Alexandre Rurikovich Carvalho
A Independência do Brasil: Um Processo de Ruptura Política e de Construção do Império


Resumo
A Independência do Brasil constitui um dos mais importantes processos políticos da história brasileira. Embora tradicionalmente associada ao 7 de setembro de 1822 e ao chamado “Grito do Ipiranga”, a emancipação política foi resultado de transformações que se desenvolveram ao longo de anos e que envolveram dimensões políticas, econômicas, sociais, militares e diplomáticas. A transferência da Corte portuguesa para o Brasil em 1808, a abertura dos portos, a elevação do Brasil à condição de Reino Unido em 1815, a Revolução Liberal do Porto de 1820, o retorno de D. João VI, o Dia do Fico, a atuação de D. Pedro e as Guerras de Independência constituíram etapas fundamentais desse processo.
O presente artigo analisa a trajetória que conduziu à separação política entre Brasil e Portugal, destacando a atuação de D. Pedro como protagonista da ruptura e primeiro imperador do Brasil, sem desconsiderar a participação de outros agentes políticos, entre os quais José Bonifácio de Andrada e Silva. Examina-se ainda a resistência de diferentes províncias, a participação de populações negras e escravizadas nos conflitos, a organização constitucional do novo Estado, a Confederação do Equador, o reconhecimento internacional e as contradições de uma independência política que preservou importantes estruturas sociais e econômicas herdadas do período colonial, especialmente a escravidão. Compreende-se, portanto, a Independência como um processo histórico complexo e multifacetado, no qual ruptura política e continuidades socioeconômicas se entrelaçaram na formação do Estado brasileiro.
Palavras-chave: Independência do Brasil. D. Pedro I. Império do Brasil. José Bonifácio. Guerras de Independência. Escravidão. Constituição de 1824.
1. Introdução
Poucos acontecimentos da história brasileira possuem força simbólica tão expressiva quanto a Independência do Brasil. A imagem de D. Pedro às margens do riacho Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, converteu-se em um dos símbolos mais duradouros da formação nacional, enquanto o brado “Independência ou Morte!” passou a sintetizar, na memória coletiva, a ruptura política com Portugal.
Entretanto, a realidade histórica revela-se substancialmente mais complexa. A Independência não decorreu de um ato isolado no tempo. O 7 de setembro configurou um momento decisivo, mas inserido em uma longa sequência de transformações políticas e institucionais desencadeadas, sobretudo, pela transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. Durante os anos subsequentes, o território brasileiro deixou gradualmente de ocupar a posição tradicional de colônia. A Abertura dos Portos, a instalação de instituições administrativas centrais e a elevação do Brasil à condição de Reino Unido alteraram profundamente a dinâmica de poder no interior da monarquia portuguesa.
Esse equilíbrio foi novamente abalado pela Revolução Liberal do Porto, em 1820. Ao tentar reorganizar o Império português e redefinir as relações entre suas diferentes partes, as Cortes de Lisboa exigiram o retorno de D. João VI e, posteriormente, do príncipe D. Pedro. Diante dessas pressões, o príncipe assumiu uma posição política que o conduziria progressivamente à ruptura.
O “Dia do Fico”, em 9 de janeiro de 1822, marcou um momento decisivo dessa trajetória, ao sinalizar a disposição de D. Pedro de permanecer no Brasil e resistir às determinações das Cortes. Nos meses seguintes, sua atuação política ampliou-se e o príncipe passou de regente da monarquia portuguesa a principal liderança institucional do movimento de emancipação.
Contudo, a proclamação de 7 de setembro não encerrou o processo. A consolidação da Independência exigiu confrontos militares em diferentes províncias, reorganização institucional, definição de um modelo constitucional, enfrentamento de movimentos contrários ao poder central e reconhecimento diplomático internacional.
Diante desse panorama, este artigo procura responder a uma questão fundamental: como o Brasil passou de Reino integrado à monarquia portuguesa a Estado soberano e Império independente, preservando sua unidade territorial ao mesmo tempo em que manteve importantes bases sociais e econômicas herdadas do período colonial?
Para responder a essa indagação, faz-se necessário acompanhar o processo em sua continuidade, complexidade e contradições históricas.
2. O Brasil Joanino: da chegada da Corte à elevação a Reino Unido (1808– 1815)
No início do século XIX, o Brasil integrava o Império português e possuía uma economia predominantemente agroexportadora, marcada pela grande propriedade fundiária e pelo trabalho escravizado. Tratava-se de uma sociedade profundamente desigual, na qual amplos setores da população encontravam-se excluídos da participação política ou submetidos ao cativeiro. Esse cenário começou a sofrer transformações significativas em virtude dos desdobramentos das Guerras Napoleônicas na Europa.
Diante do avanço das tropas francesas e das pressões relacionadas ao Bloqueio Continental contra a Grã-Bretanha, tradicional aliada de Portugal, a monarquia portuguesa adotou a decisão extraordinária de transferir a Corte para o continente americano.
A chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, alterou profundamente a estrutura política do mundo luso-brasileiro. A decretação da Abertura dos Portos às Nações Amigas enfraqueceu o antigo sistema de exclusividade comercial metropolitana e permitiu ao Brasil ampliar suas relações comerciais internacionais.
A instalação dos principais órgãos administrativos no Rio de Janeiro converteu a cidade no centro político da monarquia portuguesa. A permanência da Corte prolongou-se mesmo após a derrota de Napoleão Bonaparte, culminando, em 1815, na elevação do Brasil à condição de Reino, integrado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
Essa transformação institucional retirou formalmente o Brasil da condição colonial, ainda que diversas estruturas econômicas e sociais características do antigo sistema permanecessem. Ao mesmo tempo, conferiu às elites estabelecidas no Brasil maior projeção política e administrativa.
Em Portugal, entretanto, a permanência da Corte no Rio de Janeiro alimentou crescente descontentamento. A perda de centralidade política e econômica de Lisboa contribuiu para o agravamento das tensões que culminariam na Revolução Liberal do Porto.
3. A crise política: a Revolução do Porto e a ascensão política de D. Pedro (1820–1822)
Em 1820, eclodiu na cidade do Porto um movimento liberal que defendia a convocação das Cortes, a elaboração de uma Constituição e o retorno da família real a Portugal. A Revolução do Porto expressava, entre outras questões, a insatisfação com a situação política e econômica portuguesa após a transferência da Corte para o Brasil.
As Cortes passaram a defender uma reorganização do Reino Unido e adotaram medidas que, para muitos grupos estabelecidos no Brasil, representavam uma ameaça à autonomia adquirida desde 1808.
Pressionado pelo movimento constitucionalista, D. João VI retornou a Lisboa em 1821, deixando seu filho, D. Pedro de Alcântara, como príncipe regente do Brasil.
Com apenas 23 anos, D. Pedro passou a ocupar o centro do debate político. Diante das exigências das Cortes para que também retornasse à Europa, grupos políticos estabelecidos no Brasil articularam-se para defender sua permanência.
O ápice dessa resistência ocorreu no Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, quando D. Pedro decidiu permanecer no Brasil, afirmando:
“Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico.”
A decisão representou uma ruptura política de grande importância, embora ainda não significasse uma declaração formal de Independência.
A partir daquele momento, D. Pedro reorganizou seu ministério e aproximou-se de lideranças favoráveis à autonomia brasileira, entre as quais se destacou José Bonifácio de Andrada e Silva.
Bonifácio desempenhou importante papel na articulação política do governo e na defesa da unidade territorial. Entretanto, a ruptura não resultou da ação de uma única personalidade. Ela envolveu uma rede diversificada de interesses políticos e econômicos, incluindo elites provinciais, comerciantes, proprietários rurais, militares, intelectuais e diferentes setores da população.
4. A ruptura de 1822 e a Guerra de Independência
Em 1822, a crise entre o governo sediado no Rio de Janeiro e as Cortes de Lisboa aprofundou se.
D. Pedro adotou medidas que ampliavam a autonomia do governo brasileiro. Entre elas destacou-se o princípio conhecido como “Cumpra-se”, pelo qual determinações provenientes de Portugal deveriam ser submetidas à autoridade do príncipe regente antes de serem executadas no Brasil.
A viagem de D. Pedro a São Paulo também teve importante significado político. O príncipe buscava fortalecer sua autoridade e obter apoio das elites locais diante da crise com Lisboa.
Em 7 de setembro de 1822, durante a viagem de retorno de São Paulo, D. Pedro recebeu correspondências contendo novas determinações das Cortes. Às margens do riacho Ipiranga, proclamou a separação política do Brasil.
O episódio tornou-se conhecido como Grito do Ipiranga e transformou-se no principal símbolo da Independência.
Entretanto, a proclamação não significou que todo o território brasileiro estivesse imediatamente submetido ao novo governo.
Províncias com forte presença militar e econômica portuguesa, entre elas Bahia, Maranhão, Pará e Piauí, passaram por confrontos e disputas antes de reconhecerem plenamente a autoridade imperial.
A Independência, portanto, foi também uma guerra pela definição da soberania sobre o território.
5. A Bahia e as lutas pela Independência
A Bahia constituiu um dos principais centros de resistência às forças portuguesas.
Salvador permanecia sob forte influência militar portuguesa, enquanto grupos favoráveis à Independência organizavam resistência no Recôncavo.
O conflito envolveu tropas regulares, milícias e diferentes setores da população.
Entre os personagens posteriormente incorporados à memória da Independência baiana destacam-se Maria Quitéria, Joana Angélica e o general Pierre Labatut.
A luta prolongou-se por meses e terminou com a retirada das tropas portuguesas de Salvador em 2 de julho de 1823.
A data tornou-se um dos principais símbolos da Independência da Bahia.
O episódio demonstra que o 7 de setembro não representou o encerramento imediato da luta. A consolidação da soberania brasileira exigiu confrontos militares em diferentes partes do território.
6. Maranhão, Pará e outras províncias
O Maranhão também apresentou forte resistência à autoridade do governo imperial.
A presença de interesses econômicos e militares vinculados a Portugal dificultou a adesão imediata ao novo Estado.
No Pará, a situação também foi marcada por conflitos políticos e militares. A adesão ao Império ocorreu em 1823, mas os conflitos sociais e políticos não desapareceram imediatamente.
Esses episódios revelam que a Independência brasileira não ocorreu de maneira uniforme. Cada província possuía suas próprias estruturas sociais, econômicas e políticas.
Havia, portanto, diferentes interpretações sobre o significado da separação de Portugal e diferentes interesses em torno da construção do novo Estado.
A consolidação da Independência exigiu, consequentemente, a articulação de forças políticas e militares capazes de integrar essas diferentes realidades sob uma autoridade comum.
7. A participação da população negra e escravizada
A participação da população negra nas guerras de Independência merece destaque.
O Brasil era uma sociedade escravista, e homens negros, livres, libertos e escravizados participaram dos conflitos de diferentes maneiras.
Em determinados contextos, pessoas escravizadas foram mobilizadas para o serviço militar sob a expectativa de obter alforria ou outras formas de recompensa.
Essa participação demonstra que a Independência não foi exclusivamente uma obra das elites políticas e econômicas.
Entretanto, a presença de negros nos combates revela também uma das grandes contradições do processo.
A emancipação política do território não significou emancipação social para a população escravizada.
O Brasil tornou-se um Estado soberano sem romper com a escravidão.
A liberdade nacional coexistiu, assim, com a ausência de liberdade para uma parcela significativa da população.
8. A aclamação e a coroação de D. Pedro I
Após a proclamação da Independência, D. Pedro consolidou sua posição como principal autoridade política do novo Estado.
Em 12 de outubro de 1822, foi aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.
A escolha da monarquia constitucional teve importância estratégica para a construção do novo Estado.
Em um contexto de fragmentação política de diversas regiões da América Hispânica, a manutenção da monarquia poderia contribuir para preservar a unidade territorial brasileira.
Em 1º de dezembro de 1822, D. Pedro foi coroado imperador.
O novo regime passou a ser denominado Império do Brasil.
A transformação de D. Pedro é um dos aspectos mais significativos do processo.
O príncipe que inicialmente exercia a função de representante da monarquia portuguesa tornou se o fundador e primeiro imperador de um Estado independente.
9. A organização do Estado Imperial e a Constituição de 1824
A proclamação da Independência criou a necessidade de organizar juridicamente o novo Estado.
Em 1823, reuniu-se a Assembleia Geral Constituinte.
As discussões revelaram divergências profundas sobre os limites da autoridade imperial, a organização das instituições e o grau de autonomia das províncias.
Os conflitos entre a Assembleia e D. Pedro agravaram-se durante o segundo semestre de 1823 e culminaram na dissolução da Constituinte em novembro daquele ano, episódio posteriormente conhecido como Noite da Agonia.
Em 25 de março de 1824, D. Pedro I outorgou a primeira Constituição do Império do Brasil.
A Carta estabeleceu uma monarquia constitucional representativa e instituiu quatro poderes: Legislativo, Executivo, Judiciário e Moderador.
O Poder Moderador, exercido pelo imperador, ampliava significativamente suas prerrogativas dentro do sistema político.
A Constituição de 1824 estabeleceu, portanto, um modelo de monarquia constitucional fortemente centralizado.
Esse desenho institucional seria objeto de críticas e resistências em diferentes regiões do país.
10. A Confederação do Equador
Em 1824, a centralização política do governo imperial contribuiu para o surgimento de movimentos de oposição.
O principal deles foi a Confederação do Equador, iniciada em Pernambuco e posteriormente apoiada por setores de outras províncias do Nordeste.
O movimento possuía caráter liberal e republicano e contestava a concentração de poder no governo central, além da Constituição outorgada e das prerrogativas atribuídas ao imperador.
Entre seus principais representantes destacou-se Frei Caneca.
A reação do governo imperial foi militar.
A repressão ao movimento demonstrou que a consolidação da unidade política brasileira também envolveu confrontos internos.
A Independência havia separado o Brasil de Portugal, mas permanecia em disputa a definição de como o novo país deveria ser governado.
11. Diplomacia, reconhecimento internacional e interesses britânicos
A consolidação da Independência dependia também de seu reconhecimento internacional.
O Brasil precisava estabelecer relações diplomáticas próprias e obter o reconhecimento das principais potências.
Os Estados Unidos reconheceram a Independência brasileira em 1824, tornando-se o primeiro país a fazê-lo formalmente.
A Grã-Bretanha desempenhou papel particularmente importante nas negociações entre Brasil e Portugal.
Os interesses britânicos eram simultaneamente diplomáticos e econômicos. A Inglaterra possuía forte presença comercial no Brasil e buscava garantir condições favoráveis para seus interesses mercantis.
Também pressionava pelo combate ao tráfico transatlântico de escravizados.
Dessa maneira, a consolidação internacional do Brasil independente ocorreu dentro de um sistema marcado pela influência econômica e diplomática britânica.
12. O reconhecimento português de 1825
O reconhecimento de Portugal constituía etapa fundamental para a consolidação jurídica da Independência.
Em 29 de agosto de 1825, Brasil e Portugal assinaram o Tratado de Paz e Aliança, pelo qual Portugal reconheceu oficialmente o Brasil como Império independente.
D. João VI reconheceu a soberania do Brasil e a autoridade de D. Pedro como imperador. O acordo encerrou formalmente a principal etapa diplomática da separação. Entretanto, o reconhecimento envolveu compromissos financeiros.
O Brasil assumiu o pagamento de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas a Portugal.
Para cumprir parte desses compromissos, o novo Estado recorreu ao crédito internacional, especialmente britânico.
A Independência, portanto, também esteve associada ao início de uma relação de dependência financeira internacional que marcaria a trajetória econômica do Império.
13. A Independência como processo histórico
A análise conjunta dos acontecimentos permite compreender a Independência brasileira como um processo composto por diferentes etapas.
Em 1808, a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro modificou profundamente a relação entre Brasil e Portugal.
No mesmo ano, a Abertura dos Portos ampliou as relações comerciais brasileiras.
Em 1815, a elevação do Brasil à condição de Reino Unido transformou formalmente sua posição dentro da monarquia portuguesa.
Em 1820, a Revolução Liberal do Porto desencadeou uma crise política que colocou em questão a autonomia adquirida pelo Brasil.
Em 1821, D. João VI retornou a Portugal e deixou D. Pedro como príncipe regente. Em 9 de janeiro de 1822, ocorreu o Dia do Fico.
Em 7 de setembro de 1822, D. Pedro proclamou a Independência.
Em 12 de outubro, foi aclamado imperador.
Em 1º de dezembro, foi coroado.
Entre 1822 e 1824, guerras e conflitos consolidaram a autoridade imperial em diferentes províncias.
Em 1824, a Constituição organizou juridicamente o novo Estado, enquanto a Confederação do Equador revelou os limites do consenso em torno do modelo político adotado.
Finalmente, em 29 de agosto de 1825, Portugal reconheceu formalmente a Independência. A cronologia demonstra que o processo não começou nem terminou no 7 de setembro.
14. D. Pedro e a construção da soberania brasileira
A atuação de D. Pedro constitui elemento central para compreender a Independência. Sua importância não se limita ao episódio do Ipiranga.
O príncipe assumiu sucessivamente diferentes posições: herdeiro da monarquia portuguesa, príncipe regente no Brasil, líder político da ruptura e, finalmente, primeiro imperador do Brasil.
O Dia do Fico foi decisivo para essa transformação.
Ao permanecer no Brasil, D. Pedro tornou-se o principal ponto de convergência de setores que buscavam impedir o retorno à condição política anterior.
Nos meses seguintes, sua autoridade foi ampliada.
A proclamação da Independência transformou-o em chefe de um novo Estado.
A aclamação e a coroação consolidaram sua posição institucional.
As guerras de Independência exigiram que seu governo organizasse forças militares capazes de garantir a autoridade imperial.
A Constituição de 1824, por sua vez, estabeleceu as bases jurídicas do regime. D. Pedro esteve, portanto, presente nas principais etapas da construção inicial do Império. Seu papel não deve ser interpretado isoladamente, mas tampouco pode ser minimizado.
A Independência brasileira não pode ser compreendida sem considerar a decisão política de D. Pedro de permanecer no Brasil e assumir a liderança da ruptura.
15. A Independência e suas contradições sociais
A Independência representou uma grande ruptura política, mas não produziu uma transformação social equivalente.
A sociedade brasileira permaneceu marcada pela concentração da propriedade, pela desigualdade econômica e pela escravidão.
A maior parte da população não recebeu direitos políticos equivalentes aos das elites. A escravidão continuou sendo elemento fundamental da economia.
Dessa forma, o nascimento do Império revelou uma profunda contradição:
um Estado politicamente independente continuava sustentado por uma ordem social profundamente desigual.
A ruptura com Portugal não significou ruptura com todas as estruturas do período colonial. Essa característica ajuda a explicar o caráter conservador da Independência brasileira.
O objetivo predominante de muitos grupos dirigentes era alcançar autonomia política e preservar a ordem social, evitando uma revolução de caráter radical.
16. Memória histórica e construção do mito da Independência
A memória da Independência foi sendo construída ao longo do século XIX.
A figura de D. Pedro foi progressivamente transformada em símbolo da nacionalidade brasileira.
Monumentos, cerimônias, discursos, livros escolares e obras artísticas contribuíram para essa representação.
Entre as imagens mais famosas encontra-se a tela Independência ou Morte, de Pedro Américo, concluída em 1888.
A pintura apresenta o episódio do Ipiranga de maneira monumental e heroica. Entretanto, a obra não deve ser entendida como registro documental literal do acontecimento.
Ela integra o processo de construção da memória nacional.
A narrativa heroica contribuiu para consolidar a imagem de D. Pedro como fundador da Independência, mas também acabou obscurecendo a participação de outros sujeitos históricos.
A historiografia posterior ampliou essa perspectiva, incorporando as províncias, os militares, as populações negras, os escravizados, as mulheres e diferentes grupos sociais à interpretação do processo.
17. Uma independência para quem?
A análise da Independência também permite formular uma pergunta fundamental: uma independência para quem?
Para as elites políticas e econômicas, a separação de Portugal significou a possibilidade de controlar diretamente o aparelho estatal e ampliar sua autonomia.
Para comerciantes e proprietários, representou novas oportunidades de participação no mercado e na administração do país.
Para setores intelectuais e políticos, significou a criação de um Estado nacional soberano. Mas para os escravizados, a Independência não trouxe liberdade.
Para grande parte da população pobre, a participação política permaneceu limitada.
Para muitos indígenas, os problemas relacionados à terra, à integração forçada e à proteção de suas comunidades continuaram.
A Independência, portanto, foi nacional, mas não foi socialmente igualitária. Essa distinção é fundamental para compreender o verdadeiro alcance do processo.
18. Considerações finais
A Independência do Brasil não pode ser reduzida a um ato isolado às margens do Ipiranga.
O 7 de setembro de 1822 constituiu um marco político e simbólico fundamental, mas esteve inserido em um processo muito mais amplo, iniciado pelas transformações provocadas pela transferência da Corte portuguesa para o Brasil em 1808 e consolidado por meio de conflitos militares, reorganização institucional e negociações diplomáticas.
A abertura dos portos, a criação de novas instituições, a elevação do Brasil à condição de Reino Unido, a Revolução Liberal do Porto, o retorno de D. João VI e a permanência de D. Pedro no Brasil foram acontecimentos que progressivamente modificaram a relação entre Brasil e Portugal.
Nesse processo, D. Pedro ocupou posição central.
Sua decisão de permanecer no Brasil, expressa no Dia do Fico, marcou uma mudança fundamental em sua trajetória política. A partir daquele momento, o príncipe assumiu progressivamente a liderança da causa brasileira.
Em 7 de setembro de 1822, proclamou a Independência. Pouco depois, foi aclamado e coroado imperador.
Sua atuação posterior esteve relacionada à organização do novo Estado, à consolidação da autoridade imperial, às guerras de Independência e à construção de uma ordem constitucional.
Entretanto, D. Pedro não atuou sozinho.
A Independência foi resultado da interação entre diferentes sujeitos e interesses. José Bonifácio desempenhou papel importante na articulação política do movimento e na defesa da unidade territorial, enquanto lideranças provinciais, militares, comerciantes, proprietários, intelectuais e segmentos populares participaram, de diferentes formas, da construção da emancipação.
As guerras de Independência demonstram que a separação de Portugal esteve longe de ser pacífica. Bahia, Maranhão, Pará, Piauí e outras regiões experimentaram confrontos que foram fundamentais para a consolidação da autoridade do novo Império.
A Independência também foi marcada por uma importante dimensão internacional.
O reconhecimento dos Estados Unidos em 1824, a mediação britânica e o reconhecimento português de 1825 demonstram que a soberania brasileira precisava ser afirmada não apenas internamente, mas também perante as demais potências.
Ao mesmo tempo, o nascimento do Império esteve acompanhado de profundas contradições.
O Brasil conquistou soberania política, mas preservou a escravidão, a concentração fundiária e importantes estruturas econômicas herdadas do período colonial.
A Independência, portanto, não foi uma revolução social.
Foi, sobretudo, uma ruptura política e institucional acompanhada por significativas continuidades socioeconômicas.
Essa característica ajuda a compreender a singularidade do processo brasileiro.
O Brasil tornou-se independente sem fragmentar-se em diversos Estados, preservou a monarquia e construiu um governo centralizado. Ao mesmo tempo, manteve uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo trabalho escravizado.
Por isso, compreender a Independência do Brasil exige ultrapassar a imagem exclusivamente heroica do 7 de setembro.
É necessário compreender o conjunto de acontecimentos que transformou o Brasil de Reino integrado à monarquia portuguesa em Estado soberano.
Mais do que o gesto de um príncipe às margens de um riacho, a Independência foi resultado de uma longa transformação política, militar, econômica e diplomática.
E, nesse processo, D. Pedro ocupa lugar incontornável.
O jovem príncipe que inicialmente representava a continuidade da monarquia portuguesa tornou-se o primeiro imperador de um Brasil independente e assumiu a responsabilidade histórica de conduzir os primeiros passos do novo Estado.
A Independência foi, assim, simultaneamente ruptura, continuidade, guerra, negociação e construção nacional.
Seu legado permanece fundamental para compreender a formação do Brasil contemporâneo e as complexas relações entre soberania política, poder, identidade nacional e desigualdade social.
REFERÊNCIAS
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SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo, 1780-1831. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999.
Alexandre Rurikovich Carvalho
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Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, natural de Nova Iguaçu (RJ). Construiu sólida trajetória acadêmica e intelectual, sendo licenciado em História e Filosofia, tecnólogo em Eventos e bacharel em Direitos Humanos, com ênfase em Ciências Sociais. Possui formação em nível de pós-graduação nas áreas de História do Brasil, História Antiga e Medieval, Filosofia, Ciências Políticas, Ciências da Religião, Jornalismo, Docência do Ensino Superior, Produção Cultural e Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, entre outras. É coautor de mais de quarenta obras literárias e atua como colunista do jornal cultural ROL, desenvolvendo produção intelectual voltada à história, cultura, filosofia, direitos humanos e diplomacia cultural. Foi reconhecido por Notório Saber em Filosofia pelo Instituto Universitas Ecclesiae do Brasil. Detentor de centenas de títulos honoríficos, medalhas e condecorações concedidas por instituições nacionais e internacionais, é também detentor de 30 títulos de Doutor Honoris Causa. É Doctor of Humane Letters pela Logos University International (UNILOGOS) e Doctor of Philosophy in Peace pela International University of Higher Martial Arts Education. Atua como Agente de Representação Diplomática Dinástico-Cultural, com status de Embaixador Honorário da Organização Internacional de Diplomacia Cultural. Exerce a presidência da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e é Diretor do Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Registros Profissionais: Historiador – MTE 0001072/RJ Jornalista – MTE 0039605/RJ


Meu irmão, O artigo é importantíssimo, uma vez que apresenta o 7 de setembro como a ruptura do laço de Portugal, e com algumas conquistas importantes, mas, por outro lado que deixou uma ‘ferida socia’l aberta, ao manter as estruturas socioeconômicas coloniais, como o latifúndio e a escravidão.