Ramos António Amine: Conto ‘O terceiro sinal’


Decidida, sem retorno possível, a fuga da quinta, a mãe do miúdo guardou o plano em silêncio, como faz a guardiã dos avisos ignorados quando decide abrigar-se no espaço diário do pé.
Mas, na quinta, o silêncio também é vigiado.
Os filhos da quinta, zeladores da ordem e da aparência, já haviam disposto cães fardados junto da casa. Não vigiavam apenas corpos, vigiavam intenções. Queriam saber se a mãe conhecia o segredo enterrado: a morte do pai do miúdo.
E havia algo mais.
O nome do miúdo começara a circular entre eles. Não como futuro, mas como destino já decidido, uma oferenda para a próxima comunhão dos ímpios. Na quinta, até a inocência tinha função.
O miúdo, porém, crescia alheio ao desenho do seu próprio fim. Nada lhe faltava, excepto a imagem do pai, cuja ausência o consumia em silêncio.
Um dia, perguntou pelo pai.
A mãe não respondeu. Desviou o olhar e saiu. Ainda não era o momento da verdade, porque ali, a verdade podia matar antes da fuga.
Sem compreender, o miúdo voltou ao seu livro de Cândido, como se a quinta ainda pudesse ser explicada pelo otimismo de Pangloss.
Foi então que a mãe entendeu: já não havia tempo a perder.
Começou, cuidadosamente, a observar a quinta, como quem aprende o mapa de uma prisão: os turnos dos guardas, os passos dos informantes, o comportamento dos cães, a eletricidade dos arames.
A quinta, que antes era abrigo, tornara-se ameaça.
Durante dias, nada aconteceu. Mas, por dentro, tudo já tinha começado a ruir.
Até que veio a festa.
Era uma celebração dos filhos da quinta, do luxo construído sobre trabalho invisível. Montou-se uma tenda gigante. Um grande alpendre foi erguido no centro e, ao fundo, um altar com um cálice rachado. Um ritual sem fé, mas cheio de poder.
Vieram ímpios de outras quintas. E, com eles, as suas prostitutas. Não vieram os lavradores, nem os garimpeiros, nem aqueles que sustentavam tudo.
O miúdo foi designado para o incenso.
A mãe, para o portão.
E, nesse instante, ela soube: não era apenas um ritual, era uma preparação. O miúdo já não era apenas uma criança. Era escolha.
Tocou no portão.
O portão respondeu com um choque elétrico. Não era apenas uma barreira, era prisão.
A cerimónia começou sob a direção de um monge cego e mudo. E ninguém pareceu estranhar. Na quinta, já ninguém esperava ver ou ouvir a verdade.
O miúdo saiu da tenda com o incensário.
E então, tudo se desfez.
Um convidado embriagado deixou cair o cálice. Aquele que pousava no fundo do altar. E pior, rachado. O som seco abriu o caos.
Gritos. Empurrões. Acusações.
Os cães fardados foram soltos. Os informantes da bófia dispersaram-se. Por instantes, a ordem na tenda falhou.
A mãe não correu de imediato.
Esperou pelo momento exato da brecha.
Depois chamou o filho com um gesto urgente.
Ele veio sem hesitar, trazendo consigo O Cândido e A Rebelião das Massas nas mãos.
Segurou-o com força.
E fugiram.
Não pelo portão, mas por uma falha, um espaço esquecido pela vigilância.
O alarme soou, mas já era tarde.
Dentro da tenda, a confusão ainda engolia tudo.
E, pela terceira vez, a quinta falhou.
Do lado de fora, não havia liberdade.
Havia poeira, fome e um mundo sustentado por aquilo que a quinta escondia.
A mãe chorou, não por medo, mas por confirmação.
A quinta não era um lugar.
Era um sistema.
E estava em todo lado.
Os primeiros dias foram duros. O miúdo pediu para voltar.
Ela recusou:
– Melhor livre a procura de lixo na rua ao luxo na gaiola de ouro.
E não voltou.
Quando lhe perguntavam o nome, respondia:
– Chamem-me prostituta ressuscitada.
Porque, naquele mundo, sobreviver já era resistência.
E ela já não pretendia apenas sobreviver.
Pretendia voltar, não para viver na quinta,
mas para a fazer cair.
Passou a ocupar um lugar tão insignificante quanto contraditório na ordem social: visível, mas não reconhecida; usada e depois descartada; tolerada no discurso, mas rejeitada na práctica.
Passou a denunciar aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e pune quem neles cai.
Ninguém ousou questionar como ela chegou ali. A pergunta que sempre surge é outra: por que não sai da prostituição?
Como se sair fosse apenas uma questão de vontade, e não de oportunidade. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a injustiça não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram.
No fundo, ela não pede absolvição aos ímpios. Reclama a humanidade que há de fazer cair a quinta.
Ramos António Amine
- O terceiro sinal - 13 de abril de 2026
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- Os filhos da quinta - 18 de março de 2026
Ramos António Amine é moçambicano, formado em Ensino de Filosofia. Lecciona a disciplina de Filosofia em Massangulo, na província do Niassa. Dedica-se à escrita de poesia crítica e de textos literários marcados pela reflexão filosófica e social. Tem textos publicados na revista Uphile. Possui vários artigos científicos publicados no site webartigos.com. É colunista do Jornal Destaque, onde assina artigos de opinião. Produz ainda vídeos de teor poético, nos quais cruza palavra, pensamento e sensibilidade estética. A sua escrita dialoga com os dilemas contemporâneos da sociedade moçambicana.

