Fidel Fernando:
‘O desvio à norma e a criação do humor pelo meme’


às 13:37 PM
Nos dias de hoje, os memes tornaram-se uma das formas mais populares de comunicação nas redes sociais, especialmente no Facebook. Eles são capazes de condensar emoções, críticas e humor em imagens e frases curtas, mas, paradoxalmente, muitas vezes, são mal escritos. E é exactamente aí que reside um ponto crucial: a escrita correcta é essencial para a eficácia da comunicação, mesmo num espaço tão descontraído e informal como o dos memes.
Como professor de Língua Portuguesa e Revisor de Textos, cumpre realçar que a falta de atenção à norma gramatical pode prejudicar não apenas a mensagem, mas também o humor que se pretende comunicar. Um meme mal escrito, além de não ser divertido, transforma-se, muitas vezes, em objecto de escárnio. O riso pode ser provocado, porém, não da maneira desejada, resultando em confusão em vez de catarse.
O que caracteriza um meme eficaz é sua inteligibilidade. Um meme que desafia as normas linguísticas pode, em algumas situações, gerar humor, todavia, com frequência, essa transgressão traduz-se em imprecisão que inviabiliza a comunicação. Observamos que muitos leitores mais críticos não hesitam em compartilhar memes com desvios gramaticais, acompanhados de comentários que denunciam a falta de cuidado, afirmando que “não há piadas em memes com erros de português”. Essas afirmações revelam uma expectativa generalizada de que a escrita deve, ao menos, em certa medida, obedecer à norma da língua.
Os exemplos que encontramos em nossa análise são reveladores. Memes que apresentam desvios de concordância, como “Homens com Espírito Santo não vai chegar para todas…”. Ora, o humor pretendido na frase perdeu-se no desvio de concordância entre o núcleo do sujeito ʻHomensʼ e o predicado verbal ʻvai chegarʼ. O que poderia ter sido uma reflexão divertida sobre a escassez de parceiros ideais transformou-se em motivo de zombaria, não pela ideia em si, mas pela falha na construção da frase.
Há, ainda, memes com graves problemas de pontuação, tal como “Mulher que trabalha ora temente a Deus, empresária mãe super educadora, Não vai chegar para todos uns terão mesmo que casar com as tolobas”, o que mostra que a desconexão entre forma e conteúdo pode levar à perda do sentido ou a interpretações equivocadas.
Além disso, a ortografia, muitas vezes, é negligenciada, como em ʻvamʼ no lugar de ʻvãoʼ, o que não apenas compromete a clareza, mas também reforça a ideia de que a comunicação escrita pode ser desvalorizada. O uso excessivo de maiúsculas, como em “Esposa Licenciada Não Vai Chegar Para Todos. Alguns vam ter mesmo que casar com As da 6ª e 9ª Classe”, contribui ainda mais para essa confusão. Além de misturar maiúsculas e minúsculas de forma desordenada, o enunciado peca por imprecisões linguísticas que dificultam a compreensão. O resultado? O foco do humor desloca-se para os desvios linguísticos, e o meme, em vez de engajar, afasta o público mais atento.
É preciso entender que o humor nos memes não reside apenas nas ideias que eles sugerem, mas também na habilidade de quem os cria de dominar a língua. Luís Fernando Veríssimo lembra-nos que “escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”, mas, diante dos desvios à norma que encontramos, é difícil garantir que o leitor leigo compreenda algumas mensagens. Ainda que haja um certo apelo à liberdade criativa, precisamos de considerar que o humor de um meme depende, em grande parte, da clareza e da precisão com que as ideias são transmitidas. Afinal, a graça perde-se quando o leitor precisa de fazer malabarismos mentais para decifrar o que se diz.
Outrossim, quando os desvios extrapolam o nível linguístico e tornam-se preconceituosos, o meme não apenas falha na sua função humorística, como também perpectua estereótipos e discriminações: “Volto a falar: Quem casar com mulher sulana na conta dele. Mulheres para casar são as Bakongo.”, ou, ainda, “Homem advogado não vai chegar para todas. Algumas vão ter que casar com os gatunos que vamos defender.”
Alguns memes, e os referidos acima não são uma excepção, de forma implícita ou explícita, reforçam ideias de superioridade de certos grupos étnicos, sociais ou profissionais. E, quando isso acontece, não é exagero dizer que o meme transforma-se em uma ferramenta de bullying.
Nesse contexto, torna-se urgente a necessidade de uma pedagogia de escrita que se inicie desde os primeiros anos escolares. No entanto, devemos nos perguntar: será que essa necessidade se encerra só na infância? A educação linguística deve ser um compromisso contínuo, pois, como bem aponta Marcos Bagno, no seu livro Preconceito Linguístico, “a grande tarefa da educação linguística contemporânea é letrar as pessoas, ou seja, levá-las a ler e a escrever cada vez mais e melhor”. Para tal, é vital que as pessoas leiam, releiam, escrevam e reescrevam de forma constante.
No mesmo viés de Bagno, está Duarte, para quem “nas aulas de Português, deve-se partir da leitura e da produção de textos.” Essa abordagem não apenas enriquece o vocabulário e a gramática dos alunos, mas também os prepara para uma participação mais consciente e crítica, quer seja em textos formais, quer seja nas rápidas e efémeras postagens nas redes sociais.
Assim, mesmo que a esfera dos memes pareça ser um espaço livre de regras, aqueles que criam e compartilham devem estar cientes de que a linguagem é uma ferramenta poderosa. Afinal, um meme mal escrito não cumpre seu papel. Ele não comunica, não diverte e, em muitos casos, torna-se a piada que nunca quis ser.
Portanto, a missão dos educadores é continuar a ensinar, para que todos possam se expressar de maneira eficaz e criativa na sala de aula, nas redes sociais e fora delas.
Fidel Fernando
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Fidel Fernando reside em Luanda (Angola).
Academicamente, é licenciado em Ciências da Educação, no curso de Ensino da Língua Portuguesa, pelo Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED/Luanda), onde concluiu sua formação em 2018. Antes disso, obteve o título de técnico médio em educação, na especialidade de Língua Portuguesa, pelo Instituto Médio Normal de Educação Marista (IMNE-Marista/Luanda), em 2013. Profissionalmente, atua como professor de Língua Portuguesa, dedicando-se à formação e ao desenvolvimento de habilidades múltiplas nos seus educandos. Além das suas funções docentes, exerce a atividade de consultor linguístico e revisor de texto, contribuindo para a clareza e precisão na comunicação escrita em diversos contextos. Tornou-se colunista do Jornal Pungo a Ndongo, onde compartilha semanalmente sua visão sobre temas atuais ligados à educação e à língua.


Parabéns, Fidel. Estamos juntos nessa luta e nesse combate.
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