Ella Dominici
“Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
– Eu, mulher — consciência que resiste à violência invisível‘


Eu não fui ensinada a desaparecer, mas fui conduzida a isso, como quem aprende a reduzir a própria presença para não perturbar a ordem estabelecida.
Não é uma violência que se anuncia é um deslocamento contínuo, onde a palavra que penso encontra escuta apenas para ser esvaziada.
Há uma agressão que não deixa marcas visíveis, mas instala dúvida. Não se combate o que digo; desqualifica-se o tom, ridiculariza-se a intenção.
E assim, pouco a pouco, a mulher que pensa é levada a suspeitar de si mesma — não por falta de lucidez, mas porque sua lucidez desestabiliza.
Minha voz não é interrompida, é dissolvida. E, nesse gesto, tenta-se reposicionar-me: não como sujeito que interpreta, mas como presença que deve ajustar-se.
Nos espaços sociais, familiares, religiosos e profissionais, repete-se uma pedagogia silenciosa: posso falar, mas não deslocar. Quando ultrapasso esse limite invisível, não sou confrontada, sou excluída sem ruído.
Essa experiência não me paralisa, mas me atravessa. Continuo, produzo, existo, mas há uma dimensão silenciosa que sofre, não pela incapacidade de ser, mas pela dificuldade de ser reconhecida sem distorção.
E, ainda assim, há algo que não cede.
Não sou invisível. Não sou excesso. Não sou inadequada.
Sou.
E ao sustentar esse “sou”, mesmo sem eco, algo se inaugura.
E o que se inaugura não é apenas para mim.
É para todas.
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ela, em pleno século XXI ainda termos resquícios do infame patriarcado, atualmente entendido como uma dinâmica de poder que permeia toda a sociedade, privilegiando especialmente o homem branco, cisgênero e heterossexual.
Seu texto é um brado de amazona, feito as Trombetas de Jericó!