junho 05, 2026
Topografia da ausência
Títulos de Nobreza Concedidos por Dinastias Históricas  não  Reinantes
Cidadão decisor
Entre vinhos e livros
Mulheres do Brasil
Summer solstice
Do Peru ao ROL, Rosa Judy Parreño Baca!
Últimas Notícias
Topografia da ausência Títulos de Nobreza Concedidos por Dinastias Históricas  não  Reinantes Cidadão decisor Entre vinhos e livros Mulheres do Brasil Summer solstice Do Peru ao ROL, Rosa Judy Parreño Baca!

Liceu 4 de Janeiro – Kizanga

image_print

Milton Gaspar Domingos: ‘Liceu 4 de Janeiro – Kizanga’

Logo da seção O Leitor Participa
Logo da seção O Leitor Participa

Mirosman saía da escola, transbordando rios de ansiedade. Entrou sem cumprimentar a mãe, a única pessoa em casa no momento.

– Mamã, mamã!

Chamou ele, ofegante, quase que enxotava da sua caixa toráxica seu coração, fazendo o coração da mãe expludir de preocupação dada a gritaria do menino de oito anos. Quase que correndo, Umblina veio em socorro do rapaz.

– Quê foi, Miros?! – perguntou ela num tom calmo e tranquilizador. Diz-me: o que é que se passa? interrogou Umblina pela segunda vez.

– Tá vê junto da nossa scola, né?

– Sim…

– Há uma outra scola, né, mamã!

– Sim, Mirosman… é o Liceu 4 de Janeiro.

– A nossa Professora disse que o nome daquela scola veio da Baixa de Kassange. Como assim, mamã?

“Aham… então, é isso???!!! Muito bem… vá, leve, primeiro a mochila para o teu quarto e, venha, vamos conversar.”

Mirosman correu, passando para o corredor, deixou a primeira porta e, na segunda, empurrou-a, desfez-se da mochila, atirando-a para sua cama, que em nada estranhou o comportamento do rapaz, e aquietou-se. Mirosman saiu, voando para a cozinha, onde estava a mãe.

– Já, mamã!

– Toma, relaxa ainda!

Umblina fixou atentamente no seu pequeno, respirando ares de alívio, disse:

– Muito bem… agora me diz, o que é que você sabe sobre Baixa de Kassange?

– Hoje, mamã, em Estudo do Meio, falamos das formas de relevo, e o papá já tinha me ajudado com aquela maquete que mostra as planícies, as depressões, os rios e as montanhas.” Umblina mostrou-se satisfeita com o rumo que levava a conversa, soltando algum riso. “Então, como exemplo de montanha, a Professora falou do morro do Moco, e de depressão, ela falou da Baixa de Kassange. Mas a Professora disse também que essa depressão fica entre os municípios do Marimba, Kunda dya Base, Kela, Kiwaba Nzoji e Massango… agora, mamã, esses municípios estão bem longe daqui. Como é que essa escola, junto à nossa, tem um nome que se relaciona com baixa de Kassange? Aliás, como é que o nome Liceu 4 de Janeiro está ligado à Baixa de Kassange?

– Realmente, meu filho, isso é intrigante. – reconheceu Umblina. Mas a vossa Professora não vos explicou que foi na Baixa de Kassange em que aconteceu um dos maiores massacres já registado no processo da independência de Angola?

O rapaz arregalou os olhos grossos e pretos, espantado com o que acabava de ouvir. Meneou a cabeça, soltando um não abafado desde os pulmões às cordas vocais. Limpou a garganta antes de um novo gole do seu sumo natural de manga.

 – Portanto, – continuou a mãe. – trata-se de um evento nacional e, isso aconteceu a 4 de Janeiro de 1961.

– Aham… é por isso que quando chega essa data, nas rádio e nas televisões falam muito sobre 4 de Janeiro e Baixa de Kassange!

– Exatamente! Mas, sabe de uma coisa?

– O que é, mamã?

– Há apenas três escolas em toda Angola com esse nome – dois liceus, na província de Malanje e um colégio em Namibe. Mas este Liceu da Kinzanga é muito especial.

– Como assim, ‘muito especial’, mamã?

– Veja que esse Liceu, para além de estar muito distante da Baixa de Kassange, o seu nome e história estão diretamente ligados aos eventos naquela localidade.

– Ainda não entendi, mamã.

– Isso mesmo! Lembras-te de que houve um massacre na Baixa de Kassange?

– Sim.

– Esse massacre aconteceu de portugueses europeus para com os camponeses angolanos descontentes com as políticas administrativas do colono. Aos camponeses eram dados uns cartões que os obrigava a realizar trabalhos forçados a custo de quase nada, em benefício dos seus patrões, donos das plantações e das grandes fábricas. Os camponeses, de tão descontentes que estavam, desfizeram-se do cartões, queimando-os e, desse modo, mostrando ao colono que já não queriam quaisquer espécie de acordo com eles. Até às plantações atiraram fogo, às lojas e fábricas puseram mãos.

– Aham… já entendi. Os portugueses ficaram muito zangados e, por isso, massacraram os camponeses.

– Isso mesmo, Miros! Dentre os massacrados, houve pessoas que, segundo o colono, não mereciam ter um enterro digno das pessoas.

– E o que é que fizeram a eles, mamã?

– Todos os identificados como chefes e agitadores e os que os estavam a apoiá-los diretamente foram levados para bem longe de suas terras.

– Onde, mamã?

– Numa terra distante das suas, onde, de acordo com o colono, era bem adequada para o depósito de rebeldes, filhos de cães. Essa terra era, ainda, pouco habitada e o povo que ali morava também era tido pelos portugueses como rebeldes. Essa terra se chama Kizanga.

– Mas, mamã, Kizanga é o nosso… Ehééé, Ehééé, Ehééé!

– E foi exatamente no espaço onde hoje é o Liceu 4 de Janeiro, em que se enterrou todas aquelas pessoas massacradas. Com o tempo, as pessoas que viviam no bairro passaram a enterrar lá os seus ente queridos falecidos, fazendo do local um verdadeiro cemitério.

– Mais tarde, quando já não se enterravam ali, o estado viu no terreno um bom espaço para se construir uma escola. Mas essa é uma outra história.

O rapaz parecia muito pensativo, quando Umblina lhe orientou:

– Não conte isso para ninguém, Miros!

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano) nasceu em Angola, na província de Malanje, onde reside e trabalha (como Professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

É Mestrando e Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO), Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade António Agostinho Neto (UAN).

Voltar

Facebook

Sergio Diniz da Costa
Últimos posts por Sergio Diniz da Costa (exibir todos)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Acessar o conteúdo