PSICANÁLISE E COTIDIANO
Bruna Rosalem: Artigo ‘A droga e a fuga’


“É verdade: fugir é o maior dos prazeres.”
(Virgínia Woolf)
Desde os primórdios do surgimento da humanidade, o sujeito se interessa por substâncias que alteram a capacidade de raciocínio, humor, visão das coisas, adentrando numa espécie de mundo fictício, repleto de imagens distorcidas da realidade, seres fantasmagóricos, monstros, cenários absurdos ora acalentadores, ora amedrontadores que entorpece o sujeito seja mediante rituais ou pela mística que envolve o uso de tais substâncias. Drogas, diria.
Ou seja, parece que desde sempre na história conhecida e compartilhada, temos a capacidade de provocar situações ao ingerir substâncias psicoativas que buscam nos retirar da bruta e seca realidade com todas as suas dificuldades, limites e burocracias para alcançar outro estado espiritual ou carnal mesmo, que nos leve a outro lugar com novas sensações e sentimentos. Mesmo que isso dure pouco tempo, a experiência continua sendo bastante atrativa até hoje. Inclusive acompanhamos a criação de novas substâncias ainda mais poderosas que proporcionam um estado de êxtase cada vez mais prolongado e prazeroso.
Na mitologia, encontramos Baco, o deus do vinho, ou ainda, o néctar, a bebida dos deuses que exercia um poder embriagador. Apesar dos atos compulsivos relacionados às drogas já se manifestarem, e os que a estes atos se entregavam serem considerados errantes, sem rumo, loucos ou degenerados, o seu uso ponderado visava o gozo, a realização de algo desejado, mas impedido por alguma razão, deleite, satisfação, torpor, felicidade.
O fato de introduzir, injetar ou inalar substâncias com características que provocam no sujeito alterações que o retire de um estado normal e o coloque num estado ‘fantasístico’, nos remete a ideia de que dificilmente é possível suportar o mundo como ele é e os laços sociais que nós mesmos construímos. Baudelaire (1821-1867), ensaísta, tradutor, poeta e crítico de arte francês, dedica um livro a falar de substâncias tóxicas e seus efeitos ‘mágicos’ e riscos. Intitulado ‘Paraísos Artificiais’ de 1860, o escritor francês aborda o haxixe, o ópio e o vinho como produtores de verdadeiros prazeres ou infernos artificiais, além de denunciar os encantos e desencantos das substâncias na vida das pessoas que as consomem.
A prática de consumir produtos que alteram nossa percepção e humor nos deixando relaxados, quase que sedados para a realidade, surge na contemporaneidade de forma exponencial e passa a ser a causa de inúmeros adoecimentos que impactam sobremaneira na qualidade de vida, nos afazeres cotidianos, nos projetos pessoais a médio e longo prazo e nas relações sociais. Além de deixar o sujeito, em quadros mais graves, mergulhado num mundo alheio completamente diferente do compartilhado, deixando-o à margem dos laços sociais sem possibilidades reais de volta. Um vagar sem destino, controle e noção do tempo e do espaço.
A ‘substância prometida’ que outrora trazia uma sensação única e abrupta de bem-estar e felicidade, também carrega consigo uma consequência reversa daquilo que prometera: de um estado anestésico contemplativo e maroto para uma avassaladora sensação de ‘fundo do poço’, onde não há alegrias, esperança, prazer. O efeito da droga leva rapidamente o sujeito às alturas na mesma proporção que o enterra de vez. Paga-se caro por tão pouco. Mesmo assim, conquistar alguns minutos de ‘viagem’ para bem longe deste mundo parece ser um grande motivo que ainda faz o humano desejar tão fortemente este produto, chegando a matar ou ser morto por ele.
É uma guerra sem fim. Interesses por todos os lados, seja para uso pessoal, pequenos ou grandes grupos, até cidades, estados e países. Conflitos armados, disputas pelas melhores fronteiras, embates por controle de territórios, estratégias, recursos e planejamento para que a droga alcance diversos lugares de modo mais acessível possível. A substância traça seu caminho e até chegar ao seu destino vai deixando rastros de morte e destruição.
A droga parece ser uma fuga do sofrimento humano que, querendo ou não, faz parte do percurso da vida. Foge-se para buscar satisfação e um intenso prazer que a realidade crua não pode dar. O sujeito busca algo mágico para que a felicidade o possua, porém, ele vive em sociedade e está imerso na cultura que dele exige renúncias, acordos, cumprimento das leis e dos limites impostos. Isso tudo gera tristeza e infelicidade. A má notícia é: não há como estar em outro mundo que não seja este. Então, o que fazer? Refletir sobre este paradoxo pode ser um bom começo.
A possibilidade de existir como sujeito só é possível justamente adentrando e fazendo parte ativamente deste mundo tão espetacularmente diverso e misterioso com os elementos que ele oferece, nas possibilidades e impossibilidades, nas experiências transitórias que nos marcam e nos fazem aprender. Afinal, o mal-estar é inerente à vida. Cabe a cada um criar algo a partir disso.
E você, foge do quê?
Bruna Rosalem
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Psicanalista e professora. Natural de Campinas (SP), porém, atualmente reside em Balneário Camboriú (SC). Seu percurso na psicanálise começou na época do Mestrado, participando de dois grupos de estudo em Educação, Ciência e Psicanálise: Grupo PHALA (UNICAMP) e Grupo Universal (USP). Membro da Associação Psicanalítica de Itajaí, onde atua como professora. É mestra em Educação e Práticas Culturais (Unicamp), pós-graduada em Filosofia, Psicanálise e Cultura (PUC/PR) e História da Arte (Espaço Cultural A Coisa (SP). Realiza atendimentos e supervisão. Escreve para o Jornal Cultural ROL as colunas Psicanálise & Cotidiano, Cinema & Psicanálise e Crime & Psicanálise, sendo estas últimas em parceria com o escritor Marcus Hemerly. Também participa de Antologias, escrevendo contos e crônicas.