setembro 18, 2026
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A cama dos casados I

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Conto de Makala Sankara Anzuruni — À luz de uma fogueira ancestral, as lições de um velho professor sobre o lugar onde o amor aprende a respirar através das palavras.

Retrato em close do escritor moçambicano Makala Sankara Anzuruni vestindo camisa branca, olhando ligeiramente para cima com um fundo claro decorado com flores vermelhas.
Makala Sankara Anzuruni

Há camas onde o corpo descansa e outras onde o casamento aprende a respirar

A reunião começou quando a noite já tinha tomado conta da aldeia.

Não havia energia eléctrica. Não havia televisão. Não havia telefone para interromper a conversa. Havia apenas a lua, o som dos grilos e uma fogueira acesa debaixo da grande figueira.

Os homens estavam sentados em bancos de madeira. As mulheres ocupavam as esteiras. As crianças, depois de muitas corridas pelo terreiro, brincavam perto das mães.

Naquela aldeia, quando a noite chegava, a palavra ainda tinha tempo.

No centro da roda estava o professor.

Começou por cantar uma pequena música tradicional. As mulheres responderam em coro. A fogueira estalava, lançando pequenas faíscas para o escuro.

Quando terminou a canção, o professor olhou para os casais.

— Minhas mwanas, para que serve uma cama?

Maboa, que estava sentado perto do fogo, respondeu sem pensar:

— Para dormir, professor.

As mulheres riram.

O professor também sorriu.

— É exactamente por pensarmos assim que alguns casamentos passam a vida deitados e nunca descansam.

Maboa ajeitou-se no banco.

— Professor, cama é cama.

— Não, Maboa. Cama de solteiro pode ser cama. Cama de hospital pode ser cama. Mas a cama dos casados é outra escola.

Janete, que desde o princípio acompanhava tudo com atenção, levantou a mão.

— Professor, então o que se aprende nessa escola?

O professor aproximou as mãos do fogo.

— Aprende-se a conhecer a pessoa que dorme ao teu lado.

— Mas isso não se aprende antes do casamento?

O professor sorriu.

— Antes do casamento aprendemos a gostar. Depois do casamento aprendemos a conhecer.

Algumas mulheres trocaram olhares.

O professor continuou:

— A cama dos casados também é lugar de intimidade. É natural que marido e mulher tenham ali a sua vida de casal. Mas reduzir a cama apenas ao encontro dos corpos é esquecer que o casamento também precisa do encontro das palavras.

A roda ficou silenciosa.

— Há casais que sabem deitar juntos — prosseguiu —, mas não sabem conversar. Sabem dividir a cama, mas não sabem dividir os problemas. Sabem procurar carinho, mas não sabem pedir desculpa.

Janete baixou os olhos.

Maboa mexeu na lenha com um pequeno pau.

— A cama pode ser o lugar onde marido e mulher conversam sobre os filhos, sobre o dinheiro, sobre a machamba, sobre a construção da casa e sobre aquilo que está a pesar no coração.

Uma senhora perguntou:

— Então a cama também serve para fazer planos?

— Serve, sim.

O professor apontou para a casa ao lado.

— Antes de uma casa crescer com tijolos, muitas vezes começa a crescer numa conversa.

Maboa levantou a mão.

— Professor, quer dizer que a cama também é escritório?

— É escritório, conselho de família, lugar de reconciliação e, quando a discussão aperta, até tribunal.

A gargalhada correu pela roda.

— Mas existe uma diferença — acrescentou o professor. — No tribunal, alguém precisa ganhar. No casamento, se um ganha e o outro perde, os dois acabam perdendo.

Janete bateu palmas.

— Essa frase vou levar para casa.

O marido olhou para ela.

— Leva também a lenha.

Todos riram.

Janete respondeu:

— Estás a ver, professor? Já começou o julgamento.

O professor abanou a cabeça.

— É por isso que o casamento precisa de humor. Quando marido e mulher deixam de rir juntos, começam a procurar motivos para rir um do outro.

A mãe de Impwana, uma senhora conhecida por falar pouco e observar muito, levantou a mão.

— Professor, por que razão existem casais que vivem muitos anos juntos e continuam a não se entender?

O professor ficou alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu:

— Porque morar na mesma casa não significa viver na mesma vida.

A senhora baixou a cabeça.

O professor prosseguiu:

— Há marido que conhece o preço do pão, mas não conhece a preocupação da mulher. Há mulher que sabe a hora de o marido regressar, mas não sabe o que ele traz dentro do coração.

O fogo estalou.

Ninguém riu.

— O casamento começa a adoecer quando as conversas diminuem. Primeiro deixam de conversar sobre sonhos. Depois deixam de conversar sobre problemas. Mais tarde, conversam apenas sobre comida, crianças, dinheiro e trabalho.

Maboa levantou novamente a mão.

— Professor, e o dinheiro?

— O dinheiro também precisa de conversa.

Todos olharam para ele.

— Não estou a falar de esconder notas debaixo da esteira — esclareceu. — Estou a falar de planeamento. Marido e mulher precisam de saber quanto ganham, quanto gastam e o que querem construir juntos.

Um homem sentado mais atrás comentou:

— Se a minha mulher souber tudo o que ganho, professor, onde fica a surpresa?

— A surpresa — respondeu o professor — será quando descobrires que o dinheiro acabou antes de o mês terminar.

A gargalhada foi geral.

Maboa até bateu palmas.

Depois, o professor ficou novamente sério.

— Família sem plano é como barco sem remador. Conhece o rio, mas não escolhe a margem.

Janete perguntou:

— E quando um dos dois não quer conversar?

— Começa-se por escutar.

— E se não quiser escutar?

— Fala-se com calma.

— E se continuar sem querer?

O professor olhou para ela.

— Minha filha, há portas que não se abrem com pancadas. Algumas precisam de paciência.

A frase ficou suspensa sobre a roda.

Ao longe, ouviu-se o canto de um galo, enganado pela claridade da fogueira.

O professor fechou o caderno.

— Meus filhos, casamento não é apenas dividir uma casa. É dividir responsabilidades, sonhos, dificuldades e decisões.

Fez uma pausa.

— A cama dos casados é pequena demais para carregar o orgulho de duas pessoas.

Ninguém falou.

— Mas é grande o suficiente para caber uma conversa sincera.

A reunião terminou.

A fogueira continuou acesa por mais algum tempo.

As mulheres recolheram as esteiras. Os homens despediram-se. As crianças foram chamadas para dentro de casa.

Janete caminhou ao lado do marido.

Maboa ficou para trás, procurando o seu chinelo, amarrado com arame.

Naquela aldeia, naquela noite, ninguém precisava de televisão para ocupar o silêncio.

Ninguém precisava de telefone para lembrar que existia alguém ao lado.

Havia a fogueira.

Havia a palavra.

E havia a cama dos casados, à espera de duas pessoas que talvez naquela noite descobrissem que dormir juntos é fácil.

Difícil é acordar todos os dias e continuar a escolher um ao outro.

Porque há problemas que não precisam de uma casa maior.

Precisam apenas de duas pessoas dispostas a sentar-se juntas, conversar com sinceridade e olhar para o mesmo futuro.

Makala Sankara Anzuruni

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Makala Sankara Anzurumi
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One thought on “A cama dos casados I

  1. Que texto sensível e profundamente verdadeiro! Makala nos transporta para aquela fogueira e nos faz refletir que o casamento exige o encontro das palavras.

    Deixo a pergunta para os leitores e colaboradores do Jornal ROL: vocês concordam com o professor de que o casamento começa a adoecer quando as conversas diminuem? Deixem suas impressões aqui embaixo!

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