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Violência contra a mulher

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Renata Barcellos

‘Violência contra a mulher retratada nas literaturas 2’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69ff2de1-34b0-83e9-ba65-92012e5e76ac
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A violência contra a mulher é um tema recorrente nas literaturas. Infelizmente, retratando a naturalização da submissão feminina em obras clássicas e contemporâneas para denúncias explícitas e reflexões críticas. As literaturas são o reflexo do homem no seu tempo. Isto é, esta expressão artística é como um espelho de seu tempo. Dentro desta temática, revela estruturas patriarcais e combate-as através da denúncia.

Nas Literaturas brasileiras, há diversos registros de violência contra a mulher associados aos comportamentos próprios de uma sociedade patriarcal tradicional. De diferentes formas, a postura do agressor é representada como parte de uma cultura dominante, por isso incorporada aos padrões sociais disciplinadores. Desde o século XIX, as literaturas registram tanto as sutilezas como o horror da violência física e simbólica que sustentam a dominação masculina. Do término do casamento ao assassinato brutal da mulher, a honra do patriarca dá sustentação à barbárie.

No romance regional, o femicídio é parte das estratégias de manutenção da honra masculina, por isso não causa espanto quando acontece. Em Menino de engenho, de José Lins do Rego, traz a representação desse crime como parte da cultura e como uma opção aceitável para um marido traído. O pai do narrador, Carlos, mata a esposa após descobrir a traição. De forma repentina, esse crime nasce do descontrole masculino.

Aqui estão os principais aspectos de como este tema é retratado:

1. Literatura Canônica e a Naturalização (Clássicos)

Historicamente, a literatura masculina retratou a violência contra a mulher como algo natural, justificado pela “honra masculina” ou como ordem natural.

  • “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis: apresenta a violência simbólica, onde a mulher é julgada e exilada socialmente sem provas, baseada apenas no ciúme.

  • “Menino de Engenho” (1932), de José Lins do Rego: mostra a violência física e moral aceita como parte da cultura.

  • “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), de Jorge Amado: retrata o assassinato de mulheres para “lavar a honra” do marido.

  • “O Cobrador” (1979), de Rubem Fonseca: aborda a violência sexual como um direito exercido pelo protagonista.

2. A Virada Contemporânea e Autoria Feminina (Anos 70 em diante)

A partir da década de 1970, autoras brasileiras começaram a subverter essa narrativa, denunciando a brutalidade de forma pungente.

  • Clarice Lispector: em “A Via Crucis do Corpo” (1974), especificamente no conto “A língua do P”, ela narra o feminicídio, quebrando o silêncio sobre a morte de mulheres.

  • Lygia Fagundes Telles: em “Venha ver o pôr do sol” (1970), retrata psicologicamente a violência e o domínio masculino.

  • Marina Colasanti: em “A Moça Tecelã” (2004), aborda de forma alegórica a opressão.

  • Outras Autoras: Nélida Piñon e Lya Luft também questionam as diferentes formas de violência, desde o assédio moral ao feminicídio.

3. Temas Abordados

A literatura moderna foca em diversas facetas da violência:

  • Violência Física e Doméstica: espancamentos e o ambiente doméstico como local de risco.

  • Violência Simbólica e Moral: assédio, humilhação e controle psicológico.

  • Feminicídio: eliminação da mulher como desfecho trágico da posse.

  • Masculinidade Tóxica: construção do agressor e a necessidade de controle.

4. Literatura como Denúncia e Mudança

As literaturas de autoria feminina têm sido fundamental para o debate sobre os direitos humanos, com autores e pesquisadores indicando que essas obras ajudam a dar visibilidade à violência sofrida, impulsionando mudanças sociais e jurídicas, como a própria Lei Maria da Penha.

  • Recomendação de Leitura: conto “A língua do P”, de Clarice Lispector, é frequentemente citado como uma obra-chave para analisar a violência de gênero no Brasil.

As literaturas contemporâneas latino-americanas continuam a reverberar a violência de gênero como ponto central, com autores como Selva Almada explorando o tema do feminicídio.   As de autoria feminina, no século XX, passa a questionar os diferentes tipos de violência física e simbólica contra a mulher quando repudia a dominação masculina.

Em “O quinze” (1930), de Rachel de Queiroz; “Perto do coração selvagem” (1944), de Clarice Lispector; e “Ciranda de pedra” (1954), de Lygia Fagundes Telles, as protagonistas fogem de casamentos tradicionais e buscam a liberdade longe de homens dominadores e ciumentos. Marina Colasanti questiona a opressão feminina, em “Moça tecelã” (1978), por meio de uma paródia da relação controladora do patriarca.

No conto, o homem nasce do desejo de a mulher ter um marido. Todavia, após realizar seu sonho, a tecelã passa a ser explorada e escravizada por ele, que a priva do direito de expressão e de liberdade. Ela fica presa o dia todo produzindo o que mais interessa ao homem: bens e riquezas. Lya Luft lança seu primeiro romance, “As parceiras” (1980), sobre o questionamento da rotina de violência sexual a que muitas mulheres foram submetidas em famílias patriarcais. Nessa obra, a família da narradora é iniciada por um avô violento que estupra e agride constantemente a matriarca, Catarina.

Concluímos com uma frase pensada pela personagem Cidinha, uma professora de inglês, virgem, que se vê encurralada em um vagão de trem por homens que ameaçam estuprá-la quando o trem entrar em um túnel:

“Tinha que pensar depressa, depressa, depressa. Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda” (Clarice Lispector de “A Língua do P”, do livro de contos A Via Crucis do Corpo, publicado originalmente em 1974).

Para escapar da violência, Cidinha decide fingir ser uma prostituta (“vagabunda”). Ela acreditava que, ao se pôr na posição caricata e sensual, os agressores perderiam o interesse. Isso porque a motivação deles estava relacionada ao domínio sobre uma mulher “honesta” e não ao ato sexual com uma prostituta.

Cabe ressaltar que a obra aborda a violência sexual, o estupro, o medo, a sexualidade feminina e o julgamento social sobre a mulher. Infelizmente, temas atuais e urgentes de serem discutidos. Fica a dica de leitura!!!


Renata Barcellos

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