestres e não necessariamente a reproduzir retratos históricos rigorosos. Sua posição central reflete como os três artistas constituem a referência intelectual e estética fundamental da honraria.
Ao colocar os três lado a lado, a Comenda estabelece um diálogo permanente entre diferentes formas de expressão artística: Leonardo olha para a natureza e procura compreendê-la; Michelangelo transforma a matéria em expressão; e Rafael organiza beleza e pensamento em equilíbrio. Juntos, eles representam o ideal de uma cultura que recusa a separação absoluta entre arte e conhecimento.
8 O SOL NASCENTE COMO SÍMBOLO DO RENASCIMENTO
Um dos elementos mais expressivos da insígnia é o sol nascente, localizado na parte inferior da composição central. O nascer do sol constitui uma metáfora universal para renovação, esperança, conhecimento e recomeço, estabelecendo uma relação direta com o conceito de Renascimento. O sol que surge no horizonte representa a passagem da escuridão para a luz , no contexto da Comenda, essa transição expressa a passagem da ignorância para o conhecimento, do esquecimento para a memória, da estagnação para a criatividade, da ausência de perspectivas para a esperança e do silêncio cultural para a expressão artística. O sol representa, portanto, o conhecimento que nasce e se espalha, transmitindo uma mensagem essencial para o mundo contemporâneo: cada geração possui a responsabilidade de preservar o saber recebido e, simultaneamente, produzir novas formas de conhecimento.
9 OS RAIOS DE LUZ E A DIFUSÃO DO CONHECIMENTO
Os raios que partem do sol em direção às figuras centrais reforçam o simbolismo da iluminação. A luz representa o conhecimento compartilhado. Uma descoberta que permanece oculta não cumpre plenamente sua função social; da mesma forma, uma obra que não encontra leitores, espectadores ou estudiosos tem limitada sua capacidade de dialogar com o futuro. Os raios representam, assim, a expansão do saber através das gerações, estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro. Os grandes mestres do Renascimento pertencem ao passado, mas sua luz continua a alcançar o presente. De modo análogo, aqueles que recebem a Grande Comenda são reconhecidos porque suas próprias realizações contribuem para iluminar o caminho das gerações futuras.
10 OS RAMOS DE LOURO E A HONRA
Na parte inferior da medalha encontram -se os ramos de louro, elemento tradicionalmente associado à vitória, à glória, à honra e ao reconhecimento, o que reforça o caráter honorífico da Comenda. Entretanto, nessa composição, a vitória não deve ser entendida como o triunfo de uma pessoa sobre outra, mas sim como: • a vitória da cultura sobre o esquecimento; • a vitória do conhecimento sobre a ignorância; • a vitória da memória sobre o apagamento da história; • a vitória da criação sobre a estagnação; e • a vitória da educação sobre a ausência de conhecimento. O louro simboliza a dignidade daquele que dedicou parte significativa de sua existência a uma causa cultural, artística, científica, intelectual ou humanitária.
11 O CÍRCULO E A CONTINUIDADE DA CULTURA
A estrutura circular da medalha também apresenta um significado importante. Por não possuir princípio nem fim delimitados, o círculo simboliza continuidade, permanência e eternidade. A cultura funciona de maneira semelhante: uma geração recebe conhecimentos de seus antecessores, acrescenta suas próprias contribuições e transmite esse patrimônio às gerações seguintes.
O Renascimento foi resultado desse processo de recuperação, interpretação e transformação do saber acumulado. A cultura nunca nasce do nada; é construída sobre o que foi produzido anteriormente. Por essa razão, o círculo exterior da medalha representa a continuidade da civilização e a transmissão incessante do patrimônio intelectual e cultural.
12 A FEBACLA COMO INSTITUIÇÃO DE RECONHECIMENTO CULTURAL
A identificação “FEBACLA”, presente na parte inferior da insígnia, estabelece a ligação entre essa rica simbologia e a instituição responsável pela concessão da honraria. A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes assume a responsabilidade de valorizar trajetórias dedicadas ao saber e à cultura.
A Grande Comenda é coerente com essa perspectiva devido ao seu caráter interdisciplinar. A honraria destina -se a reconhecer personalidades com contribuições relevantes em diversas áreas, tais como: ciências, letras, artes, história, filosofia, educação, literatura, pesquisa, patrimônio cultural, comunicação, produção intelectual, humanismo e preservação da memória. Essa abrangência resgata o próprio espírito renascentista, no qual as fronteiras entre os saberes eram mais fluidas e integradas do que na estrutura acadêmica contemporânea.
13 O RENASCIMENTO COMO CONCEITO CONTEMPORÂNEO
Embora historicamente delimitado à Europa dos séculos XIV a XVI, o conceito de Renascimento assume um significado atemporal: Renascimento é renovação. Uma sociedade renasce quando valoriza sua história; uma cultura renasce quando preserva seu patrimônio; a ciência renasce quando novas perguntas são formuladas; a arte renasce quando novos artistas encontram novas linguagens; a educação renasce quando desperta a curiosidade; e a memória renasce quando o esquecido volta a ser estudado.
Por essa razão, a Grande Comenda não pretende apenas rememorar um período histórico, mas reconhecer pessoas que realizam processos de renovação cultural em seu próprio tempo. Aqueles que pesquisam, ensinam, escrevem, pintam, esculpem, preservam, restauram, educam e produzem ciência tornam -se agentes de novos renascimentos.
14 A GRANDE COMENDA COMO INSTRUMENTO DE MEMÓRIA
As honrarias cumprem igualmente uma importante função memorialística. Ao receber uma comenda, o homenageado recebe um símbolo que registra publicamente a relevância de sua trajetória. A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento cumpre essa função ao associar o homenageado ao legado de Leonardo, Michelangelo e Rafael. A mensagem implícita carrega elevada responsabilidade: quem recebe uma honraria inspirada nesses mestres é convidado a compreender o valor de sua própria contribuição cultural. Essa distinção não busca estabelecer uma comparação de genialidade, mas afirmar, simbolicamente, que o homenageado participa do processo de construção da cultura. A Comenda reforça que os valores de conhecimento, criação e harmonia permanecem indispensáveis à sociedade contemporânea.
15 A TRÍPLICE COROA E A EXCELÊNCIA HUMANA
A concepção da Grande Comenda também pode ser compreendida como uma reflexão sobre a própria ideia de excelência. A excelência, contudo, não significa perfeição absoluta, mas dedicação, competência, perseverança e contribuição. Leonardo ensina a importância da curiosidade; Michelangelo ensina a força do trabalho e da criação; Rafael ensina o valor do equilíbrio e da harmonia. A reunião desses ensinamentos produz uma concepção de excelência fundamentada em três perguntas centrais: • O que sabemos? • O que somos capazes de criar a partir desse conhecimento? • Como podemos utilizar aquilo que sabemos e criamos para contribuir com a sociedade? Essas três indagações sintetizam o verdadeiro espírito da Tríplice Coroa.
16 A GRANDE COMENDA E O HUMANISMO
O humanismo constitui outro aspecto fundamental para compreender a simbologia da honraria. O Renascimento recolocou o ser humano no centro de numerosas reflexões culturais, sem que isso significasse a negação da dimensão religiosa predominante na sociedade europeia da época. O interesse pela dignidade, pela capacidade intelectual, pela educação e pelas potencialidades humanas tornou -se uma das características marcantes da cultura humanista.
A obra de Rafael, particularmente A Escola de Atenas, é um exemplo eloquente dessa valorização do pensamento humano. A Grande Comenda recupera esse princípio ao compreender a cultura como instrumento de valorização da pessoa e da sociedade. Afinal, o conhecimento sem humanidade pode tornar -se mero acúmulo de informações; a arte sem humanidade pode perder sua capacidade de dialogar com a experiência humana; e a educação sem humanidade pode transformar -se em mera transmissão mecânica. O verdadeiro renascimento cultural exige, portanto, conhecimento acompanhado de responsabilidade social.
17 A COMENDA COMO PONTE ENTRE PASSADO E FUTURO
A principal força simbólica da Grande Comenda encontra -se na construção de uma ponte entre diferentes tempos históricos. De um lado, está o Renascimento italiano e seus grandes mestres; do outro, encontra -se o mundo contemporâneo e suas novas formas de produzir conhecimento. Entre ambos, situa-se a cultura. Leonardo, Michelangelo e Rafael pertencem ao passado, mas continuam presentes nos museus, nos livros, nas universidades, nas escolas, nas pesquisas, nas reproduções artísticas e no imaginário coletivo. Isso demonstra que uma obra cultural verdadeiramente significativa não se encerra com a morte de seu autor: ela continua viva enquanto houver quem a contemple, estude, interprete e transmita.
A Grande Comenda assume exatamente essa perspectiva. Ao homenagear uma personalidade contemporânea sob a inspiração dos mestres renascentistas, a FEBACLA estabelece uma continuidade simbólica entre aqueles que construíram a cultura no passado e aqueles que continuam a construí-la no presente.
18 O SIMBOLISMO DA GRANDE COMENDA TRÍPLICE COROA DO RENASCIMENTO
A análise conjunta de sua história e iconografia permite compreender a Grande Comenda como uma síntese articulada de valores: • As três coroas: representam a excelência, a dignidade e a homenagem aos três grandes mestres. • Leonardo da Vinci: simboliza o conhecimento e a investigação científica. • Michelangelo: representa a criação e a força expressiva das artes. • Rafael Sanzio: encarna a harmonia, a beleza e o ideal humanista. • O sol nascente: simboliza o renascimento e a esperança. • Os raios luminosos: representam a difusão e a transmissão do conhecimento. • Os ramos de louro: expressam a honra, o mérito e o reconhecimento público. • O círculo exterior: representa a continuidade e a permanência da cultura. • A inscrição FEBACLA: identifica a instituição que chancela esses valores na forma de uma distinção honorífica contemporânea.
O resultado é uma insígnia que conta uma história por meio de uma linguagem essencialmente simbólica. Ela comunica que o verdadeiro renascimento não pertence exclusivamente ao passado, mas acontece continuamente, sempre que alguém decide estudar, pesquisar, criar, preservar, ensinar e compartilhar.
19 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento apresenta -se como uma distinção honorífica cuja fundamentação ultrapassa a dimensão meramente protocolar de uma honraria visual. Sua concepção estabelece um diálogo fértil entre a história da arte, o humanismo renascentista e a necessidade contemporânea de valorizar aqueles que dedicam suas trajetórias à construção e à preservação do conhecimento.
A escolha de Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio como referências simbólicas confere à Comenda uma identidade fundamentada em três dimensões essenciais do espírito renascentista: conhecimento, criação e harmonia. Leonardo representa a curiosidade intelectual e a investigação da natureza; Michelangelo simboliza a força criadora capaz de transformar matéria e pensamento em arte; Rafael representa o equilíbrio, a proporção e a capacidade de harmonizar diferentes formas de saber. As três coroas sintetizam esses valores, elevando -os à condição de princípios permanentes de excelência. O sol nascente acrescenta à composição a ideia fundamental de renovação, demonstrando que o conceito de Renascimento não deve ser interpretado apenas como uma referência cronológica.
Na perspectiva da Comenda, renascer significa renovar o conhecimento, preservar a memória, estimular a criatividade, valorizar a cultura e construir novas possibilidades para o futuro. A iconografia completa -se com os raios luminosos, que simbolizam a transmissão do saber; os ramos de louro, que representam a honra e o mérito; e a estrutura circular, que expressa a continuidade da civilização através das gerações.
Dessa forma, a Grande Comenda constitui uma homenagem ao passado, mas também um compromisso com o presente e o futuro. Sua mensagem essencial pode ser sintetizada em uma ideia: toda sociedade necessita de novos renascimentos. Quando um pesquisador descobre, um professor ensina, um escritor escreve, um artista cria, um historiador preserva, um cientista investiga ou um agente cultural mantém viva a memória de uma comunidade, ocorre um renovado ato de renascimento. Inspirada nos três grandes mestres do Renascimento, a Comenda estabelece uma concepção de reconhecimento baseada na certeza de que o conhecimento deve iluminar, a criação deve transformar e a cultura deve permanecer viva. Assim, as três coroas passam a constituir uma declaração de princípios: • Conhecer para compreender. • Criar para transformar. • Harmonizar para construir. • Preservar para transmitir. • Renovar para fazer renascer.
A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento consagra, portanto, aqueles que fazem da inteligência, da criatividade, da cultura e do compromisso com a sociedade instrumentos de construção de um futuro no qual o legado das grandes civilizações continue a ser permanentemente reavaliado, reinterpretado e renovado.
REFERÊNCIAS
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VASARI, Giorgio. Vidas dos artistas. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
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Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, natural de Nova Iguaçu (RJ). Construiu sólida trajetória acadêmica e intelectual, sendo licenciado em História e Filosofia, tecnólogo em Eventos e bacharel em Direitos Humanos, com ênfase em Ciências Sociais. Possui formação em nível de pós-graduação nas áreas de História do Brasil, História Antiga e Medieval, Filosofia, Ciências Políticas, Ciências da Religião, Jornalismo, Docência do Ensino Superior, Produção Cultural e Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, entre outras. É coautor de mais de quarenta obras literárias e atua como colunista do jornal cultural ROL, desenvolvendo produção intelectual voltada à história, cultura, filosofia, direitos humanos e diplomacia cultural. Foi reconhecido por Notório Saber em Filosofia pelo Instituto Universitas Ecclesiae do Brasil. Detentor de centenas de títulos honoríficos, medalhas e condecorações concedidas por instituições nacionais e internacionais, é também detentor de 30 títulos de Doutor Honoris Causa. É Doctor of Humane Letters pela Logos University International (UNILOGOS) e Doctor of Philosophy in Peace pela International University of Higher Martial Arts Education. Atua como Agente de Representação Diplomática Dinástico-Cultural, com status de Embaixador Honorário da Organização Internacional de Diplomacia Cultural. Exerce a presidência da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e é Diretor do Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Registros Profissionais: Historiador – MTE 0001072/RJ Jornalista – MTE 0039605/RJ


Meu irmão, o artigo demonstra, com todas as letras, como o Renascimento, aliado ao humanismo, representaram uma valorização cultural sem precedentes na história da humanidade. Portanto, a tríade composta por Da Vinci, Michelangelo e Rafael, pela excelência de sua arte, realmente coroam a Comenda da FEBACLA!