Marta Oliveri: Conto ‘Entre cinzas’


às 14:37 PM
Quando o pássaro de fogo abriu suas asas, involuntariamente deixou para trás um pequeno monte de cinzas. Talvez fossem aquelas memórias desnecessárias deixadas pelo infortúnio de perecer. Assim conta o mito da Fênix. A ave que renasce continuamente das cinzas e morre novamente.
O fato é que, quando o grande pássaro da ressurreição alçou voo naquela manhã, como um sopro errante, ela nasceu: uma pequena mulher de cinzas que se elevou acima da tristeza daqueles restos, cinzenta e melancólica. Sem saber o motivo de seu estranho nascimento. Talvez uma mutação de algo que aconteceu fora dos limites aceitáveis do mito? Ela nasceu, sim, além da esperança, além da odisseia do ser, do voo, do fogo e da estatura.
Assim ela foi formada. E quando tocou seu coração, soube que era feito de sombras. Então sua tristeza aumentou. Que estranha perversidade do deus que habita o Olimpo? Por que ele a criou? Com que propósito? O que ela tinha que fazer no mundo? Ela se levantou daquele lugar e começou a caminhar. À sua frente, estendia-se um caminho de pedras, um lugar acidentado e rochoso onde corriam as águas de um rio cristalino. E lá ela podia se ver claramente: era magra como um junco, bela como a névoa, triste como o próprio desamparo. Era ela: a sensação do que lhe era negado. A lembrança do sacrifício, aquele sacrifício necessário que supostamente anuncia a ressurreição. Uma mulher de cinzas.
Mas há quanto tempo ela ouvia o crepitar do fogo? Lembrava-se dos gemidos do pássaro em chamas e, em seguida, do amanhecer de asas abandonando o corpo. Ocasionalmente, uma criança indesejada escapa dos milagres, alguém que vem nos dizer o que devemos esquecer: a tortura de morrer e nascer todos os dias, o tormento de ser majestosamente livre e pagar por isso com a pira da culpa eterna. Assim é o mito da Fênix.
Portanto, quando aconteceu de forma tão estranha, contrária a toda a lógica, a pequena mulher de cinzas devia ter algum motivo oculto para justificar a origem de sua criação. Por isso, decidiu cuidar de seu coração de sombras e fugir daquele lugar antes que o pássaro retornasse para se juntar a ela com o restante de suas cinzas próximas. Antes de morrer, precisava compreender o significado de sua origem.
Caminhando entre as pedras. Leve e fugaz, seu corpo efêmero não sentia a aspereza da terra, nem as pontas afiadas das rochas. O que a pesava era seu coração de sombras, e então partiu em busca do significado de sua origem, aquele mal-entendido que se revelara em meio a tantas fábulas com moral brilhante. Aquela pequena mulher de cinzas era apenas uma pária dos mitos.
Então, continuou sua jornada, para compreender: logo o sol se moveu lentamente do zênite ao nadir, enquanto ela caminhava sem parar, aparentemente sem rumo, para onde quer que seu coração de sombras a dirigisse. Finalmente, a noite caiu, repleta de estrelas como o manto de um grande imperador que governava os céus.
Então a pequena mulher de cinzas percebeu que algo dentro dela começava a pulsar; na verdade, não era uma batida, mas várias; era seu coração que crescia e se multiplicava até explodir para fora do peito. E a mulher de cinzas pôde ver outros corações nascerem dele, subindo e ascendendo em direção ao céu como nuvens que embaçam seu brilho.
Um leque de constelações sombrias então se abriu, e para cada uma desenhada acima, crescia uma lembrança há muito abandonada: a tristeza dos vencidos, a odisseia eclipsada pelo crime, a bondade crucificada na cruz dos traidores.
O magnífico céu estrelado gradualmente se tornara um coro de lembranças; os abismos celestiais cresciam, além de toda possibilidade real ou mítica. Uma obscura rebelião contra a placidez de tudo o que se podia imaginar fizera nascer a audácia da memória, a dura trama do reverso das coisas, o sentido legítimo de uma história eternamente silenciada pelo feitiço da vaidade humana.
Marta Oliveri
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Natural de Buenos Aires, é escritora, poetisa, romancista, docente e ensaísta argentina, com destaque na literatura argentina contemporânea. Neta do poeta húngaro Vèr Andor, abordou o problema de seu tempo a partir de uma postura poética e existencial. Sua busca por escrita representa a realidade completa de uma geração sobrevivente, sendo reconhecida por seu compromisso com os direitos humanos. Publicou mais de 20 livros, incluindo poesia, novela e ensaio. Na poesia, destaca ‘Antologia do Desamparo’, que reúne nove coletâneas de poemas e reflete a busca poética ao longo dos anos. Na ficção, o romance ‘O Homem no Copo d’Água’ é uma de suas obras mais notáveis e pessoais. E nos ensaios, ‘A Outra Visão’ é uma obra que lhe permite refletir sobre temas pelos quais é apaixonada. Esses três livros, embora de épocas diferentes, são, sob a ótica de Marta Oliveri, os que melhor a refletem como escritora, representando a completa realidade de uma geração sobrevivente, e, com isso, ensejando-lhe elogios por intelectuais como Leonardo Senkman. Por sua expressiva carreira literária, foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura em diversas ocasiões, pela Sociedad Argentina de Periodismo Médico (SAPEM) e a Asociación Latinoamericana de Poetas (ASOLAPO).


La eterna transformación que impidee la desaparición del Ave flamigera en esa mujer de ceniza que resurge eternamente desafiando la melancolía y el olvido, grabada en la memoria para que la esperanza vuelva a todos en esta leyenda maravillosamente escrita por Martha
Tus ensayos luminosos
Gracias poeta!
eterna transformación que impidee la desaparición del Ave flamigera en esa mujer de ceniza que resurge eternamente desafiando la melancolía y el olvido, grabada en la memoria para que la esperanza vuelva a todos en esta leyenda maravillosamente escrita por Martha
Nuevamente agradecida
Siempre la poesía asoma, brota de las palabras de Oliveri, tan bella com trágicamente. Gracias!
Gracias Maestro!
Maravilhoso y profundo.
Felicitaciones.
Maravilloso y profundo.
Felicitaciones.
La memoria, siempre la memoria.
Muy agradecida por tu apreciación!
“La tristeza de los vencidos, la odisea eclipsada por el crimen, la bondad crusificada en la cruz de los traidores, de una historia silenciada por la vanidad humana” Estas palabras simplifican todo lo que nos sigue sucediendo durante la evolucion de la especie humana.