Fidel Fernando
‘Inclusão ou exclusão? O desafio das necessidades educativas especiais nas escolas angolanas’


às 11:32 AM
Nos últimos anos, a inclusão escolar tornou-se um lema nas instituições de ensino, tanto públicas quanto privadas. Contudo, a realidade em muitas dessas escolas apresenta um paradoxo inquietante: ao tentar incluir todos os alunos, as escolas, na verdade, acabam por excluir uma parte significativa deles, especialmente aqueles com Necessidades Educativas Especiais (NEE).
Imagine uma sala de aula onde um professor, entusiasmado, tenta explicar um conceito normativo da língua. Enquanto alguns alunos absorvem a informação rapidamente, outros permanecem perdidos, sem compreender o que está a ser ensinado.
Esse cenário não é apenas comum, mas também revelador de um sistema que falha em reconhecer e atender às especificidades de cada aluno. A inclusão, quando mal implementada, transforma-se em uma exclusão disfarçada, onde as diferenças individuais são ignoradas em nome de uma suposta igualdade.
É válido lembrar que as NEE abrangem uma vasta gama de condições e cada aluno possui seu próprio ritmo de aprendizado. A psicóloga Bryna Siegel, uma autoridade mundial na abordagem sobre o autismo, afirma que “as crianças neurodiversas têm, sim, o direito de aprender aquilo que dão conta e aquilo de que precisam”. Portanto, a pergunta que se impõe é: como as escolas podem garantir que todos os alunos, independentemente de suas necessidades, sejam realmente incluídos no processo educativo?
A resposta a essa questão reside na formação adequada dos educadores. É imprescindível que os professores recebam capacitação específica sobre NEE antes de se lançarem na tarefa desafiadora de ensinar uma turma diversificada. Assim, seminários dedicados a essa temática podem oferecer as ferramentas necessárias para que os educadores compreendam as diferentes formas de aprendizado dos alunos e adaptem suas abordagens. Essa capacitação não apenas beneficiaria os alunos com NEE, mas também enriqueceria o ambiente escolar, promovendo um ensino mais dinâmico e inclusivo para todos.
Uma estratégia prática pode ser encontrada na abordagem diferenciada, utilizada em algumas escolas inclusivas de facto que, em vez de aplicar o mesmo método para todos, implementam actividades lectivas e avaliativas diversificadas. Deste modo, aluno A pode trabalhar com materiais visuais, enquanto aluno B pode se beneficiar de uma abordagem mais auditiva. Essa personalização do ensino é fundamental, pois reconhece que o aprendizado, ainda que com pessoas gêmeas, não é um processo linear e cada aluno possui suas próprias habilidades, desafios e momento para aprender.
É essencial que a educação, particularmente em algumas escolas de Angola, não se limite a um mero cumprimento de normas inclusivas, mas que se transforme num espaço onde todos os alunos possam realmente aprender e prosperar. Em vez de rotular um aluno como “lento” por não compreender de imediato um conceito, devemos entender que cada um tem seu próprio tempo e modo de aprender. Nessa perspectiva, a educação deve ser um direito inalienável, respeitando as individualidades e proporcionando oportunidades de aprendizado que atendam às necessidades de cada aluno.
Portanto, o caminho para uma verdadeira inclusão em algumas escolas angolanas passa pela capacitação contínua dos educadores nesse domínio e pela adopção de práticas pedagógicas que reconheçam e celebrem a diversidade. Somente assim, poderemos garantir que a inclusão não seja uma mera palavra de ordem, mas uma realidade que beneficie todos os alunos, promovendo um ambiente escolar mais justo e equitativo.
Fidel Fernando
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Fidel Fernando reside em Luanda (Angola).
Academicamente, é licenciado em Ciências da Educação, no curso de Ensino da Língua Portuguesa, pelo Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED/Luanda), onde concluiu sua formação em 2018. Antes disso, obteve o título de técnico médio em educação, na especialidade de Língua Portuguesa, pelo Instituto Médio Normal de Educação Marista (IMNE-Marista/Luanda), em 2013. Profissionalmente, atua como professor de Língua Portuguesa, dedicando-se à formação e ao desenvolvimento de habilidades múltiplas nos seus educandos. Além das suas funções docentes, exerce a atividade de consultor linguístico e revisor de texto, contribuindo para a clareza e precisão na comunicação escrita em diversos contextos. Tornou-se colunista do Jornal Pungo a Ndongo, onde compartilha semanalmente sua visão sobre temas atuais ligados à educação e à língua.