COLUNA PSICANÁLISE E COTIDIANO
Bruna Rosalem: ‘Um último suspiro na Golden Gate Bridge’


Socorro, alguma alma, mesmo que penada.
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.
Socorro, alguém que me dê um coração,
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emoção pequena,
Qualquer coisa.
Composição de Alice Ruiz, cantada por Arnaldo Antunes – Socorro/1998, Álbum ‘Um som’
Por indicação de um cinéfilo que admiro muito, resolvi assistir ao documentário americano ‘A Ponte’ (The Bridge). É uma produção de 2006 dirigida por Eric Steel que retrata ao longo do ano de 2004, filmagens posicionadas em dois pontos ocultos diferentes da ponte Golden Gate em São Francisco, Califórnia, nos Estados Unidos, de pessoas das mais diversas idades, gêneros, etnias, culturas, classes sociais, que decidiram tirar suas vidas naquele lugar, mais do que em qualquer outro lugar do mundo. São dados realmente alarmantes: naquele ano, mais de 24 suicídios puderam ser registrados.
Além das terríveis e desoladoras cenas das pessoas se jogando da ponte, a equipe de produção gravou várias entrevistas com amigos, familiares e testemunhas tentando dar alguma explicação sobre as possíveis motivações que levaram seus entes queridos a desistir da vida. São histórias que perpassam por depressão, abuso de substâncias e transtornos mentais.
A fala das pessoas próximas aos que cometeram suicídio parece expressar um grande e avassalador ponto de interrogação, pois jamais se saberá ao certo que fator ou fatores determinantes fizeram aqueles sujeitos não conseguirem vislumbrar nenhum tipo de saída para seus tormentos que não fosse a morte. Ainda mais triste é carregar sentimentos de culpa, remorso, impotência diante do que parecia ser inevitável. Os testemunhos que acompanhamos no documentário doem tanto quanto assistir ao momento do salto fatal. É angustiante pensar na vida dos familiares e amigos que muito pouco ou nada puderam fazer para impedir um fim tão trágico. Não importa quantos anos se passem, a pergunta sempre ecoa: Por que ele (a) não era feliz? Outras questões também surgem: O que fizemos para ele (a)? Onde erramos? Por que não vimos sinais? Por que não o (a) salvamos? São indagações que permanecem sem respostas.
Na época, o documentário provocou muita ira e indignação entre o público em geral, pois o diretor Eric Steel foi acusado de sensacionalismo por expor de forma tão crua um tema extremamente sensível. Polêmicas à parte, fato é que testemunhar pessoas se jogando da ponte, sem efeitos de borrões ou cortes, é realmente difícil de ver. Chega a ser indigesto. A vontade é de sair correndo e impedir o ato. Como espectadora, além da sensação incômoda de assistir uma pessoa real se jogar, pois você sabe que não é um ator ou atriz, nada foi possível fazer. A única coisa que resta é a reflexão sobre as muitas significações sobre vida e a morte.
Uma pessoa em especial me marcou demais: um senhor vestido com roupas confortáveis como se tivesse saído para caminhar numa linda manhã de sol. Vestia bermuda e camiseta, tênis, boné e óculos de sol. O clima era ameno e havia uma brisa refrescante. Ele se aproximou da ponte sem nenhuma cerimônia, olhou rapidamente para baixo, transpassou as pernas para o lado de fora e, como num ato simples e trivial, deixou seu corpo cair. Seu boné e óculos voaram no ar. Confesso que esta imagem perdurou por dias em minha mente.
Depois dessa experiência, permanece o convite a revisitar as razões que te faz viver, o que te fortalece, o que te mobiliza, o que, no fundo, te faz vencer a morte.
Certa vez escutei de uma paciente que lidava com a morte de perto, dizia ela, pois trabalhou por muitos anos em Unidade de Tratamento Intensivo, as conhecidas UTI´s. Afirmava com veemência: “Eu fazia de tudo para salvar uma pessoa! Queria o suspiro de vida! Aí sim eu me sentia bem. Porém, logo depois me perguntava: por que esta pessoa quer tanto viver?”.
Se pensarmos, é realmente uma questão pertinente. Deixo o convite à reflexão em aberto.
Bruna Rosalem
- Um último suspiro na Golden Gate Bridge - 16 de janeiro de 2026
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Psicanalista e professora. Natural de Campinas (SP), porém, atualmente reside em Balneário Camboriú (SC). Seu percurso na psicanálise começou na época do Mestrado, participando de dois grupos de estudo em Educação, Ciência e Psicanálise: Grupo PHALA (UNICAMP) e Grupo Universal (USP). Membro da Associação Psicanalítica de Itajaí, onde atua como professora. É mestra em Educação e Práticas Culturais (Unicamp), pós-graduada em Filosofia, Psicanálise e Cultura (PUC/PR) e História da Arte (Espaço Cultural A Coisa (SP). Realiza atendimentos e supervisão. Escreve para o Jornal Cultural ROL as colunas Psicanálise & Cotidiano, Cinema & Psicanálise e Crime & Psicanálise, sendo estas últimas em parceria com o escritor Marcus Hemerly. Também participa de Antologias, escrevendo contos e crônicas.


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