Marli Freitas: ‘Não há nada além do amor’


Ele, uma metade perdida
Sem nenhuma suspeita.
Aflitivo, em devaneios,
Cultiva nos livros o melhor abrigo.
Então, o universo indica o caminho,
E ela surge com a beleza de vários sóis.
Ele se enamorou por uma fábula
Disfarçada no mundo real.
Era notável fazer parte da construção,
De cada linha, de uma história
Que sempre vinha embalada de sonhos,
Permeada de simplicidade e espontaneidade.
Ela exalava um cheiro de flor
E olhava a vida com poesia.
Via na dor um mundo de possibilidades,
E na alegria muita magia.
Aos poucos, ele se aventurou no logro,
Arriscou a linguagem das flores,
Algumas palavras sussurradas,
Enfim, chegando a lindos versos.
Um dia, era Fernando Pessoa
Que chamava o tom
E ela respondia encantada,
Pois, palavras eram a sua perdição.
No outro, era Drummond
Que dava graça ao cotidiano
Na simplicidade de viver e levavam
A vida com amor e bom humor.
Assim, foram se tornando
Prisioneiros dos pensamentos,
Prisioneiros das palavras,
Prisioneiros do amor.
Pensaram em desistir algumas vezes,
Mas sempre retornavam.
Enquanto isto, o sangue circulava
Cada dia mais desordenado e aflito.
Quando viram, já haviam se embrenhado
Nos versos de Caio Fernando de Abreu
E revelado o que escondia
As suas necessidades existenciais.
E o relógio enlouqueceu,
Enlouquecendo as horas, os minutos,
Os segundos e transcendeu
O tempo sem nenhum pudor.
E vieram frases soltas
Provocando atos falhos,
Denunciando um amor infinito,
Às vezes eufórico, às vezes doído…
Vieram versos, como:
É sua vida, a minha própria vida,
Trago em mim sua alma adormecida.
E tudo que se via era puro amor!
Nada era real, apenas virtual.
Às vezes, vinham suspiros sofridos
De suas almas, que procuravam
Abrigo na ternura do ser amado.
Mas só encontravam alento na poesia,
Que era capaz de transmutar a dor
E levá-los de volta às suas essências,
Onde as palavras bailavam enlouquecidas.
Ele tinha várias suspeitas sobre ela:
Será um anjo e não sabe disto?
Será uma acendedora de estrelas
Ou a própria lua perdida no céu?
Ela delira em versos:
E com a respiração ofegante,
Vai de encontro ao seu amado e o toca,
Lentamente, na tentativa de parar o tempo.
E diz, vem anjo, vem meu encanto,
Que noite bela!
Entre os suspiros do vento,
Procura o frescor dos seus lábios.
Ele sonha com sorrisos sem porquês,
E eu o amo inesperado.
Ela acolhe sua alma
Com doçuras e juras de amor.
Ele, você causa sentimentos
Até então desconhecidos.
Um dia acordei e vi seu rosto
Refletido no espelho e isto é perturbador.
Ela, eu o amo, meu amor eterno!
Nenhuma ausência irá nos separar!
Ele, pense ou não pense,
Vivo à sua espera, morro à sua espera.
Marli Freitas
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Natural de Dom Cavati (MG) é professora, historiadora, escritora e poeta. Cursou História e Geografia e lecionou durante 29 anos. A literatura sempre fez parte de sua vida através das histórias narradas de forma teatral por seu pai. Quando aprendeu a ler passava horas lendo na Biblioteca Municipal e tinha um gosto especial pelas obras dos irmãos Grimm. Durante a vida escolar foi se encantando por vários autores, com apreço especial pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, entre outros. É autora de cinco livros, dentre os quais: Entre a Terra e o Céu – Estou Feliz, Estou Passarinho; Entre o Balanço e o Voo – O Vento Amou As Asas Recém-nascidas; Entre o Elo e a Auxese – Teus São Os Olhos Meus. Condecorada com várias comendas, dentre as quais: Ruy Barbosa; Princesa Isabel; Ludwig van Beethoven; Fiódor Dostoiévski; William Shakespeare e Mérito Científico Galileu Galilei. Membro de várias academias, dentre as quais: Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes; Académie des Lettres et Arts Luso-Suisse; Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Portugal

