Ella Dominici: ‘O voo do poeta e os telúricos’


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O homem de espírito voa como quem pensa: não para fugir, mas para sustentar a contemplação. Nas alturas, a dúvida não é falha — é método. Ali, o pensamento se torna tempestade e constelação, e cada ideia parece um lance lançado ao invisível.
Quando desce, encontra os telúricos. Eles vivem no imediato como se fosse verdade absoluta. Diante do poema, fazem do incompreensível um escândalo e do silêncio uma acusação. O caos nasce menos do texto do que do medo: o medo de que exista algo que não se possa reduzir, medir ou pisar.
O homem de espírito é humilhado não por suas fraquezas, mas por suas asas. E o golpe mais cruel não atinge o corpo: atinge o sentido. Até que, por fim, a cena se desfaz. Já não há ave, nem plateia, nem vaia. Resta apenas o lugar — o branco — onde o voo não precisa ser aceito para existir. Ali, o poema permanece: inteiro no indizível.
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ella, em poucas linhas, você descreveu e delimitou o telúrico (adoro esta palavra!) e o transcendente, representado pelo voo nas alturas, de onde o poeta enxerga um horizonte que os olhos telúricos sequer vislumbram. E é lá, nas alturas, onde o poema, a poesia, como expressão do belo, mantém seus versos intangíveis para os que, daqui de baixo, se alimentam das ilusões!
O momento da leitura do seu comentário é intangível tal voo do poeta .Sempre agradecida por sua lucidez e sensibilidade,
Gratitude com carinho, Sérgio Diniz, nosso Editor mor.
Lindo. Parabéns.
Obrigada por sua leitura e interpretação, fico feliz!
Belíssimo texto!