fevereiro 16, 2026
Entre máscaras e espelhos
Para Clóvis, meu pai
Da Síria para o ROL, Abdulla Issa!
De Porto Rico ao ROL, Mario Antonio Rosa!
A solidariedade performativa
Cumbres a medias
Joaquim e as cartas
Últimas Notícias
Entre máscaras e espelhos Para Clóvis, meu pai Da Síria para o ROL, Abdulla Issa! De Porto Rico ao ROL, Mario Antonio Rosa! A solidariedade performativa Cumbres a medias Joaquim e as cartas

A solidariedade performativa

image_print

Ramos António Amine

‘A solidariedade performativa: quando a ajuda exige testemunhas’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69928f07-03e8-832e-8bbc-e377675d2880

Num mundo que tende a expor tudo, torna-se urgente questionar a base moral que orienta a edificação dos alicerces da nossa convivência. A publicação, a partilha e a visualização converteram-se na linguagem convencionada de uma sociedade cada vez mais efémera. É neste contexto que a exposição deixou de ser exceção para se tornar regra.

O dever pelo dever cedeu lugar ao dever viral. A boa ação é captada e, em seguida, publicada com vista a visualizações e as visualizações tendem à monetização. É nesta lógica que se sustenta a solidariedade performativa: uma solidariedade que só se reconhece quando é filmada, fotografada ou exibida.

Movido pela honra mediática, o solidário performativo abandona o seu conforto e desloca-se em direção à vítima, seja ela das inundações, das cheias, das secas ou dos acidentes sociais, para dela se compadecer. Contudo, raramente vai só. Faz-se acompanhar de um quarto poder, ou de uma quinta coluna, no bolso, às costas, ou ainda às costas daqueles que o acompanham. Há, inclusive, quem se faça acompanhar por seguranças, como se a vítima transmitisse ameaça. É aqui que se consuma o aproveitamento mediático e, não raras vezes, político, por parte de indivíduos que se apresentam como detentores de elevada estatura moral.

O lema implícito do nosso tempo parece ser: “ajudo-te, sim, mas que tiremos uma fotografia”. O foco já não é a vítima, mas o mundo. O mundo deve saber quem ajudou quem, e quem foi ajudado por quem. Tudo isso impulsionado pela proliferação do ecrã digital, que seduz e reorganiza os critérios de reconhecimento social. As imagens bastam. A dor da vítima torna-se secundária.

Estou ciente de que não falta quem tente dissuadir-me, argumentando que não há problema algum em filmar uma boa ação e que, se os nossos antepassados não o faziam, era apenas porque viviam na idade da pedra. Tal argumento é facilmente refutável, na medida em que, mesmo neste tempo de exposição do absurdo, continuam a existir pessoas que realizam atos moralmente bons sem necessidade de os filmar para obtenção de gostos ou validação pública.

Reconheço também que a proliferação do ecrã digital contribuiu para a exposição de injustiças, desigualdades, pobreza e exclusão social. Nesse ponto, nada há a objetar. A denúncia pública pode ser um instrumento legítimo da consciência transformadora.

Entretanto, a solidariedade deveria seguir o mesmo fôlego da generosidade: dar antes de ser solicitado e oferecer sem exigir visibilidade. A ação filmada, quando se torna paradigma, tende menos à transformação do mundo e mais à exposição da nossa mediocridade moral. Ri-se do filmado, em vez de se combater o sistema que cria fossos e pune aqueles que neles caem.

É um fato que, o princípio mais profundo da natureza humana é o desejo ardente de ser estimado. Contudo, este princípio deveria conduzir-nos a ações boas em si mesmas. Uma ação boa em si é aquela que é realizada tendo em vista a intenção do sujeito. Aqui, nem o sujeito da ação, nem a consequência da ação assumem primazia. A intenção que precede o ato basta. Infelizmente, hoje, a boa ação clama por testemunhas.

A ajuda que sobrevive da exposição não cura; humilha. Não é oportuna; é oportunista. A solidariedade performativa é interesseira: mantém de pé o sistema que cria vítimas, enquanto simula combatê-lo. A ‘mão que dá’, que outrora era considerada mais nobre do que a que recebe, tornou-se hoje uma mão que exige testemunhas. Já não basta ajudar; é preciso provar que se ajudou.

Ramos António Amine

Voltar

Facebook

Ramos Antonio Amine
Últimos posts por Ramos Antonio Amine (exibir todos)

One thought on “A solidariedade performativa

  1. Ramos, você disse tudo, neste excerto: “A ação filmada, quando se torna paradigma, tende menos à transformação do mundo e mais à exposição da nossa mediocridade moral. Ri-se do filmado, em vez de se combater o sistema que cria fossos e pune aqueles que neles caem”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Acessar o conteúdo