Ella Dominici
‘O delírio é o último luxo:
Emma Bovary e Dom Quixote contra o mundo’


Tribunal do Delírio e do Real
Olho:
A sociedade perdoa o cinismo, mas não perdoa a imaginação. Por isso os sonhadores acabam sempre no tribunal do real.
Emma Bovary reconhece Dom Quixote sem precisar de apresentação. Ambos pertencem à mesma espécie rara: a dos que leram demais o mundo e, por isso, não conseguiram aceitá-lo como ele é.
Ele partiu a cavalo; ela permaneceu numa casa.
Mas os dois viajaram.
Dom Quixote enfrentou moinhos como se fossem gigantes. Emma enfrentou o cotidiano — esse monstro sem rosto que devora lentamente. Ele escolheu a loucura como honra. Ela escolheu o amor como saída. E ambos pagaram com a queda.
O que chamam de delírio, nos dois, talvez seja apenas recusa: recusa de viver dentro do possível, recusa de aceitar a moral pequena da época como destino. — uma tentativa de transformar a existência em romance, porque a realidade lhe parecia sem música.
Dom Quixote também foi ridicularizado. Também lhe disseram: “devia ter sido sensato”. Mas há uma pergunta que a sensatez não responde, e é a mesma que atravessa Emma até o fim:
vale a pena viver sem delírio?
Talvez o delírio seja, em certas almas, uma forma provisória de lucidez: uma janela quando o mundo fecha as portas. Por isso Emma escreve a Dom Quixote como quem pede aliança. Não busca consolo. Busca reconhecimento.
Ambos fracassaram na vida — mas triunfaram na literatura.
E é isso que os torna eternos:
não o erro, nem o escândalo, nem a morte,
mas a coragem de sonhar além do consentido.
Soneto de fechamento — Tribunal do Real
Chamaram de erro o excesso de horizonte,
e de virtude a resignação sem chama;
o mundo, que se diz tão vigilante,
condena o sonho quando o sonho inflama.
Dom Quixote ergueu-se ao riso dos caminhos,
Emma comprou auroras nas vitrines;
um viu gigantes onde havia moinhos,
outra viu céu no chão dos dias finos.
Mas toda época tem sua lei secreta:
perdoa o cínico, a máscara discreta,
e pune o coração que não se doma.
E assim tombaram — não por fraqueza ou sorte —
mas por quererem vida até na morte:
Sonhar é luxo… e o mundo não perdoa.
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ella, você escreve para leitores europeus! Na verdade, não escreve, pinta belíssimas Telas de Sonhos Literários!
Muito grata por sempre dedicar um singelo comentário, amigo editor Sérgio Diniz!