abril 25, 2026
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O quarto sinal

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Ramos António Amine: Conto ‘O quarto sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69ec0679-4970-83e9-86fd-6c282a77a74c
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A fuga da mãe e do miúdo passou despercebida aos olhares impávidos dos filhos da quinta. Os ímpios encontravam-se em festa, apesar da confusão instalada no interior da tenda, que culminara na queda do cálice sobre o altar da hipocrisia.

Após o último gole do vinho que sustentava a celebração, o monge, com gestos incomuns, solicitou o incensário para a bênção final. Foi então que os ímpios se recordaram: o incensário havia sido levado pelo miúdo, logo após a bênção inicial.

O miúdo não estava presente. Nem a mãe.

Um silêncio denso instalou-se. Para quebrá-lo, ergueu-se um assobio, um só, suficiente para convocar todos os cães fardados.

Vieram as filhas da quinta, trémulas. Vieram os cães fardados. Vieram os informantes da bófia, os garimpeiros, os lavradores. Até a guardiã dos avisos ignorados se fez presente.

Menos a mãe e o miúdo.

A ausência despertou inquietação entre os ímpios.
Onde estão?

A resposta foi um silêncio ensurdecedor.

Assim, a festa que começara sob a exibição da luxúria e da comunhão dos ímpios terminou com uma bênção sem incensário. Afinal, o miúdo era a oferenda dos filhos da quinta aos convidados, e o incensário, apenas o pretexto.

Declarou-se, então, a caça.

Uma rusga foi lançada em direção ao resgate do miúdo e da mãe.

A quinta foi reforçada. Novos arames farpados foram erguidos. A altura dos muros aumentou. A eletrificação do portão foi intensificada.

Os filhos da quinta permaneceram sob custódia da nova guardiã dos avisos ignorados, uma figura oferecida pelos ímpios convidados, trazida numa sacola triste.

Aos lavradores foram atribuídas porções maiores de terra, para que o cansaço lhes roubasse o tempo e, com ele, qualquer tentativa de fisgar o coração de uma das filhas da quinta, como sucedera com a mãe refugiada.

Aos garimpeiros impôs-se uma dívida eterna: pagariam pela morte do pai do miúdo, morto por ambição desmedida após encontrar ouro de valor ímpar. A dívida seria saldada na mina do Diabo, nas profundezas da quinta, sob exploração incessante, sem remuneração e vigiados pelos informantes da bófia.

Recrutaram-se novos cães fardados, mais jovens e de faro apurado. Os antigos foram expulsos e condenados a vaguear pelo mundo, à procura da mãe e do miúdo, agora como cães vadios.

Nenhuma punição recaiu sobre os filhos da quinta. Afinal, eram peritos em não sujar as mãos.

A caça estava declarada.

Enquanto isso, longe dali, a mãe, agora prostituta ressuscitada, enfrentava os piores solavancos da sua vida.

Sem teto. Sem alimento. Sem água sequer para a pureza do corpo.

Naquele novo mundo, tudo escasseava, excepto o sexo. O sexo, esse, fora elevado à condição de negócio mais rentável.

Diante disso, decidiu reinventar-se.

Tomou emprestado de uma amiga, também desalojada após a morte do marido, uma calça de pernas apertadas, uma blusa curta que mal lhe cobria o umbigo, um par de sapatos de salto alto, alguns cosméticos e um relógio simples para controlar o tempo.

E seguiu em direção ao prostíbulo.

Pela primeira vez, deixou o miúdo entregue ao destino, o mesmo destino que fora cruel com o pai.

Nos primeiros dias, enfrentou a resistência das outras mulheres. Chamaram-lhe velha. Intrusa. Indesejada.

A tensão só cessou com a intervenção do dono do prostíbulo.

O dono, um dos ímpios que estivera presente na festa da quinta. O mesmo cuja ação precipitada na tenda provocara a queda do cálice e, por consequência, a fuga da mãe e do miúdo.

Agora, ali estava ele.

E não a reconheceu.

Ela, porém, reconheceu-o sem hesitação.

A sua presença ajustou-lhe as intenções.

O destino, caprichoso, quis que o seu primeiro cliente fosse um rosto familiar: o monge.

Já não parecia velho. Já não era cego. Já não era surdo.

Nada do que fingira ser na tenda permanecia.

Atraído pelos seios firmes da recém-chegada, o monge escolheu-a. Naquele espaço, a novidade era sempre um atractivo e ele apreciava medir territórios ainda não explorados.

Ignorava, porém, que diante dele não estava apenas mais um corpo à venda.

Estava a memória viva daquilo que fingira não ver.

Na casa onde tudo obedecia a regras invisíveis, a prostituta ainda não conhecia os seus limites. Quando o monge a procurou, não recusou. Não por desejo, mas por hábito antigo, feito de sobrevivência e resignação.

Depois do acto apressado, ele levantou-se com a leveza dos que nunca ficam. Disse que ia buscar cigarros, como se o fumo pudesse justificar a impotência. Saiu. E não voltou.

Ficou o quarto. Ficou o cheiro. Ficou a ausência, essa presença mais pesada do que qualquer corpo.

Ela percebeu, então, que não haveria pagamento pelo serviço prestado. Nem palavra, nem responsabilidade, nem vestígio de moral. O monge, homem de fé na aparência e de corrupção nos gestos, dissolvera-se na noite. E, como rumor ainda mais amargo, sabia-se que mantinha ligações com o dono do prostíbulo, alianças silenciosas entre homens que vestiam virtude como máscara.

Saiu à sua procura. Não por esperança, mas por necessidade de sentido.

As outras mulheres perceberam. Já conheciam aquele tipo de abandono. Ainda assim, riram-se. Não por crueldade consciente, mas por desgaste, como quem já não distingue a dor dos outros da própria indiferença.

Mas nela o riso não encontrou eco. Encontrou forma.

Algo se endureceu por dentro. A humilhação deixou de ser ferida e tornou-se direcção. Já não queria apenas o monge. Queria o colapso de tudo o que o sustentava: a quinta, os homens, a ordem invisível dos ímpios.

Quando regressou, trazia o peso de quem já procurou demais e encontrou apenas vazio. Sentou-se em silêncio. E deixou a pergunta que nasceu inevitável: por quê?

O filho aproximou-se e enxugou-lhe as lágrimas. E nesse gesto simples, quase imperceptível, aprendeu uma verdade sem nome: as lágrimas de uma mãe não são como as de crocodilo.

O filho cresceu sem nome, sem pai, sem escola e sem Deus. Cresceu a observar o mundo de fora. Um dia viu uma carrinha levar crianças da sua idade para a escola. Enquanto uns eram conduzidos ao futuro, outros nem sequer sabiam que ele existia.

Ainda assim, o mundo encontrou forma de chegar até ele. Fragmentos de línguas antigas e estrangeiras: latim, alemão, francês, inglês, tiveram lhe atravessado a vida lá na quinta como restos de uma ordem maior que nunca o incluiu.

Depois veio a rua.

A rua não o rejeitou. Absorveu-o. Tornou-se parte do que sobra. Aprendeu a viver entre restos, a abrir sacos como quem abre destinos. E havia nisso uma ironia cruel: os mesmos lixos que lhe garantiam sobrevivência eram admirados por altruístas performativos como paisagens curiosas da pobreza.

A mãe, por sua vez, afundava-se cada vez mais no prostíbulo, não por escolha, mas por perseguição. Havia nela uma obsessão: encontrar o monge, obrigá-lo a olhar com a lâmpada acesa para aquilo que tinha deixado para trás.

Na rua, o rapaz encontrou os que já não perguntavam “porquê”. Mas dentro dele ainda havia resistência.

Até que encontrou o limite.

Num contentor, entre restos sem nome, viu um recém-nascido morto, apertado num saco de plástico. Não disse nada. Guardou o silêncio, como se tivesse herdado o peso do mundo.

Noutro contentor, encontrou comida ainda boa. E pensou no absurdo: o que uns descartam como excesso, outros disputam como sobrevivência.

Começou então a questionar tudo. A mesma sociedade que ridiculariza os que falam sozinhos na rua celebra aqueles que decidem destinos com uma assinatura.

Um dia, cansado, deitou-se sob uma árvore cujas flores pareciam desistir antes de cair. Da sua sacola, retirou um livro: Cândido. Leu e encontrou Pangloss, com o seu otimismo insistente, quase ofensivo diante da realidade.

Mas ali compreendeu: não bastava aceitar o mundo como o melhor possível. Era preciso enfrentá-lo.

O sol desaparecia quando um padre se aproximou. Chamou-o sem pressa, sem julgamento.

O rapaz abriu os olhos.

Tinha o corpo cansado de restos, mas a consciência inquieta de quem já não cabe no lugar onde está.

Levantou-se.

E seguiu.

No santuário da Nossa Senhora, deram-lhe um novo nome, ou talvez apenas um novo lugar.

E assim, o quarto sinal cumpriu-se: não como resposta, mas como início de uma outra forma de dúvida.


Ramos António Amine

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