maio 04, 2026
Concierto de Aranjuez
Trabalhador certo no local certo
Corpo lume em terra
Labor no universo literário
Avanço tecnológico e relações humanas
Historiadora será contemplada em Solenidade da FEBACLA
Jornalista será contemplado em solenidade da FEBACLA
Últimas Notícias
Concierto de Aranjuez Trabalhador certo no local certo Corpo lume em terra Labor no universo literário Avanço tecnológico e relações humanas Historiadora será contemplada em Solenidade da FEBACLA Jornalista será contemplado em solenidade da FEBACLA

O café que nunca esfria

image_print

Paulo Siuves: ‘O café que nunca esfria’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini – 12 de dezembro de 2025, às 13:41 PM

Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.

 O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.

 Vivemos uma sinfonia interrompida.

 A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.

 A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.

 O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.

 A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.

 Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.

 A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.

 No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?

 A resposta não está no celular.

Ela mora na pausa.

No gole de café quente.

Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.

Paulo Siuves

Voltar

Facebook

Paulo Siuves
Últimos posts por Paulo Siuves (exibir todos)

3 thoughts on “O café que nunca esfria

  1. Paulo, a cada dia nosso cativeira, metamorfoseado tecnologicamente, se torna mais sufocante, como é a fumaça de um cigarro para quem não é fumante. E, no entanto, para quem é viciado, a fumaça tecnológica, mesmo à custa dos pulmões, traz um prazer prazerosamente mórbido!

  2. Verdade , se não pararmos para apreciar , e ter um tempo de qualidade deixamos de vivenciar momentos , pessoas , assuntos , companhias ou mesmo a si mesmo e poder ter consciência de cada tempo em nosso cotidiano.
    Com tanta facilidade, tecnologia precisamos desacelerar para apreciar o simples , valorizando cada momento de nossos dia a dia e tendo um olhar diferenciado cada momento vivenciado dia após dia .

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Acessar o conteúdo