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Marimba Selutu

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Marimba Selutu
jornalismo cultural de Angola para o mundo

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Entrevista com o jornalista Fernando Guelengue,
CEO do portal Marimba Selutu, de Angola


Entrevista com o jornalista Fernando Guelengue, CEO do portal Marimba Selutu, de Angola
Fernando Guelengue
CEO do portal Marimba Selutu, de Angola

PERFIL

Nome completo: Fernando Guelengue

Data de nascimento: 20 de janeiro de 1987

Naturalidade: Nascido em Luanda, com raízes familiares na província do Cuanza Sul.

Formação: Jornalista, Psicólogo do Trabalho, especialista em Comportamento Humano, palestrante, mentor e investigador nas áreas da liderança, comunicação e cultura angolana.

Fernando Guelengue é jornalista, investigador e comunicador angolano, reconhecido pelo seu trabalho na documentação, promoção e valorização da cultura angolana. Iniciou a sua carreira no jornalismo em 2008, no jornal comunitário Ecos do Henda, no município do Cazenga, em Luanda, tendo posteriormente integrado a redacção do Semanário Agora e do Novo Jornal.

Ao longo do seu percurso especializou-se no jornalismo cultural, realizando reportagens, entrevistas e investigações sobre património, música, literatura, artes, tradições e identidade cultural de Angola.

Em 2017 fundou o Marimba Selutu, o primeiro portal angolano dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, tornando-se uma referência na cobertura de festivais, património cultural, políticas culturais e produção artística, com especial enfoque na preservação da memória colectiva e do património imaterial angolano.

No plano académico, é licenciado em Psicologia do Trabalho, com especialização em Comportamento Humano (Behaviorismo) realizada no Brasil, e frequenta o Mestrado em Administração e Direcção de Empresas. A sua formação multidisciplinar permitiu-lhe desenvolver investigações e programas nas áreas da comunicação, liderança, desenvolvimento humano, comportamento organizacional e cultura.

Fernando Guelengue, CEO do portal Marimba Selutu, de Angola
Fernando Guelengue
CEO do portal Marimba Selutu, de Angola

Paralelamente à actividade jornalística, dedica-se à produção literária, à investigação cultural, à formação de líderes e oradores e à documentação das manifestações culturais angolanas, procurando aproximar a investigação académica da prática jornalística e da valorização do património nacional.

A paixão pela cultura e pelo jornalismo moldaram a senda que Fernando Guelengue usou para caminhar desde 2017, quando criou o portal Marimba Selutu. Guelengue percebeu que faltava espaço no jornalismo angolano para o tratamento de assuntos referentes às atividades culturais de seu país, mas, também, de países lusófonos que dialogam com Angola.

Assim como o Jornal Cultural ROL cumpre o mesmo papel no Brasil e no mundo, o Marimba Selutu tem sido porta voz da produção cultural ampla, abarcando assuntos relacionados à arte, à cultura, à história e à identidade dos povos africanos, sobretudo angolanos.

Nesta entrevista, realizada por Carlos Carvalho Cavalheiro, o jornalista Fernando Guelengue discorre sobre sua trajetória, sobre sua visita ao Brasil e sobre a criação do portal Marimba Selutu.

Carlos Carvalho Cavalheiro – Você já esteve no Brasil, correto? Em que ocasião? Qual foi a sua impressão sobre o país?

Fernando Guelengue – Sim. Estive no Brasil em 2014, na cidade de São Paulo, por ocasião da 23ª Bienal Internacional do Livro, onde lancei, pela primeira vez, o meu livro Pobreza: O Epicentro da Exploração das Crianças em Angola – Entre a Escravização e a Polémica, publicado pela editora brasileira Biblioteca 24horas.

Foi uma experiência profundamente transformadora, tanto no plano literário como no plano humano. Toda a programação da viagem foi organizada pela editora e permitiu-me viver intensamente aquele que considero um dos maiores eventos culturais da América Latina. Mais do que lançar um livro, tive a oportunidade de observar um ecossistema cultural extremamente organizado, onde escritores, pesquisadores, promotores culturais, professores e leitores dialogavam permanentemente sobre literatura, educação, cidadania e produção do conhecimento.

Durante a minha permanência participei igualmente em palestras, oficinas e formações ligadas à editoração, comunicação e à apresentação em público. Essas experiências influenciaram diretamente a minha atividade profissional em Angola e serviram de base para a criação, alguns anos mais tarde, do Programa OAP – Oratória e Apresentação Poderosa, um método próprio de formação em comunicação de alta performance, actualmente utilizado para as empresas, universidades e instituições públicas.

O Brasil deixou-me a convicção de que investir na cultura e no livro é investir no desenvolvimento de uma nação.

CCC – Você percebeu muitas diferenças culturais entre o Brasil e Angola? Se sim, quais?

FG – Apesar das diferenças históricas e sociais, encontrei muito mais pontos de aproximação do que de distanciamento entre Angola e o Brasil.

Partilhamos a língua portuguesa, fortes matrizes africanas, tradições musicais, religiosas e populares que dialogam constantemente entre si. Há inúmeros estudos históricos que demonstram que milhões de brasileiros descendem de povos oriundos do território que hoje constitui Angola, especialmente das regiões do antigo Reino do Congo e das áreas habitadas pelos povos Ambundu, Ovimbundu e Tchokwé.

Naturalmente, cada país construiu o seu próprio percurso histórico. O Brasil viveu e tem enfrentado processos políticos, econômicos e culturais diferentes dos de Angola, o que influenciou a forma como cada sociedade organiza a sua produção cultural e valoriza os seus diferentes patrimônios.

O que mais me chamou a atenção foi a dimensão da economia criativa brasileira, visto que notei uma forte articulação entre universidades, editoras, produtores culturais, museus, feiras e políticas públicas voltadas para o livro e para a cultura. Essa integração ainda constitui um grande desafio para o meu país, embora se observe um caminho evolutivo básico nos últimos anos.

CCC – Discorra sobre a sua produção literária: quando começou a escrever? Qual foi o primeiro livro publicado? Quantos livros você já publicou? Quais os temas abordados em seus livros?

FG – Escrevo desde muito jovem, mas comecei a desenvolver projetos literários de forma sistemática por volta de 2009, numa fase em que já conciliava o jornalismo com a investigação social. O exercício diário da profissão de jornalista levou-me a contatar diretamente com problemas ligados à pobreza, infância, cultura, liderança, desenvolvimento humano e cidadania.

Esses temas passaram naturalmente a fazer parte dos meus manuscritos. Publicar, porém, revelou-se muito mais difícil do que escrever. Durante muitos anos, a inexistência de políticas consistentes de incentivo ao livro em Angola e os elevados custos editoriais impediram-me de publicar boa parte daquilo que produzia. Foi então que procurei alternativas no Brasil, inspirado pelo percurso do escritor angolano Ribeiro Tenguna, que já editava nesse país.

Assim nasceu o meu primeiro livro, Pobreza: O Epicentro da Exploração das Crianças em Angola – Entre a Escravização e a Polémica, lançado oficialmente em 2014, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Ao longo dos anos escrevi mais de quarenta manuscritos, dedicados sobretudo às áreas da liderança, oratória, desenvolvimento humano, psicologia, comportamento organizacional, política, cultura, identidade africana e história de Angola. Muitos ainda permanecem inéditos.

A minha trajetória literária também conheceu momentos difíceis. Um dos episódios mais marcantes ocorreu quando procurei o prefácio para um dos meus livros e fui desencorajado a publicá-lo, sob o argumento de que a obra poderia colocar a minha própria segurança em risco. Essa situação levou-me a interromper alguns projetos durante vários anos.

Em 2023 decidi transformar essa limitação numa oportunidade, criando a minha própria editora, através da qual passamos a publicar novos autores e a construir condições para editar igualmente as minhas obras. Já em 2024 enfrentamos outro desafio inesperado: a perda de funcionamento do disco rígido onde estavam armazenados dezenas de manuscritos e anos de investigação. Felizmente, parte desse acervo vem sendo recuperada através de cópias dispersas em computadores, dispositivos móveis e mensagens de correio eletrônico. E deixo esse conselho a todos que escrevem: guardem os arquivos em diferentes locais. Hoje continuo a escrever com a mesma convicção, acreditando que os livros são uma das formas mais duradouras de transformar pessoas e sociedades.

CCC – Como surgiu o Portal Marimba Selutu? Qual é o objetivo desse portal?

FG – O Marimba Selutu nasceu da conjugação de duas paixões que carrego ao longo destes anos, que são o jornalismo e a cultura. Iniciei a minha carreira em 2008, no jornal comunitário Ecos do Henda, no município do Cazenga, em Luanda. Posteriormente integrei a redação do renomado Semanário Agora, dirigido pelo jornalista Aguiar dos Santos, onde pude acompanhar de perto os principais acontecimentos políticos, econômicos e sociais do país.

Entretanto, percebi que o jornalismo cultural ocupava um espaço extremamente reduzido na comunicação social angolana. As manifestações culturais eram frequentemente tratadas de forma superficial e quase inexistiam meios especializados capazes de documentar, investigar e valorizar o patrimônio cultural nacional.

Foi essa constatação que motivou a criação, em 2017, do Marimba Selutu – Portal de Notícias Culturais, o primeiro veículo angolano dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural.

O nosso propósito sempre foi contribuir para a valorização da identidade cultural angolana, promovendo artistas, investigadores, escritores, festivais, patrimônio, tradições, literatura, música e todas as expressões que ajudam a compreender a riqueza cultural do país. Inspirado igualmente na minha colaboração no Por dentro de África, da jornalista brasileira Natália da Luz, mais do que divulgar notícias, procuramos construir memória cultural do nosso país.

CCC – Hoje o Portal Marimba Selutu é uma referência na área cultural? Você o vê dessa forma?

FG – Acredito que sim, mas essa avaliação pertence sobretudo aos leitores, pesquisadores e profissionais da cultura que acompanham o nosso trabalho.

Ao longo dos anos, o Marimba Selutu consolidou-se como um espaço de referência para o jornalismo cultural em Angola. Os nossos conteúdos têm servido de fonte para pesquisadores, estudantes universitários e agentes culturais interessados na documentação e análise do patrimônio angolano. Há até estrangeiros que entram em Angola e usam as nossas informações como referências e isso anima-nos muito.

Mesmo sem financiamento externo permanente, procuramos privilegiar reportagens aprofundadas, entrevistas de investigação, cobertura de festivais, documentação de manifestações tradicionais e produção de conteúdos que dificilmente encontram espaço na comunicação social convencional.

O ex-ministro da Cultura Jomo Fortunato reconheceu o nosso trabalho por meio de uma carta institucional para que as empresas apoiem o nosso trabalho, fato que mesmo dando entrada para algumas instituições não obtivemos respostas favoráveis.

Outro aspecto que considero particularmente importante é a dimensão internacional que o projecto começou a assumir. Hoje contamos com colaboradores em vários países lusófonos, incluindo Brasil, Moçambique e outros especialistas ligados ao patrimônio e à cultura africana, reforçando a nossa missão de promover o diálogo cultural entre Angola, África e o mundo.

Por isso, entendemos que o nosso maior património continua a ser a credibilidade construída junto dos leitores.

CCC – Um último recado para os leitores.

FG – Quero, antes de tudo, agradecer a todos aqueles que acompanham, partilham e acreditam no trabalho desenvolvido pelo Marimba Selutu.

Fazer jornalismo cultural em África continua a ser um enorme desafio. Produzir conteúdos de qualidade exige tempo, investigação, deslocações, recursos humanos e financeiros. E apesar das limitações, nunca deixamos de acreditar que a cultura merece ser tratada com o mesmo rigor que qualquer outra área do conhecimento.

Continuaremos comprometidos com a missão de documentar, preservar e divulgar a riqueza cultural de Angola, dando voz aos seus criadores, investigadores e comunidades.

A todos os leitores deixo um convite: continuem a ler, a investigar, a apoiar os nossos artistas e a valorizar aquilo que somos. Um povo que conhece a sua cultura fortalece a sua identidade e prepara melhor o seu futuro. A todos, a minha profunda gratidão!

Carlos Carvalho Cavalheiro

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