A embriaguez do mundo na poesia de Ella Dominici

Ó sopro infiel, renasce
onde as águas me esperam.
Ainda hei de cantar, ao entardecer,
as deusas que arranquei
de seus cintos de sombra.
Sucos de uva queimam meus lábios,
cachos vazios brilham ao sol,
e eu respiro neles
a embriaguez do mundo.
Libélulas-lembranças retornam
em teimosas asas:
a nuca molhada, o riso fugidio,
braços que se enredam no meu sono
e se dissolvem na claridade.
Tentei deter-vos,
mas fostes rosas desfolhadas ao sol;
o vosso perfume
nasceu para escapar.
Almejo, assim, cada fruto maduro
que se rompe ao toque;
cada abelha que murmura
no calor da seiva
devolve-me o desejo.
O dia se curva.
A mata veste-se de ouro e cinza
e, sobre sua lava, repousa
a rainha dos meus sonhos.
Retê-la é dar à sombra
consciência de sua fuga.
Agora cedo o corpo ao silêncio.
Bebo luz, sorvo vinho
e sigo o rastro que de ti resta,
já transformado em penumbra.
Destila-te em mim, diva noite.
Desce em véus de silêncio e âmbar.
Teus passos confundem-se com a brisa,
tua pele dissolve-se no orvalho,
tua boca reinventa-se
no silêncio.
Ainda assim, és minha:
presença que não se prende,
ausência que me embriaga,
clarão que me cega
e chama que não se apaga
Ella Dominici
- Ainda cedo o corpo ao silêncio - 4 de setembro de 2026
- Cântico de Ítaca - 21 de agosto de 2026
- Possibilidades - 14 de agosto de 2026
Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento



Ella, você não escreve poemas, mas esculpe-os, com martelo e cinzel etéreos. Este poema – como todos os seus, de forma geral – traz imagens sensoriais marcantes e de um lirismo acima do Everest: o queimar dos lábios com suco de uva, o ouro e a cinza do entardecer. E, com um final apoteótico, a ausência e o silêncio se transmutam em uma luminiscência reconfortante!
Gratidão, nobre amigo Sérgio, seus comentários riquíssimos elevam o poeta e dão mais vida ao escritor, são poesias aos nossos ouvidos
Вы отдаете себе отчет, в сказанном…
Ваша идея великолепна
Не могу сейчас поучаствовать в обсуждении – очень занят. Освобожусь – обязательно выскажу своё мнение.
да быстрей б она уже вышла!!