setembro 18, 2026
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A estrada deserta do coração

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Clayton Alexandre Zocarato e uma narrativa sensível sobre o tempo, a memória e tudo o que a pressa da vida moderna tenta silenciar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato

Naquela cidade pequena, onde as ruas ainda pareciam conhecer pelo nome aqueles que passavam por elas, havia uma estrada que começava depois da última casa e desaparecia lentamente entre os cafezais, as árvores antigas e algumas propriedades esquecidas pelo tempo. Não possuía placa, não aparecia nos mapas mais recentes e quase ninguém se lembrava de onde terminava. Os mais velhos diziam apenas que aquela estrada sempre existira, como se tivesse nascido junto com a própria cidade.

            Chamavam-na de Estrada Deserta.

            Não porque fosse completamente abandonada, pois de vez em quando alguém ainda passava por ali com uma carroça, uma bicicleta velha ou uma caminhonete carregada de ferramentas.

             Era deserta porque, segundo os antigos, quem caminhava por ela começava a ouvir coisas que a cidade moderna havia aprendido a silenciar.

            O vento.

            Os pássaros.

            O próprio pensamento.

            E, sobretudo, o coração.

            A cidade havia mudado muito.

            Durante muitos anos, as pessoas deixavam as portas abertas durante o dia. As crianças brincavam nas calçadas até que alguma mãe aparecesse na esquina chamando pelo nome.

            Os homens se reuniam diante da venda depois do trabalho, enquanto as mulheres conversavam nas cadeiras colocadas nas calçadas, comentando a vida dos vizinhos, o preço do café, o casamento de alguém ou simplesmente o tempo.

            Havia pouca riqueza, mas existia uma espécie de abundância que não aparecia nos livros de economia.

            As pessoas tinham tempo.

            Tempo para conversar.

            Tempo para esperar.

            Tempo para visitar um doente.

            Tempo para sentar diante de uma praça e observar a tarde morrer lentamente.

            Com os anos, chegaram as,  máquinas, os telefones inteligentes, os aplicativos, os carros silenciosos, as entregas rápidas e a promessa de que tudo poderia ser feito sem que ninguém precisasse sair de casa.

            A cidade ganhou velocidade.

            Mas perdeu demora.

            E talvez tenha sido justamente a demora que um dia havia permitido que as pessoas se encontrassem.

            Seu Anselmo percebeu isso antes de quase todos.

            Tinha setenta e oito anos e ainda conservava uma pequena oficina de consertos de relógios numa rua próxima à praça central. A oficina era estreita, cheirava a madeira velha, óleo e café passado. Havia relógios pendurados pelas paredes, alguns funcionando, outros parados em horários diferentes, como se cada um guardasse uma pequena morte.

            Seu Anselmo dizia que relógio parado não era relógio quebrado.

            Era memória.

            — O relógio não deixa de existir porque deixou de marcar as horas — costumava dizer.

            Poucos compreendiam.

            Ele também já não fazia questão de explicar.

            Tinha aprendido que certas coisas somente são entendidas quando a vida nos coloca diante delas.

            Todas as manhãs, abria a porta da oficina às oito. Colocava uma cadeira na calçada e esperava os primeiros movimentos da cidade.

            Antigamente, conhecia quase todos.

            Agora conhecia apenas os passos.

            As pessoas passavam olhando para baixo, os olhos presos às pequenas telas luminosas de seus telefones.

            Às vezes, duas pessoas caminhavam lado a lado sem trocar uma palavra.

            Seu Anselmo observava aquilo com tristeza, mas não com raiva.

            Sabia que a modernidade não havia chegado para destruir ninguém.

            Ela simplesmente havia chegado prometendo facilitar a vida.

            E, sem perceber, havia começado a ocupá-la.

            Certa manhã, uma mulher chamada Helena entrou na oficina.

            Tinha pouco mais de quarenta anos e carregava uma expressão de cansaço que não parecia vir do trabalho. Pediu que Seu Anselmo consertasse um relógio de pulso que pertencera ao pai.

— Ele morreu há três anos — disse.

            Seu Anselmo pegou o relógio cuidadosamente.

            — E ele funcionava?

            — Funcionava.

            — Então por que parou?

            Helena ficou alguns segundos em silêncio.

            — Acho que parou quando meu pai morreu.

            Seu Anselmo olhou para ela.

            Não corrigiu.

            Não disse que relógios não possuem sentimentos.

            Apenas abriu a tampa traseira.

            — Às vezes, o mecanismo continua funcionando por algum tempo — falou. —   Mas chega uma hora em que a gente percebe que estava dando corda para uma lembrança.

            Helena sorriu tristemente.

            Era a primeira vez, em muito tempo, que alguém falava com ela sem tentar resolver sua vida.

            Naquela tarde, ela voltou para buscar o relógio.

            Seu Anselmo havia feito o conserto.

            Quando colocou o objeto no pulso, Helena ouviu o pequeno tic-tac.

            Por alguns segundos, pareceu escutar a voz do pai.

            Não uma voz verdadeira, mas aquela voz que a memória inventa quando sente falta de alguém.

            — Quanto devo?

            — Nada.

            — Como assim?

            — O senhor seu pai já pagou.

            Helena franziu a testa.

            — Pagou?

            — Pagou quando ainda estava vivo. Consertou meu telhado numa época em que eu não tinha dinheiro.

            Ela não se lembrava.

            Talvez porque a memória também seja uma casa cheia de quartos que esquecemos de visitar.

            Helena saiu da oficina olhando para o relógio.

            Na praça, os bancos estavam quase vazios.

            Um homem velho alimentava alguns pombos.

            Uma criança passava de bicicleta.

            Uma senhora atravessava lentamente a rua com uma sacola de pão.

            E por um instante a cidade pareceu voltar a ser aquela que existia antes dos telefones, antes das notificações, antes da pressa.

            Foi apenas um instante.

            Mas alguns instantes são maiores que muitos anos.

            Naquela mesma cidade morava Joaquim, antigo ferroviário.

            A estação havia sido desativada décadas antes. Restava apenas o prédio envelhecido, com suas paredes manchadas e a plataforma tomada por mato.

            Joaquim ainda ia até lá todas as tardes.

            Sentava-se num banco de madeira e ficava olhando os trilhos que já não levavam ninguém.

            Os jovens riam quando passavam.

            — Seu Joaquim espera o trem até hoje?

            Ele respondia:

            — Não espero o trem.

            — Então espera o quê?

            — O que o trem levou.

            Ninguém entendia.

            Talvez nem ele.

            Mas sabia que os trilhos tinham levado mais do que passageiros.

            Tinham levado uma época.

            Antes, quando o trem chegava, a cidade inteira parecia acordar. Havia vendedores, famílias, trabalhadores, estudantes, crianças correndo, malas, despedidas e reencontros.

            O trem era mais do que transporte.

            Era acontecimento.

            Hoje, tudo chegava rapidamente pelos caminhões, pelos aplicativos, pelas estradas asfaltadas.

            Mas nada parecia chegar de verdade.

            Joaquim dizia que uma cidade começa a envelhecer quando suas pessoas deixam de esperar umas pelas outras.

            E talvez tivesse razão.

            Na padaria de Dona Nair, o tempo ainda caminhava devagar.

            Ela acordava antes do sol e preparava o pão como aprendera com a mãe. Não utilizava grandes máquinas. Fazia quase tudo com as próprias mãos.

            A massa era sovada lentamente.

            O café era passado no coador.

            As portas eram abertas cedo.

            E havia sempre alguém sentado à mesa do canto.

            Dona Nair conhecia as histórias de quase todos.

            Sabia quem tinha filho estudando longe.

            Quem estava procurando emprego.

            Quem havia se separado.

            Quem estava doente.

            Quem fingia estar bem.

            Ela dizia que cidade pequena era como família.

            — Todo mundo sabe da vida de todo mundo.

            Depois acrescentava:

            — O problema é que hoje ninguém mais quer saber de verdade.

            O comentário parecia simples, mas carregava uma tristeza profunda.

            Porque saber não é o mesmo que conhecer.

            Hoje as pessoas sabiam onde as outras estavam.

            Sabiam o que comiam.

            Sabiam onde viajavam.

            Sabiam o que compravam.

            Sabiam o que fotografavam.

            Mas não sabiam quando alguém estava triste.

            Talvez a modernidade tivesse criado uma nova forma de solidão: aquela em que ninguém está sozinho, mas quase ninguém está verdadeiramente acompanhado.

            Naquela cidade, havia também Miguel, rapaz de vinte e seis anos, nascido ali, mas com os olhos sempre voltados para longe.

            Trabalhava remotamente para uma empresa de uma grande cidade.

            Passava o dia diante do computador.

            Recebia mensagens de pessoas que nunca havia visto.

            Participava de reuniões em que todos falavam, mas ninguém realmente conversava.

            Morava sozinho num apartamento pequeno.

            Tinha internet rápida, televisão enorme, celular moderno e uma geladeira cheia.

            Mesmo assim, algumas noites jantava sentado no chão porque não havia ninguém para conversar.

            Sua mãe morava duas ruas acima.

            Ele poderia visitá-la em cinco minutos.

            Mas quase sempre dizia:

            — Amanhã eu vou.

            O amanhã tornou-se um lugar onde muitas pessoas enterram seus afetos.

            Um sábado, Miguel decidiu caminhar pela antiga estrada.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez tivesse cansado de olhar para uma tela.

            Talvez estivesse cansado de si mesmo.

            Caminhou pela cidade, passou pela praça, pela antiga estação, pela padaria de Dona Nair e seguiu até o começo da estrada.

            O céu estava avermelhado.

            O campo tinha aquele cheiro úmido das tardes depois da chuva.

            Ao longe, ouviam-se algumas vacas.

            Era estranho perceber que ainda existiam sons que não pediam atenção.

            A estrada seguia silenciosa.

            Miguel caminhou.

            Depois de alguns minutos, encontrou Joaquim sentado à sombra de uma árvore.

            — O senhor vem sempre aqui?

            Joaquim sorriu.

            — Eu poderia perguntar o mesmo.

            Miguel sentou-se ao lado dele.

            Ficaram alguns minutos sem falar.

            Na cidade, o silêncio parecia constrangedor.

            Ali, não.

            Ali o silêncio parecia uma conversa.

            — O senhor não sente falta do trem? — perguntou Miguel.

            — Sinto.

            — Então por que continua vindo?

            Joaquim olhou para a estrada.

            — Porque sentir falta também é uma maneira de continuar amando.

            Miguel ficou quieto.

            A frase permaneceu dentro dele como uma pedra jogada num poço.

            Naquele momento percebeu que passara anos tentando fugir daquilo que sentia.

            Fazia compras para preencher espaços.

            Assistia a filmes para não pensar.

            Trabalhava para não lembrar.

            Conversava virtualmente para não precisar olhar alguém nos olhos.

            Acreditava que estar conectado era estar acompanhado.

            Mas talvez conexão fosse apenas uma palavra bonita para esconder a distância.

            Quando voltou para casa, encontrou sua mãe sentada na varanda.

            Ela segurava uma xícara de café.

            — Você sumiu.

            — Fui caminhar.

            — Sozinho?

            Miguel hesitou.

            — Nem tanto.

            Ela sorriu.

            — Então entrou em alguma estrada?

            — Entrei.

            A mãe levantou-se e foi buscar outra xícara.

            Não perguntou mais nada.

            Algumas mães sabem que certas perguntas precisam esperar.

            Sentaram-se juntos.

            Conversaram por quase duas horas.

            Falaram do pai.

            Da infância.

            Da antiga casa.

            Do quintal.

            Dos vizinhos.

            Da primeira bicicleta.

            Do tempo em que Miguel brincava na rua até anoitecer.

            Ele descobriu que sua mãe ainda guardava uma caixa com seus desenhos de criança.

            Achou engraçado.

            Depois chorou.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez porque percebesse que havia passado anos procurando novidades quando suas maiores riquezas estavam guardadas em caixas antigas.

            A cidade continuava mudando.

            Novos prédios surgiam.

            Casas antigas eram demolidas.

            A praça recebia novas luminárias.

            A antiga padaria ganhava uma máquina moderna de café.

            A estação permanecia fechada.

            A estrada continuava lá.

            E as pessoas continuavam envelhecendo.

            Seu Anselmo morreu numa manhã de inverno.

            A oficina permaneceu fechada por algumas semanas.

            Na porta, alguém colocou uma pequena fotografia dele sentado na cadeira da calçada.

            Abaixo, uma frase escrita à mão:

            “Consertava relógios, mas entendia de tempo.”

            Helena levou flores.

            Joaquim ficou em silêncio.

            Dona Nair preparou café para todos.

            Miguel apareceu com sua mãe.

            Foi uma despedida simples.

            Sem discursos.

            Sem música.

            Apenas algumas pessoas lembrando de um homem que havia passado grande parte da vida tentando impedir que as coisas desaparecessem completamente.

            Depois da morte de Seu Anselmo, Helena começou a visitar a praça todos os domingos.

            Joaquim passou a conversar mais com Miguel.

            Dona Nair colocou uma mesa maior na padaria.

            Aos poucos, outras pessoas começaram a aparecer.

            Não era um movimento organizado.

            Não havia projeto.

            Não havia aplicativo.

            Era apenas gente sentando perto de gente.

            Uma tarde, alguém levou um rádio antigo.

            Outro trouxe um álbum de fotografias.

            Uma senhora apareceu com uma receita de bolo que aprendera com a avó.

            Um antigo trabalhador da ferrovia levou fotografias da estação.

            As crianças começaram a perguntar sobre os trens.

            Os velhos começaram a contar histórias.

            E a cidade descobriu que memória não é apenas aquilo que ficou para trás.

            Memória também é aquilo que impede o presente de ficar vazio.

            Certa noite, Miguel caminhou novamente pela estrada.

            O céu estava cheio de estrelas.

            Pensou em todas as pessoas que haviam passado por aquela cidade.

            Algumas haviam partido.

            Outras haviam morrido.

            Outras continuavam vivas, mas distantes.

            Talvez a vida fosse uma longa estrada feita de encontros e ausências.

            Ninguém permanece.

            Nenhuma casa permanece exatamente igual.

            Nenhum amor permanece da mesma maneira.

            Nenhuma cidade consegue impedir o tempo.

            Mas isso não significa que tudo seja perdido.

            Há coisas que desaparecem dos olhos e permanecem no coração.

            Miguel entendeu então que a solidão não era simplesmente estar sozinho.

            Era perder a capacidade de reconhecer os outros.

            Era atravessar uma praça cheia de pessoas sem encontrar ninguém.

            Era possuir milhares de contatos e não saber para quem telefonar quando a noite ficava difícil.

            Era ter tudo imediatamente e não possuir ninguém com quem esperar.

            A estrada parecia interminável.

            Miguel continuou caminhando.

            Lembrou-se de Seu Anselmo.

            Do pai de Helena.

            Dos trilhos.

            De sua mãe.

            Da padaria.

            Das fotografias.

            De tudo aquilo que parecia pequeno demais para o mundo moderno, mas grande demais para desaparecer.

            Pensou que talvez o progresso não fosse o inimigo.

            O problema era acreditar que progresso significava abandonar tudo aquilo que nos tornava humanos.

            A tecnologia poderia aproximar distâncias.

            Mas não poderia abraçar ninguém.

            Uma mensagem poderia atravessar continentes em segundos.

            Mas não poderia substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.

            Uma fotografia poderia guardar um rosto.

            Mas não poderia devolver uma voz.

            Um relógio poderia marcar as horas.

            Mas não poderia dizer o que fazer com elas.

            Miguel parou.

            Olhou para trás.

            A cidade estava iluminada ao longe.

            As casas pareciam pequenas estrelas espalhadas sobre a terra.

            Havia carros passando.

            Algumas janelas estavam acesas.

            Talvez alguém estivesse trabalhando.

            Talvez alguém estivesse chorando.

            Talvez alguém estivesse esperando.

            Ele percebeu que, apesar de toda a modernidade, ainda existiam pessoas desejando aquilo que sempre desejaram.

            Ser lembradas.

            Ser escutadas.

            Ser amadas.

            Ser necessárias.

            A estrada deserta não era realmente deserta.

            Estava cheia de ausências.

            Cada árvore guardava uma história.

            Cada curva escondia uma lembrança.

            Cada pedra parecia ter sido pisada por alguém.

            A solidão, pensou Miguel, não nasce apenas quando alguém vai embora.

            Às vezes ela nasce quando deixamos de olhar para aquilo que ficou.

            Na manhã seguinte, ele acordou cedo.

            Não abriu o computador.

            Não pegou imediatamente o telefone.

            Foi até a casa da mãe.

            Bateram café juntos.

            Depois caminharam até a praça.

            Encontraram Helena.

            Dona Nair apareceu com pão quente.

            Joaquim chegou mais tarde.

            Ninguém havia combinado.

            Era assim que antigamente as coisas aconteciam.

            As pessoas simplesmente apareciam.

            E talvez fosse essa a maior diferença entre aquele tempo e o presente.

            Hoje tudo precisava ser marcado.

            Agendado.

            Confirmado.

            Compartilhado.

            Antigamente, algumas coisas simplesmente aconteciam.

            E, quando aconteciam, ninguém precisava fotografar.

            Bastava viver.

            Ao meio-dia, Miguel voltou para casa pela mesma rua de sempre.

            Mas alguma coisa havia mudado.

            Não na cidade.

            Nele.

            A estrada continuava deserta.

            A estação continuava abandonada.

            Os relógios continuavam marcando horas diferentes.

            As casas continuavam envelhecendo.

            As pessoas continuavam partindo.

            Nada havia sido consertado.

            E talvez essa fosse a verdade mais difícil de aceitar.

            A vida não conserta tudo.

            Algumas coisas permanecem quebradas.

            Algumas ausências nunca deixam de doer.

            Algumas estradas não conduzem a lugar algum.

            Mas mesmo uma estrada sem destino pode ensinar alguém a caminhar.

            E talvez o sentido da vida não esteja em chegar.

            Talvez esteja em não atravessar o caminho completamente sozinho.

            Naquela noite, Miguel desligou o telefone.

            Abriu a janela.

            Ouviu o vento.

            Por alguns minutos, não fez nada.

            Apenas escutou.

            A cidade estava silenciosa.

            Muito longe, um cachorro latiu.

            Uma motocicleta passou.

            Uma porta se fechou.

            Depois, novamente, o silêncio.

            Miguel sorriu.

            Não porque tivesse encontrado uma resposta.

            Mas porque finalmente compreendera que talvez não precisasse de uma.

            O coração também possui suas estradas.

            Algumas são iluminadas.

            Outras desaparecem na escuridão.

            Há caminhos que seguimos por amor.

            Outros por medo.

            Alguns por necessidade.

            E existem aqueles que percorremos simplesmente porque não sabemos para onde ir.

            A estrada deserta continuaria ali.

            Esperando os passos daqueles que ainda tivessem coragem de caminhar sem pressa.

            Talvez um dia alguém encontrasse uma velha placa caída no mato.

            Nela estaria escrito apenas:

ESTRADA DESERTA DO CORAÇÃO.

            E talvez essa pessoa sorrisse.

            Porque descobriria que toda cidade possui uma estrada assim.

            Um lugar onde o passado não morreu completamente.

            Onde as vozes dos antigos ainda atravessam o vento.

            Onde a infância continua escondida atrás de uma árvore.

            Onde um trem inexistente ainda parece chegar nas tardes de domingo.

            Onde o cheiro de café lembra uma casa que já não existe.

            Onde uma fotografia antiga consegue fazer alguém chorar.

            E onde a solidão, por alguns instantes, deixa de ser ausência e transforma-se em memória.

            Porque talvez seja isso que nos resta quando o mundo corre depressa demais: Parar.

Olhar.

Lembrar.            

E reconhecer que, apesar de todos os caminhos modernos, ainda precisamos uns dos outros para atravessar a estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato

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One thought on “A estrada deserta do coração

  1. “Dar corda para uma lembrança…”Feche o seu dia com o emocionante conto “A estrada deserta do coração”, de Clayton Alexandre Zocarato. Uma narrativa sensível sobre o tempo, a memória e tudo o que a pressa da vida moderna tenta silenciar.👉 Leia aqui: https://jornalrol.com.br/?p=84401

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