A sociedade moderna descobriu uma matéria-prima infinitamente abundante e perigosa: a nossa própria falta de tempo e excesso de telas!

Havia um preço para tudo, inclusive para aquilo que nunca existira. Essa foi a primeira descoberta do século que transformou a ausência em ativo, o desejo em patrimônio, a expectativa em investimento e a própria possibilidade de existir em mercadoria futura.
Ninguém sabia exatamente quando começara, porque começos eram coisas antigas, pertencentes a épocas em que ainda se acreditava em causalidade, origem, destino. Agora tudo simplesmente acontecia, ou melhor, era disponibilizado para acontecer.
A existência deixara de ser acontecimento e passara a ser interface. Respirava-se mediante atualização. Pensava-se sob demanda. Desejava-se por recomendação algorítmica. Morria-se, quando possível, sem interromper completamente a circulação dos dados.
O inexistente possuía cotação.
Era possível comprar aquilo que ainda não acontecera, vender aquilo que jamais aconteceria, especular sobre aquilo que ninguém sabia nomear e atribuir valor ao vazio desde que o vazio apresentasse alguma possibilidade de rentabilidade.
O mercado descobrira uma matéria-prima infinitamente abundante: a falta.
Não havia escassez de ausência. Quanto menos havia, mais se desejava. Quanto mais se desejava, mais se pagava. Quanto mais se pagava, mais a ausência se tornava real.
E assim nasceu uma das maiores aberrações da espécie: transformar o nada em propriedade e depois convencer o nada de que ele devia alguma coisa.
A humanidade, depois de séculos tentando compreender o ser, finalmente descobrira o negócio do não-ser.
Não havia mais necessidade de possuir. Bastava prometer. A promessa era mais leve, mais rápida, mais rentável.
Possuir implicava responsabilidade; prometer implicava circulação. A promessa podia ser atualizada, reformulada, reembalada, reprecificada. O objeto era pesado demais para uma civilização obcecada pela velocidade.
O futuro, entretanto, não pesava nada. Podia ser carregado no bolso, comprimido numa tela, vendido em parcelas, apresentado em gráficos coloridos, convertido em expectativa.
O futuro tornou-se um produto sem entrega.
E talvez tenha sido nesse momento que a existência começou a apodrecer de maneira elegante.
Não havia cadáveres nas ruas. Havia perfis. Não havia ruínas visíveis. Havia versões. Não havia silêncio. Havia notificações.
O mundo não terminara; apenas fora continuamente substituído por representações mais eficientes de si mesmo. A realidade, cansada de ser realidade, terceirizou sua própria aparência.
Tudo era mais importante quando parecia ser.
A aparência tornara-se uma forma superior de ontologia. Ser significava aparecer. Não aparecer significava inexistir. Existir sem registro era quase uma obscenidade metafísica.
Uma vida não fotografada, não comentada, não compartilhada, não transformada em narrativa pública parecia suspeita, talvez até incompleta.
A antiga pergunta filosófica — por que existe algo em vez de nada? — fora substituída por outra, muito mais adequada ao século XXI: por que alguém deveria acreditar que você existe se não há dados suficientes para comprovar?
A alma foi substituída pelo histórico de atividades.
A consciência virou painel.
A memória virou armazenamento.
A identidade tornou-se senha.
O indivíduo, essa antiga ficção de interioridade, foi gradualmente transformado em pacote de informações negociáveis.
Havia quem ainda insistisse em dizer “eu”, mas o pronome parecia cada vez mais uma empresa em processo de fusão.
O eu possuía métricas, índices, avaliações, desempenho, reputação, alcance. Havia um eu profissional, um eu doméstico, um eu social, um eu desejável, um eu aceitável, um eu monetizável e, escondido atrás de todos eles, talvez existisse um eu clandestino, aquele que ninguém conhecia e que por isso mesmo parecia o último resíduo de liberdade.
Mas esse resíduo também estava à venda.
O mercado sempre chega atrasado à filosofia e, justamente por isso, consegue transformar seus conceitos em produtos.
A liberdade foi vendida como escolha.
A autenticidade foi vendida como estilo.
A felicidade foi vendida como experiência.
A rebeldia foi vendida como estética.
A tristeza foi vendida como conteúdo.
A solidão foi convertida em nicho.
Até o sofrimento recebeu embalagem.
Nada escapava. Nem mesmo aquilo que antes servia para denunciar o sistema acabou fora do sistema.
A crítica transformou-se em categoria. A indignação ganhou audiência. O desespero recebeu patrocínio.
A angústia passou a ter público-alvo. O absurdo encontrou patrocinadores.
Talvez esse tenha sido o triunfo definitivo da civilização: conseguir transformar a própria consciência de sua ruína em oportunidade de negócio.
Não se tratava mais de esconder a decadência. Era preciso administrá-la.
A sociedade descobrira que uma pessoa pode sobreviver por muito tempo sem esperança, desde que possua metas.
Metas são pequenas esperanças burocratizadas.
O objetivo substituiu o sentido.
O desempenho substituiu a dignidade.
A produtividade substituiu a existência.
E ninguém precisava mais perguntar para onde estava indo. Bastava apresentar resultados.
Havia gráficos subindo enquanto a vida descia.
Havia relatórios positivos em meio a pessoas internamente negativas.
Havia crescimento em lugares onde ninguém conseguia respirar.
O mundo estava funcionando.
Esse era o problema.
Funcionava perfeitamente.
A máquina não precisava de felicidade. Precisava de funcionamento. Não precisava de sujeitos realizados. Precisava de sujeitos disponíveis. Não precisava de pessoas livres. Precisava de pessoas conectadas.
Conectividade era a nova palavra para designar uma prisão sem paredes.
Ninguém estava obrigado a permanecer conectado, naturalmente. A obrigação havia se tornado desnecessária.
A compulsão fora internalizada. O indivíduo carregava a cela consigo. Levava-a para a cama, para a mesa, para o trabalho, para o transporte, para os momentos de descanso. Até o descanso precisava produzir algum tipo de evidência.
Descansava-se para produzir melhor. Dormia-se para render mais. Exercitava-se para prolongar a produtividade. Lia-se para aumentar desempenho. Viajava-se para produzir memórias publicáveis.
Até o ócio precisava justificar sua existência.
O nada não podia simplesmente ser nada.
Era preciso monetizá-lo.
Talvez por isso o inexistente tenha adquirido tanto valor.
Aquilo que não havia acontecido era infinitamente manipulável. Não possuía resistência. Não podia contestar. Não podia exigir coerência. Não podia denunciar o fracasso.
O inexistente era o trabalhador perfeito do imaginário econômico porque nunca reclamava das condições de trabalho.
Vendiam-se cidades que ainda não existiam.
Vendiam-se tecnologias que ainda não funcionavam.
Vendiam-se carreiras futuras.
Vendiam-se identidades possíveis.
Vendiam-se versões melhoradas de pessoas que odiavam suas versões presentes.
Vendia-se envelhecimento sem envelhecer.
Vendia-se juventude sem juventude.
Vendia-se amor sem encontro.
Vendia-se intimidade sem presença.
Vendia-se companhia sem corpo.
Vendia-se transcendência sem Deus.
E, principalmente, vendia-se sentido sem experiência.
O comprador assinava.
O inexistente valorizava.
A realidade cobrava.
O século XXI aperfeiçoara uma espécie particular de sofrimento: o sofrimento antecipado. Já não era necessário perder algo para sentir sua falta. Bastava imaginar a possibilidade da perda.
Não era necessário fracassar para sentir fracasso. Bastava observar alguém aparentemente bem-sucedido. Não era necessário estar sozinho. Bastava comparar a própria solidão com a felicidade editada dos outros.
A comparação tornou-se uma forma industrial de tortura.
Cada tela carregava milhares de pequenas vidas aparentemente completas. Nenhuma delas parecia sofrer adequadamente.
O sofrimento, quando aparecia, precisava ser estético. A tristeza devia possuir boa iluminação. A crise precisava gerar aprendizado. O luto deveria ensinar alguma coisa. A derrota precisava produzir uma narrativa de superação.
Não era permitido sofrer gratuitamente.
Até a dor precisava entregar produtividade.
Havia algo profundamente cruel nisso. Não a crueldade antiga, aquela que necessitava de violência explícita, mas uma crueldade limpa, asséptica, quase educada. Uma crueldade sorridente. Uma crueldade que oferecia ajuda enquanto perguntava se a pessoa havia considerado transformar sua fragilidade em oportunidade.
O sofrimento tornou-se empreendedor.
A angústia abriu uma conta.
A solidão ganhou seguidores.
O vazio foi monetizado.
E quanto mais o indivíduo percebia sua própria inutilidade, mais desesperadamente tentava parecer indispensável.
Era um paradoxo perfeito.
A civilização havia produzido instrumentos capazes de conectar bilhões de pessoas e, simultaneamente, fabricado uma solidão de escala planetária. Nunca houvera tanta comunicação e talvez nunca houvesse tão pouco diálogo. As palavras circulavam com velocidade absoluta e chegavam aos lugares onde não eram necessárias. A linguagem perdera o corpo. As frases eram lançadas como objetos descartáveis.
Falar não significava mais dizer.
Dizer não significava mais pensar.
Pensar não significava mais interromper.
E interromper era perigoso.
O sistema não temia exatamente a discordância. Discordâncias podem ser incorporadas. O sistema temia a interrupção.
Uma pessoa que simplesmente deixa de produzir, de consumir, de responder, de justificar-se, de competir, de publicar, de desejar aquilo que lhe foi apresentado como desejável começa a cometer uma espécie de heresia econômica.
O silêncio, então, tornou-se suspeito.
Quem não responde parece hostil.
Quem não participa parece estranho.
Quem não compete parece fracassado.
Quem não se vende parece inexistente.
E foi assim que o inexistente passou a valer mais do que o existente: porque aquilo que existe pode ser medido, mas aquilo que ainda não existe pode ser infinitamente prometido.
O mercado prefere promessas.
Promessas não têm custos imediatos.
O futuro é um território onde toda mentira pode parecer plausível.
Talvez a humanidade tenha se tornado especialista em hipotecar aquilo que ainda não viveu.
Hipotecou o futuro dos filhos.
Hipotecou o planeta.
Hipotecou o próprio corpo.
Hipotecou a atenção.
Hipotecou a capacidade de desejar.
A existência inteira foi transformada em crédito.
E cada pessoa recebeu uma dívida invisível: tornar-se aquilo que poderia ser.
Essa dívida era impossível de quitar.
Sempre haveria uma versão melhor.
Mais eficiente.
Mais bonita.
Mais inteligente.
Mais saudável.
Mais produtiva.
Mais interessante.
Mais jovem.
Mais velha, quando fosse necessário parecer experiente.
Mais espontânea.
Mais disciplinada.
Mais livre.
Mais livre, sobretudo.
A liberdade passou a ser uma performance tão cansativa que muitos preferiram ser comandados desde que pudessem escolher o comando.
Havia uma estranha nostalgia de obediência.
Não se dizia assim.
Chamava-se curadoria.
Chamava-se recomendação.
Chamava-se personalização.
Chamava-se conveniência.
Mas talvez fosse apenas uma forma sofisticada de abdicação.
A pessoa escolhia aquilo que já havia sido escolhido para ela e experimentava a sensação reconfortante de possuir autonomia.
Essa era uma das maiores invenções do século: oferecer liberdade em doses controladas.
Escolha entre milhares de opções.
Escolha entre centenas de produtos.
Escolha entre infinitas imagens.
Escolha sua identidade.
Escolha sua narrativa.
Escolha sua indignação.
Escolha seu medo.
Escolha seu inimigo.
Escolha sua opinião.
E, quando terminar de escolher, compre.
O indivíduo contemporâneo tornou-se um consumidor de possibilidades.
Não vivia.
Selecionava.
Não experimentava.
Filtrava.
Não conhecia.
Comparava.
Não amava.
Avaliava.
Talvez o amor tenha sido uma das últimas coisas a resistir ao cálculo, mas até ele começou a apresentar indicadores. Compatibilidade. Interesse. Disponibilidade. Preferências. Distância. Probabilidade. Engajamento. Reciprocidade.
O encontro tornou-se estatística.
O beijo tornou-se confirmação.
A ausência tornou-se sinal.
A espera tornou-se ansiedade.
O desejo tornou-se algoritmo.
E, pouco a pouco, até o inesperado começou a parecer uma falha do sistema.
O acaso incomodava porque não possuía previsão de retorno.
Era necessário prever.
Prever para investir.
Prever para controlar.
Prever para evitar sofrimento.
Mas uma existência sem risco é apenas uma existência previamente amputada.
Talvez fosse isso que ninguém queria admitir.
A segurança absoluta não elimina a morte.
Apenas transforma a vida em uma sala de espera.
E todos esperavam.
Esperavam o próximo lançamento.
A próxima promoção.
O próximo reconhecimento.
A próxima atualização.
A próxima mensagem.
A próxima oportunidade.
O próximo relacionamento.
A próxima versão de si mesmos.
Esperavam tanto que o presente começou a parecer um erro de sistema.
O presente não tinha valor porque não prometia nada.
Era apenas aquilo que estava acontecendo.
E aquilo que estava acontecendo era insuficiente.
Sempre insuficiente.
O século XXI transformou a insuficiência em método.
Nunca basta.
Nunca chega.
Nunca é agora.
Sempre depois.
Depois do curso.
Depois do emprego.
Depois do dinheiro.
Depois da promoção.
Depois da viagem.
Depois da aposentadoria.
Depois da mudança.
Depois da cura.
Depois da próxima versão.
Depois.
A palavra mais lucrativa da história talvez seja “depois”.
Porque depois permite continuar comprando.
O futuro é o grande vendedor de uma mercadoria chamada esperança.
Mas esperança, quando industrializada, torna-se uma forma de adiamento.
O indivíduo contemporâneo não precisava acreditar que sua vida tinha sentido. Bastava acreditar que poderia ter.
Era suficiente.
A possibilidade tornou-se anestésico.
E talvez seja por isso que o inexistente valesse tanto.
Porque o inexistente não decepciona.
Aquilo que nunca aconteceu permanece perfeito.
Um amor que nunca começou não fracassou.
Uma carreira que nunca existiu não deu errado.
Uma cidade imaginária não possui trânsito.
Uma sociedade futura não possui desigualdade.
Uma revolução que nunca aconteceu permanece pura.
Uma pessoa que nunca se conheceu pode ser amada sem contradizer a fantasia.
A ausência é impecável porque não possui testemunhas.
E então se percebe a tragédia: talvez a humanidade não esteja apaixonada pelo futuro, mas pela impossibilidade de verificar suas promessas.
O inexistente tornou-se o último território onde a fantasia ainda consegue vencer a realidade.
Por isso recebe preço.
Por isso recebe investimento.
Por isso recebe propaganda.
Por isso recebe discursos.
Por isso recebe planos.
Por isso recebe conferências, relatórios, projetos, metas, plataformas, aplicativos, discursos motivacionais e toda uma indústria especializada em transformar o vazio em expectativa.
A indústria do futuro vende futuros.
Mas nenhum futuro chega como foi vendido.
Ele chega deformado pela realidade.
Chega envelhecido.
Chega tarde.
Chega com contas.
Chega com perdas.
Chega com corpos que já não são os mesmos.
Chega quando algumas pessoas que deveriam testemunhá-lo já morreram.
Chega, às vezes, e não encontra ninguém esperando.
Porque esperar pelo futuro é uma forma estranha de esquecer que o futuro, quando chega, chama-se presente.
E o presente é aquilo que mais desprezamos.
Talvez porque seja pobre em promessa.
O presente não pode ser editado.
Não oferece filtro.
Não permite voltar.
Não permite salvar outra versão.
Não aceita desfazer.
Ele simplesmente acontece.
E acontecer é uma violência contra o desejo de controle.
A existência sempre foi uma espécie de acidente.
Ninguém escolheu nascer.
Ninguém escolheu a primeira língua.
Ninguém escolheu o rosto inicial.
Ninguém escolheu o tempo histórico.
Ninguém escolheu o corpo que receberia.
Ninguém escolheu as perdas.
Depois, porém, ensinaram que tudo dependia de escolha.
A responsabilidade tornou-se uma religião.
Se deu errado, escolha melhor.
Se está pobre, escolha melhor.
Se está triste, escolha melhor.
Se fracassou, escolha melhor.
Se envelheceu, escolha melhor.
Se não conseguiu, tente outra estratégia.
A culpa foi individualizada até desaparecer a sociedade.
Tudo passou a parecer uma questão de desempenho pessoal.
O sistema podia permanecer invisível enquanto o indivíduo carregava sozinho a culpa por não ter conseguido vencer um jogo cujas regras jamais foram apresentadas de maneira igual.
Era uma crueldade elegante.
Não dizia “você é culpado”.
Dizia apenas:
“Você poderia ter feito mais.”
Essa frase bastava.
Ela entrava no corpo.
Dormia junto.
Acordava primeiro.
O indivíduo tornava-se fiscal de si mesmo.
Punidor.
Supervisor.
Chefe.
Cliente.
Produto.
Funcionário.
Mercadoria.
Tudo ao mesmo tempo.
Uma pequena empresa ambulante chamada eu.
E talvez esse seja o verdadeiro triunfo da sociedade de desempenho: transformar cada pessoa em seu próprio carcereiro e depois convencê-la de que a cela é autonomia.
Não havia mais necessidade de vigias.
Bastava a consciência.
Uma consciência saturada de metas, comparações, notificações e medo.
O medo era indispensável.
Medo de perder.
Medo de ficar para trás.
Medo de não ser suficiente.
Medo de envelhecer.
Medo de desaparecer.
Medo de não ser visto.
Medo de ser visto demais.
Medo de estar errado.
Medo de não ter opinião.
Medo de possuir a opinião errada.
Medo de não produzir.
Medo de produzir pouco.
Medo de produzir demais.
Medo de parar.
O medo tornou-se uma infraestrutura.
E uma infraestrutura eficiente não precisa ser percebida.
Ela apenas sustenta o funcionamento.
O medo sustentava.
Sustentava relações.
Empresas.
Instituições.
Governos.
Famílias.
Ambições.
Sonhos.
Até a esperança precisava de medo para continuar funcionando.
O medo de perder alimentava o desejo de possuir.
O medo de morrer alimentava o mercado da juventude.
O medo de adoecer alimentava a indústria da prevenção.
O medo de ficar sozinho alimentava plataformas de relacionamento.
O medo de fracassar alimentava cursos.
O medo de não saber alimentava especialistas.
O medo de não existir alimentava redes sociais.
E assim a humanidade descobriu que seu maior recurso econômico não era o petróleo, nem a informação, nem o dinheiro.
Era a insegurança.
A insegurança era renovável.
Cada resposta produzia uma nova pergunta.
Cada conquista produzia um novo padrão.
Cada padrão produzia uma nova inadequação.
Cada inadequação produzia um novo consumo.
O ciclo era perfeito.
E enquanto o indivíduo comprava soluções para problemas que ainda não possuía, o inexistente continuava valorizando.
Havia ações de empresas que negociavam expectativas.
Havia moedas sustentadas por confiança.
Havia mercados construídos sobre promessas.
Havia carreiras baseadas em competências que talvez nunca fossem utilizadas.
Havia tecnologias anunciadas antes de existirem.
Havia mundos virtuais esperando pessoas que ainda não tinham abandonado completamente o mundo real.
O inexistente não era mais ausência.
Era antecipação.
E antecipação era capital.
Talvez fosse por isso que ninguém soubesse exatamente onde terminava a realidade e começava a propaganda.
Tudo parecia anúncio de alguma coisa.
O céu anunciava calor.
O corpo anunciava desempenho.
A roupa anunciava personalidade.
O restaurante anunciava experiência.
A viagem anunciava felicidade.
A universidade anunciava futuro.
O trabalho anunciava sucesso.
A política anunciava mudança.
A religião anunciava salvação.
A tecnologia anunciava liberdade.
E a morte, silenciosa, anunciava a única coisa que nenhum mercado conseguira cancelar.
O fim.
Mas até a morte começou a ser administrada.
A morte foi digitalizada, arquivada, memorializada.
Perfis continuavam existindo depois das pessoas.
Imagens continuavam falando.
Mensagens permaneciam.
A pessoa morria, mas seus dados continuavam trabalhando.
Era uma espécie de pós-vida algorítmica.
Talvez o sonho mais perverso da civilização não fosse viver para sempre, mas continuar sendo útil depois de morto.
Um cadáver produtivo.
Uma memória monetizável.
Um rosto circulando.
Uma presença ausente.
Um inexistente com valor de mercado.
E então talvez fosse possível compreender a estranha economia do século XXI: quanto menos alguém existe como presença, mais pode existir como representação.
A presença é limitada.
A representação é infinita.
O corpo envelhece.
A imagem não.
A pessoa contradiz.
A marca não.
A memória falha.
O arquivo não.
A vida termina.
O perfil permanece.
Era uma vitória?
Talvez.
Mas uma vitória contra quem?
Contra a morte?
Contra o esquecimento?
Contra a própria condição humana?
Talvez não.
Talvez fosse apenas outra forma de adiamento.
Porque sobreviver como informação não significa continuar existindo.
Significa continuar circulando.
E circular não é viver.
Uma mercadoria também circula.
Uma moeda circula.
Um vírus circula.
Uma mentira circula.
Uma imagem circula.
Uma pessoa pode circular sem jamais estar em lugar algum.
Essa talvez fosse a grande doença metafísica do século: uma existência em circulação permanente, mas sem morada.
Tudo passa.
Nada permanece.
E justamente por isso tudo precisa ser registrado.
Fotografa-se porque se sabe que desaparecerá.
Publica-se porque se sabe que será esquecido.
Acumula-se porque se sabe que perderá.
Compra-se porque se sabe que morrerá.
Trabalha-se porque se sabe que não basta.
Ama-se com medo de perder.
Perde-se com medo de lembrar.
Lembra-se para não desaparecer.
E desaparece-se mesmo assim.
No fim, talvez o mercado não venda coisas.
Talvez venda pequenas defesas contra o nada.
E cada uma delas falha.
Porque o nada não precisa competir.
Ele espera.
Sem pressa.
Sem propaganda.
Sem preço.
O nada não precisa convencer ninguém.
É o único produto que todos receberão gratuitamente.
E talvez por isso seja tão assustador.
O inexistente possui valor porque ainda pode ser imaginado.
O nada absoluto não possui valor algum.
Não pode ser comprado.
Não pode ser vendido.
Não pode ser atualizado.
Não pode ser compartilhado.
Não pode ser curtido.
Não pode ser monetizado.
O nada simplesmente é a ausência de qualquer possibilidade de mercado.
Talvez seja por isso que a humanidade trabalhe tanto para não chegar até ele.
Produz.
Consome.
Comenta.
Publica.
Compra.
Vende.
Estuda.
Compete.
Corre.
Planeja.
Acumula.
Investe.
Promete.
E chama tudo isso de vida.
Talvez seja.
Talvez não.
A filosofia nunca conseguiu resolver completamente essa dúvida.
E talvez não devesse.
Porque uma resposta definitiva seria apenas mais um produto.
O século XXI não precisa de respostas.
Precisa de mais perguntas que não possam ser vendidas.
Perguntas sem utilidade.
Perguntas improdutivas.
Perguntas que não gerem certificados, resultados, seguidores, contratos ou oportunidades.
Perguntas capazes de interromper.
Porque talvez a verdadeira resistência comece quando alguém consegue permanecer diante de uma pergunta sem transformá-la imediatamente em solução.
Quem sou?
Por que existo?
O que desejo?
Quem colocou esse desejo em mim?
O que permanece quando ninguém olha?
O que sou quando não estou produzindo?
O que resta de mim quando desaparecem as avaliações?
Existe uma vida por trás daquilo que apresento?
Existe um eu antes da mercadoria?
Existe alguma coisa que não possa ser comprada?
Talvez sim.
Talvez não.
Mas procurar uma resposta já seria perigoso.
Porque a busca poderia devolver à existência aquilo que o mercado tentou retirar dela: sua inutilidade.
Talvez a vida não precise ter utilidade.
Talvez viver seja justamente aquilo que não serve para nada.
Um instante.
Uma conversa.
Um silêncio.
Um olhar que não produz registro.
Uma caminhada sem destino.
Uma tarde perdida.
Uma lembrança que não pode ser comercializada.
Uma tristeza sem legenda.
Uma alegria sem fotografia.
Um pensamento que ninguém lê.
Um gesto que não gera retorno.
Um amor que não pode ser contabilizado.
Uma ausência que não se transforma em conteúdo.
Talvez nesses restos miseráveis e magníficos sobreviva alguma coisa que ainda não tenha sido completamente colonizada.
Não seria liberdade.
Seria apenas uma falha.
Uma pequena falha humana.
Uma rachadura na máquina.
Um defeito de cálculo.
Um momento em que alguém não compra.
Não responde.
Não publica.
Não explica.
Não performa.
Não transforma.
Não otimiza.
Apenas permanece.
E permanecer, naquele mundo, seria quase um ato revolucionário.
Porque tudo exigia movimento.
Tudo precisava circular.
Tudo precisava crescer.
Tudo precisava produzir.
Permanecer era improdutivo.
O silêncio não tinha valor de mercado.
A contemplação não gerava dividendos.
A dúvida não entregava resultados.
A fragilidade não apresentava desempenho.
A morte não aceitava negociação.
E talvez fosse justamente por isso que ainda houvesse alguma esperança.
Não a esperança vendida.
Não a esperança parcelada.
Não a esperança publicitária.
Mas aquela espécie arcaica, quase inútil, que nasce quando o ser humano percebe que não controla nada e, mesmo assim, decide continuar olhando.
Olhar sem possuir.
Amar sem garantir.
Viver sem promessa.
Existir sem cotação.
Talvez fosse pouco.
Era quase nada.
Mas o quase nada ainda era alguma coisa.
E foi nesse quase nada que o inexistente perdeu, por um instante, seu valor.
Não porque tivesse deixado de ser desejado.
Mas porque alguém finalmente compreendera que nem tudo aquilo que não existe precisa existir.
Algumas coisas podem permanecer impossíveis.
Algumas perguntas podem permanecer abertas.
Alguns sonhos podem morrer sem terem fracassado.
Alguns desejos podem não ser realizados.
Algumas vidas podem não alcançar aquilo que prometeram.
E isso não significa necessariamente derrota.
Talvez seja apenas a condição humana.
Uma condição absurda, incompleta, contraditória, envelhecida desde o nascimento e condenada a atribuir significado ao que sabe que desaparecerá.
Talvez o ser humano seja justamente isso: uma criatura que sabe que vai morrer e, mesmo assim, inventa futuros.
Não porque acredita verdadeiramente neles.
Mas porque precisa continuar.
E continuar não é vencer.
Continuar é apenas adiar o silêncio.
O mercado chama isso de crescimento.
A filosofia talvez chame de existência.
A morte não chama de nada.
No fim, todas as cotações desaparecem.
As empresas fecham.
Os aplicativos envelhecem.
As moedas mudam.
As plataformas desaparecem.
Os nomes perdem relevância.
As imagens ficam ilegíveis.
Os arquivos corrompem.
As memórias se dissolvem.
Os monumentos racham.
As cidades mudam de dono.
Os livros acumulam poeira.
As ideias perdem seus intérpretes.
As promessas vencem.
Os futuros deixam de ser futuros.
E aquilo que um dia parecia impossível de perder se torna simplesmente aquilo que foi perdido.
Então talvez reste apenas o inexistente.
Não como mercadoria.
Não como investimento.
Não como promessa.
Mas como silêncio.
Um silêncio sem preço.
Sem audiência.
Sem algoritmo.
Sem comprador.
Sem vendedor.
Um silêncio que não precisa provar sua existência.
E talvez, diante dele, pela primeira vez em muito tempo, ninguém precise ser alguma coisa.
Nem vencedor.
Nem fracassado.
Nem produtivo.
Nem interessante.
Nem necessário.
Nem lembrado.
Nem visto.
Apenas aquilo que resta quando todas as versões foram retiradas.
Nada grandioso.
Nada heroico.
Nada vendável.
Apenas um corpo cansado diante do mundo.
Um pensamento sem utilidade.
Uma consciência sem mercado.
Uma existência sem garantia.
E, no interior dessa pobreza absoluta, talvez ainda exista alguma coisa que não possa ser precificada.
Não uma verdade.
Não uma salvação.
Não um sentido.
Talvez apenas a possibilidade de não transformar tudo em mercadoria.
Talvez seja pouco.
Mas o século XXI construiu um mundo tão faminto por valor que até o pouco se tornou precioso.
E então compreendemos a última ironia: o maior luxo de uma civilização que conseguiu atribuir preço ao inexistente talvez seja aquilo que não pode ser vendido.
Um instante que não serve para nada.
Um silêncio que não produz nada.
Uma vida que não precisa justificar-se.
E, por alguns segundos, enquanto o mundo continua funcionando, alguém permanece imóvel.
Não compra.
Não vende.
Não promete.
Não espera.
Não existe para o mercado.
E justamente por isso, pela primeira vez, talvez exista.
Não como produto.
Não como perfil.
Não como projeto.
Não como futuro.
Mas como presença.
Breve.
Imperfeita.
Inútil.
Mortal.
E completamente impossível de precificar.
Clayton Alexandre Zocarato
- Valor de mercado inexistente - 21 de agosto de 2026
- Habitar a rachadura - 14 de agosto de 2026
- Avaliação imobiliária do indizível - 7 de agosto de 2026
Naural de São Paulo, Capital, na área acadêmica possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista Unicep – São Carlos (SP), graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – Ceuclar – Campus de São José do Rio Preto (SP), Técnico em Comércio Exterior pela Faculdades Eficaz – Coronel Fabriciano (MG) e Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário Argentina. Na área social é analista político. E, na área literária, poeta, contista, compositor, ensaísta, crítico social e literário e Analista Político.


