Jorge Facury: Crônica ‘Um certo professor Jordão’


Estava na adolescência. Aula de educação física na escola Industrial ‘Sales Gomes’ da seresteira Tatuí.
Tarde de calor, daquelas de rachar mamona! Estávamos em uma atividade pra lá de esgotante e saí rapidamente para tomar um pouco de água numa torneira num ponto da quadra. Nem tinha começado a beber quando senti alguém me abraçando. Era o professor de educação física, chamado Jordão, uma montanha de músculos com aspecto imponente, que me abordou.
Não era um abraço confortante, mas, ameaçador. Ele disse:
– Está com sede? E emendou: – Acaso eu disse que podia tomar água?
Bem, ninguém me disse que era proibido! Se houvesse uma ordem expressa nesse sentido, com certeza eu gravaria, mas, não lembro disso. Foi naquela surpresa da presença abrupta dele que logo me vi sentenciado a 25 flexões de braço para ‘aprender’ a não desobedecer a sua autoridade.
A atmosfera educacional da época ainda se via aguilhoada pela cartilha militar. Sofri para fazer aquelas flexões sem ter matado a sede. Na mesma semana, o diretor me chamou à Diretoria. Queria saber se acaso era eu que assinava uma coluna no jornal INTEGRAÇÃO que ele acabara de ler e estava sobre sua mesa. Confirmei. Ele me deu parabéns. Jordão estava presente e, com certa surpresa, dirigiu-se a mim, inquirindo:
– Então é esse o seu negócio?
Só fiz sinal positivo com a cabeça, pois ele me inspirava certo temor. Ele deve ter pensado: “Como esse moleque fracote escreve assim, pra jornal?”
Afinal, eu tinha apenas 16 anos e escrevia sobre Ufologia e outros assuntos, numa coluna generosamente ofertada pelo editor José Reiner Fernandes.
O homenzarrão que tinha nome de rio, notadamente bíblico, um símbolo de águas fluídas, quis me condenar à secura! Que ironia da vida! O tempo passou. Como afinal passam as águas e as nuvens, e, claro, jamais poderia esquecer aquela abordagem única:
– Então, é esse o seu negócio?!
Jorge Facury
- Um certo professor Jordão - 17 de março de 2026
- O mudinho - 17 de fevereiro de 2026
- O seguimento da mestra - 4 de fevereiro de 2026
Natural de Tatuí (SP), e residente em Sorocaba (SP), é professor de História e escritor, com vários títulos publicados. Escreveu desde os 16 anos de idade em uma coluna semanal para um jornal de Tatuí, sobre Ufologia. Uma de suas publicações versa sobre um caso ocorrido em Sorocaba, em 1979, o ‘Caso Mariquinha’, que teve alcance internacional. É autor do projeto educacional Viva A Memória, implantado na escola Francisco Camargo César, que contempla histórias populares de bairros da Zona Norte de Sorocaba; autor de minibiografias, contos e um romance místico.

