Pietro Costa: ‘A fenomenologia do polegar em queda’


Olhos fixados no luminoso oráculo.
O polegar desliza, rito automático.
Teu filho andou pela primeira vez:
A vivência que não entrou no feed.
Sarcasmos prontos, cinismos em série,
piadas leves como a consciência.
Gritos e choros em silêncio digital:
não viraliza a falta de audiência.
Compra-se para esquecer o dia,
acumula-se o que não preenche.
Em casa, aquece-se o urgente,
congela-se o sentir: ego e agonia.
Executa-se a cretinice em escala industrial:
Se vota diferente, é inimigo visceral.
Se critica meu ídolo, é herege, insano.
Se crê fora do meu templo, não é humano.
A ampulheta implode, vazio profundo.
O tempo não passa, acumula feridas.
Preconceitos marcam a pele do mundo:
rugas precoces — civilização exaurida.
Merleau-Ponty já advertia a humanidade:
o corpo é campo sensível, não secundário.
Há um logos inscrito na carne,
uma gramática do sentir antes do discurso, do vernáculo.
Essência e existência soletram-se no cotidiano:
nos afetos negados, nos encontros adiados,
nos mitos que repetimos, em autoengano.
Cada vida é texto em curso:
ou ponte, ou abismo.
E o sentido, hoje,
exige menos conexão
e mais coragem de sentir.
Pietro Costa
- A fenomenologia do polegar em queda - 15 de abril de 2026
- A seiva verdadeira - 31 de março de 2026
- Poetizo, logo vivo – XXXVIII - 24 de novembro de 2025
Natural de Brasília (DF). Formado em Direito pela Upis. Pós-graduação lato sensu em Globalização, Justiça e Segurança Humana pela ESMPU em parceria com a Ruhr Universitat de Bochum/Alemanha. Assessor Jurídico de 2ª Instância do MPU. Escritor. Poeta. Comendador. Ativista Cultural. Ex-Presidente da Academia Cruzeirense de Letras). Membro de Academias Literárias e Entidades Culturais no Brasil e no exterior. Membro da Literarte. Membro da Rede Sem Fronteiras. Membro do IICEM. Chancellor of the Arts – International Arts Committee. Membro da ALSPA. Preceptor do Instituto Baronesa de Ensino e Desenvolvimento Humano. Embaixador da Paz da OMDDH. Dr. Honoris Causa em Literatura, Ciências Jurídicas, Direitos Humanos e Humanidades. Autor de 10 obras literárias: Entre a Caneta e o Papel, 2018; A Rosa dos Ventos, 2019; Juras de Poesia Eterna, 2020; Urbanos, 2020; Lua a Pino, 2021; Autopoiesis, 2022; Nos Labirintos da Palavra, 2022; Sol Ridente, 2023; Eclipser, 2024; Requintes de Sensibilidade, 2025) Coautor de mais de 300 coletâneas. Várias honrarias, prêmios e títulos. Vencedor do Prêmio Clarice Lispector 2024 – ZL Books, com a obra autoral ‘SolRidente’, na categoria ‘Melhor Livro de Poesia. https://www.instagram.com/pietrocosta_poeta/
https://pietrolemoscosta.blogspot.com/


Pietro, seu poema é uma radiografia que mostra que o mundo moderno é por demais de virtual, e de menos virtuoso. A alienação digital, a superficialidade das relações e perda da vivência sensorial, como forma de viver e se mostrar ao mundo, está rebaixando os seres humanos na escala evolutiva espiritual.
Que saudade do tempo em que o ponteiro do relógio andava em cadência lenta, proporcionando – a quem tinha alma de sentir, evidentemente – a ‘degustação’ da vida!