Taghrid Bou Merhi: Poema ‘Os primórdios da existência’


No princípio, o silêncio sonhava com horizontes distantes,
e a noite do nada aguardava imóvel, desconhecida.
Nenhuma estrela subia trêmula aos céus,
e o tempo ainda não havia aberto suas portas à viagem.
O mar do vazio expandia-se mudo,
guardando em suas profundezas o estremecer dos mistérios e dos pensamentos.
Até que o rosto do universo respirou uma canção,
e sua chama fez vibrar as eras e a história.
A escuridão rompeu-se diante do primeiro clarão das estrelas,
como se fosse a primeira letra escrita pela criação.
A luz floresceu pelos espaços infinitos,
e tornou-se vencedora sobre a longa noite.
Girou o barro das origens,
dele nasceram montanhas, mares e chuvas.
A terra era como uma criança em sua galáxia,
olhando ao redor com sonhos e imagens dentro do peito.
Então despertou a mão dos dias,
moldando do pó um ser cuja alma carregava o destino.
Ele caminhou trazendo perguntas nos olhos:
o que existe além do céu? Onde repousa o espírito?
Escutava os rios em silêncio,
tentando compreender quem dera início ao invisível.
E o vento respondeu:
“O universo é uma canção entoada por aqueles que possuem o poder do mistério.”
O mar das noites murmurou:
“Não há limites para o que as almas escondem em seu interior.”
Tudo possui um segredo que o colore,
até mesmo as estrelas têm histórias ocultas em seu silêncio.
Segue teu caminho,
pois a vida é um milagre que renasce no fim de cada estrada.
Não acredites que a morte seja o encerramento,
ela é apenas uma porta para outro florescimento.
A criação é um rio contínuo de respirações,
ligando o barro das origens ao coração humano.
E o universo continua criança em sua contemplação eterna,
procurando o próprio segredo — ainda escondido nas profundezas do infinito.
Taghrid Bou Merhi
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Natural de Qabb Ilyas, Líbano, é uma poeta, escritora, ensaísta, tradutora, editora e profissional de mídia libanesa-brasileira, cujo trabalho constrói pontes entre culturas, línguas e tradições literárias. Residente no Brasil (Foz do Iguaçu/PR), é amplamente reconhecida por suas contribuições à literatura árabe contemporânea e ao intercâmbio cultural internacional. É autora de 23 livros que abrangem poesia, contos, ensaios, estudos críticos e literatura infantil, publicados em formatos impresso e digital. Além disso, traduziu mais de 49 livros e mais de 2.000 poemas, contos, resenhas e artigos entre o árabe, o inglês, o espanhol, o italiano e outros idiomas. Suas obras literárias e traduções foram vertidas para 49 línguas e participou em mais de 540 antologias nacionais e internacionais. Taghirid desempenha um papel significativo na mídia cultural, atuando em cargos editoriais de alto nível e como chefe de departamentos de tradução em diversas revistas árabes e internacionais. É também Presidente da CIESART Líbano e chefe da Câmara Internacional de Livros e Artistas – filial do Líbano, além de oficial de relações culturais internacionais em várias organizações globais.


Taghrid, a relação que você traça entre a Cosmogonia e o Antropocentrismo é uma ‘escultura literária’, digna de um Michelangelo!
Seu poema é uma viagem cóscmica, de um lirismo tão grande quanto o próprio universo!