CINEMA EM TELA
Marcus Hemerly
‘A Arquitetura da Exaustão: Patologia da Normalidade, Subjetividade e Pressão Conjugal no Cinema’

A Arquitetura da Exaustão: Patologia da Normalidade, Subjetividade e Pressão Conjugal no Cinema
Nota-se, a partir de uma análise sobre a ressonância dos movimentos femininos na evolução histórica, que a década de 1970 representa um marco de fratura na representação do feminino. Longe do glamour apaziguador da Hollywood clássica ou do melodrama complacente das décadas anteriores, o cinema dos anos 70 tornou-se um sismógrafo das angústias estruturais de uma sociedade em transição.
Neste escopo analítico, de forma curiosa, assoma uma relevante dissecção sociológica e estética de duas obras que, embora geograficamente distantes, dialogam de forma simbiótica: o estadunidense ‘Uma Mulher Sob Influência’ (A Woman Under the Influence, 1974), de John Cassavetes, e o brasileiro ‘Inquietações de uma Mulher Casada’, de 1979, dirigido por Alberto Salvá.
Ambas as produções escrutinam as profundas fissuras que emergem quando o indivíduo feminino é coagido a habitar um molde social padronizado e, de diferentes formas, repressivo, expondo o custo psíquico e emocional da adequação aos papéis conjugais impostos. Para compreender a densidade dramática das duas protagonistas femininas — Luiza, na trama brasileira, e Mabel, no filme do mago do cinema autoral independente, o versátil Cassavetes —, é imperativo traçar um breve panorama sociológico em que estão inseridas.
A década de 1970 foi atravessada pela consolidação de importantes pautas feministas, mas as estruturas de poder e o microuniverso familiar operavam, predominantemente, sob uma inércia patriarcal opressiva, assentada na mentalidade não apenas masculina, mas de reverberações unificadoras do pensamento em ambos os extremos do continente.
Com o olhar voltado ao contexto norte-americano, nota-se que a classe trabalhadora e média lidavam com a ressaca dos movimentos civis dos anos 60. Contudo, o espaço doméstico permanecia como um monumento do conservadorismo, a despeito das inovações em várias vertentes das artes que dissonavam das realidades de pensamento arraigado social.
A mulher deveria ser a âncora emocional de um lar estável, uma anfitriã impecável e uma mãe abnegada. Qualquer desvio dessa rotação era rapidamente problematizado pela sociedade civil e médica, refletindo um viés que elevava a um tom patológico, por assim dizer, episódios de inadequação feminina ao estereótipo esperado e incutido pela visão mais rasa do “papel” da mulher no âmbito doméstico, o que, por fim, acabava por confiná-la naquele espaço.
No Brasil, de forma similar, o ano de 1979, data da produção de Salvá — que contava com a participação de Nuno Leal Maia e Otávio Augusto (no papel do marido) —, marcava o período de abertura supostamente gradual da Ditadura Militar. O país operava sob os reflexos de uma profunda crise econômica, que encerrou as ilusões do “Milagre Econômico”, e de um moralismo institucionalizado pela censura, pelas tradições religiosas e sua ressonância cultural. Vale lembrar que, de forma anacrônica, o divórcio só havia sido melhor tratado pela legislação brasileira em 1977, pela entrada ao universo jurídico da Lei nº 6.515/1977.
A partir dessa premissa, o núcleo comum entre essas duas realidades aparentemente distantes reside na exigência social do que Erving Goffman chamaria de “representação” ou performance dentro de um grupo. Tanto no subúrbio operário americano quanto na classe média urbana brasileira, a mulher estava submetida a uma adequação compulsória.
O custo psicológico de manter essa performatividade, ou dita “normalidade” exigida pelo casamento e convenções sociais, resulta, invariavelmente, em ansiedade crônica, desestabilização emocional e em uma alienação de si mesma que, nesse contexto e por tais pressões catalisadas, descortinavam implicações sobre a saúde psíquica. Um mal que era criado e abafado pela dita “sociedade tradicional”, que marginalizava, de forma conveniente, qualquer manifestação não ortodoxa dos reflexos patriarcais que ainda se institucionalizavam.
As personagens Mabel Longhetti (Gena Rowlands) e Luiza (Denise Bandeira) são arquétipos de uma mesma sintomatologia: o colapso diante da coerção doméstica. Elas vivenciam um conflito dilacerante entre os seus desejos individuais e a opressão quase robótica das expectativas sociais. Mabel, de *Uma Mulher Sob Influência*, é uma mulher cuja excentricidade, afeto transbordante e vitalidade desajeitada não cabem no roleplay de esposa e mãe da classe trabalhadora.
O filme de Cassavetes brilhantemente ilustra que a sua “loucura” não é primariamente uma condição psiquiátrica inerente, mas sim uma reação à pressão insuportável para agir de forma tida por normal. Seu marido, Nick, interpretado pelo sempre ótimo Peter Falk, a ama, mas é incapaz de suportar o peso do julgamento social sobre o comportamento da esposa, materializado pela pressão velada de seus colegas de trabalho, família e vizinhos, que criam o sustentáculo de seu imposto espaço de vivência. A interação no casamento é uma tentativa falha de adequação mútua, na qual Mabel tenta, de forma robótica, agradar e executar o papel esperado; e quando falha, seu colapso emocional é inevitável.
Luiza, por sua vez, aparentemente vive em completa harmonia com o marido truculento e em seu assumido papel de provedor, mas enfrenta uma constante angústia inominada. Inserida no conforto burguês brasileiro, sua inquietação surge do vazio existencial nascido a partir de suas contemplações individuais, quando paralelizadas ao que, externamente, lhe é imposto pelo marido e por sua própria família, que espelham seu comportamento como constantemente inadequado, construindo assim uma estrutura sempre próxima de ruir.
Ela tem o casamento estável e a posição social delineada, mas isso a sufoca sob o verniz da respeitabilidade. A maneira como ela lida com essa desestabilização emocional diverge da explosão histriônica de Mabel. Luiza interioriza o tédio e a lacuna de estímulos, até que ela se transforma em uma transgressora latente, o que, por fim, acaba se corporificando num encontro amoroso extraconjugal. Sua busca por autoafirmação ocorre contra as limitações domésticas, explorando sua própria identidade e sexualidade para além do marido provedor, desafiando a estrutura ditatorial doméstica.
Curioso perceber que, em ambas as películas, o argumento central repousa na ideia de que a “normalidade” não é um estado natural, mas um trabalho forçado. A ansiedade é o sintoma da discrepância entre quem elas são e quem elas devem aparentar ser, o que, de forma inarredável, causa o rompimento com seu modus vivendi. Esse olhar mais intimista é um tópico fértil ao cinema independente de Cassavetes. A análise sociológica desses conflitos seria incompleta sem observar como a linguagem cinematográfica articula esse mal-estar.
John Cassavetes, frequentemente considerado o patriarca do cinema independente norte-americano, desenvolveu uma metodologia de direção que é estruturalmente avessa à artificialidade de Hollywood, quando comparada às produções mais comerciais. O que, no contexto brasileiro, seria aproximado ora a derivações do cinema marginal, no âmbito temático, ora do cinema novo, no plano estético — ainda que, erroneamente, tais movimentos sejam considerados díspares.
Nesse passo, o estilo de cinema implementado por Cassavetes caracteriza-se pelo uso intenso de câmera na mão e primeiros planos fechados, gerando uma atmosfera claustrofóbica que mimetiza o confinamento psicológico da protagonista, o que se mostra intenso no filme ‘A Morte de um Bookmaker Chinês’ (1976). O recurso intensifica, por óbvio, a verossimilhança emotiva da diegese cênica, contribuindo para a concatenação de atuações viscerais, repletas de improvisação e sobreposições de diálogos. A ausência de marcas de atuação rígida permite capturar a crueza e o embaraço da inadequação social em tempo real, o que afasta a cena proposta de qualquer aparência de artificialidade.
Outro recurso mais centrado no cinema por ele proposto é traduzido pelo tempo dramático estendido, como em cenas longas que induzem o espectador a vivenciar o desconforto das interações, retirando a válvula de escape da montagem clássica a partir de hiatos emotivos. Novamente, é interessante notar como a pertinência das reflexões levantadas por Cassavetes e espelhadas na narrativa de ‘Inquietações de uma Mulher Casada’, filmes aparentemente distintos numa primeira mirada, descortinam um entrelaçar temático convergente: a audácia de despir o “ente feminino” das idealizações fílmicas.
A lente de Cassavetes recusa-se a fetichizar a loucura ou a domesticação de Mabel. Ao revés, ele documenta com uma compaixão clínica o que é infligido à personagem, pois, diferentemente de Luiza — que mesmo oprimida consegue se impor ao que lhe é impingido, ainda que gradualmente —, Mabel cede frente confrontada por suas próprias inquietações e influências, sem reduto de escapatória. Em tom de complemento, em seu brilhante trabalho, Rodrigo Desider Fischer, define a linguagem de Cassavetes como:
“(…) determinada não só pelo enredo ou pelo roteiro, mas também pelas atitudes dos atores em relação às suas personagens. A atuação é também um fator determinante do discurso da obra, concretizando outros caminhos para uma leitura visual, sonora, sinestésica, imagética e cognitiva. Ao assistir a um filme de Cassavetes é possível fazer inúmeras leituras não somente por se tratar de uma obra complexa, de uma linguagem ousada ou de um roteiro bem elaborado, mas, sobretudo, por privilegiar o trabalho dos atores.
Dessa forma, os atores potencializam a obra e possibilitam que ela alcance mais complexidade, ambiguidade e profundidade de percepção, desencadeando também novos rumos dramatúrgicos” (O corpo no cinema de John Cassavetes e sua importância para o trabalho do ator contemporâneo, disponível em: https://revistas.usp.br/pesquisator/pt_BR/article/view/36117/38838.
De outro lado, em 1979, Alberto Salvá filma um drama intimista centrado numa dona de casa de classe média, casada com um advogado de sucesso (Otávio Augusto) e atrapalhada por uma crise nervosa que desencadeia desacordos conjugais e a tentativa de uma viagem de reconciliação que logo se desvia pelo desejo. O filme não se insere em nenhum dos grandes movimentos estéticos enfáticos daquele momento, seja a consolidação histórica do Cinema Novo, ou das pornochanchadas, mas um drama psicológico urbano que olha para a intimidade burguesa com um realismo discreto, bem como a atenção à subjetividade feminina e à crise de identidade da mulher casada em meio às pressões de um casamento de classe média, ressaltando a já mencionada tensão entre conformidade social e o desejo de ruptura. Válvula motora também correlata à exaustão de colapso da personagem de
A despeito de tal proposição, o título menos falado e conhecido, dialoga na evolução histórica com o hiato da produção nacional intensificado no governo Collor (extinção da Embrafilme e Concine), e a a dita retomada do cinema brasileiro, quando o Estado volta a financiar cinema e a produção recupera um mínimo de continuidade institucional
Percebe-se que essas obras permanecem como documentos vitais na história da arte, expondo de maneira, de um lado, mais técnica e sensível, e de outro, mais escancarada e sem afagos, que a “adequação”, quando imposta como imperativo categórico para a manutenção das engrenagens sociais e conjugais, opera como uma violência institucional silenciosa.
E no silêncio e aparente segurança doméstica, muitas das piores sevícias já foram engendradas, inclusive, não raro, de forma sistemática. Os corpos e mentes de Mabel e Luiza funcionam como campos de batalha, lembrando ao espectador que a performance da normalidade e adequação imposta cobra um preço altíssimo daquelas que ousam transcender a fronteira de suas próprias vontades. E, por que não dizer, identidades.
Marcus Hemerly
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Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 1989. Formado em Direito, é servidor do Poder Judiciário do Estado do Espírito Santo. Dr.h.c em literatura. Autor das obras solo “Verso e Prosa: Excertos de Acertos”, “Versos e Anversos”, “Alvéolos da Alma”, e coautor em antologias poéticas e de contos. Membro de Academias Literárias, recebeu prêmios e comendas. Pesquisador independente de cinema, precipuamente sobre os temas “Cinema Marginal Brasileiro” e “Horror Italiano”, é colunista de cinema, contribuindo para sites e jornais eletrônicos.

