Renata Barcellos: ‘Você conhece o Cacuriá?
Vamos cacuriar?


Você conhece o Cacuriá? Eu só conhecI há quinze dias em uma festa junina organizada pelo amigo Uilmar Junior, no condomínio onde mora, em São Luís. Lá, após apresentação musical e de degustar deliciosas guloseimas (arroz de cuxá, torta de camarão…), assistmos (eu e Campos) à apresentação do Cacuriá de Dona Cecília, do bairro da Vila Palmeira (@cacuria_de_cecilia). Este foi fundado em 1991 por Dona Cecília, ex-caixeira de Seu Lauro, em Vila Palmeira, São Luís (MA).
Surgimento: Cacuriá surgiu a partir do Carimbó das caixeiras, relacionado às festas do Divino Espírito Santo. Traz memória, ancestralidade, música, corpo e comunidade. É uma dança folclórica maranhense criada na década de 1970 como a parte festiva após as celebrações da Festa do Divino Espírito Santo. Popularizada por figuras como Dona Tetê, a dança se tornou atração principal das Festas Juninas do estado.
Criador: De acordo com a jornalista maranhense Inara Rodrigues, escritora do livro “Vem cá curiar o cacuriá!”, a dança foi criada em 1973, na capital, por Alauriano Campos de Almeida, folclorista conhecido como “Seu Lauro”. Outros já dizem que foi por Dona Filoca e Seu Lauro, em 1975, na cidade de Guimarães, e, posteriormente, levado para a capital, São Luís.
Coreografia: Os pares brincantes dançam em roda (chamada de cordão). . Caracteriza-se pelo ritmo contagiante, passos marcados em pares (conhecidos como “umbigadas”)., coreografias sensuais, rebolados e com movimentos sensuais, A dança é marcada pelo som das caixas do Divino (pequenos tambores)., banjo, violão e flauta, com letras conhecidas (disponíveis em https://www.letras.mus.br/cacuria-de-dona-tete/).
Dona Teté do Cacuriá: nascida Almerice da Silva Santos em São Luís (MA), em 1924, foi cantora, compositora e percussionista essencial para a cultura popular maranhense. Iniciou sua carreira artística aos 50 anos, destacando-se nas festas dedicadas ao Divino Espírito Santo.
No site da Fundação Cultural Palmares, consta o Cacuriá de Dona Teté.
“nascida Almerice da Silva Santos em São Luís (MA), em 1924, foi cantora, compositora e percussionista essencial para a cultura popular maranhense. Iniciou sua carreira artística aos 50 anos, destacando-se nas festas dedicadas ao Divino Espírito Santo. Em 1986, fundou o grupo Cacuriá de Dona Teté, reinventando o ritmo tradicional com percussões vibrantes e coreografias inovadoras, levando-o do Maranhão a outros estados. Reverenciada como dama da cultura popular, inspirou gerações e garantiu a preservação e renovação da tradição afro-cabocla até seu falecimento, em 2011”.
Período: geralmente, é praticada durante as festas juninas e o encerramento das festividades do Divino Espírito Santo.
Reconhecimento: considerada Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Maranhão.
Curiosidade: o termo também pode ser usado popularmente por algumas pessoas no Norte e Nordeste com o sentido de “curiar” ou “espiar” — ou seja, olhar algo de longe ou bisbilhotar.
Música: As letras costumam ter duplo sentido e são acompanhadas por um refrão animado. Este são são curtos, repetições e muito ritmo. As músicas tradicionais, imortalizadas por grupos como o Cacuriá de Dona Teté, celebram a cultura, a natureza e os costumes locais como este a seguir:
Festa do Divino
“Fui na festa do Divino
Me convidaram pra entrar
E veio dançando o carimbó
E cantando o cacuriá(2x)”
Grupos: Os principais grupos existentes em São Luís e na Região Metropolitana são:
Cacuriá de Dona Teté: o mais tradicional e famoso do estado. Criado a partir do legado de Almerice da Silva Santos (Dona Teté), é a maior referência da cultura popular e arrasta multidões nos arraiais.
Cacuriá do Candinho: um dos maiores grupos da região, com sede na Região Metropolitana (em Paço do Lumiar), conhecido por apresentações enérgicas e grande sucesso nas redes sociais.
Cacuriá Assa Cana: sediado no tradicional Quilombo da Liberdade, em São Luís, este grupo é um importante Ponto de Cultura e difusor das toadas e tradições maranhenses. Instagram: @cacuria.assacana
Nas Literaturas: as literaturas literárias ou não sobre o Cacuriá focam no resgate histórico, na antropologia da performance e na preservação desta manifestação cultural através de livros e artigos acadêmicos:
“Vem cá curiar o cacuriá!” (2015): escrito pela jornalista maranhense Inara Rodrigues, este livro-reportagem detalha a origem da dança e foi vencedor do Prêmio João Lisboa de Jornalismo Literário. A obra desmistifica algumas narrativas, registrando que a dança foi criada em 1973 na capital por Alauriano Campos de Almeida, conhecido como “Seu Lauro”.
Registros Antropológicos: autores e pesquisadores como Luciana Hartmann (autora da obra “Cacuriá – dinâmicas de uma tradição dançada”- fruto de estudo sobre o grupo “Cacuriá Filha Herdeira”) e Inara Rodrigues (autora do livro “Vem cá curiar o cacuriá!”) documentam a tradição, sua origem com o “Seu Lauro” em 1973 e sua popularização por Almerice da Silva, a Dona Teté.
Academias e Ensino (Anais da Anpuh e Monografias UFMA): trabalhos acadêmicos, como os “Anais do Simpósio Nacional de História” da Anpuh, exploram o uso de “cantigas de caixeiras” em sala de aula, demonstrando o valor pedagógico do Cacuriá na educação infantil e o seu papel como patrimônio cultural imaterial.
Assim, a dança costuma ser abordada não só em pesquisas literárias e acadêmicas como também em obras de ficção voltadas para as literaturas infanto-juvenil. Alguns exemplos:
Fábio Sombra: reconhecido escritor e membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ele aborda a dança e o contexto das festas juninas na obra “Cacuriá – A Música e a Criança”.
Gabriel Ben: na obra infanto-juvenil “Dora, uma menina nordestina”, o autor utiliza o sonho da protagonista para resgatar memórias regionais, incluindo menções explícitas ao ritmo e à dança criada por Dona Teté.
Renata Barcellos
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Natural do Rio de Janeiro (RJ), é pós-doutora em Língua Portuguesa e em Literatura Brasileira pela UFRJ e professora da Educação Básica à Superior. É membro de diversos sodalícios: APALA, ALAP, AJEB RJ, SCLB MA, AMT, AOL, ABRASCI, ABRAMIL, Pen Clube; membro correspondente do Instituto Geográfico de Maranhão, da Academia Maranhense de Letras e da Academia Vianense de Letras. Membro dos grupos de pesquisa GELMA e do Formas e Poética do Contemporâneo – ForPOC (CNPq/ UFMA/ CCEL). Fundadora do Barcellartes. Escreve matérias e entrevistas para o saite Facetubes, para o Jornal Terra da Gente e A voz do Escriba e para revistas como 7 Literário News, LiterArte SP, Revista Sarau e Voo livre.

