Márcio José Zacarias: Conto ‘O mapa que chorava’


Numa noite silenciosa, quando a escola já dormia e o pó do giz repousava sobre as mesas, a sala de aula despertou para um diálogo inesperado.
O Mapa do Brasil, pendurado torto na parede, começou a soluçar. Suas cores estavam opacas, e pequenas gotas escorriam de seus pequenos olhinhos.
— Por que choras, Mapa? — perguntou a Lousa, cansada de carregar tantas palavras que ninguém mais lia até o fim.
O Mapa respirou fundo, como quem carrega séculos nas costas.
— Choro porque já fui orgulho — respondeu, deixando cair mais uma lágrima —, mas hoje sou esquecimento. Já fui verde, hoje sou cinza. Já fui esperança, hoje sou estatística.
A Carteira Escolar, marcada por nomes riscados, rangeu suas pernas enferrujadas.
— Estranho… todos sentam sobre mim todos os dias, contudo poucos se levantam para defender o que aprendem.
O Livro Didático, esquecido aberto na página do Hino Nacional, folheou-se com um vento leve e disse:
— Está tudo escrito aqui. Sempre esteve. Contudo letras sem ação são só tinta cansada.
O Globo Terrestre, rodando devagar sobre a mesa do professor, suspirou:
— Não é só contigo, Mapa. Muitos países giram sem saber para onde vão. Entretanto dói mais quando quem te gira são teus próprios filhos.
O Apontador, cheio de lascas de lápis ao redor, murmurou:
— Todo dia afiam ideias… mas quase ninguém as usa.
O Lápis, pequeno e gasto, levantou a voz:
— Eu ainda tento. Escrevo sonhos, protestos e poemas. Porém sou quebrado com facilidade.
O Apagador, coberto de pó branco, completou:
— E eu apago tudo no fim da aula. Ideias, promessas e indignações. O problema não é apagar… é não reescrever melhor depois.
O Mapa, pensativo, falou mais baixo:
— Já tive filhos que lutavam. Hoje tenho filhos que passam por mim sem me enxergar. Pergunto-me se ainda sou pátria ou apenas paisagem.
Nesse instante, o Relógio da Parede bateu uma hora lenta e solene, e disse:
— O tempo passa, Mapa. E deveras ele cobra. Sempre cobra.
O silêncio voltou à sala.
O Mapa aquietou-se, como uma criança adormecida.
A escola voltou a dormir.
Na manhã seguinte, alunos entraram, sentaram, copiaram e saíram.
No entanto um deles, antes de ir embora, olhou para o Mapa por alguns segundos a mais.
E isso, talvez, tenha sido o começo.
Moral: Um país não adoece por falta de palavras, e sim por excesso de silêncio diante delas.
Márcio José Zacarias
- O mapa que chorava - 28 de janeiro de 2026
- Vozes caladas - 6 de janeiro de 2026
Natural de Tupã (SP), conhecido no meio literário como Arthur Souto, construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação, a arte e a palavra como instrumento de transformação social. É graduado em Pedagogia, Letras, Artes, Educação Física e História, além de especializações em Alfabetização e Letramento, Neuropsicopedagogia, Matemática, Educação Inclusiva e Produção Textual. Atuou na Educação Infantil, no Ensino Superior e, atualmente, é professor efetivo do Ensino Fundamental I Como escritor, é autor de diversas obras que transitam entre a literatura infantil, a poesia e o romance, com destaque para Pé de Menina, A Fada do Pix — vencedora do Prêmio Ecos da Literatura 2024 como melhor livro original —, O Tumbeiro — eleito Melhor Romance de 2024 pelo Prêmio Book Brasil e finalista do Prêmio Pluma de Ouro—, Minha vida em versos e flores, Tonha, a Barraqueira. Seu trabalho literário e educacional já lhe rendeu homenagens pela Câmara de Vereadores das cidades de Tupã e Sorocaba. É membro da Academia Independente de Letras e da NAISLA – Núcleo Accademia Italiano di Scienze, Lettere e Arti, além de colaborar como escritor da Revista Adupé. Márcio José Zacarias acredita na palavra como ponte entre saberes, emoções e realidades.


Adorei seu conto, Márcio! Uma triste ‘radiografia’ do nosso país!
E o final do texto o coroou: “Moral: Um país não adoece por falta de palavras, e sim por excesso de silêncio diante delas”.
Esse silêncio é mais ensurdecedor do que o estrondo de um vulcão em erupção, pois abala o espírito humano!
Achei fantástico o conto!
Gostei muito! Meio Machado de Assis, não? Com a história da agulha e da linha…
Esse conto trás muitas reflexões de palavras e histórias esquecidas. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻