Descubra a história por trás do jornalista que sonhava em viver da literatura e marcar gerações.


Não era de briga, ainda mais depois da última surra que levou quando ainda estava nos primeiros anos na escola. Se aquilo fazia parte do mundo masculino, ele preferiu seguir pelo caminho da literatura e, desde então, embrenhou-se entre páginas amareladas dos livros da estante do avô.
Começou por volumes da Coleção Vaga-Lume, quando se apaixonou pelas obras do escritor Marcos Rey: O mistério do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Que mundo era aquele? Não teve dúvida e arriscou-se a abrir o coração para o avô.
— Quero ser escritor.
— Hum! Já falou isso pros seus pais?
— Papai talvez não diga nada, mas mamãe vai me matar.
— Por quê?
— Porque quer me ver advogado ou médico.
— Não.
— Não?
— Não perguntei isso. Por que quer ser escritor?
Edmundo Donato pensou, pensou, pensou…
— Não posso?
— É óbvio que pode.
— Então?
— Então, o quê, Edmundo?
— Então, quero ser escritor.
Os anos seguintes foram de muitas descobertas. Edmundo passou por vários autores. Apaixonou-se por alguns, mas invejava apenas um: Afonso Henriques de Lima Barreto. Tanto é que enfrentou a mãe diante do pai mudo.
— Mamãe, quero ser jornalista.
— Jornalista, Edmundo? Quer morrer de fome?
— De fome não morro, mamãe.
— E você acha que vai ter a mim e seu pai durante toda a vida.
— Não, mamãe.
— E por que é então que você diz com tanta certeza que não vai morrer de fome, meu filho?
— Antes morro de desgosto entre processos e agulhas, mamãe.
Edmundo virou jornalista. Não chegou a morrer de fome, mas longe de degustar caviar. Suficiente para ter uma vida pouco acima do modesto, o que, aos seus olhos, era mais do que satisfatório. No entanto, faltava-lhe algo.
Durante uma conversa com um colega de redação, no Bar do Bosco, na 709 Norte, em Brasília, Edmundo levantou a questão que o frustrava.
— Sabe, Bartô, quero ser escritor.
— Nem sabia que você escrevia, Edmundo.
— Um pouco.
— E do nada você quer virar escritor?
— Não é do nada. Virei jornalista por causa do Lima Barreto.
— Pois eu virei por causa do José Seabra.
— Excelente referência. Mas eu queria ser que nem o Lima.
— Logo tu?
— E por que não eu?
— Nunca que você vai ser que nem o Lima Barreto.
— Tá! Mas me dê uma razão. Uma única razão!
— Edmundo, tu é um arregão!
— Alto lá, meu amigo! Arregão não!!! Cauteloso.
Eduardo Cesario-Martínez
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Premiado escritor carioca, atualmente radicado em Porto alegre, cidade pela qual é apaixonado. Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2025, foi o vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector, na categoria livro de contos com ’57 Contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora. Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi.

