Evani Rocha: Poema ‘Um dia’


às 22:23 PM
Um dia a gente chega, com olhos de anjo e pele de seda.
Não se sabe sobre o mundo, o segredo do universo
Ou a tenacidade das pedras.
Se desconhece o destino, os meandros do caminho,
A ausência e a saudade;
A complexidade das coisas, nem o certo
Ou o errado.
O tempo vai nos contando sobre o Sol e as estrelas,
Dizendo das tempestades, do plantio e da colheita.
Vai revelando as mãos dadas, os laços e armadilhas,
Os desvios da estrada e as cores do arco-íris!
Um dia a gente cresce: se descobre, se conhece.
Ou nunca se reconhece.
Percebe-se como gente carregando uma bagagem,
Sem saber o que há dentro…
Ter entre as mãos o novelo, sem começo, meio ou fim,
Sob os pés flores pisadas, sem enxergar o jardim.
Um dia de cada vez, o tempo não se adianta,
O tempo não retrocede e não corrige o que se fez.
Leva a beleza do espelho, o encantamento dos olhos
Ou o preto dos cabelos.
Um dia a gente transborda, noutro se esconde numa concha.
Decora nossa história, mas nunca lembra o prefácio.
Um dia a gente vai embora, sem títulos e sem bagagem,
Sem palavras ou memória…
Vai embora o rio que correu incansável para o mar,
Os sonhos e desafios, a presença ou o vazio.
Vai embora o nosso passado, as coisas desconhecidas,
A grandeza das palavras ou a insolência das máscaras!
Um dia há despedida, há flores desabrochadas
E algumas gotas caídas,
Restando apenas as pontas, desatadas, do novelo,
O branco gélido do mármore
E os dedos, entre os dedos!
Evani Rocha
- Carolina Maria de Jesus - 23 de março de 2026
- Mulher moderna - 8 de março de 2026
- Senhor José - 4 de março de 2026
Evani Rocha, natural de Chapada dos Guimarães (MT) é bióloga e professora da rede pública há 25 anos, com pós-graduação em Educação, especializada em Literatura Brasileira. Na área literária é poetisa, escritora e autora dos livros: Retalhinhos (Poesia, 2020) e Folhas de Outono (Contos, lançado na Bienal/Rio 2023). Na área acadêmica, é Acadêmica Internacional da FEBACLA – Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes, da qual recebeu o título Embaixadora Cultural da Paz. Apaixonada pelas artes, em especial a pintura e a escrita, Evani Identifica-se como uma pessoa ligada umbilicalmente à natureza, onde passou boa parte de sua infância. As artes e a natureza são sua fonte de inspiração, motivo pelo qual sua pintura e escrita têm uma voz que ecoa, quase sempre, desse lugar-comum.


Evani, como é delicioso ler um poema que foge do lugar-comum!
Você descreve a epopeia da vida, com seus encantos e desencantos, e, de uma forma sutilíssima, termina com a morte, mas sem citá-la expressamente: “os dedos entre os dedos”!
Sérgio Diniz, nobre editor e amigo! Gratíssima pelas suas, sempre generosas palavras!
Evani, quando vejo que tem postagem sua já embalo o coração para a leitura.
Todos são belíssimos, hoje, este me encantou imensamente. Parabéns e gratidão pelo seu dom excepcional!
Fico honrada, Ella Dominici, por sua apreciação e comentário!
Grata!
Grande abraço🌷