fevereiro 17, 2026
Diário de um Inútil
O mudinho
Julgamento
Prazeres genuínos
Manifesto 2025
Sala de estar
Carta ao ministro
Últimas Notícias
Diário de um Inútil O mudinho Julgamento Prazeres genuínos Manifesto 2025 Sala de estar Carta ao ministro

O mudinho

image_print

Jorge Facury: Crônica ‘O mudinho’

Jorge Facury
Jorge Facury
Imagem criada por IA do chatGPT - https://jornalrol.com.br/wp-admin/post.php?post=78557&action=edit
Imagem criada por IA do chatGPT – https://jornalrol.com.br/wp-admin/post.php?post=78557&action=edit

Vila Hortência, bairro tradicional da interiorana Sorocaba, Estado de São Paulo, anos 80. Dos tantos moradores do bairro conhecido como ‘cebolância’, por predominância dos agricultores de origem espanhola, um homem comum chamava-se Júlio e, como tantos nessa vida terrena de Nosso Senhor, optou por viver só. Não procurou namoradas, quer dizer, até tentou, mas, no primeiro desengano, desistiu e preferiu a solidão.

Seu labor era árduo. Operário nas linhas de trem da Fepasa, cuidava das obstruções da ferrovia, removendo qualquer coisa que pudesse causar risco ao tráfego das locomotivas. Além de tudo, acertava diligentemente os calçamentos feitos de concreto com ferramentas pesadas que lhe exigiam força física e olhar observador.

Ganhar um apelido é coisa das mais fáceis deste mundo, pode acontecer com qualquer um. Júlio não escapou dessa. Chamavam-no ‘mudinho’, mas, isso tinha uma razão factível. Como todo bom cristão, frequentava igreja, mas, seu modo de ser chamava a atenção: sempre chegava no momento em que o culto estava se iniciando e sentava-se no último banco. Terminado o rito, se ausentava sem falar com ninguém, entrava mudo e saía calado. Assim ganhou o apelido.

No ambiente de trabalho não era diferente. Em 2014, aos 62 anos, passou mal em casa e foi levado de ambulância ao hospital. Ficou internado um bom tempo. Nem todos os dias os parentes podiam estar presentes, já que não arrumou mulher, nem filhos, isso rareava. Curiosamente, nos dias em que ninguém da família o assistia, e isso era quase sempre, um homem apresentável, de terno e gravata, entrava no quarto e se achegava ao seu leito, sem que ninguém da enfermagem o tivesse apresentado.

Ali, o visitante ficava em silêncio e Júlio, no mais das vezes, fechava os olhos. O visitante parecia tranquilo, sentado ali ao lado, mudo, sem nem ao menos dizer a que veio. Mudinho só observava e nada dizia, nem o visitante. Talvez fosse um religioso visitando enfermos, mas, mantinha um silêncio completo… E assim foi, por vários dias. Era um mutismo compartilhado, sem acordo conhecido. Após complicações clínicas, o acamado veio a óbito. Silenciou para sempre. E do ilustre visitante acompanhante, tão presente, elegante e silente, ninguém perguntou, nem veio a ser conhecido…

História narrada por Éderson Pena.


Jorge Facury

Voltar

Facebook

Jorge Facury
Últimos posts por Jorge Facury (exibir todos)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Acessar o conteúdo