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Fome nas literaturas

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Renata Barcellos: ‘Fome nas literaturas’

Renata Barcellos
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Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/6a1e0462-aa80-83e9-ab6c-adb7599537af
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A fome é um tema profundo e multifacetado nas literaturas. Trata-se não apenas uma metáfora, mas também uma denúncia social e reflexão sobre a desigualdade. No que tange o marco legal brasileiro de combate à fome, é estruturado por uma rede de leis e programas que garantem a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), visando ao acesso regular a alimentos de qualidade para toda a população.

As principais legislações e políticas públicas estruturantes incluem:

1. Leis e Direitos Fundamentais

• Emenda Constitucional nº 64/2010: alimentação como um direito social fundamental no art. 6º da Constituição Federal, impondo ao Estado a responsabilidade de garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA).

• Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN – Lei nº 11.346/2006): base legal que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN). Define princípios e diretrizes para que o poder público, em conjunto com a sociedade civil, formule políticas voltadas à erradicação da fome.

• Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos (Lei nº 15.224/2025): sancionada para incentivar a doação de alimentos, permite que bens próprios para consumo sejam direcionados a bancos de alimentos ou diretamente a beneficiários, reduzindo o desperdício e fortalecendo a rede de assistência.

A seguir, destacamos os principais escritores que abordaram o assunto.

A obra “Fome”, de Knut Hamsun, é um marco na história das Literaturas Mundiais. Publicado em 1890, o romance rompe com o Realismo e o Naturalismo do século XIX para inaugurar a estética moderna – aquela que mergulha na mente humana em colapso. Nesta obra, é narrada a história de um jovem escritor anônimo vagando pelas ruas de Christiania (atual Oslo), dividido entre o orgulho e a miséria. Mais do que um estado físico, a fome torna-se metáfora existencial da crise do homem moderno.
Literaturas Brasileiras.

– “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, narra o meio insalubre do cortiço. O narrador descreve os esfomeados com um apetite voraz e irracional. A fome os transforma, anulando qualquer racionalidade e destacando apenas os instintos mais primitivos. Esta é não apenas uma necessidade biológica, mas também uma força motriz do Naturalismo. Uma das consequências diretas da exclusão social e da desigualdade retratadas no Brasil do século XIX. Ela reduz os moradores (sobretudo os mais marginalizados) a uma condição animalesca na luta pela sobrevivência.

– “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, publicado em 1902, não aborda a fome como um elemento isolado, mas como parte de uma engrenagem trágica. A escassez extrema aparece na obra de quatro formas principais: como calamidade cíclica, penitência religiosa, consequência ambiental e, sobretudo, como arma de guerra e epidemia sofrida pelas tropas e pelos sertanejos. Ao narrar a violenta e exaustiva repressão sofrida pelo bando de Antônio Conselheiro, o autor narra também a formação do homem sertanejo. Assim, constituindo uma denúncia dos crimes cometidos.


– “A bagaceira”, de José Américo de Almeida, publicada em 1928,. O livro começa pela seca de 1898 e termina com a de 1915. Tem o enredo pautado pelo triângulo amoroso entre Soledade, retirante que chega à fazenda de Dagoberto Marçau, o senhor de engenho viúvo que inicia um caso com ela. E seu filho Lúcio (idealista) mantém uma paixão não platônica por esta moça. Trata-se não só de um romance da seca por trazer os retirantes aos engenhos de cana mas também um que aborda os problemas sociais dos engenhos, na Zona da Mata. Uma das frases mais célebres do livro é sobre a fome que assola a população regional: “Há uma miséria maior do que morrer de fome num deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã”.

– “O Quinze” é um romance da escritora brasileira Rachel de Queiroz, publicado em 1930. A história se passa no sertão nordestino do Brasil durante a seca de 1915, uma das mais devastadoras da região. A fome é um tema central no livro, pois a seca trouxe consigo a escassez de água, de alimentos e a miséria para a população local. A fome é representada como uma força avassaladora que afeta profundamente a vida das pessoas e as leva a fazer escolhas difíceis para garantir sua sobrevivência.

– “Menino de Engenho” é um romance de José Lins do Rego, publicado em 1932, faz parte do ciclo da cana-de-açúcar do autor. A obra é uma narrativa semiautobiográfica que descreve a infância e a adolescência do protagonista, Carlos, em um engenho de açúcar no nordeste brasileiro. Embora o foco principal do livro seja a vida no engenho e as relações familiares, a questão da fome também é um elemento importante na história.

– “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, publicado em 1937. O livro retrata a vida de um grupo de crianças e adolescentes desabrigados que vivem nas ruas de Salvador, na Bahia. A fome é um tema central na obra, pois as crianças enfrentam condições de vida precárias e frequentemente passam fome. Esta é uma constante em suas vidas, e a necessidade de encontrar comida é uma das principais motivações por trás de suas ações.

– “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, publicado em 1938. A obra é um retrato da vida de uma família de retirantes nordestinos que luta para sobreviver em meio à seca e à pobreza. A fome é um tema central e recorrente no livro. Graciliano Ramos descreve de forma vívida a angústia e o sofrimento da família diante da falta de comida.

– “Quarto de Despejos: Diário de uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960. Trata-se de um relato autobiográfico das experiências de vida da escritora como uma mulher pobre (catadora de papel) e mãe solteira no Brasil, moradora da favela do Canindé, em São Paulo. A autora destaca as desigualdades sociais, a desigualdade de gênero e a falta de direitos humanos que afetam milhares de brasileiros.

– “Olhos d’Água” é uma coletânea de contos da escritora brasileira Conceição Evaristo, publicada em 2014. Os contos componentes desta obra abordam várias questões relacionadas à vida de mulheres negras nas favelas e periferias do Brasil, como a fome e a pobreza.

– “Torto Arado” é um romance do escritor brasileiro Itamar Vieira Junior, publicado em 2018. O livro narra a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, que vivem em uma comunidade rural, no interior da Bahia, e explora temas de desigualdade, opressão, exploração e, em alguns trechos, a fome.

A partir das obras selecionadas acima, verificamos como a fome é um tema recorrente nas Literaturas brasileiras. Muitos escritores explora(ra)m este assunto em suas obras. Além de ser uma realidade social no Brasil, a temática é também usada simbolicamente para representar a miséria, a desigualdade e a luta pela sobrevivência. Assim, constatamos como as literaturas têm desempenhado um papel crucial na representação das questões sociais no Brasil, incluindo a desigualdade e a pobreza. Ela serve tanto como um problema a ser combatido quanto um símbolo de desigualdade e injustiça social.


Renata Barcellos

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