fevereiro 25, 2026
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O estranho, fantástico entre nós

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PSICANÁLISE & COTIDIANO

Bruna Rosalem:

‘O estranho, fantástico entre nós: a arte de narrar a vida por olhares impensáveis’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Imagem do saite do www.gettyimages.com.br

O cinema não tem fronteiras, nem limites. É um fluxo constante de sonhos.”
Orson Welles

É realmente incrível como o cinema consegue transmitir/expressar de maneiras tão diversas e, por vezes, curiosamente inusitadas, a partir de óticas incomuns, assuntos que participam das esferas social e cultural, trazendo dilemas cotidianos, dramas familiares e temáticas delicadas como doença, luto e morte.

Vivenciar essas experiências através de histórias absurdas e até impossíveis exige do espectador certa capacidade de suspensão de descrença, termo popularizado em 1817 pelo poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge. Isto é, para infiltrar-se na realidade ficcional é necessário aceitar as premissas da obra, mesmo que elas sejam contraditórias, improváveis, bizarras, excêntricas ou mirabolantes. É apostar em um caminho provável que permite ao espectador habitar a obra da mesma forma que ela participa do mundo compartilhado. Ao mesmo tempo em que se mergulha numa história contada por um viés diferente, esta integra e denuncia a complexidade do sujeito. Por estas e outras razões, é que somos tomados por uma sensação estranha/familiar, controversa, de saber que tal dilema ou drama existe, porém é retratado de modo estapafúrdio ou inquietante.

Falarei de algumas obras para trabalhar essa ideia. 

Começando por um longa australiano de terror bastante elogiado, ‘Bring Her Back’ (2025), ‘Faça ela voltar’. A premissa gira em torno da adoção de dois meio-irmãos por uma mulher que trabalha com acolhimento de crianças em situação de vulnerabilidade. Acompanhamos a adaptação destes irmãos na nova casa, onde lá também vive um menino que apresenta comportamentos bastante estranhos. Estes irmãos estão passando por um doloroso luto pela morte de seu pai, tentando adaptar-se à realidade que se apresenta. Acontece que a mãe adotiva também vive seu luto: sua filha morre acidentalmente na piscina. A mulher é tomada por um sentimento devastador de culpa e não há nada que a faça aceitar este terrível desfecho para sua amada filha. 

Apesar de o filme ser aterrorizante, com cenas gráficas de violência, apelando para o gore, muitas vezes, a história tem como plano de fundo a dor como narrativa. Um luto não trabalhado de uma mãe que sofre e definha gradativamente. A parte intrigante: ela congela a filha para realizar um ritual envolvendo sacrifício de outras crianças com o intuito de trazê-la de volta ao seu convívio. Embarcamos então em sentimentos conflituosos: nos compadecemos com sua dor, porém queremos salvar as crianças do ritual macabro.

Outra obra de terror e suspense com semelhante temática é o curioso longa escocês ‘A Dark Song’ (2016), ‘Vozes da Escuridão’. Aqui há também a perda de um filho de forma bastante dramática: ele é raptado por um grupo de adolescentes que fazem uma espécie de aposta, porém as coisas tomam outras proporções, e a criança acaba falecendo. A mãe desesperada, procura por um ocultista com o objetivo de trazê-lo de volta. Ela aluga uma casa bastante afastada da cidade grande, onde os dois passam meses confinados executando os ritos, sentenças e atividades requeridas para que o ritual possa se concretizar.

A trama retrata o sofrimento da mãe que além de ser corroída pela culpa, também se vê completamente impotente diante daqueles adolescentes que sequestraram seu filho. Conforme ambos se dedicam ao cansativo ritual, uma verdade é revelada: a mulher mentiu para o ocultista. Ela não busca o retorno do filho, mas vingança para os seus algozes. A partir disso, o filme ganha outros contornos, a tensão aumenta e o espectador embarca junto nesta angustiante mudança de direção que impacta o próprio ritual. 

Mais uma vez temos a temática do luto, da não aceitação, do sofrimento pela perda de um ente querido e o sentimento de vingança tão presente em todos nós. Este último, nem sempre passamos ao ato, porém permanece em nosso imaginário.

‘The Surrender’ (2025), algo como ‘A Rendição’, outro suspense bem avaliado e comentado pelo público, tem em sua premissa relações conflitantes entre mãe e filha. De opiniões muito diferentes uma da outra com relação à família, escolhas de vida, visão de mundo e a morte do patriarca, ela acabam parceiras em um projeto nada convencional: realizar um ritual para trazer o pai/marido de volta. Embora mais uma vez há um ritual presente, temos na trama diálogos bastante marcados entre mãe e filha que por vezes resgatam trechos da história de cada uma. São acusações de abandono, renúncia da vida familiar em busca de outros caminhos, uma vida dedicada em grande parte à doença do marido em detrimento de mais atenção à filha, cobranças de ambas por mais amor e afeto, além de ressentimentos que deixaram feridas ao longo dos anos. 

O conflito entre elas fica ainda mais intenso quando a mãe revela que para contratar um famoso ocultista, ela investe todas as suas reservas financeiras, inclusive a casa. Acompanhamos de um lado, a esposa totalmente perdida, desbussolada, que se vê sem propósitos para continuar vivendo sem o marido, sem fazer papel de esposa, negando a iminente solidão. De outro lado, uma filha dividida entre atender ao pedido da mãe em fazer o ritual juntas, unidas por uma causa ‘nobre’ compadecendo-se com sua dor e desespero, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a absurda decisão de entregar os bens da família em troca de ter o pai de volta. Um drama muito interessante envolto numa atmosfera obscura sobrenatural. O que pesa mais: renunciar aos bens para ter o pai ou aceitar sua morte?

Os próximos dois filmes a seguir têm a temática maternidade como ponto de partida.

‘Lamb’ (2021) é uma produção do tipo folk horror bem peculiar. Trata-se de um casal que na ânsia de ter um filho a qualquer custo passa a cuidar de uma criatura metade humana, metade ovelha. 

A mulher, quando a vê, logo nutre seu lado maternal, inclusive ajudando-a no parto. Ela faz de tudo para afastar sua real mãe, uma ovelha que permanece por dias em sua janela chamando seu bebê de volta. Enfurecida, a mulher mata a ovelha. Mais tarde, ela mostra à criança, já crescida, onde sua mãe biológica está enterrada. Mentiu a ela dizendo que morreu por causas naturais. 

Interessante um ponto do filme em que a presença do cunhado, irmão do marido, tenta colocar em xeque o que parecia ser um delírio a dois em chamar de filho aquela estranha criatura. Porém suas investidas não têm sucesso, e o casal continua a protagonizar a família perfeita. Depois de um tempo, a natureza cobra seu preço: o verdadeiro genitor aparece, ele metade homem, metade ovelha. Para vingar a morte da mãe, mata o marido, toma seu filho, deixando a mulher desolada e isolada nos confins das terras remotas islandesas em companhia de um silêncio ensurdecedor.

Para finalizar, temos um longa-metragem tcheco pouco conhecido pelo público em geral, ‘Little Otik’ (2000), também chamado por ‘Greedy Guts’. Talvez a mais estranha premissa até o momento: um casal com problemas de fertilidade passa a cuidar de um graveto como se fosse um bebê. O filme mistura comédia e drama numa atmosfera surrealista, bastante improvável. Há momentos em que tudo parece não passar de um surto ou alucinações de ambos personagens.

O filme é baseado em um conto de fadas ‘às avessas’. Se nos contos tradicionais lobos, ogros e bruxas ameaçam devorar crianças, o graveto criado como ente da família cresce demasiadamente, formando longos troncos fortes e raízes protuberantes e passa a querer devorar seus pais. Além de trabalhar a questão de uma maternidade paranoica levada até as últimas consequências, ‘Little Otik’ também assume a crítica à sociedade do consumo, à regressão infantil focada na oralidade onde objetos assumem dimensões fetichistas e mágicas com vistas a tamponar (o que é impossível) as frustrações.

A ideia deste texto foi apresentar outros modos de contar a vida através da linguagem do cinema. A experiência na tela nos faz mover na história como nos movimentamos no mundo e nos convoca a exercitar ‘pontos fora da curva’. As produções cinematográficas nos mostram como é possível trabalhar aquilo que é mais familiar nos dramas da vida narradas em diferentes cartelas, propostas, possibilitando aberturas para novas ancoragens na realidade, novas perspectivas, novos olhares e atravessamentos. É permitir-se embarcar nas entranhas do estranho.


Bruna Rosalem

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